sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Como fazer com que Portugal fique mais rico? III– O empreendedorismo e os clusters de Porter

O empreendedorismo já não pode ser apenas aquela determinação quase mítica desafiando o risco, do empresário isolado, e tem de ser um esforço apoiado e orientado, que necessita da coordenação de 3 factores decisivos:
- O sector privado, não apenas com os empreendedores e as suas empresas, mas também com os bancos
- A universidade, não apenas para a formação, mas também para a pesquisa
- O apoio do sector estatal, como factor facilitador, de incentivo e de estímulo, em diálogo com as empresas.

Embora já com quase 10 anos [é de 1998], há um texto, publicado na Harvard Business Review que deveria ser de leitura obrigatória em Portugal: chama-se Clusters and the New Economics of Competition de Michael Porter. [Ver todo o artigo por exemplo em http://polaris.umuc.edu/~fbetz/references/Porter.html]

Em resumo, o que o texto diz é que o melhor ambiente possível para se criar uma empresa com capacidade competitiva na economia global é dentro de um “cluster”, que é definido como:
“Uma concentração geográfica (sublinhado nosso) de empresas e instituições interligadas e incluídas na mesma área económica. Incluem por exemplo fornecedores especializados de componentes, de maquinaria, de serviços e de infraestruturas específicas (...). Muitos clusters incluem instituições como universidades, laboratórios, agências de formação, de comunicação, de pesquisa de mercado, associações empresariais (...).” E dá o exemplo do cluster do vinho na Califórnia. Ver figura.

E é claro que não é necessário ter uma grande imaginação para se perceber em quais sectores poderemos criar clusters com empresas de alto valor acrescentado para a economia do país. Basta pensar nas empresas e nos sectores onde já somos competitivos e aí, onde já somos bons, e tendo por base e a liderar essas empresas, criar e desenvolver clusters. É só investirmos nos nossos factores críticos de sucesso!

Acho que uma das melhores formas de potenciar a “clusterização” séria da nossa economia, era optarmos pela regionalização política do país. Seria um passo decisivo para criarmos empresas mais competitivas e capazes de gerar mais riqueza.

Diz Porter:
“Paradoxalmente, vantagens competitivas consistentes na economia global residem em coisas locais (sublinhado nosso) – conhecimento, relações e motivação que rivais distantes não conseguem mimetizar.”
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[Esta é apenas uma opinião que vale o que vale. Também aqui importa salientar que nem todos concordam. Ver por exemplo
http://bastiatblog.blogspot.com/2007/10/around-world-clusters-arent-working.html ]

sábado, 24 de novembro de 2007

Como fazer com que Portugal fique mais rico? II – A inovação

Para Portugal enriquecer mais depressa e não se deixar atrasar no comboio europeu, precisa de produzir produtos de maior valor. Para isso acontecer, é preciso adquirir a capacidade de produzir produtos inovadores.

Quando pensamos em Inovação, geralmente tendemos a pensar em novos produtos, em Ciência e Tecnologia, em introdução de benefícios intrínsecos ao produto ou qualquer alteração complexa aos métodos de fabrico. Mas, a Inovação é um processo que pode apresentar muitas outras formas, tais como:
- Um produto antigo num novo canal (ex: compras via Internet)
- Uma nova aplicação de um velho produto (ex: aspirina para o coração)
- O “2 em 1” (ex: telemóvel mais máquina fotográfica)
- Fabrico mais económico que faça descer significativamente o preço, mas aumentar o valor do total facturado, devido ao aumento da quantidade vendida (ex: fabrico na China), etc.

Inovar consiste em detectar novas oportunidades de um determinado mercado e em coordenar a aplicação dos recursos necessários para efectuar esse aproveitamento, coisa que só um “empreendedor” consegue fazer. O empreendedor pode não ser o dono da empresa. Pode ser um gestor profissional. O que ele tem de ser capaz [para ser empreendedor] é de efectuar mudanças que adicionem valor e evitem a estagnação. A inovação não existe sem o empreendedor.

O grande teórico da Inovação e do Empreendedorismo foi Joseph Schumpeter, o economista mais influente do século vinte depois de Keynes [por exemplo atribui-se ao programa de Inovação da União Europeia, designado por Estratégia de Lisboa, aprovado em Lisboa em 2000, a grande influência das ideias de Schumpeter].

A própria inovação é hoje em dia global e competitiva. Na idade da informação e do conhecimento os países lutam entre si por terem os melhores cérebros e as melhores empresas. A emergência das economias dos países asiáticos como a China e a Ìndia ou a Rússia e o Brasil [BRIC], é demonstrativo da volatilidade do conceito de centro e periferia e do que poderá vir a ser no futuro a economia globalizada.

Portugal é mais um entre muitos países que pretende mais e melhor empreendedorismo! Como consegui-lo?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Como fazer com que Portugal fique mais rico? I – A criação de valor

[Estas coisas dos blogues têm piada. Podemos escrever os maiores disparates ou as coisas mais acertadas e ninguém dá muita importância ao facto. Acho que o direito ao disparate e à indiferença está inscrito na carta dos inalienáveis direitos do homem. Portanto aqui vão os textos que se seguem. Disparate ou não, cabe a cada um avaliar. É apenas uma opinião.]

O que faz com que uns países sejam mais bem sucedidos do que outros foi o primeiro problema da ciência económica em finais do século dezoito: de facto, o livro que fundou a ciência económica chamava-se “Um Inquérito à Natureza e Causas da Riqueza das Nações”, foi escrito por Adam Smith, o “pai da economia”, e foi publicado em 1776.

Segundo Adam Smith a “Riqueza das Nações” dependia da capacidade das mesmas em gerar “valor”. O “valor” de qualquer objecto para Adam Smith é determinado por aquilo com que se pode trocar esse objecto: por exemplo o ar não teria "valor" porque não poderia ser trocado por nada, enquanto que um diamante teria grande "valor" de troca, porque poderia ser trocado por muitos outros bens.

Repetimos então a pergunta de Smith: o que fazia com que as Nações produzissem maior valor (de troca)? E ele chegou a uma conclusão. Era a divisão do trabalho. Ele dá o exemplo dos alfinetes: um trabalhador poderia fazer sózinho apenas 20 alfinetes por dia, mas se 10 pessoas dividissem o trabalho em 18 passos para fazer alfinetes, eles conseguiriam fazer 48 mil alfinetes em apenas um dia. Assim, uma nação com maior capacidade de dividir e organizar o trabalho, seria mais rica [Karl Marx por exemplo, também era de opinião que o valor era criado pela incorporação do trabalho humano no produto].

Hoje em dia a explicação para a criação do valor já não se encontra na produção do objecto em si, pelo contrário, a produção é tendencialmente deslocada para os países com menores capacidades de incorporar valor. O valor está agora principalmente em áreas como a investigação, a distribuição e o marketing. As economias desenvolvidas terciarizaram-se* há muito tempo porque os investidores perceberam que era aí que se gerava mais valor**.

A produção de bens que as economias desenvolvidas ainda realizam são cada vez mais [além da produção primária de proximidade e da produção “estratégica”], apenas de produtos que exigem elevada incorporação tecnológica ou mais complexa organização fabril, mas mesmo essas produções têm vindo gradualmente a ser deslocadas para as economias de periferia, por isso já se diz que “o mundo está a ficar plano”. Isso vai ficar para o próximo artigo sobre este tema.

Economês básico:
* Sectores da Actividade Económica:
São 3 os sectores - o Terciário são os serviços, o Secundário a Indústria e o Primário a Agricultura, Pescas e Extractivas.
** Sobre o valor:
Simplificando, o valor que uma empresa gera é a diferença entre os seus custos [do que compra] e os seus proveitos [do que vende]. Esse valor, que a empresa adiciona ao que compra também se chama valor acrescentado e serve entre outras coisas para pagar salários, investir e para formar os lucros da empresa – se a empresa der lucros.
A soma de todos os valores acrescentados de todas as empresas é o PIB, o chamado Produto Interno Bruto, que corresponde à riqueza gerada no país. Um dos mais importantes indicadores do crescimento da riqueza é o crescimento do PIB [mas só a preços constantes, isto é, não contando com a inflacção].

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Memorabília: Ó Pastor Que Choras de Fausto


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É o primeiro Single 45 de Fausto, da Philips. Creio que em 1970, quando ele ainda estudava na Faculdade. Cresceu em Angola e sentia-se influenciado pelos ritmos africanos [quem não é?]. Dá uma entrevista à revista Flama e lembro-me que se mostra admirador de Simon & Garfunkel. O saudoso e fantástico Página Um de José Manuel Nunes e da sua equipa da Renascença, passa o “Ó Pastor Que Choras” e “África”. Desde esse momento Fausto foi um sucesso. Porque não são reeditadas estas grandes canções ?


Música: Fausto
Letra: José Gomes Ferreira

Ó pastor que choras
o teu rebanho onde está?
Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há
uns de finos modos
outros vis por desprazer...
Mas carneiros todos
com carne de obedecer.
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.
Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto,
as papoilas dos trigais.

sábado, 17 de novembro de 2007

António Feijó III - Sonho e Amor



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A CIDADE DO SONHO

Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva á Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de estio,
Sob o intenso clamor dos ralos* a cantar.

Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Promettida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol**;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras***,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A propria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...

* Insecto tipo grilo
** Cor de fogo das nuvens no nascer e no pôr do sol
*** Relvado


EU E TU...

Dois! Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,– em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva,
– O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva
– Cheio de ti, meu ser d'eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
– Nós dois, d'amor enchendo a noite do degredo,

Como parte dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...
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Esclarecimento: não sou um erudito, um académico ou estudioso destas coisas da literatura, e por isso não me sinto com conhecimentos suficientes para avaliar a obra de nenhum escritor, seja em prosa ou em poesia. A poesia em particular, consumo-a como a um vinho: gosto ou não gosto, ponto final. A poesia de António Feijó espantou-me pela positiva, e no entanto, é tão pouco divulgada. Consultei várias colectâneas de poesia portuguesa e é pouco frequente aparecerem poesias de António Feijó com honrosas excepções como é o caso da Antologia de Vasco Graça Moura, "366 poemas que falam de amor", ed. Quetzal [uma antologia deveras afrodisíaca e uma grande prenda para a nossa cara metade]. Acho que o facto de não ser um especialista na matéria, não me retira o direito a uma opinião. Vale o que vale.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

António Feijó II – Jocoso e atrevido














Agostinho de Campos em “Falas sem fio” seleccionou os seguintes versos das Poesias Completas (ed. Bertrand) de António Feijó.


CONIMBRICA

“O amor dum estudante
Não dura mais de uma hora...”
Que o diga a pobre Violante,
Que toda a gente namora!

De olho aberto, nada esquivo,
E coração sem maldade,
Em cada ano lectivo
Namora uma Faculdade.

Pondo-se enfeites baratos
E xailes que dão nas vistas,
Começa pelos novatos
E acaba nos quintanistas.

Mas nos últimos cinco anos
Como saída não via
No amor aos cursos profanos
Atirou-se à Teologia.

E vendo-se abandonada
Dos seus sagrados desdoiros,
Embora contrariada,
Voltou-se para os caloiros.

Assim, ó pobre Violante,
Nem no altar te purificas,
Sempre de amante em amante
Vais acabar nos futricas*.


* Futricas eram os habitantes masculinos de Coimbra, mais modestos pois não pertenciam à elite estudantil, mas que com eles rivalizavam pelas moças (ver fotos de trajes de futricas e tricanas em http://www1.ci.uc.pt/cpessoal/grupfolk.htm ).

URBANA

É filha de um alfaiate
A melindrosa flor a quem eu hoje adoro!
- Faces vermelhas, cor de tomate
Cabelos de ouro!
Esta minha paixão principiou a arder
Por causa de um colete de ramagens...
Quem sabe onde o diabo as vai tecer,
Se mesmo num colete, além dos bolsos, há voragens?
Satisfeito e feliz quando ela mo provava,
Ousei-lhe declarar o meu amor por ela;
Foi tal a comoção, que o colete oscilava
E num suspiro arrebentava-lhe a fivela!
...Para que possa ir vê-la sem recato
Encomendo ao pai roupa: o amor é sempre caro
E eu vou talvez arruinar-me em fato!
Mas que prazer, ó meu amor, com que me exalças
Quando te vejo a debruar o meu capote!
Um teu sorriso vale bem dois pares de calças
E um casacão de cheviote.
Por isso não me importa o dinheiro perdido
Em picotilhos e em alpacas:
Como és tu quem pesponta o custoso tecido.
Só num inverno fiz quatro sobrecasacas!
A minha distinção todo o Chiado atordoa;
Já toda a gente o rei da moda me proclama,
E por chic arregaço as calças em Lisboa
Quando em Londres há lama!
E assim, ó minha loira entre as mais loiras,
Neste sonho mais belo que a demência,
Unidos como as hastes das tesoiras...
Vamos cortando a roupa da existência...

Nos versos de António Feijó, encontro muitas parecenças com o estilo do Eça.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

António Feijó I - Sol de Inverno

Quanto mais leio sobre António Feijó, mais admiro o homem e o poeta. Ainda pouco divulgado junto da opinião pública, António Feijó é natural de Ponte de Lima, desde há muito terra de poetas. Nasce em 1859 e morre em Estocolmo em 1917. Diz-se que morre de desgosto depois da morte de sua mulher de nacionalidade sueca. António Feijó estudou Direito e cedo decide ingressar na carreira diplomática, à semelhança de outras personalidades das nossas letras, como Wenceslau de Moraes e Eça de Queiroz [É preciso ganhar a vida!]. Exerceu cargos diplomáticos no Brasil e na Suécia, onde viria então a falecer relativamente novo.

Do seu livro mais famoso, Sol de Inverno, estes dois poemas:


MOIRO E CRISTÃ

O pobre moiro enamorou-se
D'Eli, moça cristã, sendo filho do Emir...
Tamanha dor sentiu, que o mísero exilou-se,
Como se alguém pudesse à propria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memória
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de glória,
Mas no esplendor de um céu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Eli nunca pôde esquecê-lo,
E nesse imenso amor, com presságios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lírio no gelo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em tão opostos céus,
Ele invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
E a cristã murmurou: «Alá! só tu és Deus!»


O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Leonardo Ferraz de Carvalho

Faleceu há cerca de 9 anos, chamava-se Leonardo Ferraz de Carvalho. Não sei o que fazia ou do que vivia. Nas poucas fotografias em que o vi parecia um aristocrata. Os seus textos sobre Economia revelavam auto-confiança e uma autoridade tranquila. Sabia do que falava. Comecei a lê-lo no jornal O Independente de Paulo Portas com crescente admiração e depois um dia ouvi dizer que nos tinha deixado.

Tinha um estilo anglo-saxónico: era simples, directo e sempre com espírito. Por isso, a sua crítica era tão demolidora. Reconheço que várias vezes comprei O Independente só para ler as suas crónicas. Dizia Leonardo Ferraz de Carvalho:

“Uma outra utopiazita seria fazer uma Fundação de Estudos Comparados. Uma coisa muito simples. Aparece um problema, uma coisa a resolver. Vamos ver como é que isso se resolveu em Espanha, em França, na Inglaterra, na Bélgica, na Holanda. Por um lado, para não estarmos a gastar tempo e dinheiro para descobrir a pólvora e, por outro, para não correr um risco, ainda muito pior, que é o de nem a pólvora descobrir.”

Claro que uma pessoa que assim falava em 1997, mexia com interesses e ideologias estabelecidas: ouve sempre a ideia de que as coisas que funcionam “lá fora” não são aplicáveis “cá dentro”. Foi uma desculpa durante muitos anos por exemplo para a falta de democracia em Portugal, pois afirmava-se que o “povo português não está preparado”. Ainda há dias ouvi repetir a mesma tese a propósito da “flexisegurança”. Seria boa na Dinamarca mas não em Portugal.

Ao reler hoje Leonardo Ferraz de Carvalho, constato a intemporalidade de muitas das suas ideias e continuo a aprender. Não resisto em incluir mais este seu pequeno exemplo:

“Em Inglaterra, como sabem, são tão atrasados que ainda não inventaram o reconhecimento notarial. Presume-se que os documentos estão correctamente assinados e são verdadeiros. Se não foram, se a assinatura for falsificada, se corresponder a actos ilegais, vai-se preso. So simple. E funciona. Depressa e barato.”
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É sempre um prazer recordar Leonardo Ferraz de Carvalho.

domingo, 11 de novembro de 2007

O concurso de televisão preferido dos portugueses

O concurso "O Preço Certo" é um líder incontestado de audiência, visto por muitos portugueses. Este sucesso não é exclusivo de Portugal: é, por exemplo, considerado também o concurso favorito dos americanos.
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O que distingue o concurso português é o simpático estilo de Fernando Mendes [a fazer recordar seu pai, o saudoso Vitor Mendes - está cada dia mais parecido com ele]. O nosso “gordo” é um fenómeno, e deve valer milhões para a RTP que ocupa aquele espaço antes do noticiário das 8h, de Segunda a Sábado.
Depois é o bairrismo e o regionalismo de quem lá vai concorrer, que traz os vinhos, os enchidos, os doces ou o artesanato da sua região. Acaba por ser um concurso bem português e é bem disposto, despretensioso e popular em todos os sentidos.
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Para mais informações sobre Fernando Mendes ver em http://www.fernandomendes.pt/

sábado, 10 de novembro de 2007

O que é que o Mateus Rosé tem?

Há uma revista inglesa de música chamada Word. É uma espécie de Uncut. Também traz um CD e também transpira nostalgia, mas é menos comercial e tem melhores textos. Mas claro que a Uncut é mais conhecida e vende mais: tem melhor apresentação. Na revista deste Novembro da Word para meu espanto estava lá uma foto de Jimi Hendrix a beber um Mateus Rosé.

No sítio da Sogrape conta-se que a Rainha Isabel II de Inglaterra tinha por hábito encomendar o vinho Mateus quando jantava no Hotel Savoy, que Gulbenkian insistia ter Mateus à mesa de jantar [conjuntamente com bonitas actrizes do vaudeville, vejam lá o malandro] e que numa cimeira dos movimentos de libertação independentistas na Nigéria, Amilcar Cabral, Agostinho Neto e Samora Machel terão brindado pela vitória dos seus movimentos com Mateus Rosé. Calcula-se que o vinho Mateus terá vendido mil e dez milhões de garrafas até hoje. Não acredito em falta de imaginação nem em tantas coincidências.
Amanhã, pela primeira vez na vida, juro que vou comprar uma garrafa...das pequenas. O que é que o Mateus tem?

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O Tratado de Tordesilhas revisitado

O provérbio que ontem falei de Sousa Martins fez-me ir pesquisar a fonte de uma leitura que me revelou a origem de uma outra expressão muito conhecida, e felizmente, no meio das minhas coisas lá encontrei o livro. É de Duarte Leite, chama-se Coisas de Vária História e foi editado em 1941 pela Seara Nova. Consiste num conjunto de textos publicados, quer na revista Seara Nova quer no jornal do Porto O Primeiro de Janeiro.

No texto O Tratado de Tordesilhas, é relatado o difícil processo de negociação entre o notável rei de Portugal D. João II e Castela, na altura governado pelos Reis Católicos. Duarte Leite classifica o tratado como um dos mais notáveis monumentos diplomáticos de todos os tempos e lendo a sua descrição compreende-se a dificuldade das negociações. Durante certos períodos interessou a Portugal apressar as coisas e a Castela esperar, mas em outras fases da negociação aconteceu o contrário. Uma dessas situações foi quando Castela enviou a Lisboa os emissários Garcia de Carvajal e Pedro de Ayala, com o objectivo não confesso de protelar as negociações. Um deles era coxo e o outro era cheio de palavreado vazio. O rei D. João II, percebendo a intenção dos Reis Católicos, recambiou-os de volta para Castela, dizendo com graça que os seus primos lhe tinham enviado uma delegação SEM PÉS NEM CABEÇA. Julgo que seja esta a origem desta expressão.

Depois da aprovação do tratado pelo Papa, o rei de França, Francisco I terá dito: “Le soleil luit pour moi comme pour les autres. Je voudrais bien voir la clause du testament d’Adam, qui m’exclut du partage du monde”. A vigência do tratado de Tordesilhas foi de 283 anos, até 1777, quando foi assinado o tratado de S. Ildefonso.

Nota importante: Continua a exposição conjunta da Torre do Tombo e do Parlamento, aberta ao público até Dezembro, que inclui original do Tratado de Tordesilhas.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sousa Martins, a homeopatia e o provérbio

Sousa Martins foi um dos maiores médicos portugueses: foi venerado pelos doentes até ao ponto de o adorarem como Santo e admirado pelos seus alunos e pelos seus pares. É um lugar comum elogiar Sousa Martins. O que talvez se conheça menos bem é a sua aversão à homeopatia.

Uma vez na sala de aula, deu Sousa Martins a seguinte definição da homeopatia:
- Os srs. não sabem ainda o processo pelo qual se prepara homeopaticamente o caldo de frango. É o seguinte: toma-se a quarta parte de um frango muito pequeno; pendura-se numa janela, ao sol, por forma que a sombra do frango se vá projectar na água de uma garrafa de litro. Um quarto de hora depois o litro de água é já um litro de caldo. E, se se quiser o caldo ainda mais forte, basta diluí-lo em mais água.

Conta-se também este episódio, que deu origem a um famoso provérbio:
Os pais de uma jovem muito histérica, vendo-a atacada certo dia de forte nevralgia, mandaram chamar Sousa Martins a toda a pressa, mas não conseguiram encontrá-lo.
Apelaram então para um clínico da vizinhança que por sinal era coxo (note-se bem!) mas, por infelicidade, também não estava em casa nem no consultório. Por fim, apareceu um médico homeopata, “pescado” na rua por um dos parentes da jovem.
Entrou o doutor, auscultou, franziu o sobrolho e diagnosticou uma pneumonia bastante grave.
Uma hora mais tarde apareceu então Sousa Martins e a mãe da doente contou-lhe, entre lágrimas, tudo quanto se passara: as dores horríveis da filha, a chamada inútil de Sousa Martins e do facultativo coxo, o aparecimento do médico homeopata, o terrível diagnóstico deste.
Sousa Martins ouviu, e em seguida examinou cuidadosamente a rapariga. A pobre mãe esperava, em ânsias. Logo que lhe foi possível interpelou:
- Então, que me diz, Doutor?
- Olhe, minha senhora: se chamaram primeiro o coxo e só conseguiram apanhar o homeopata, o que lhe digo é que MAIS DEPRESSA SE APANHA UM MENTIROSO QUE UM COXO. A sua filha não tem pneumonia nenhuma, e amanhã está curada.
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Fonte: o "In-Memoriam" em homenagem a Sousa Martins, de 1903.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A rádio começa a apoiar mais, a música portuguesa

Parabéns à Senhora Ministra e ao Ministério da Cultura, que não são alheios a esta evolução e parabéns às nossas rádios que estão a mudar e a passar mais música portuguesa, como é notório no caso da TSF. Quando uma rádio passa mais música portuguesa, o número dos seus ouvintes aumenta. Novos ou velhos, todos queremos ouvir mais música portuguesa. A música minha preferida do momento é o Encosta-te a Mim do Jorge Palma, que vai ser o meu CD de oferta no Natal:

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domingo, 4 de novembro de 2007

AIDGLOBAL: Solidariedade!

A AIDGLOBAL apresenta o espectáculo de solidariedade O FADO ACONTECE que decorrerá no dia 10 de Novembro, pelas 22h00, no Forum Lisboa. Celeste Rodrigues, Raquel Tavares, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira, Hélder Moutinho, Ricardo Ribeiro, Artur Batalha, Luís Pinheiro, Luís David. Mais informações em http://www.aidglobal.org/






sábado, 3 de novembro de 2007

Como os outros nos vêem


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.Sempre tivemos uma estranha fobia relativamente aquilo que de negativo se diz de nós “lá fora”. Reagimos sempre com o orgulho ferido e como se não tivessemos confiança nas nossas próprias capacidades, quando numa boa parte dos casos, as visões críticas sobre o nosso país no estrangeiro, assentam em preconceitos estúpidos e sem qualquer base real. A última crítica que me lembro de ter lido, foi num artigo do insuspeito Herald Tribune do New York Times, um dos grandes jornais do mundo [talvez o melhor jornal do mundo], intitulado “Portuguese resent EU as they take its helm”.
Coloca em causa a boa fé dos portugueses na adesão à União Europeia, quando Portugal não é mais nem menos europeísta que qualquer outra nação europeia. Mas, por exemplo, ainda anteontem o mesmo jornal publicava um grande elogio na sua secção de vinhos aos “Reds from the Douro”.
E também já perdi a conta aos elogios desse jornal ao Fado e em especial a Mariza. Por isso eu acho que não devemos levar estas coisas muito a sério, pois são pequenas pastilhas elásticas informativas que se esquecem com facilidade, e que quase sempre apenas reflectem uma opinião superficial, de quem as escreve, num dado momento.

Estas "análises" também dependem dos períodos da história. Em 1943 a Espanha era, após uma fraticida guerra civil, um indescritível país de miseráveis rurais, com cidades sujas, cheias de gente pobre. Os portugueses mais velhos ainda se lembram disso. Os outros Estados dessa Europa, estavam todos, menos a Suiça e a Suécia, em guerra feroz uns com os outros. Portugal e as suas colónias eram, exceptuando Timor, invadida pelo Japão - tem de se dizer apesar do detestável salazarismo, uns oásis de paz. Foi uma felicidade para Portugal não ter entrado nestes conflitos. Mérito de Oliveira Salazar também. Fui descobrir um texto publicado nesse ano de 1943 sobre “Como os outros nos vêem”, escrito com muito espírito por Agostinho de Campos, homem convidado por António Ferro e por Henrique Galvão a apresentar uma crónica semanal na então rádio estatal "Emissora Nacional". As crónicas foram depois revistas e editadas em livro pela Bertrand sob o título ”Falas sem fio”. Reproduzo parcialmente o texto [radiodifundido no original em Maio de 1938], que nos mostra também um pouco da época:

Boa ideia seria talvez instituirmos um prémio rechonchudo ao melhor livro de autor estrangeiro sobre Portugal, mas a um livro que fosse de nós retrato bastante parecido, sem que nele se falasse, nem no Fado, nem na Saudade, nem na grande falta de senhoras portuguesas nos “cafés”.
Com estes três elementos já batidos e safados – Saudade, Fado e “Cafés” sem senhoras – qualquer estrangeiro observador de costumes faz perfeitamente um livro de trezentas ou quatrocentas páginas sobre Portugal, sem se dar sequer ao trabalho de cá pôr os pés. Com isto e com uma estampa da Torre de Belém e outra dos pescadores da Nazaré com camisolas e calças bem quadriculadas, fica logo feito um livro completo sobre Portugal – e o resto são franjas.
Desta maneira já se sabe, antes de abrir qualquer livro estrangeiro acerca do nosso País, o que nós somos. Levantamo-nos da cama cheios de saudades e começamos logo a cantar o fado. Depois vestimo-nos e saímos, tendo o prévio cuidado de fechar as nossas mulheres em casa, a sete chaves, porque elas querem ir, mal acordam, todas para os “cafés”, e nós, os homens, não damos licença.
Não damos licença porque somos moiros. O fado é moiro, porque é fatalista, como o seu próprio nome indica, e os moiros são fatalistas. A saudade também deve ser moira, porque os moiros estão ali em baixo no Norte de África, cheios de saudades de Portugal, donde nós os corremos de todo, vai em sete séculos. E é moiro também este costume de esconder as mulheres, ou com véus na cara, ou fechadas em pátios sem janelas para os lados de fora. Nós usamos janelas viradas para a rua, mas como é sabido, remediamos isto sem dificuldade.
Não tendo nada que fazer senão cantar o fado com acompanhamento de saudades, ao sair de casa, ficamos em baixo, na rua, a olhar para as janelas. Se alguma das nossas mulheres deita o nariz de fora, bumba! Ferramos-lhe logo um tiro, para a ensinar.
O fatalismo moiro pegou-se-nos pelo sangue, e não nos deixa fazer nada, senão ter saudades, cantar o fado e fechar as mulheres em casa. Os estrangeiros que escrevem sobre Portugal sabem isto muito bem, porque (...) analisaram o nosso sangue ao microscópio e descobriram nele a seguinte composição, perfeitamente determinada:
Alá .............................. 10%
Saudade ..................... 25%
Fado ............................ 25%
Cafés sem mulheres .. 25%
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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Terramoto de 1755 - Parte III - Cidade das Luzes

O traçado da nova cidade, deveu-se principalmente a dois arquitectos, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, homens modernos que dotaram a cidade de uma lógica diferente da cidade antiga: ruas largas e arejadas, ao invés das vielas estreitas e sujas, facilitando a circulação e o transporte, e funcionando como barreira à propagação de incêndios; foi estudado e aplicado um tipo de construção anti-sísmica (diz-se que terá sido a primeira do mundo), designado por “gaiolas”, que consisistia no reforço das paredes com uma estrutura em madeira; ruas longas em linha recta, indo confluir a Norte ao Rossio e à Praça Nova (Praça da Figueira, hoje) e a Sul ao Terreiro do Paço, que passou a ser designado como Praça do Comércio; toda a actividade comercial ficou ligada com a Praça do Comércio e com a zona portuária; impediram-se novas construções em cima do rio, em particular nas zonas mais atingidas pelo tsunami, ficando uma zona tampão sem casas entre o rio e as primeiras fileiras de casas; bastante menos igrejas -propunha-se passar de 40 para 8; edifícos integrados em quarteirões rectangulares, com esgotos.
A cidade passava a ser mais higiénica e mais segura, mais funcional e mais eficiente.

O Clero opôs-se, como seria previsível e Eugénio dos Santos faleceu prematuramente, mas Carlos Mardel prosseguiu a obra. Com o forte apoio de Pombal, Lisboa foi sendo reerguida das cinzas.

O rei, D. José I, ficou traumatizado com toda esta tragédia de Lisboa. Com receio de um novo terramoto, foi viver para a chamada “Real Barraca da Ajuda”, um conjunto luxuoso de tendas no Alto da Ajuda, onde se sentia a salvo de novos cataclismos. Não esteve à altura das circunstâncias, mas teve pelo menos a lucidez de entregar quase todos os seus poderes ao Marquês de Pombal.

Há quem defenda que Eugénio dos Santos e Carlos Mardel eram Maçons, e que à semelhança das grandes metrópoles maçónicas como Washington e Paris, procuraram desenhar uma “cidade sagrada”. Por isso há quem enfatize a simbologia maçónica existente na cidade, em particular na Baixa Pombalina. Não sabemos se o “Grande Arquitecto do Universo” terá tido alguma coisa a ver com isso, mas Lisboa ficou desde então fortemente marcada no seu desenho e projecto pelo Século das Luzes.