segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Monárquicos vs Republicanos II: o duelo de Afonso Costa.

Não há uma questão monárquica em Portugal com peso algum junto da opinião pública, mas hoje reconhece-se finalmente, que o rei D.Carlos era uma pessoa decente – embora politicamente inapto - e que não teria merecido o regicídio.
Os republicanos sempre tentaram apresentar o liberalismo como um período de exagerada corrupção e de má governação e os salazaristas fizeram o mesmo com o período da 1ª República. Isso faz-me aproximar dos velhos monárquicos e dos velhos republicanos com alguma simpatia, pelo que recuperei esta história contada por Alberto Bramão em Faulhas dum Lume Vivo:

Foi antes da queda da Monarquia, em 1908. Afonso Costa [líder do PRP – Partido Republicano, partido importante mas muito minoritário] estava fazendo um discurso violento na Camara dos Deputados, contra tudo que era monárquico (...) e tanto calor pôs na veemência das suas ideias e das suas palavras, que entrou pela agressão ofensiva da dignidade dos homens que formavam os Partidos da Monarquia.
O conde de Penha Garcia estava no seu lugar de deputado; levantou-se serenamente aproximou-se do orador e disse-lhe baixinho, sem alarde, de forma que só foi ouvido pelos que estavam ao pé do orador:
- Quem assim desconsidera a honra alheia, não pode prezar a honra própria.
Afonso Costa suspendeu o discurso para responder isto simplesmente:
- Logo falaremos.
E continuou a interrompida diatribe até prefazer a hora regulamentar de oratória, incluindo os quinze minutos de tolerância.
Terminado o discurso, Afonso Costa constituiu os seus padrinhos para tratarem do duelo.
Mas, aqui começou a inquietação nos arraiais políticos, principalmente quando o chefe republicano declarou que escolhia para o combate a espada francesa.
A escolha foi considerada um acto de extraordinária coragem da parte dum homem que em esgrima era um mero aprendiz e que sabia ser o conde de Penha Garcia campeão nessa arma.
O sobressalto foi geral, nos dois campos monárquico e republicano.
Se Afonso Costa fosse mortalmente ferido, os aguerridos grupos populares, que o consideravam o mais vigoroso propagandista da ideia republicana e o chefe indispensável para derrubar a Monarquia, haviam de propalar que ele tinha sido assassinado e daí era natural desencadear-se a revolução que todos sabiam preparada para a primeira oportunidade.
Os republicanos temiam a perda do seu vigoroso líder e os monarquistas temiam as consequências tumultuosas que desse facto resultariam sem dúvida.
Houve então sobressaltadas intervenções para reduzir ao mínimo a gravidade do duelo.
O conde de Penha Garcia, não só porque no seu elevado espírito havia a consciência do que podia resultar, mas também porque não era homem para rancores, resolveu fazer todo o possível para se limitar a ferir levemente o seu adversário, de forma a cumprir apenas a formalidade que a honra impunha, sem resultado grave.
Foi-lhe, porém, difícil a realização deste propósito, porque Afonso Costa atacava com violência desvairada, atirando-se contra o antagonista, de forma que só pela serena perícia de Penha Garcia é que foi possível evitar uma desgraça, tendo terminado a contenda com um pequeno ferimento no braço do caudilho revolucionário.
Este desfecho acalmou a grande tempestade política que já se estava formando.
Reconheceu-se o procedimento generoso do mestre de armas que não quis valer-se da sua superioridade sobre o aprendiz impetuoso. Este também não sofreu humilhação, porque procedeu com nobilitante coragem e altivez.
Ficou, portanto, adiada a revolução que pouco depois proclamou na Rotunda o regime republicano.
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Fotografia do duelo entre Afonso Costa e Penha Garcia, do fotógrafo Benoliel. De costas, Afonso Costa.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Monárquicos vs Republicanos I: os Vencidos da Vida.

Nunca compreendi como é que um período politicamente tão conturbado como o que corresponde ao Liberalismo e à Primeira República, mais ou menos 100 anos entre 1830 e 1930, produziu tantos poetas, escritores, pintores, etc. Dá a impressão que nunca houve na nossa terra tantos intelectuais de tão grande valor como neste período. Só na literatura, e sem querer ser exaustivo, é fácil lembrar:

AFONSO LOPES VIEIRA
ALEXANDRE HERCULANO
ALMEIDA GARRET
ANTERO DE QUENTAL
ANTÓNIO FEIJÓ
ANTÓNIO FELICIANO CASTILHO
ANTÓNIO NOBRE
AUGUSTO GIL
BULHÃO PATO
CAMILO CASTELO BRANCO
CAMILO PESSANHA
CESÁRIO VERDE
EÇA DE QUEIROZ
FERNANDO PESSOA
FIALHO DE ALMEIDA
FLORBELA ESPANCA
GOMES LEAL
GONÇALVES CRESPO
GUERRA JUNQUEIRO
JOÃO DE DEUS
JÚLIO DINIS
JÚLIO DANTAS
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
OLIVEIRA MARTINS
PINHEIRO CHAGAS
RAMALHO ORTIGÃO
RAUL BRANDÃO
TEIXEIRA DE PASCOAIS
TEÓFILO BRAGA
VENCESLAU DE MORAIS


Ao contrário daquilo que nos habituámos a ler, há quem tenha opiniões bem mais favoráveis deste período. O Conde de Sabugosa, do grupo dos Vencidos da Vida, em Neves de Antanho de 1918, escrevia que na sociedade dos últimos 60 anos havia “grandeza, intelectualidade, elegância, brilho, movimento, tudo o que seduz, e atrai e encanta, tudo o que causa la douceur de vivre.” E acrescentava que por exemplo, não tinha sido essa sociedade a criticada por Ramalho Ortigão nas Farpas, mas antes a “burguesia macaqueadora das raças velhas, de quem usurpara coroas e brazões (...)” a quem prégou “higiene a uma geração que a ignorava” ensinando “a ensaboar muitos corpos faltos de limpeza” e “pôs à moda ser lavado e alegre”. É pelo menos uma visão diferente da habitual, e ajuda a perceber o porquê de várias coisas. Discordo de Pulido Valente que classifica em o "Poder e o Povo", o Eça de Queiroz de "snob e reaccionário" e Ramalho Ortigão de "conservador". Porquê ? Será por serem apoiantes de D.Carlos e por não serem do PRP - Partido Republicano Português? Não acredito. O PRP era ainda um grupúsculo que quase não existia na sociedade portuguesa. A via para melhorar as coisas, parecia ser influenciar o regime por dentro. Foi o que tentaram fazer.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Recordar Victor Borge

Talvez o dinamarquês mais conhecido em todo o mundo, Victor Borge não foi um dos maiores cómicos de sempre, foi um dos maiores homens do espectáculo de sempre. Durante muito tempo foi o artista mais bem pago do mundo. Admirado e aplaudido por uma multidão de fãs, nunca deu um espectáculo em Portugal, onde poucos o conheciam.
Aproveitou-se do facto para comprar uma velha quinta em Odelouca [ao que parece chama-se Sítio Encantado, Quinta Quebrada], concelho de Silves, Algarve, que remodelou. Ele adorava a pacatez do local e a população e ia para ali descansar. Ninguém o incomodava.

Este notável ser humano faleceu há cerca de 7 anos a 23 de Dezembro de 2000 com mais de 90 anos e ainda a trabalhar. Recordamo-lo com saudade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Britain is a “Catholic country”


É a notícia mais surpreendente deste tempo de Natal, a que acaba de sair no Sunday Telegraph, a edição de domingo do Daily Telegraph.
O país tido por mais fiel às suas tradições, o original wasp (white anglo saxon protestant) e anti-papista desde o tempo das seis mulheres do oitavo Henrique e confirmado pela maior monarca de Inglaterra, a grande Isabel I. Pois, ao que parece a “Igreja de Inglaterra”, mais conhecida entre nós por Anglicana, tem vindo a perder participantes das missas dominicais e fiéis, enquanto o inverso tem sucedido com a Igreja Católica. O próprio Tony Blair se converteu ao Catolicismo. Parece que os imigrantes católicos como polacos e de outras nacionalidades estarão também a contribuir para o aumento do número de fiéis católicos. O país virou e já se pode hoje dizer que é de maioria católica. Welcome to the Club.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Almocreve III: o início de "A Morgadinha dos Canaviais" de Júlio Dinis

Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por uma estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, se não ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.

O sítio naquele ponto, tinha o aspecto solitário, melancólico e, nessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoação importante, e com nome em carta corográfica, estendiam-se milhas de pouco transitáveis caminhos. Vestígios de existência humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas que mais entristeciam do que a absoluta solidão.

Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos.
Um, o mais moço e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação.

Contra o que seria plausível esperar deste desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fosse o cavaleiro.
A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o
termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.

Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.
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Em "A Morgadinha dos Canaviais" de Júlio Dinis
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Para mais informações sobre os almocreves, ver por exemplo o excelente http://homepages.oniduo.pt/gralheira/Livro/Titulos/tempos.htm , onde encontrei a imagem acima.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Almocreve II: canção "Almocreve" da Ronda dos Quatro Caminhos.

Almocreve ou almoqueire [do árabe almukari], o que trabalha com bestas ou as aluga.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O Almocreve I: sua importância nos transportes internos.

Profissão referenciável em Portugal desde o conde D. Henrique, citada em vários forais e que juntamente com o barqueiro, o caminheiro e o carreteiro, cada um na sua função, constituiam os elementos sociais especializados no transporte de mercadorias no interior do País, para a costa ou vice-versa. Essa especialização no transporte é que permite distinguir os almocreves dos mercadores, embora acumulassem muitas vezes o transporte com a venda de mercadorias que lhes pertenciam ou que para isso lhes tinham sido entregues.

Sem diminuir a importância dos outros, assentava nos almocreves pela sua importância e número, a coluna vertebral dos transportes internos. Cada cidade ou vila mais importante tinha o seu corpo de almocreves que dependia do almotacé [oficial do concelho que tinha a seu cargo fiscalizar o comércio local], que deveria providenciar no sentido de que a povoação não ficasse desprovida deles.

Viajavam quase sempre em grupo, com o que pretendiam diminuir os assaltos organizados. Eram numerosos. Lisboa tinha 150 almocreves no século dezasseis. Trás-os-Montes no final do século dezoito tinha 420 almocreves. Na estatística para a contribuição industrial de 1867, contaram-se 5.438.

Tinham vários privilégios, entre os quais o de puderem vender mercadorias por preços superiores aos taxados “por causa dos custos do seu trabalho”. Contudo, para evitar especulação e abusos os preços dos seus serviços e o volume das suas cargas eram estabelecidos por lei. Para efeito de pagamento de serviços dos almocreves, o ano era dividido em duas épocas: a primeira de Abril a Setembro e a segunda de Outubro a Março, tendo os fretes desta última um aumento de 25% sobre a anterior. Esta divisão do ano relaciona-se não só com o clima como com a data de realização da maioria das feiras, cujo sucesso só poderia ficar garantido com a existência de um número suficiente de almocreves.

O transporte de peixe e de sal da costa para o interior pertenceu-lhes quase na totalidade do século treze ao século dezanove, assim como o comércio por terra com Castela. Os centros principais de movimento desta rede nacional de transportes terrestres eram Melgaço, Chaves, Amarante, Ponte de Lima, Vila Real, Guarda, Pinhel, Trancoso, Viseu, Montemor-o-Velho, Castelo Branco, Santarém, Tomar, Setúbal, Estremoz, Moura, Évora e Loulé.


Extraído do Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Revolução na produção de electricidade com base na energia solar


Acabo de receber a notícia que saiu das linhas de produção da Nanosolar o seu primeiro painel solar, ao fim de 5 anos de pesquisa:
- Esta é a primeira célula solar em filme, o que lhe permite ser muito mais barata do que a célula solar tradicional.
- Espera-se ser possível produzir e vender painéis solares a preço tão baixo como $.99/Watt
Para Portugal em particular, que tem um território com um dos níveis mais elevados de exposição ao sol da Europa, este avanço na energia solar pode vir a constituir muito boas notícias. Embora já no final de 2007, é um dos produtos mais inovadores do ano que agora termina.

Ver Nanosolar Ships First Panels

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 3ª Parte

A terceira e última parte deste conto de Natal.
OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 3 de 3)
Por Frederico de Moura, incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.
Mas nem tudo, naquele ano, se passou como estava escrito nas rúbricas do Auto...
Na verdade, na varanda do seu palácio de estafe, Laúdo, o façanhudo Herodes, de mãos atrás das costas, passeava, de um lado para o outro, exteriorizando uma sanha rábica, que transbordava para fora do texto e da ordenança da encenação. Os Magos não lhe traziam, como era da promessa, notícias daquele Menino que a sua tirania queria degolar para extinguir a chamazinha de justiça e liberdade que nascia para os escravos, para os pobres e para os tristes.



De vez em quando, numa agitação espasmódica, subia os três degraus do estrado para se sentar no seu trono de papelão, onde se chegavam reverentes dois servos, um com um cântaro de meio almude, outro com uma taça de lata numa bandeja, para refrescarem a secura do seu real amo. E tantas foram as vezes que a sede do Laúdo esgotou a taça, já tinta de roxo até ao pé, que os efeitos do vinho se começaram a produzir e a revelar. O semblante entrou de avinagrar-se-lhe e de endurecer, e a sua agitação a mostrar-se com evidência de mais para ser fingida. A miúde, parava no meio do tablado e desembainhava palmo e meio de catana da sua baínha de lata. 

Depois, tornava a embainhá-la e carregava, ainda mais, o sobrolho em viseira, pronunciando palavras inintelegíveis. E, a certa altura, ouviu-se mesmo, com nitidez e contra a letra da peça, sair-lhe da boca avinhada uma frase que fazia dissonância:
- Do filho do meu pai nunca ninguém fez pouco; ou aqueles filhos duma cadela me trazem notícias do garoto, ou vou eu mesmo procurá-lo!...
O contra-regra interveio do lado para chamar o Laúdo ao papel, mas a resposta foi pronta:
- Deixar borrar as barbas, à frente do povo todo, é que eu não deixo, nem a fingir!

Houve risadas e dichotes na assistência. A comissão fervilhou de zelo e o próprio padre da freguesia disse qualquer coisa de xaroposo para neutralizar a fúria acética do Herodes que, apesar de tudo, continuou a remorder:
- Se queriam alguém para botar figura de bacoco, não me batessem à porta a mim; se esses reizotes de trampa não me trazem as prometidas notícias do fedelho, irei eu catá-lo, nem que seja aos quintos...
E, se bem o disse, melhor o fez. Perante o pasmo da multidão, o Laúdo deu um salto bestial abaixo do varandim, ergueu no ar a catana rebrilhante e correu, furioso, direito ao Presépio para degolar o Menino de barro.

Não foi possível encontrar razões para o deter: nem a tradição, nem o Auto, nem a autoridade do ensaiador, nem os apelos da comissão, nem as palavras mansas do padre, nem mesmo o testemunho dos Evangelhos!...
Só a força bruta de três labregos, de braços mais grossos do que gibóias, conseguiu salvar da fúria daquele Herodes de entremez o Menino-Jesus venerado pelo povo há uma carrada de anos.

Mas, esta surpresa, que veio embater contra a expectativa pacóvia da assistência, não ficou por aqui. Os filhos do Laúdo, vendo o pai agarrado por aqueles três brutamontes, foram levar-lhe o socorro que entenderam dever-lhe como filhos. Foi o rastilho para se envolver meio mundo à porrada – o que, trocado em miúdos, se traduziu num hematoma do tamanho de um ovo de galinha no coronal do rei Baltazar, em duas arquinhas partidas no rei Herodes e num beiço rachado no Anjinho da Estrela...

Por este preço logrou a Sagrada Família fugir para o Egipto, naquele Natal de Sorães...

FIM

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 2ª Parte

A segunda parte deste conto de Natal passado em Sorães, o antigo nome de Santa Catarina, freguesia do Município de Vagos.

OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 2 de 3)
Por Frederico de Moura, incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.

Poliam-se as trompas, baças do pó de doze meses e enodoadas de azebre, punha-se pele nova no bombo, rebentado no ano passado pela maceta impulsionada por músculos robustecidos pelo estímulo do briol, apetrechavam-se os clarinetes com palhetas novas para lhes valorizar o timbre, encordoavam-se as violas e os bandolins onde as aranhas tinham instalado tear para fazer as suas teias – e os ensaios botavam pela noite fora.

O encenador corrigia aqui os defeitos da pronúncia de uma personagem, além procurava sincronizar uma fala com a mímica que havia de a sublinhar, ou tentava pôr de acordo uma emoção com um gesto.
Exigente no encornanço dos papéis, ai daquele que se engasgasse no meio de uma frase, ou esfumasse uma deixa por indecisão ou má pronúncia. Caía o Carmo e a Trindade quando o actor se mostrava rude ou desatento! E, de jumento para baixo, todos os insultos do dicionário lhe serviam, afoitando-se, mesmo, a incursões na gíria local, quando precisava de termos mais expressivos para os fazer desabar sobre as cabeças, vergadas de respeito, dos actores improvisados e transplantados da rabiça do arado para um trono real de papelão, ou arrancados do chão humoso e estercado para subtis incumbências angélicas sobre nuvens de algodão em rama.
Mesmo às figuras do Presépio, cuja missão era, apenas, estar ali sem botar fala, as recomendações de compostura e de acordo com a função eram rigorosas e categóricas.
Este ano, então, a coisa havia de ser figurada a preceito – ou que raios partissem os brios da comissão – e o cortejo teria que resultar de arromba. Ponto era que o dia estivesse bonito e que um sol doirado viesse dar a sua colaboração a tanto suor gasto para lubrificar os rodízios do êxito.
O cortejo dos Reis era o cartaz de Sorães!

O Evangelista, o Avelino e o Domingos é que, desta feita, iriam figurar de magos do Oriente. Eram três labrostes alentados como bois, sobretudo o Avelino, que ia fazer de Rei Preto. De Herodes fazia o Laúdo, que tinha uma espantosa cara de facínora, onde uns olhos ameaçadores e ensombrados por um torus mais grosso e pesado que o do sinantropus, fuzilavam como coriscos corroborados por umas córneas injectadas.
Grande trabalho deu esta última personagem ao ensaiador para conseguir desbastá-la da sua natural cortiça de estupidez, como convinha ao poder histriónico de quem, apesar de tudo, figurava um rei.
Como um rinoceronte, o Laúdo investia, cego, derramando, vociferante, o seu papel, indemne às directivas que procuravam frenar-lhe, um pouco, o impulso cafreal.
O Evangelista lá deu um mago acetinado, mas de sabor incaracterístico como o capilé, e o Domingos, tem-te-não-caias, pelo menos obedecia às vozes de quem mandava e à batuta do maestro, enquanto o Avelino deu, por vocação, um Rei Preto “que só lhe faltava falar”, como dizia a Brízida.

No dia aprazado lá estava tudo a postos! Debaixo do rei Baltazar, de cara enfarruscada como um tição, o cavalo, com mais lã do que um carneiro, parecia ter a coluna vertebral selada, vergado, como estava, sob o peso da outra alimária; e os dois restantes, muito comedidos, muito senhores do seu papel, enquanto seguravam as rédeas com a mão esquerda, iam cofiando com a dextra umas incríveis barbas, baças e penteadas, feitas de rabo de burro. Atrás seguiam três sendeiros a botar figura de camelos e ajoujados sob o peso das oferendas, as mais fantásticas, as mais inverosímeis, e destinadas a fazer as vezes da ânfora do incenso, do cofre do oiro e da urna da mirra. Finalmente, estendia-se ao longo da estrada esburacada e lamacenta da aldeia um cortejo interminável de pastorinhas e pastorinhos com seus tabuleiros e canastras, com suas gaiolas e condessas, ou tangendo carneiros brancos, afogados em lã, e tímidas cabrinhas de pêlo escorrido, não contando com uns caçadores, tão hirtos que pareciam engomados, levando pendentes das trelas patos e galináceos vivos que se espanejavam esbaforidos.

Fuzilavam no centro dos tabuleiros de madeira, forrados com papéis coloridos, garrafas cintilantes de vinho branco e de jeropiga, de cujos gargalos partiam para os cantos festões de bilharacos e figos passados enfiados em arames; rescendiam as galinhas assadas, tostadas e loiras, com suas epidermes de poros arrepiados, como que esfregadas com urtigas, e berravam em bandejas de latão bolos recobertos de açucar com decorações quase mouriscas de confeitos multicolores; sussurrava o milho amarelo nos alqueires e alvejavam toalhas, engomadas e emolduradas de renda, debaixo de leitões assados no espeto e com as maxilas cerradas num trismo sardónico sobre laranjas gritantes de cor e de acidez.

E, à cabeça das garotas, como que a corroborar o especioso dos penteados, abóboras-meninas, bilobadas como cabaças e quase rubras no seu intenso alaranjado, ou taleigos imaculados de brancura a impar de farinha pelo laço do nagalho. Tudo aquilo que de mais bizarro se possa imaginar em matéria de oferendas era conduzido para o presépio do Menino por aquele cortejo guiado pela estrela, de papelão doirado, erguida, ao alto, na ponta de uma cana, por um anjinho adornado com umas descomunais asas, profusas de remiges, muito mais zoológicas do que as de qualquer ganso petulante e fanfarrão.

O cortejo encaminhou-se para o Presépio, armado num desvão do adro, aconchegado sob a copa espessa e acolhedora de um cedro centenário...

E, então, as régias personagens desmontaram, muito solenes, os servos descarregaram os burros, sucedâneos dos camelos, e os três Magos, dobrando os joelhos, e baixando até ao chão as coroas de lata, depuseram junto do estábulo, em vez da ânfora do incenso, o pipo grávido de vinho, em vez do cofre do oiro, o alqueire coagulado de milho doirado, e, em vez da urna da mirra, a carne de porco nacarada e enterrada em sal mais branco do que a neve pura.

O Menino Jesus, de barro, do tamanho de um menino verdadeiro, com seus olhos muito azuis e seu cabelo como estrigas, ficou estático e sereno nas palhinhas humildes, sob o bafo quente de um jumento e de uma vaca ao natural, enquanto, sobre o seu corpinho róseo, uma Virgem e um S. José de Sorães deixavam cair dos olhos, embevecidos, lágrimas de maná.

Quem olhasse de longe julgaria ter na frente o presépio de um barrista do século XVIII, com suas figurinhas de argila, onde nem sequer faltava o desbotado e a patina da policromia que se soletrava, facilmente, nas indumentárias usadas, pela quinquagésima vez, nestes cortejos de Sorães.

(Continua)

domingo, 16 de dezembro de 2007

Um Conto de Natal por Frederico de Moura - 1ª Parte

Devido a uma profissão fortemente marcada por valores e sentimentos humanistas, os médicos portugueses sempre se distinguiram não apenas na assistência às enfermidades das populações de forma abnegada, mas em múltiplas e diferentes causas e iniciativas a nível social, político e cultural. Basta lembrar apenas Sousa Martins e mais recentemente a AMI [ambos os casos já citados neste blogue], ou que na literatura Júlio Diniz, Miguel Torga, Fernando Namora, Bernardo Santareno e António Lobo Antunes sejam médicos, só para citar alguns exemplos [existe até a Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos, ver em http://www.sopeam.pt/ .]. Por estas razões, optei deliberadamente por um conto de Natal escrito por um médico. Escolhi um de Frederico de Moura (1909-2002), um verdadeiro “João Semana” segundo Torga, que deixou o seu nome para sempre ligado ao coração do povo de Vagos e ao distrito de Aveiro. É um conto de Natal pitoresco, que dividi em 3 partes e que vale uma leitura atenta.

OS RÚSTICOS VIRAM A ESTRELA (Parte 1 de 3)
Narrativa inédita de Frederico de Moura
[António Frederico Vieira de Moura, Licenciado pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1933 e Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras de Coimbra em 1960]
Conto incluído em “Natal”, ed Instituto Luso-Fármaco, 1967.


O cortejo dos Reis Magos de Sorães tinha larga fama nas redondezas e aglutinava sempre uma espessa multidão que afluía de todos os pontos cardeais. Os caminhos da Gândara pejavam-se de forasteiros oriundos de todos os lugares: da Tocha, de Cadima, de Murtede, de Carromeu, vinha gente de todas as idades e condições, desde as velhas de mantilha embiocada, até às cachopas de lenços garridos de ramagens e de fedelhos de palmo e meio, ranhosos até à ponta do queixo e de calças fundilhadas no posterior. Também do lado do mar vinham os gafanhões e as gafanhoas, lépidos e bailarinos nos movimentos, a quem as lombas não metiam medo. Atascando-se nos caminhos barrentos, uns, atolando-se na duna, outros, toda a gente arranjava disponibilidades e fôlego para a caminhada. E, às vezes, não faltava, mesmo, a presença de um ou outro senhor folclorista com o seu binóculo científico assestado, quando não com sua câmara fotográfica a fixar imagens.

Já coisa de um mês antes, se sentia latejar em todo o povo uma azáfama ofegante na preparação das alfaias, das indumentárias, dos cenários, e na realização dos ensaios do Auto, velho e ingénuo, que haveria de ser mastigado como núcleo de entremez.
Um talhava com umas tesouras velhas ferrugentas, coroas de rei, especiosas e profusas de bicos e recortes, num retalho de folha-de-flandres arrancado à sucata do picheleiro, ou recortava, em papelão grosso, a estrela que, depois de dourada, havia de servir de guia na caminhada para a gruta de Belém; uma rapariga costurava em cetineta vermelha ou numa colcha ramalhuda, fora de uso, mantos reais que haviam de vir a ser debruados e listados com galão de cangalheiro; um labrego pintava a purpurina de oiro os velhos arreios com que se haviam de ajaezar as montadas dos magos do Oriente.

O fim do mundo na pacatez de Sorães!

(Continua)

sábado, 15 de dezembro de 2007

Cerealis e Lusitana: empresas alimentares portuguesas que lançam novos produtos.

Por vezes a publicidade sobre os novos produtos não nos atinge ou por ser mal direccionada ou insuficiente ou por desatenção nossa. Foi esse o caso com os novos produtos da Cerealis e da Lusitana. Só demos por eles na nossa loja habitual.

Se o que é Nacional é bom,
então Nacional com fibras é ainda melhor.


As massas, tradicionalmente inimigas da boa linha e das dietas de emagrecimento, passaram a ser nossas aliadas com a gama de produtos ricos em fibras. Ver nas figuras: Esparguete com mais Fibra (ao lado do Esparguete Nacional normal de abertura fácil) e Espirais com mais Fibra. As Fibras são boas porque diminuem o apetite, absorvem as gorduras e regulam o funcionamento intestinal. Só coisas boas. Merece ser espalhada a boa nova da existência destas massas, para que todos nós comamos de forma mais saudável. A Cerealis deveria ter um bom sítio na Net a explicar estas coisas.

Frita Fácil da Espiga para este Natal

A Lusitana de Alcains, famosa pelas suas marcas Branca de Neve e Espiga lançou uma gama de produtos denominada “Frita Fácil”. Já experimentei o Polme. Ver figura: na embalagem tem uma foto com os exemplos mais comuns que são os peixinhos da horta, as pataniscas de bacalhau, as argolas de lulas e os camarões descascados. A grande vantagem é ser muito simples de fazer pois nem precisa de levar ovos, é apenas juntar água. Fiz pataniscas e saiu muito bem. Ninguém consegue adivinhar que não é Polme caseiro. Qualquer um pode agora fazer boas pataniscas ou peixinhos da horta. Nham, Nham!
A Lusitana dispõe de um sítio na Net em http://www.lusitana.pt/ , muito útil e fácil de consultar com informações sobre os produtos, receitas e sugestões para o Natal.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A lenda da coroação de Inês de Castro

Era o dia 25 de Abril de 1361. D. Pedro I, fez desenterrar o cadáver de D. Inês de Castro para a proclamar rainha em Coimbra. Depois de preparado e bem ligado o corpo, coberta com a opa [capa] real, a coroa posta sobre a cabeça, erguida num trono recebeu ela as homenagens reais, sendo-lhe beijada a mão gelada por toda a corte. Finda a extraordinária cerimónia, o cadáver coroado foi conduzido de Coimbra ao mosteiro de Alcobaça com uma pompa enorme, estando ao comprido de toda a longa estrada mais de cem mil homens, parados em duas filas, com tochas acessas na mão.

Em Alcobaça mandara o rei erigir dois magníficos túmulos, um para D. Inês e outro para ele, ficando colocados não ao lado, mas os pés de um contra os pés do outro, para que no dia do Juízo Final, ao quebrarem-se as campas e ao erguerem-se os dois corpos, logo se avistassem um ao outro, face a face.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Eça de Queiroz sobre a importância da Ciência

Conta uma velha lenda Talmúdica* que, nas vésperas do Dilúvio, dois sábios, dois videntes, que eram filhos de Seth e conheciam as tenções de Deus, descendo por uns caminhos da Mesopotâmia, numa tarde triste, naquela imensa tristeza das últimas tardes do mundo, estremeceram, pararam, ao avistar por trás dos montes Górdios as nuvens que subiam, tenebrosas, enroladas, já carregadas da chuva suprema e vingadora. E o que então os contristou não foi a destruição dos rebanhos, das fortes cidades muradas, de tantos povos dóceis, pois bem sabiam os dois videntes que, retiradas as águas, encalhada a Arca nas colinas moles, em breve outros homens, pais de outros povos, pastoreariam rebanhos mais densos através de prados mais férteis, e ergueriam novamente cidades com vigias nas torres e o incenso fumegando nas aras**. Não! o que os angustiou foi pensar que a Ciência, a Ciência tão penosamente adquirida e acumulada desde o Paraíso, pereceria com os homens sapientes que a possuíam, de repente, como se evapora a essência rica do nardo quando o vaso fino se quebra; e que as raças, renascidas sobre a terra renascida, deveriam recomeçar a áspera aprendizagem, e por longos tempos errar de rio a monte numa apagada e muda simplicidade de espírito, não sabendo mais do que matar a caça com uma lasca de rocha, e ao desdobrar da sombra buscar o refúgio dalguma toca, com medo da noite e dos seus astros incompreendidos.
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Então, naquele caminho perdido da Mesopotâmia, sob a tristeza imensa da tarde, os dois sábios, filhos de Seth, determinaram arquivar, escrevendo em matéria imperecível, a Ciência que possuíam, que era a Ciência total daquela primeira Humanidade. Durante três dias, durante três noites, num vale onde acendiam fogos, à beira de uma fonte que rugia, inchada com a cólera que Deus já comunicara a todas as águas – os dois sábios, sem repouso, ansiosamente, espreitando as nuvens, gravaram sobre o granito e gravaram sobre o tijolo o Livro-de-todo-o-Saber. Depois, na derradeira madrugada, finda a Obra, estendidos como páginas, pelo vale, os tijolos e os granitos onde ficava inscrita toda a Ciência Inicial, os dois sábios, levantando as faces cansadas, louvaram o Senhor que lhes concedera tempo de cumprirem, para com os homens da outra Humanidade, aquele dever final de fraternidade magnífica: - e do céu cairam lentamente, sobre as faces erguidas dos dois filhos de Seth, as primeiras gotas, pesadas e mudas, da grande chuva de Deus.

*O Talmude é "uma obra que compila discussões rabínicas sobre leis judaicas, tradições, costumes, lendas e histórias"- in Wikipedia.
**Altares em pedra.

Início do prefácio escrito por Eça de Queiroz no primeiro Almanaque Enciclopédico de 1896. Título, figura e notas da minha responsabilidade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Arte de Joana Vasconcelos

Minerva
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Coração Indepentente Vermelho
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Ver melhor e mais completa informação em http://www.joanavasconcelos.com/

domingo, 9 de dezembro de 2007

As prendas de Natal em jeito de conversa de café

Gosto de celebrar o Natal como uma festa anual da minha família e é claro que gosto de comer as refeições e doces de Natal, gosto de reunir as pessoas, gosto das decorações, da árvore de Natal, do presépio, etc. Embora agnóstico, quase ateu, a minha cultura é assumidamente cristã.
A parte das prendas em alguns aspectos é que me faz alguma confusão. Não gosto em particular daquele espírito tacanho do "eu dei-te uma prenda mais valiosa do que tu me deste a mim", ou do seu contrário invejoso. Se o Mundo fosse perfeito não necessitávamos de dar prendas uns aos outros pelo Natal. Teríamos todo o ano para demonstrar o nosso afecto uns pelos outros [todos os dias é Natal].
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Grande parte das prendas que oferecemos são caras e inúteis ou dispensáveis. Não poderíamos antes oferecer um envelope dizendo "A prenda que lhe íriamos oferecer custar-nos-ia X euros, mas pensámos que este dinheiro faria mais falta a um pobre e por isso, fizemos um donativo desses X euros á Associação XPTO, conforme recibo que juntamos neste envelope. Esperamos desta forma contribuir com o seu apoio para melhorar a vida daqueles que mais precisam". Nem que fosse só metade do valor das prendas. Não seria muito mais isto, o "Espírito de Natal"?
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Oferecemos prendas aos adultos e às crianças. As prendas para os adultos não fazem geralmente grande sentido, especialmente quando são prendas excessivamente caras. Devemos ser modestos nas prendas que oferecemos. A ostentação não atrai amizades. Mas detesto os avarentos, aqueles que lamentam todos os tostões gastos ["Há alguma vantagem em ser o homem mais rico do cemitério?"]. Não confundir com ser poupado, que exige sabedoria. Precisamos aprender a ser menos consumistas.
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Na verdade, eu gosto de dar e de receber prendas. Confesso. Ainda há algo de criança em mim quando abro aquele embrulho com um laço...Mas enchemos as crianças com prendas em excesso. Pelo exagero do número de brinquedos elas ficam com a sensação que aqueles objectos têm pouco valor, o que nos choca porque nós adultos que sabemos o custo das coisas achamos que as crianças são umas "estragadonas". A culpa é nossa, claro está. Comprar uma prenda a uma criança deve ser algo feito com cuidado. Pelo menos devemos falar com os pais da criança. Na maior parte das vezes eles dizem-nos aquilo que não devemos comprar e nalguns casos expressarão até preferências por esta ou aquela prenda, de forma justificada. Claro que a decisão é nossa, mas será que pretendemos voltar a comprar outra enorme caixa colorida [cheia de plásticos com bonecos ou carrinhos por 20, 30 ou 40 euros] para ir tudo parar a um caixote ou armário atafulhado de coisas semelhantes ? Será que não seria mais útil para a criança um bom Dicionário ou um bom Atlas, onde até poderemos escrever "Da parte dos tios José e Maria com muito carinho" e assinar...
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Aos adultos também poderemos dar CDs ou livros não muito caros com alguma criatividade. Não ofereçam nunca um livro sem escrever nele que foram vocês que o ofereceram, a razão porque o fazem e a data. Essa informação quando não está escrita, perde-se. Assim, o livro fica personalizado e a prenda fica muito mais simpática e valorizada. Porque não fazer um Natal só com livros? Sem ser exclusivista, dê preferência aos livros portugueses.
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Para mim, grandes prendas são os vinhos portugueses, em particular os vinhos tintos de mesa. Como todos sabemos, é geralmente uma prenda muito bem aceite pelos homens, mas poderemos por exemplo oferecer também uma garrafa de Porto, talvez um BIN 27, ao casal. A maioria das senhoras não gostam que lhes ofereçam vinhos, mas adoram vinhos doces e se for para o casal, não cai mal. Não comprem whiskies, comprem antes aguardentes velhas portuguesas. Desde a simples CRF, que eu gosto bastante e geralmente bebo em casa, até à mais cara Adega Velha, há muitos preços e variedades para todos os gostos.
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Precisamos de comprar português. Se não cuidamos do que é nosso, ninguém o fará por nós.
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Isto são coisas que me vou lembrando sobre as prendas de Natal. Pensamentos avulsos. E não nos esqueçamos que daqui a 3 semanas estará tudo mais barato. Vão começar grandes campanhas de preços promocionais, leiam-se "Saldos": electrodomésticos, roupa, computadores, televisões, audio, etc, tudo vai estar mais barato, é só saber esperar, o que nem sempre é fácil e depois é saber aproveitar.

sábado, 8 de dezembro de 2007

TV por Cabo e Telemóveis. Oportunidades para novos negócios?


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Por vezes complicamos aquilo que é simples. É o caso de alguns objectos de uso diário que estão a tornar-se pouco prácticos devido a inovações técnicas mal concebidas. Vou dar dois exemplos:

- A TV por Cabo [que tem o excelente serviço Netcabo], tem actualmente um cartão digital ligado a um tipo de máquina “Powerbox” para vermos os canais. O sistema implica o uso simultâneo de 2 comandos: um para a televisão, que liga e desliga a televisão e aumenta ou baixa o som [o que temos de estar sempre a fazer com a televisão portuguesa, que passa sempre a publicidade com som mais alto], e o comando da Powerbox para mudar de canais. Ora o comando da Powerbox funciona mal - não apenas o meu, mas o de toda a gente que eu conheço que o tem, porque nem sempre responde à primeira e além disso o sistema é lento a responder [e ao nível dos menus por vezes não responde mesmo de todo]. Para gravar qualquer coisa da tv então a confusão é total, porque acresce um terceiro comando para o gravador. Uma nova operadora, de cabo ou via rede de cobre ou rede eléctrica, com uma solução de uso mais simples teria a minha imediata preferência, se pudesse mudar de canais e efectuar gravações de forma mais fácil ou por exemplo evitar anúncios da publicidade, como já se consegue com os aparelhos TiVo (ver figura acima).

- Os telemóveis estão a tornar mais difíceis as chamadas telefónicas, com as suas milhentas opções de Menu para Mail, SMS, Bluetooth, Wi-Fi, Imagem, Vídeo, MP3, etc, etc, etc. Receber ou efectuar chamadas é por vezes um inferno. Então se mudarmos entre diferentes telemóveis com diferentes sistemas a confusão é total. Além disso, os números de marcação são de leitura difícil e em alguns casos quase que não se vêem, mesmo para quem não tenha problemas de visão. A Samsung lançou creio que este ano nos EUA, um telemóvel de números “grandes” para se efectuarem com facilidade...chamadas telefónicas. É o “Jitterbug” (ver figura), e está posicionado para os chamados “seniores” [as pessoas mais velhas que já vêem mal e não têm paciência para aprender sistemas operativos complicados]. É uma tecnologia acessível. Nós aqui em Portugal temos empresas que podiam fabricar coisas destas. Para velhos, para crianças e para preguiçosos comodistas como eu.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Os melhores portugueses de hoje

Quem são os melhores de entre nós? Aqueles que são capazes de vencer as maiores dificuldades para perseguir um sonho, por uma causa, quando os velhos do Restelo procuram dissuadi-los de tão inverosímel jornada. Mas quando tudo parece ser contra, conseguem resistir e depois emergem por entre o caos e para nossa surpresa lá estão eles e a sua obra e o seu sonho a realizar-se. E nós, os acomodados, os descrentes e eternos cépticos por interesse próprio, somos uns anões. Não temos desculpa. A nossa única remissão possível e salvadora seria seguir o seu chamamento. Estou a falar de pessoas fantásticas como Fernando Nobre da AMI, Isabel Jonet do Banco Alimentar contra a fome e Luis Villas-Boas do Refúgio Aboim Ascenção.

Seria muito importante que todos os pudéssemos ajudar só com um bocadinho do nosso Natal:
- Refúgio Aboim Ascenção
O sítio está em remodelação, mas está suficientemente funcional para se perceber o que é esta formidável instituição e como contactá-la [em http://www.raa-ei.org/Contactos/index.htm ]
- AMI
http://www.fundacao-ami.org/
Tem campanhas em que pode ajudar e contribuir, e a AMI tem uma loja onde se podem comprar prendas de Natal
Encontrará formas de ajuda e de participação com tudo explicadinho

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Rafael Hitlodeu: notável português do século dezasseis.


Rafael Hitlodeu foi um português que acompanhou Américo Vespúcio em três das suas alegadas quatro viagens. Na última viagem, Vespúcio saiu de Lisboa com destino a Malaca, no Oriente, mas não foi além do Brasil porque perdeu o seu navio almirante, tendo de voltar para trás. Porém, antes de voltar a Lisboa, Vespúcio constrói um forte e deixa em terra 24 homens com provisões para 6 meses. O forte, de acordo com Vespúcio estaria dezoito graus ao Sul do Equador.

Um dos 24 portugueses deixados no Brasil era Rafael Hitlodeu. Ele pediu ao capitão licença para ficar no Novo Mundo e com cinco companheiros empreendeu uma incrível viagem para Oeste tendo alcançado a Taprobana [as opiniões diferem se se trata de Ceilão ou de Sumatra, próximo de Malaca, o objectivo inicial da viagem de Vespúcio].

O Professor George Parks do Departamento de Geografia da Universidade de Washington, diz que Hitlodeu terá sido “o primeiro europeu a circum-navegar o globo, antecedendo a viagem de Magalhães em cerca de uma década”, visto que Hitlodeu e os seus companheiros, após visitarem vários territórios naquela zona, foram a Calecute, onde por sorte terão encontrado navios portugueses que os puderam trazer em segurança para Portugal.

Hitlodeu era também uma espécie de filósofo social. Sabia latim e melhor ainda grego, e adorava ler Platão que interpretava à sua maneira. Estava profundamente preocupado com o estado da cristandade: afirmava que estava dividida e perturbada por interesses egoístas e particulares, em todas as áreas da sociedade e preconizava grandes reformas. Procurava um país ideal, avançado e igualitário, algures no mundo, e por isso tinha acompanhado Vespúcio nas suas viagens. Acabou por encontrá-lo numa zona temperada a Sul, numa ilha, chamada Utopia.

A maior dívida que temos para com Rafael Hitlodeu é o conhecimento acerca das leis, instituições e sistema de valores desta sociedade insular - que ele descreveu em detalhe ao inglês Thomas More e ao amigo comum, o holandês Peter Giles em Antuérpia. Thomas More viria a passar para papel, em latim, esta conversa com o português, embora tenha tido sempre dúvidas sobre a veracidade da história. O livro de More chamar-se-ia Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia, ficando conhecido mais simplesmente por Utopia. Foi publicado em 1516.

[Texto extraído da comunicação do Professor Paul Sawada – Rafael Hitlodeu notável português do século dezasseis, da Universidade Nihon, Japão, à Conferência Internacional Viagens dos portugueses na Ásia e no Japão durante a Renascença, realizada na Universidade Sofia em Tóquio, Setembro de 1993. Os textos das comunicações foram impressos em livro, pela Embaixada de Portugal no Japão.]

domingo, 2 de dezembro de 2007

Rio Alva em Avô por António Vi no Flickr


River Alva at Avô, originalmente colocada por Antonio Vi.

Há fotografias lindas da nossa terra no sítio do Flickr. As últimas que me maravilharam são de António Vi, como a foto acima demonstra. Acreditem que vale a pena a visita [em http://www.flickr.com/photos/antoniovi/ ].

sábado, 1 de dezembro de 2007

A propósito de um livro sobre Cesário Verde


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Acaba de ser lançado no mercado um pequeno livro de Maria Filomena Mónica sobre Cesário Verde: “Cesário Verde, um génio ignorado”, onde podemos encontrar muitas passagens da poesia de Cesário Verde, conhecer sua vida, personalidade e também muitos dos poetas do seu tempo.

Maria Filomena Mónica foca as marcantes diferenças de personalidade e de estilo que separavam Cesário dos poetas da sua época. Acho que vale a pena contar este episódio pitoresco* passado com Bulhão Pato e narrado por Alberto Bramão em Últimas Recordações:

Um dia no Café Montanha, Bulhão Pato discutia com Cesário Verde, assuntos de literatura.
Cesário Verde, notável poeta objectivista, cheio de originalidade, extraindo motivos poéticos das coisas e dos episódios da realidade, era um temperamento aparentemente frio e sereno; tinha um ar de fleuma britânica, acentuado até pelo corte do vestuário e pelas duas solas do calçado.
O seu livro póstumo de versos, coligido e prefaciado por Silva Pinto, com tão vivo sentimento de amizade modelarmente fraternal, encerra composições de estranha beleza, como esse
poemeto Nós, que é maravilhoso de descritivo, de impressionismo bucólico e de emoção familiar.
Não era, por consequência, uma alma fria, mas tinha toda a aparência de o ser, mesmo conversando, porque evitava expansões e restringia as palavras à seca expressão das ideias.
À superfície, portanto, Bulhão Pato e Cesário Verde eram dois espíritos fortes de natureza oposta. Não podiam entender-se.
A discussão tomou vulto, as vozes ergueram-se mais alto, até que a certa altura Bulhão Pato pôs na conversa o seguinte remate, em tom irónico, recortando e arrastando as últimas palavras:
- Pois será o que Deus quiser. Adeus...senhor...verde.
E Cesário, como quem riposta com uma estocada a fundo, seca e rápida:
- Adeus, seu maduro.
Foi um escândalo no Montanha, com os criados segurando os contendores, vendo-se agitada no ar a bengala romântica de Bulhão Pato.


* O autor nada nos diz sobre a sua data.