quarta-feira, 30 de julho de 2008

A história do macaco do rabo cortado

História infantil tradicional
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Era uma vez um macaco que queria ir para a escola, mas muitos meninos faziam troça dele porque tinha um rabo comprido. Então ele resolveu ir ao barbeiro e pedir para lhe cortarem o rabo. O barbeiro perguntou se tinha a certeza, e como o macaco respondeu que sim, o barbeiro, trás! Cortou-lhe o rabo com uma navalha.

No outro dia, quando o macaco chegou à escola, os meninos riram-se por ele ter o rabo cortado, e chamaram-lhe “o macaco do rabo cortado”. Então, resolveu ir ao barbeiro buscar o seu rabo, mas o barbeiro disse-lhe que já não tinha o rabo, que tinha ido para o lixo. Então o macaco ficou furioso, pegou na navalha do barbeiro e fugiu com ela.

Na rua encontrou uma varina que o viu com a navalha na mão e lhe disse: “ó macaquinho, para que queres tu essa navalha? Não te serve para nada! A mim é que fazia falta para eu amanhar o meu peixe”. O macaco deu-lhe razão e entregou-lhe a navalha. Mas mais tarde, começou a sentir fome e para descascar uma maçã, precisou da navalha. Foi ter com a varina e pediu a navalha, mas a navalha estava partida. Então ficou furioso e levou a canastra das sardinhas da varina.

Quando ia na rua com a canastra de sardinhas, encontrou o padeiro, que lhe disse: “olha coitado, vais tão carregado com as sardinhas, se quiseres eu guardo essa canastra na minha casa.” E assim foi. Agora o macaco sentia-se mais à vontade e podia ir de um lado para o outro, sem ter de transportar as sardinhas. Mas um tempo depois, começou a ter fome. O peixe dava-lhe jeito para comer e por isso resolveu ir buscá-lo a casa do padeiro. Mas o padeiro, com a família, tinha comido as sardinhas. Então furioso, tirou um saco de farinha ao padeiro.

Quando ia pelo caminho com o saco de farinha, encontrou a senhora professora que lhe pediu a farinha para fazer uns bolinhos. Como o macaco não sabia fazer bolinhos com a farinha, deu a farinha à senhora professora. Mais tarde, quando voltou a ter fome, resolveu ir ter com a senhora professora e pedir-lhe alguns bolinhos. Mas os bolinhos já tinham sido todos comidos. Ninguém tinha guardado uns bolinhos para oferecer ao macaco. Então ficou furioso e roubou uma menina da senhora professora.

Só que, para espanto do macaco, a menina começou a chorar. Teve pena da menina e foi levá-la à mãe. Para que é que quereria uma menina? Mas mais tarde, quando chegou a casa e viu tudo desarrumado, pensou que a menina poderia trabalhar para ele e ajudá-lo a limpar e a arrumar a casa e por isso resolveu ir buscá-la. Quando foi buscar a menina, a mãe não lha deu, claro, e então, furioso, levou–lhe a camisa do marido que estava pendurada na corda da roupa.

No caminho, encontrou o músico com uma viola que lhe pediu a camisa. Como a camisa do músico já estava muito velhinha o macaco deu-lhe a camisa. Mas o músico quando foi para casa vestir a camisa, ela rompeu-se, e teve de a deitar fora. Quando chegou a noite e o macaco sentiu frio, quis a camisa de volta, mas o músico já não a tinha porque a camisa tinha–se rompido. Por isso, resolveu tirar a viola ao músico e fugir.

O macaco subiu então para cima do telhado e cantou:

"Do rabo fiz navalha,
da navalha fiz sardinha,
da sardinha fiz farinha,
da farinha fiz menina,
da menina fiz camisa,
da camisa fiz viola,
e eu vou para Angola".

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FIM
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[Presumo que o macaco fosse angolano e quisesse voltar à sua terra natal. Só assim faz sentido o fim da história. Mas contaram-me outra versão, em que o músico volta para reaver a sua viola, conseguindo apanhar o macaco traquinas. Nesta versão a última frase da cantilena passaria a ser "Vai para o saco, meu grande mariola!", que seria dita pelo músico.]
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Nota: as figuras aqui incluídas encontram-se na estação de Alvalade do Metro de Lisboa e são da artista plástica Bela Silva. Ver http://www.belasilva.com/
Na maioria das estações do Metro de Lisboa podemos encontrar e disfrutar de obras de outros grandes artistas portugueses. Ver http://www.metrolisboa.pt/Default.aspx?tabid=72

domingo, 27 de julho de 2008

A Casa da Celestina de Paula Rego

Não é a fealdade das figuras, que nem sequer é forçada. Se calhar é assim mesmo que devem ser vistas. Não é também a falta de maneiras. Se calhar aquelas, são as situações reais. Mas o conjunto é como um espelho em que podemos ver reflectido muito daquilo que temos sido e que ainda somos em Portugal. Para o bom e para o mau. Muitas vezes ainda, os quadros transportam motivos sexuais que os tornam ainda mais provocantes. Por isso, cada trabalho de Paula Rego merece um olhar crítico e demorado. Um dos meus preferidos, é A Casa da Celestina: um retrato terrível, mas notável.

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Na internet estão disponíveis muitos dos quadros da pintora. Ver por exemplo em http://www.artnet.com/artist/636556/paula-rego.html

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Com Obama há coisas que vão mudar, também na Europa.

Desde há alguns meses que me persegue a sensação pouco confortável, que várias situações que até aqui dávamos por adquirido estarão prestes a mudar. A principal causa reside na economia e no brutal desvio de valor que o “Ocidente” e de forma mais dramática os Estados Unidos, têm vindo a realizar, para os países produtores de petróleo e para as economias emergentes, como a China e a Índia. Resultado: o complexo militar americano, tal como está, parece ser cada vez mais insustentável para o orçamento do governo dos Estados Unidos.
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Acresce, que os candidatos democratas, em particular o provável vencedor das eleições americanas, Barack Obama, tem vindo a apoiar a criação de um Serviço Público de Saúde nos Estados Unidos, à europeia, o que acarretará ainda mais pressão sobre as despesas orçamentais.
Por isso tenho estado muito atento para saber o que vai dizendo por aqui e por ali o provável novo presidente americano. Inicialmente, pensava que uma das vias poderia ser a de um certo isolacionismo, até pela atitude face ao Iraque, mas nestes últimos dias de périplo por países como Israel e o Afeganistão, percebi que afinal não era essa a ideia. Mas qual seria? Como se poderia compatibilizar a manutenção de uma máquina militar que vale metade do orçamento americano, com o aumento dos combustíveis, a perda de valor do dólar, o défice e a dívida externa estrutural e as propostas de criação de um verdadeiro serviço público de saúde?
Ontem comecei a perceber. Em Berlim, num comício espectacular perante duzentas mil pessoas, Obama declarou:
“Se nós queremos ser honestos uns com os outros, sabemos que às vezes, dos dois lados do Atlântico, seguimos caminhos diferentes e esquecemos o nosso destino conjunto (…). Na Europa, pensar que a América está incluída naquilo que está mal no mundo, mais do que uma força que procura corrigi-lo, tornou-se comum. Na América, há vozes que negam a importância do papel da Europa na nossa segurança e no nosso futuro. Ambas as opiniões carecem de acerto (…) Neste novo século, americanos e europeus têm de fazer mais – e não menos. Parceria e cooperação entre nações não é uma escolha; é a única forma de proteger a nossa segurança e avançar no nosso humanismo comum.”
A mensagem geral de Obama é a de um apelo à união entre americanos e europeus e há uma frase que não esqueci: “we cannot afford to be divided”. E é quanto a divisões, que me quer parecer que a factura da defesa vai ter de ser “dividida” de outra forma. Isto também tem que ver com Portugal, que além de membro da União Europeia, é membro da NATO. Talvez me engane, mas quais são as alternativas? Vamos ver a continuação do folhetim.
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Nota:
Não resisti a incluir esta extraordinária foto da Associated Press do sítio do New York Times e que faz também a primeira página do International Herald Tribune. Curioso, que numa das primeiras filas do comício de Berlim, uma faixa que parece ter as cores alemãs, com o amarelo e com o preto, tem na realidade escrito a vermelho, "ANGOLA".

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Mostrengo de Fernando Pessoa





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Supunham os Portugueses, antes de haverem desvendado os mares, que eram estes guardados por monstros zelosos do seu domínio. Grandes desgraças esperavam quem se aventurasse a tão obscuras regiões. Ousaram eles tal empresa! No Mostrengo que Fernando Pessoa imagina, se materializam todos os fantasmas criados pela imaginação popular à volta do Mar Tenebroso. E no homem que vai ao leme, e, embora tremendo, não reconhece outro poder e outra vontade senão os do seu senhor El-Rei D. João II, estão representados todos cuja coragem ainda era maior que o seu medo, e assim nos abriram mundos desconhecidos.

José Régio
em Poesia de Ontem e de Hoje para o nosso Povo Ler, Colecção Educativa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956.

O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo,
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”


Fernando Pessoa

terça-feira, 22 de julho de 2008

O que não mata, engorda! ("Silly Season")

Olhar desconfiado de um elemento da ASAE,
para com uma inofensiva Bola de Berlim de praia

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O preço do petróleo e dos cereais a crescer desmesuradamente em cima da chamada crise do “subprime”, que como todos nós sabemos deve ser um primo mauzão que anda escondido e por isso é “sub”, está a gerar uma “crise” que provoca o “abrandamento” do crescimento do PIB, que é como todos nós sabemos o Produto (porque são os produtos das empresas) Interno (porque não vai para fora) Bruto (porque é grosseiro). Ou seja, se “as pessoas”, trabalhassem muito mais horas, mas mais depressa e por menos salários, ao nível dos chineses, todos viveríamos com menos problemas e mais competitividade. Com isto tudo que nos preocupa, quase que estava para não haver…sabem o quê?

Tan-tan…

A “Silly Season”.

É verdade, foi por um triz. Mas temos de agradecer ao Clix e à sua fabulosa campanha para salvar a Bola de Berlim nas praias, das ameaçadoras garras da Segurança Alimentar-ASAE. Eu acho que a campanha do Clix poderia ser também alargada à Bola Nova da Caparica, aos Pastéis de Tentúgal, às Tortas de Azeitão, às Bolachas da Piedade, regueifas e pão-doce, aos pães-de-ló (como o de Alfazeirão, por exemplo), queijadas, doces conventuais, tartes, e até aos próprios Pastéis de Belém! Assim, transformaríamos as nossas praias em verdadeiros centros gastronómicos da doçaria artesanal e regional.

É certo que as praias não são o sítio melhor para os doces por causa da areia, mas que diabo, se há gente que faz aquelas grandes almoçaradas na praia, então não se pode comer um bolinho?

“Ah e tal, que pode fazer mal!”. Fazer mal a quê? O que não mata engorda!!!

domingo, 20 de julho de 2008

Os pêssegos de Fialho de Almeida

Os pêssegos!...
Adorei já uma mulher que gostava deles, e tinha uma graça infinita a mordê-los com os seus brancos dentinhos de roedora. Se, tomando-lhe a barba com as pontas dos dedos, docemente a forçava a vergar-se toda nas costas da cadeira, para na concha rósea da orelha lhe depor algum segredo irritante, a sua vermelha boca, gotejante dos sucos perfumados, matava-me de sede e endoidecia-me de amor. Pobre quinquilharia loira!...
Tamanha voracidade a possuía ante esses frutos voluptuosos e quentes, que de uma vez engoliu os caroços e partiu para o cemitério.
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em A Cidade do Vício de 1882, Sinfonia de Abertura de Fialho de Almeida, Livraria Clássica Editora.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Pernambuco, século dezassete.

“Entre 1630 e 1654 a região de Pernambuco foi ocupada pelos holandeses, que incendiaram Olinda e fizeram do Recife a capital do seu domínio brasileiro. Durante esse período, o Conde Maurício de Nassau governou o Brasil holandês, administração que foi marcada por mudanças de natureza económica, social e cultural. A forte resistência dos portugueses e brasileiros de origem lusitana, africana e índia, já cristianizados, acabou resultando na expulsão dos holandeses”.
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“Pernambuco” de Abraham Levy Lima

Ver a notável pintura de Abraham Levy Lima em

terça-feira, 15 de julho de 2008

Vindima no Douro por Manuel Monteiro

Arqueólogo, etnólogo e escritor de altos méritos, Manuel Monteiro conhece Portugal, e os usos, costumes e paisagens da nossa terra, como raros os conhecem. Do seu livro O Douro [1], estudo perfeito dos aspectos e dos recursos dessa região nortenha, extraímos o trecho sobre a vindima, em que descreve e evoca um dos momentos mais característicos da rude azáfama dos trabalhadores do campo.

João de Barros [1881-1960]

Enquanto por armazéns e lagares se ultima a faina de concertos, esfrega e lavagens no vasilhame, as vinhas animam-se de uma alegria vibrante e ruidosa.
Hora fugaz de desanuviamento para essa pobre gente, que, não obstante a amargura contínua da existência, ainda, pelo menos uma vez no ano, sabe rir e cantar!
As ranchadas de mulheres com as notas coloridas dos seus vestuários, agitando-se por entre as cepas à luz clara do sol do equinócio, o transporte dos cestos abarrotados de uvas, as canções em coro que gargalhadas e gritos entrecortam, a palrice entre os dois sexos, no geral, brejeira e de uma fervente volúpia que a atmosfera cálida espicaça e os olhares húmidos denunciam, evocam reminiscências das antigas festas naturalistas parecendo que se repercute ainda o eco báquico dos Evohé!...
A vindima propriamente dita, isto é, a separação dos cachos da vide pertence ao mulherio e ainda aos rapazes munidos de uma navalha ou tesoura cortam as uvas e as lançam, depois de escolhidas, nuns pequenos cabazes os quais se despejam em gigos ou altos cestos em vime em tronco de pirâmide quadrangular invertida, que uma vez cheios e indicados por varas enramalhadas, no alto, com parras, à semelhança dos tirsos [2] clássicos, são conduzidos por homens – os carregadores – para os lagares onde são por sua vez esvaziados. Os feitores vigiam atentamente a escolha para que não haja inadvertência deixando seguir junto, com o fruto bom e perfeito, o afectado, apodrecido ou verde. Cheios os lagares, procede-se à pisa. Esta lida fatigantíssima é feita a pés, como em Roma, na Grécia e no venerável Egipto. Os pisadores – calcatores – depois de lavados entram no calcatorium, isto é, no lagar, ou tanque quadrangular ou rectangular de cantaria, onde estão as uvas colhidas.
A primeira pisa – o corte – é a mais exaustiva e realiza-se desde as oito às doze horas nocturnas.
De começo a tarefa corre em silêncio, mas à medida que o esmagamento se completa, espalham-se os eflúvios do mosto rúbido que tinge as pernas dos lagareiros, e estes encetam os descantes acompanhados de uns instrumentos quase ex-históricos e um contentamento, rude e tonitroante, se avoluma e reina no ambiente alumiado pela claridade crua e fixa do acetilena, ou pela luz difusa do petróleo, que põe efeitos surpreendentes nas faces, lambusadas, escandecidas e dignas do pincel de Velasquez.
Depois deste trabalho denominado a meia-noite os lagaceiros saem para prosseguirem na pândega e voltam na manhã seguinte para sova, que dura até ao meio-dia e se repete uma ou mais vezes conforme a condição da colheita e a qualidade do vinho a obter…

em O Povo na Literatura Portuguesa de João de Barros
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[1] Não temos disponível quaisquer elementos para datar este texto, encontrámos apenas outros do mesmo autor datados de 1941.
[2] Bastão enfeitado com hera e pâmpanos, terminado em forma de pinha e que era o emblema de Baco.

sábado, 12 de julho de 2008

Produtos de Supermercado: salsichas e cenouras enlatadas.




Sou um apreciador e consumidor de produtos de salsicharia: e diga-se em abono da verdade que depois de ser adquirida pelo grupo Smithfield, a Nobre revolucionou o mercado português, tanto em variedade como em qualidade. Nos últimos anos poucas empresas têm sido capazes de competir com a Nobre, o que é mau, pois não estimula a melhoria dos produtos e dos serviços no mercado.
É pois de saudar o lançamento do Vita Izidoro, uma nova salsicha de aves com 90% menos de gordura e um sabor idêntico ao das salsichas vulgares de porco. Já sou um fã! De realçar que as Salsichas Izidoro são fabricadas pela Sapropor, uma empresa do grupo português MIF – Manuel Inácio e Filhos, que inclui também outras conhecidas marcas, como a Dilop e a Damatta.

Aquelas latas com cenouras e/ou ervilhas da Bonduelle saem aos milhares nos supermercados da minha zona. Que sucesso impressionante, até já se vendem em embalagens de três! Cá em casa, chegamos a comprar 6 embalagens por semana. Que raio, porque além da marca ser estrangeira, o código nem sequer é 560… será que as outras marcas, andam distraídas? Devem ter certamente os números dos “market audits”. É que se não andam distraídas, até parece. Palavra de consumidor.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A imortalidade é possível?

Há cerca de ano e meio quando fui alertado para as conferências do TED (ver http://www.ted.com/), uma das intervenções que considerei mais interessantes foi a de Aubrey de Grey, que apareceu a defender a tese que era possível estender o número de anos de vida consideravelmente, já com as actuais tecnologias (Ver link para YouTube http://www.youtube.com/watch?v=8iYpxRXlboQ só em inglês).
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Esta figura barbuda de modos e falar excêntricos não me inspirou grande credibilidade, embora o facto de falar no TED já fosse um notável cartão de visita .

No.“Falar.Global”.(ver.http://sic.aeiou.pt/online/noticias/programas/falarglobal/), um interessante programa da Sic Notícias, o médico e professor Mário de Sousa, entrevistado por Reginaldo Rodrigues de Almeida, confirmou que desde há muito tempo se investigam estas coisas da longevidade, e que até já se conhecem quais os genes responsáveis, sendo possível prolongar a vida. O grande problema é o cancro. Ver abaixo pequeno excerto.



Parece então que esta nossa geração será uma das últimas a morrer cedo de velhice. As gerações futuras serão talvez uma nova espécie de ser humano, mais forte, mais inteligente, mais saudável, de aspecto jovem e com muito mais anos de vida. Aubrey de Grey tinha razão.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A Cantiga de Amor dos Radio Macau


Cantiga de Amor

Preferias que cantasse noutro tom
Que te pintasse o mundo de outra cor
Que te pusesse aos pés um mundo bom
Que te jurasse amor, o eterno amor

Querias que roubasse ao Sete-Estrelo
A luz que te iluminasse o olhar
Embalar-te nas ondas com desvelo
Levar-te até à lua para dançar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há de saber o que disseres

Talvez até pudesse dar-te mais
Que tudo o que tu possas desejar
Não te debruces tanto que ainda cais
Não sei se me estás a acompanhar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há de saber o que disseres

Podia, se quisesses, explicar-te
Sem pressa, tranquila, devagar
E pondo, claro está, modéstia à parte
Uma ou duas coisas, se calhar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há de saber o que disseres

Ver http://www.myspace.com/radiomacau

domingo, 6 de julho de 2008

O carácter amoroso dos portugueses por Teófilo Braga - II

(continuação)

Aproximando desta última frase de Jorge Ferreira o que Cervantes diz dos portugueses, que era “quase costume morrerem de amor”, vemos que esta característica fundamental ainda subsiste, como no século XVI e XVII… nas Epanáforas da História Portuguesa, escreve Dom Francisco Manuel de Melo: “o nosso natural é entre as mais nações conhecido por amoroso…”
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Os espanhóis o confessaram pela boca dos seus maiores génios; Lope de Vega, na sublime comédia de Doroteia, diz com uma ingenuidade encantadora: “Eu, senhora, tenho olhos de criança e alma de português”. E Vicente Espinel, no Escudero Marcos de Obregon, deixa este traço: “namorava a todas como um português”.
Madame de Sévigné, respondendo a uma carta sentimental, receia tornar-se uma portuguesa: “il me parle de son coeur à toutes lignes: si je lui faisais réponse sur la même ton, ce serait une portugaise ».
Balzac personificava a paixão desvairada no tipo ideal do português Ajuda-Pinto. Edgar Quinet, nas Vacances en Espagne, descreve as portuguesas como irmãs da Sacuntala [refere-se, creio eu, a uma história da tradição hindu envolvendo actos de heroísmo por amor], assim apaixonadas e tristes; e Camões explicava a metafísica do lirismo português pelo gosto que as mulheres sentiam com um conceito de Petrarca [1304-1374, cujos poemas são dedicados a uma mulher, Laura, cujo amor é inatingível] ou de Garcilasso [Garcilasso da Vega, 1503-1536, poeta espanhol do amor, muito influenciado por Petrarca].

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De facto o lirismo português distingue-se por este exaltado subjectivismo, sem analogia entre nenhuma das literaturas modernas; as Folhas Caídas de Garret, as Flores do Campo de João de Deus, algumas das elegias de Soares de Passos, e, como fenómenos de recorrência étnica no lirismo brasileiro, os versos de Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, exprimem o mais que a alma humana pode sentir na linguagem a mais comunicativa. As canções populares, a quadra improvisada, os despiques de conversados, os fados plangentes, a cantiga solta, são cheias de expressões profundíssimas de verdade, relâmpagos para dentro do mundo moral, revelações subjectivas que não derivam de uma especulação mental, mas de uma passividade inconsciente; são como vozes da natureza, desde o cicio [um sussurro, um rumor brando, como o da aragem nas folhas das árvores] até à tempestade.
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E nesta poesia de amor, os poetas e o povo entendem-se instintivamente, porque os fidalgos dos séculos XIII e XIV introduziram nos seus Cancioneiros a corrente tradicional das serranilhas [a canção pastoril que era uma das formas líricas dos antigos trovadores portugueses, dedicadas a mulheres serranas, daí o nome], e esta seiva orgânica da inspiração não foi desconhecida dos grandes líricos portugueses, como Cristóvão Falcão e Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Camões, Francisco Rodrigues Lobo, Dom Francisco Manuel de Melo, António Gonzaga, João de Deus, e especialmente os brasileiros.
É o amor o grande tema da literatura portuguesa, e a própria epopeia nacional dos Lusíadas, foi criada pelo “amor do ninho seu paterno”, como Camões o confessa com simplicidade. É por isso que todos somos poetas numa certa idade; poetas e soldados como Camões, Diogo do Couto, Heitor da Silveira; um grande número conserva a paixão da poesia nas lutas parlamentares, como Garret, nas especulações matemáticas, como José Anastácio da Cunha, no meio dos trabalhos anatómicos, como Soares Franco, e até na cadeira de ministros”.

Em Elementos da Nacionalidade Portuguesa, na Revista de Estudos Livres
Seleccionado por João de Barros em O Povo na Literatura Portuguesa

sábado, 5 de julho de 2008

O carácter amoroso dos portugueses por Teófilo Braga - I

A fazer fé em Teófilo Braga (1843-1924), os portugueses são muito dados a sentimentos exacerbados, em especial, no amor:

Tanto os escritores estrangeiros como os nacionais distinguem os portugueses pelo seu carácter amoroso; e a obra mais afamada das literaturas medievais, o Amadis de Gaula, funda-se sobre esse sentimento levado até ao heroísmo da fidelidade.
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As tradições de João Soares de Paiva, trovador que morre por uma princesa, de Dom Pedro I que coroa Inês de Castro depois de morta, do Beato Amadeu pela imperatriz Dona Leonor, de Bernardim Ribeiro por Dona Joana de Vilhena, de Cristóvão Falcão o poema de Cristovão Falcão [1512-1557], o cantor do Crisfal, por Dona Maria Brandão, dos Doze de Inglaterra, de Manuel de Sepúlveda por Dona Leonor de Sá, de Mariana Alcoforado, a apaixonada autora das Cartas da Religiosa Portuguesa, da fidelidade de Paulina que assombrou pela verdade do seu amor o próprio Casanova, que a exalta nas suas Memórias, todas estas tradições excedem o que há de mais extraordinário entre os outros povos.

Diante deste conhecimento, não admira que os escritores nacionais formulassem com tanto acerto esta característica. El-rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro, diz: “em geral, os mais de todos portugueses, são leais e de bons corações”; e, Gil Vicente, falando dos portugueses, na tragicomédia das Cartas de Júpiter, acentua-se:”São extremos nos amores”. Na comédia Eufrosina, Jorge Ferreira de Vasconcelos define admiravelmente este génio amoroso: ”E não me negueis ser esta a principal inclinação portuguesa e desta lhe veio a cavalheirosa opinião de primor que tem sobre todos esses outros, e estimarem as mulheres sobre todos…, como atilado, gentil, galante e nobre esposo, compadece todos os efeitos do amor puro, não consente mal em sua dama, não sofre ver-se ausente dela, busca de noite e de dia onde e como a veja, queria sempre estar com ela, emagrece com cuidados e má vida, muda toda a má condição em boa, queima-se por dentro em pensamentos que humilde representa em lágrimas e suspiros, sinais de verdadeira dor. Em todo o seu querer unido e conforme com o dela, constante em sua fé e chama sempre em suas afrontas, como a alcança nunca a deixa até à morte e assim a faz senhora de si mesmo; não pretende proveito, salvo o dela pelo qual comete afoito todos os perigos; nem dormindo perde dela lembrança, antes nisso se deleita, determinando viver e morrer com ela, se desespera mata-se ou faz extremos mortais, tudo isto e muito mais se acha no bom português”…

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(continua)