terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A Arte de Vieira da Silva (1908-1992)

'Arraial' - 1950
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Ver http://www.fasvs.pt/ (Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Serras de Azeitão - talvez o melhor vinho tinto na relação qualidade/preço

O Serras de Azeitão 2003 é um vinho com a garantia de qualidade do logo da Quinta da Bacalhoa, leve e muito agradável e neste momento penso que seja um dos melhores vinhos do mercado na relação qualidade/preço.
Tenho-o comprado por menos de 2,5 Euros e verifiquei que pelo menos o Jumbo e o Pingo Doce estão a distribui-lo. Acho que vale a pena comprar algumas garrafas antes que esgote. Estas coisas correm depressa.
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Ver mais e melhores informações em http://www.bacalhoa.com/

domingo, 27 de janeiro de 2008

Previsões económicas 2008, as bolsas e o resto.


É curioso a perspectiva como cada um vê os períodos de “quedas na bolsa”: há quem se escandalize e peça mais regulamentação e controlo do Estado, julgando que estas coisas se combatem por decreto e há quem entre em pânico, dizendo que estamos a entrar numa época de turbulência que irá terminar mal. Há mesmo quem procure demonstrar o “falhanço do capitalismo e da economia de mercado”. Importa por isso lembrar alguns factos de forma a pensar com sensatez:
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- A períodos de expansão sucedem-se regularmente períodos de recessão: porque a prosperidade das empresas, dos particulares e dos bancos, faz aumentar preços, sobretudo de bens de investimento, como os títulos da bolsa e os imóveis até um nível exagerado, o que obriga depois a uma correcção para baixo. É o que está a acontecer nos EUA (e será talvez a evolução a curto prazo em Espanha, depois de um muito prolongado período de crescimento). Isso tem também alguns aspectos positivos e não apenas inconvenientes.
- O aumento de preço do petróleo em dólares tem sido numa parte compensado pela valorização do euro face ao dólar e na outra parte tem tornado competitivas a sua substituição por fontes de produção de energia renovável, alternativas aos combustíveis fósseis e menos nocivas do ambiente.
- 2 a 3 biliões de pessoas estão a ter gradualmente acesso a rendimentos mais elevados e a níveis de vida mais dignos ( como nos países do BRIC, Brasil, Rússia, Índia e China).
- O reino do dólar está a terminar, o que é verdade como diz George Soros (ver “The worst market crisis in 60 years”, Financial Times, 23/01/08), pessimista convicto, mas isso também significa que o motor da economia mundial, hoje, já não são os EUA, mas os chamados países emergentes: não só são menos dependentes dos Estados Unidos, como são eles que “puxam” pela economia americana.
- As actividades de produção de bens e serviços é que suportam ou sustentam a actividade financeira das bolsas e dos bancos. Não é o contrário. Essas bases são mais sólidas do que a volatilidade dos mercados financeiros.

Há portanto que dar lugar a menos pessimismo: é muito possível que a “crise” seja menos dramática do que os pessimistas pensam e os radicais desejam e não provoque recessão mas apenas uma pequena desacelaração do crescimento económico mundial. Em 2007, a economia mundial cresceu próximo dos 5% e não é crível, de acordo com os “especialistas”, que esse valor possa ser menos do que 4% em 2008. Um bom crescimento, muito longe de qualquer imaginária recessão e um cenário também muito melhor para Portugal.
Ver por exemplo as declarações de Fred Bergsten do IIE (http://www.iie.com/) em Davos, há 3 dias atrás:

sábado, 26 de janeiro de 2008

Cerveja II: em Portugal.

Também em Portugal a cerveja é uma bebida muito antiga, popular e de fabrico artesanal. Em 1689, a Câmara de Lisboa mostra-se preocupada pelo consumo de cerveja pois pode prejudicar a produção do vinho.
Durante o século dezoito, devido aos interesses ligados ao vinho e à protecção desse sector pelas autoridades, era difícil que a produção de cerveja passasse de artesanal a industrial. Além disso, não existia uma cultura do lúpulo (planta necessária ao fabrico da boa cerveja - ver figura de uma plantação em Trás-os-Montes) suficiente para as necessidades. As cervejas estrangeiras já industrializadas, tinham melhor qualidade, e sabe-se que nobres e burgueses mais viajados, importavam cerveja do estrangeiro, designadamente de Bremen, Alemanha. A fuga da corte para o Brasil em 1807, foi factor de estabelecimento das primeiras fábricas de cerveja no Rio e em Petrópolis.
Tem-se conhecimento da primeira fábrica de cerveja em 1819, em Lisboa, mas que ainda lutava com dificuldades em ter o lúpulo necessário ao fabrico. Gradualmente durante o século dezanove, muitas cervejarias são abertas em vários pontos do país, tornando-se locais de convívio, de cultura e até de tertúlias intelectuais. As cervejarias mais famosas de Lisboa nesta época foram a Jansen da Rua do Alecrim, a Trindade (famosa pelos seus azulejos de inspiração maçónica - ver figura 'Terra') e a Leão (famosa por ter reunido o “Grupo do Leão” de que faziam parte entre outros, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro, Silva Porto e Malhoa). Era comum contrataram-se técnicos alemães (mestres cervejeiros), vindos da Alemanha, para dirigirem a fabricação de cerveja.
A única sobrevivente dessa época é a Trindade. Ver o excelente sítio http://www.cervejariatrindade.pt/
A industrialização do século vinte decorreu normalmente, criando-se as grandes empresas por todos hoje conhecidas, destacando-se:
- A Central de Cervejas fundada em 1934, que vai unificar a produção de várias cervejeiras importantes, entre as quais a Jansen, a Estrela e a Portugália e adquire também a Trindade um ano mais tarde (a sua mais famosa cerveja, a Sagres, é lançada em 1940 com a Exposição do Mundo Português).
- A Unicer foi criada em 1977 pela nacionalização e fusão da Imperial, da Copeja e da CUFP, a maior das três. A CUFP era uma empresa criada no Porto, ainda no século dezanove, em 1890, associando sete diferentes cervejeiras, todas do Norte (seis do Porto e uma de Ponte da Barca). A Unicer, privatizada em 1989-1990, é a cervejeira líder do mercado português e tem a marca mais vendida em Portugal, a Super Bock.

A Central é actualmente propriedade da cervejeira britânica Scottish and Newcastle (que a partir desta semana foi comprada por um consórcio entre a Carlsberg e a Heineken) enquanto que a Unicer é 56% portuguesa ( da Holding Viacer, que inclui Violas c/46%, Arsopi c/ 28% e BPI c/ 26%) e 44% da Carlsberg. Assim, a partir desta semana, a dinamarquesa Carlsberg ficou a ser a principal cervejeira em Portugal, detendo 50% da Central e 44% da Unicer.

Ver http://www.centralcervejas.pt/
Ver http://www.unicer.pt/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cerveja I: sua história.

Entre nós fala-se muito do vinho e menos da cerveja, como se esta fosse uma bebida moderna e sem relevância histórica, mas pelo contrário a cerveja é uma bebida muito antiga: há mais de 7.000 anos era já produzida no Médio Oriente - por Sumérios, Egípcios e Persas – e na China. Há quem sugira, que uma das mais fortes razões para a sedentarização dos povos pré-históricos, foi o cultivo de cereais com o intuito de fabricar cerveja.
Nunca se deixou de fabricar e de consumir cerveja até hoje, passando pelos vários períodos e povos, como os Celtas, os Gregos, os Romanos e durante a Idade Média, em todos os continentes, incluindo as Américas.
Ao mítico rei flamengo Gambrinus é atribuída a invenção da cerveja (o rei Gambrinus também dá o nome a um dos melhores restaurantes lisboetas).
No século dezanove, com a pasteurização (a partir de 1857, com Pasteur, possibilitando a destruição de indesejáveis microorganismos) e com a mecanização do processo produtivo, dá-se um grande desenvolvimento da indústria cervejeira.
Hoje o mercado das cervejas, maior que o dos vinhos, possibilita um negócio globalizado, e é composto por grandes marcas de grandes empresas multinacionais, e inclui também milhares de pequenos produtores locais.
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As figuras acima são de duas cervejas alemãs que francamente recomendo: a Hofbrau de Munique e a Beck's pilsener de Bremen. Sou um admirador assumido das cervejas alemãs.
Depois de umas boas cervejolas, para auxiliar a digestão, tome um digestivo tipicamente alemão, a Underberg.
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No próximo artigo vou falar de cervejas portuguesas: aqui na Santa Terrinha também temos os nossos trunfos.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Oferecer flores

São rosas, senhor, disse Santa Isabel. Não encontrei a Santa Isabel, mas encontrei por mero acaso na net uma loja on-line, em http://www.flores.pt/, que vale a pena visitar só para ver as fotografias de flores.

Se ainda não pensou em oferecer flores ou se já pensou, porque se calhar já viu alguém no seu local de trabalho receber um lindo ramo de flores, tem um sítio na internet onde pode comprar flores e mandar entregá-las em qualquer sítio do país ou do mundo - com a devida antecedência, pois claro. São bonitas, é um acontecimento recebê-las e depois, nunca nos arrependemos.
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Para ter flores, não precisamos todos de ser santos e oferecer flores continua a ser uma grande ideia.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Menina-maravilha: Nelly "Nelinha" Furtado


All Good Things, ao vivo, em Paris. Ver a ainda melhor [espectacular] versão ao vivo do DVD Loose: the Concert, no sítio da Nelinha em http://www.nellyfurtado.com/video/ (o qual se encontra também no YouTube, colocado pela editora musical da artista, o grupo Universal).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O "cluster" do Mar


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Julgo que nos tornámos menos atentos às questões relacionadas com o Mar, sobretudo depois da adesão à União Europeia. Para a maior parte dos portugueses, o Mar ainda tem principalmente que ver com os descobrimentos dos séculos XV e XVI e com as pescas, mas na realidade o Mar tem um valor que em muito ultrapassa as pescas. Listemos apenas algumas actividades ligadas ao Mar:

Comércio e transporte marítimo
Fiscalização económica e de policiamento marítimo
Monitorização da poluição e da fauna e flora marítima
Prospecção e extracção de petróleo e de gás natural
Energia eólica, das ondas e das marés.
Geotermia
Biotecnologia
Aquacultura
Conservas
Construção e reparação naval
Fornecedores de diversos materiais, equipamentos (por exemplo, o preço de um barco é sobretudo o dos seus equipamentos) e serviços
Rede portuária e de terminais
O mundo do Turismo nas zonas costeiras, que inclui o aproveitamento das praias, desportos marítimos, pesca submarina e desportiva, marinas para barcos de recreio, alimentação ao nível da restauração, cruzeiros, cultura, etc)
Educação e formação e pesquisa e desenvolvimento, que inclui também o ensino universitário, a investigação científica e a formação profissional

Estas são algumas das actividades, para além das pescas, que nos podem dar uma imagem do que poderá ser o “valor económico" do Mar. É difícil estimar o potencial deste “sector”, mas ficamos com a noção de que é enorme.
Num país com uma agricultura pobre, mas com uma imagem histórica de país ligado ao Mar, com um povo e um território litoralizado, com as ilhas dos Açores e da Madeira e a maior zona marítima da Europa, deveríamos ter uma elevada competência e competitividade nesta área.

Ernâni Lopes tem sido uma das pessoas em Portugal a alertar para a necessidade de desenvolver um "cluster" (ele chama-lhe "hipercluster") do Mar. Ver o muito interessante sítio http://www.saer.pt/

Um "cluster" é "uma concentração geográfica de companhias e instituições interligadas num determinado ‘sector ou área’ de actividade" e "clusters fortes permitem o aceder dos negócios a recursos que as empresas não poderiam individualmente aceder, tais como: conhecimento científico e tecnológico, mercados de exportação, distribuição comum e marketing". Num "cluster" há o benefício da proximidade e das ligações de uns com os outros.
Ver relatório em
http://ec.europa.eu/maritimeaffairs/pdf/Maritime_clusters_SEC_2007_1406.pdf

Não será já altura de constituirmos um importante cluster do Mar, e nos associarmos à Rede Europeia de Clusters Marítimos (European Network of Maritime Clusters) que inclui a Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Polónia, Suécia e Reino Unido?

E este desígnio do Mar, até será uma "visão" fácil de entender pelos portugueses e de transformar em "missão" e em "motivação". Os textos dos nossos grandes poetas também nos apontam esse caminho, como é o caso de Sophia, nossa poetisa maior:

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta, por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos

Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

António Feijó em repetição




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Não repares na cor dos meus cabelos
Sem ler primeiro Anacreonte*,
Verás que os sonhos juvenis, mais belos,
Também se evolam de enrugada fronte.

O espírito do poeta é sempre moço,
O coração nunca envelhece...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nele se ilumina e aquece.

Muita vez os cabelos embranquecem
Na dor de horríveis sofrimentos...
Não são os anos que nos envelhecem;
São certas horas más, certos momentos...

Em Cabelos Brancos.

* Velho poeta grego

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A Arte de Carlos Botelho (1899-1982)

Tapeçaria, colecção particular.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O Velho, o Rapaz e o Burro

Figura da antiga Olaria Manuel Grandela, Sobreiro, Mafra.

Querendo vender seu burrico, um lavrador levava-o à feira, e para ter com quem pelo caminho palestrasse, fez-se acompanhar por seu filho, mocetão de uns quinze anos. Querendo que o burro chegasse descansado, para agradar aos compradores, os dois campónios iam a pé puxando-o pelo cabresto. Onde se viu isto! disseram alguns almocreves vendo-os passar. O burro todo lépido, tendo tão belo costado; e dois marmanjos a pé, palmilhando a estrada: será penitência que fazem, ou promessa que cumprem? O lavrador não deixou de achar-lhes razão e disse: “Filho, está me parecendo que esses tratantes não lembram mal; é parvoíce ir eu, já velhusco e cansado, andando a pé, enquanto o burro vai folgado como um fidalgo. Eu monto pois, e tu vai tocando.”
Dito e feito, o lavrador se escarrapacha em cima do burrico. Sucedeu passarem duas moças: “Que desaforo! disseram: um homenzarrão, forte e valente, bem repimpado, e o pobre do menino a pé arfando para acompanhar o burro!” O lavrador refletiu no caso, e reconhecendo que era injustiça deixar o filho a pé, disse-lhe: “Monta aqui na garupa, rapaz; hás de estar cansado.” O moço não esperou que segunda vez lho dissesse, e encarapitou-se atrás do pai.
Passaram então alguns lavradores: “Oh! lá!” disseram, “parece que essa gente quer levar à feira, não um burro, porém a sua pele; como vão repimpados, e o pobre animal nem já fôlego tem.” O lavrador pensou um pouco, e disse: “Filho, eu vou apear-me, fica tu montado, e andemos depressa”. Assim se fez.
Caminharam algum tempo, e julgava o lavrador que tudo iria bem quando encontraram um mercador, e este, achando feio que o moço fosse montado e o velho a pé, perguntou: “Então, meu principezinho, onde viu Vossa Alteza que, para fazer jornada, é conveniente trazer lacaios da idade desse que o acompanha?” — Lacaio, eu! disse o pai, não, não podemos dar ocasião a tais afrontas; filho, apeia-te, carreguemos o burro às costas; é o que nos falta experimentar, para ver se tapamos a boca do mundo. Assim fizeram; o burro andou pela primeira vez montado, e não diz a história que com isso muito se afligisse. Mal porém viram a súcia alguns rapazes desataram às gargalhadas. “Qual dos três é mais burro?” perguntaram. “Sou eu, senhores”, respondeu o lavrador, “eu que por todo o caminho levei a ouvir os remoques de cada um, e a obedecer-lhes; eu que juro daqui por diante proceder como entender, sem dar ouvidos aos ralhos dos outros, e às suas observações.”
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MORAL DA HISTÓRIA: Em tudo e por tudo, consulta a tua consciência e obedece-lhe; se quiseres tapar a boca do mundo nunca o hás de conseguir.
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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) por Justiniano José da Rocha (1812-1863).
Ed. Ridendo Castigat Mores, de Nelsom Jahr Garcia, Brasil.

Em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/fabulas.html#97

domingo, 13 de janeiro de 2008

O barco "rabelo"

A montanha palpita de fartura. O homem revê-se nos vinhedos. A montanha transuda ouro e ambrósia. E agora? Quem irá gastar esse ouro e sorver essa ambrósia – encerrados naquela fortaleza, entre muralhas de xisto?
Não há prodígios de engenharia que domem os abismos, que transponham as eminências de modo a assegurar o passo fiel às recuas dos almocreves, ou aos animais de tracção para o trânsito dos vinhos até aos grandes centros de consumo.
Então o duriense, já adestrado na arte de lutar e de vencer, fita os olhos no rio.
O rio! E vê-o torvo, convulso de cachões, em doidas arremetidas de pocesso, em sôfregos redemoinhos de avarento quando o inverno o fustiga – invadindo-lhe a vinha e o pomar, levando-lhe casa e adega. E vê-o sorvido pela sede do sol de verão, mesmo “na mãe”, cansado e esquelético, não dando colo ao bojo duma canoa.
E nas águas médias? Sim, ainda tem as águas médias, as das chuvas novas, a dos benéficos períodos sem temporais, as que nem são tão bravas que destroem, nem tão mansas que desfalecem.
Mas lá estão os cachões, os “pontos” e “galeiras” a perturbarem-lhe a marcha impetuosa – para os quais não há barco seguro.
Ah, esperem! Pensa e repensa, concerta e reconcerta, experimenta e reexperimenta – encontrando por fim. Sim senhor. Encontra o que procura, a salvação e a prosperidade. Vai ao barco grego de Ovar e copia-lhe a prôa investigadora de trireme. Toma a barca fenícia do Mondego e reproduz-lhe o fundo chato do cavername. Ao barco romano das invasões tira-lhe o “gobernaculum”, o leme em rabo de raposa – como já havia copiado para as podas da videira a foice ou o podão latino, “curvo Saturni dente”. Aparelhado o bojo do cavername, assente na “chumaceira”, no espigão da ré, ou “óca da ré”, o comprido leme, ou “espadéla”, ergue-lhe a um terço da popa a ponte de comando para a manobra do leme – a “apegada”. No ângulo agudo da popa forma um cacifo afunilado, o “coqueiro”, destinado à condução de roupas e mantenças. E de todos estes elementos conjugados faz o barco “rabelo” – o único barco capaz de vencer os cachões, o maior auxiliar do homem do Douro, o colaborador admirável da sua riqueza e da sua opulência, o primeiro colaborador da fama universal dos seus vinhos.
(...) O rio Douro apesar do “rabelo” e das suas condições especiais de resistência e de navegabilidade, nunca deixou de ser o “rio de mau navegar”. Ao longo de séculos de tráfego, tráfego servido por milhares de braços – pois antes da filoxera e do comboio eram dez mil os “marinheiros” que anualmente faziam o transporte de vinhos e cereais, de passageiros e animais domésticos – o pego (*) devorou milhares de vidas em centos de naufrágios.
Daí o terror do naufrágio, o medo da morte e o apego ao céu. Daí as imagens de santas e santos protectores, debuxados na face dos rochedos sobranceiros aos cachões de maior perigo: - no da “Cachucha” a da Senhora do Carmo; no de Arêgos a de S. José; a da Senhora da Cardia no da Pala.
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(*) Ponto mais fundo de um rio onde não se tem pé.

Em Milagres de Portugal de Sousa Costa, ed. Portugal-Brasil, 1925.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Flexisegurança II – O que é ?

A Flexisegurança é assim chamada pois faz a mistura entre a total liberdade de contratar e de despedir trabalhadores por parte das empresas [flexibilidade] e a máxima protecção ao desempregado que ganhará quase tanto como se estivesse empregado [segurança].
Há quem apelide a Flexisegurança de modelo “híbrido”, pois junta o que há de mais liberal no modelo anglo-saxónico americano com o que há de mais protector no modelo social europeu-escandinavo.

Os dinamarqueses dizem que só é possível pôr a funcionar o sistema com êxito quando existe concordância entre trabalhadores, empregadores e o estado, por isso apresentam o sistema como um triângulo:
A- Regras flexíveis para contratar e despedir, podendo as empresas despedir em fases de recessão e contratar em fases de expansão.
B- Garantia para o trabalhador desempregado sobre o rendimento a receber, legalmente fixado, próximo do rendimento que receberia se estivesse a trabalhar
C- Serviços de emprego que oferecem emprego e/ou orientação profissional e/ou formação a todos os desempregados.

Não se pense que uma pessoa num sistema destes pode receber o ordenado em casa sem quaisquer deveres [visto que poderia haver a tentação de passar o resto da vida a receber o ordenado, sem trabalhar]. O trabalhador deve apresentar-se periódicamente, e tem de aceitar o trabalho proposto que corresponda ao seu perfil ou submeter-se a um plano de reorientação profissional (caso seja mais difícil encontrar emprego compatível com as anteriores funções).

O modelo parece funcionar muito bem na Dinamarca, onde a mão de obra é muito qualificada e bem remunerada e o leque salarial (a diferença entre os ordenados mais elevados e os mais baixos) é dos mais pequenos do mundo.
A Dinamarca é um pequeno país com apenas 5,5 milhões de habitantes e população activa de 2,8 milhões.
Uma das mais extraordinárias consequências do sistema é que todos os anos, 800 mil postos de trabalho sofrem alterações importantes sejam reestrurações, promoções, mudanças ou despedimento. Em cada ano são destruídos 300 mil empregos e criados 300 mil novos empregos. Esta elevadíssima dinâmica constitui uma vantagem competitiva muito importante para as empresas e a economia, segundo os governamentes da Dinamarca. Mas, não se pense que o sistema apenas beneficia as empresas: o desemprego na Dinamarca é metade do da média europeia.

Uma família que tem o azar de um dos seus cair no desemprego, sobretudo quando há a habitação e a educação dos filhos a pagar, pode de repente, ter a sua vida muito dificultada, caso a protecção no desemprego não exista. Por isso, num país como Portugal, os desempregados e os trabalhadores com contratos a prazo, seriam óbvios beneficiados de um sistema como o da Flexisegurança

O cântico da sereia é tentador, mas muitas dúvidas se podem ainda levantar, por exemplo no apoio à doença ou à maternidade, situações muito variáveis de país para país. É um debate que está agora por fazer a nível europeu. De acordo com o índice de desenvolvimento humano (IDH) da ONU a Dinamarca é o 14º país do mundo, enquanto Portugal é o 29º.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A Flexisegurança I – Diagnóstico

O desemprego é um grave problema social que aflige a economia europeia desde os anos 70 sem interrupção. Pode-se afirmar que já se tornou num problema estrutural e crónico das economias europeias.
Um trabalhador desempregado, devido aos subsídios de desemprego (apesar de baixos e limitados no tempo), fica muito caro ao Estado e por isso uma elevada taxa de desemprego constitui um encargo enorme para o orçamento público, e é um drama pessoal e social com enorme peso político.
A maneira que os governos europeus encontraram para tentar resolver este problema, foi dificultar aos empregadores o despedimento dos trabalhadores, criando custos elevados para as empresas que façam despedimentos.

As empresas, em particular as pequenas e médias empresas, decidem por isso muitas vezes, em optar por admissões apenas a curto prazo, através de contratos a termo certo ou por soluções de “aluguer temporário” de trabalhadores (tipo “Manpower”), poupando assim elevados custos de indemnizações, caso seja necessário despedir, muito embora os governos tenham legislado para limitar os contractos a prazo.

A combinação destes factores traduziu-se, na práctica, num aumento efectivo do número de desempregados e no aumento dos empregos precários. As empresas têm receio em aumentar o seu número de trabalhadores efectivos em toda a Europa. Chegámos a um ponto em que nem os trabalhadores estão satisfeitos nem as empresas.

O problema parece não ter cura e poder vir a agravar-se devido à concorrência das novas economias emergentes asiáticas, fortemente exportadoras, concorrentes em muitos sectores empregadores como os texteis ou o calçado (a recente valorização do Euro face ao dólar, dificultando as exportações para os EUA tende também a agravar o problema).
Estes países asiáticos pagam salários muito baixos e daí ouvirem-se acusações na Europa de “dumping social”, mas já todos perceberam que a via europeia não pode ser a do proteccionismo: são países que também constituem mercados com enorme potencial para a Europa.

Há apenas um país europeu onde o despedimento é fácil para as empresas e todos os estudos revelam maior satisfação também por parte dos trabalhadores: a Dinamarca, que adoptou um modelo novo de mercado de trabalho, chamado flexisegurança (flexicurity em inglês).

A Dinamarca tem também uma das mais baixas taxas de desemprego da Europa, o que levou os outros países da União Europeia a decidirem tentar adaptar o modelo da flexisegurança aos seus países, assinando no final do ano passado, em Lisboa, uma declaração de princípios orientadores para a execução desse objectivo.

Mas em que consiste a Flexisegurança?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Os melhores sketches dos Monty Python – Imperdível.

Concordei com escolha dos “sketches”, gostei muito (até faz parecer fácil...) da adaptação dos textos feita por Nuno Markl e foram excelentes, os actores Miguel Guilherme, José Pedro Gomes, Jorge Mourato, António Feio e Bruno Nogueira. Por vezes tive a sensação de estar a assistir não apenas a uma selecção dos “melhores”, mas a um “remake” do famoso espectáculo dos Monty Python no Hollywood Bowl: a abertura é a mesma, a opção por fazer circular Miguel Guilherme pela plateia ou a escolha dos adereços, tudo nos faz lembrar essa actuação.
É um grande momento de teatro: primeiro, por vermos reunidos no mesmo palco dos melhores actores comediantes que temos em Portugal e segundo, pelo gozo que dá estarmos a presenciar a recriação daqueles momentos tão famosos dos Python.

Um prazer que todos merecemos ter, para alegrar os nossos dias.
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Depois destes espectáculos no Casino Lisboa, irá ser organizada uma digressão para percorrer vários pontos do país.
Ver também http://www.uau.pt/

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Futurologia 2 - Ensinar para a Mudança.

A verdade é que não sabemos e não podemos prever o futuro, mas precisamos de compreender que a educação para a sociedade industrial ainda condiciona o modelo educativo das nossas sociedades, que é conservador e de cátedra:
- formar para a disciplina e a obediência
- o educando deve ser um sujeito passivo
- o erro deve ser sobretudo penalizado
Este ensino [do antigamente] pretendia criar uma multidão de disciplinados trabalhadores sem iniciativa que constituissem uma força laboral eficaz e eficiente. Cada trabalhador escolheria uma especialização e depois teria o mesmo trabalho na mesma empresa ou no mesmo sector durante muitos anos.

Hoje em dia as empresas duram poucos anos sem importantes reestruturações: abrem, compram, são compradas, juntam-se a outras, separam-se, aliam-se, fecham, deslocalizam-se, etc, etc, sempre com quase tudo em permanente mudança. As palavras chave da economia passam a ser a inovação e o empreendedorismo. Neste quadro, será difícil a um profissional manter-se uma vida inteira no mesmo posto de trabalho a fazer a mesma coisa. Ele vai ter de mudar, mais de uma vez ao longo da sua vida profissional. Por isso, o ensino deve ser dinâmico, promover a competição, a entre-ajuda, a procura, o trabalho de equipa, colocando os formandos perante a necessidade de adquirir competências diferentes para enfrentar problemas mais complexos:
- formar para acreditar em si próprio e para a iniciativa
- o educando deve ser um sujeito activo
- o erro deve servir para se aprender a corrigir (só quem é passivo é que não erra).

Este novo ensino, pós-industrial, será tanto mais eficaz quanto mais cedo começar: é nas idades mais jovens que se desenvolvem as capacidades fundamentais como a curiosidade, o gosto de resolver problemas, o domínio da língua e da aritmética.

Considero muito interessante a leitura destes dois livros:
- Educar para o Optimismo, de Helena Águeda Marujo, Luís Miguel Neto e Maria de Fátima Perloiro, ed. Presença. O primeiro capítulo começa com esta citação de autor desconhecido: “Se fizeres o que sempre fizeste terás o que sempre tiveste”.
- Does Education Matter?, de Alison Wolf, ed. Penguin. Discute a relação nem sempre óbvia entre ensino e crescimento económico.
Para quem perceber inglês, valeria também a pena ouvir esta pequena conversa do TED por Ken Robinson:


quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Futurologia 1 – Os optimistas e os pessimistas

Não há nada como começar o ano de 2008 a tentar fazer futurologia...

Identifico muito claramente, pelo menos desde o início anos setenta, as duas correntes sobre a evolução das sociedades: a dos optimistas e a dos pessimistas, esta última dominante.

A visão pessimista
A tese dos pessimistas é que os recursos básicos (energia, alimentos, matérias primas) vão esgotar e o aumento da poluição será insustentável. Talvez o mais famoso relatório pessimista tenha sido o elaborado pelo Clube de Roma em 1972 (chamado “limites ao crescimento” que por exemplo previa o esgotamento dos recursos petrolíferos em 1992...).
Segundo os pessimistas o crescimento económico dos países emergentes (caso da China e da Índia), constitui um perigo para o planeta devido ao esgotamento dos recursos e à poluição.
As correntes de opinião negativas são dominantes: ao nível dos meios de comunicação social (a informação negativa vende melhor), dos comentadores (pagos para criticarem tudo e todos), dos artistas e dos intelectuais mais populares, de todas as oposições políticas, sindicais, patronais, etc. Ser pessimista quanto ao futuro é melhor aceite socialmente.

A visão optimista
A tese dos optimistas é que o desenvolvimento tecnológico é suficiente para provocar mudanças qualitativas que garantam um melhor aproveitamento dos recursos energéticos, alimentares e outros, estando garantida a evolução positiva do crescimento económico com cada vez menor pressão sobre o ambiente e uma forte diminuição do crescimento ou mesmo eventual estabilização da população mundial.
Os optimistas mais conhecidos são Alvin Toffler (ex: A Terceira Vaga) e os falecidos Peter Drucker (O “Pai” da Gestão) e Herman Khan (do Hudson Institute).
Os optimistas são os “empreendedores” e os homens políticos que nos governam. Precisam de ser assertivos e construtivos e para além dos problemas descortinarem as oportunidades que hão-de ser os guias da sua acção.
Os optimistas caem muitas vezes no erro de confundirem os seus desejos com a realidade, minimizando os problemas e focando-se em oportunidades e vantagens que não existem de facto (a este erro, chamam os anglo-saxónicos “whishful thinking”), e é motivo para o falhanço de muitas estratégias.

Há grandes vantagens em ser optimista: apela-se à acção e não à passividade pelo que se é mais empreendedor. Os meios sociais mais imobilistas e pessimistas tendem mais a criticar as falhas do que a aplaudir o sucesso.
Para uma sociedade ser mais realizadora tem de ser mais optimista.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Monárquicos vs Republicanos III: a Ditadura Militar.

Após o golpe do 28 de Maio de 1926, menos de 16 anos depois da instauração da República, Portugal encontrou-se governado por uma ditadura militar. Se a 1ª República tinha sido um período conturbado até à ditadura de Sidónio, a partir daí é uma indescritível confusão de golpes e de contragolpes. A Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921 [com os assassinatos de António Granjo e de Machado dos Santos], foi a prova que uma imposição da ordem pelos militares estava próxima. É curiosa a unanimidade na sociedade portuguesa sobre o movimento do 28 de Maio de 1926, juntando esquerda e direita, monárquicos e republicanos. Mesmo um jornal “clandestino de esquerda” como “O Reviralho” confessava que a “revolução militar” do 28 de Maio tinha parecido “oportuna e necessária”.

Em Janeiro de 1928, quando a ditadura militar agora dirigida por Carmona já assumia contornos claramente anti-parlamentaristas, escreve Fernando Pessoa, como justificação da ditadura militar [em “Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal”]:

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O facto essencial é este: Portugal é metade monárquico, metade republicano. Em Portugal presente, pois, o problema institucional é inteiramente irresolúvel (...). Estamos divididos porque não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional de nós mesmos (...) quando o país está assim organicamente dividido, metade oposta a metade, está criado o estado de Guerra Civil – de guerra civil pelo menos latente. Ora, num estado de guerra, civil ou outra, é a Força Armada que assume a expressão Poder”.

O assunto não era de somenos importância. Na vizinha Espanha a Guerra Civil estalava uns anos depois entre republicanos e monárquicos. O sentimento em Portugal foi que todos perceberam aquilo que tinha sido evitado.

O regime saído do 28 de Maio de 1926 disfrutou de largo apoio social durante todo o período que foi até ao fim da Segunda Grande Guerra. Os nossos avós e bisavós eram na sua maioria salazaristas, não por serem “fascistas”, mas por preferirem, em contraponto com o período precedente, a segurança de um governo de aparência disciplinadora. Foi uma oportunidade perdida o regime não se ter aberto e democratizado após a Guerra: a avaliação sobre o Estado Novo e Salazar seriam hoje diferentes.
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Os últimos 20 anos do Estado Novo, de má governação, de atraso atávico e de criminosa guerra colonial acabaram por marcar o regime e o país pela negativa: uma difícil herança para o regime resultante do 25 de Abril de 1974.