quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

As receitas de 1950 da Fábrica Portugal de fogões

Tirei duas receitas dum pequeno livro de receitas de 1950, um brinde distribuido pela fábrica de fogões Portugal. Nesta época ainda se fabricavam fogões para carvão e lenha como se pode verificar pelo anúncio da figura ao lado.
Em todas as páginas de receitas do livro, encontramos uma frase sobre os fogões Portugal: "Cozinhar num fogão a gás da FÁBRICA PORTUGAL é ter a certeza de um bom êxito!"; "O fogão a gás da FÁBRICA PORTUGAL coze, assa, grelha...e não suja"; "O fogão a gás da FÁBRICA PORTUGAL é, de todos, o mais económico"; "Onde um fogão a gás da FÁBRICA PORTUGAL intervém, o conforto passa a existir a qualquer hora"; "O fogão esmaltado para carvão e lenha da FÁBRICA PORTUGAL satisfaz cabalmente as exigências da melhor cozinheira"; "São de extremo asseio e economia os fogões para carvão e lenha que a FÁBRICA PORTUGAL fabrica"; "De fácil limpeza, óptimo funcionamento e máxima economia, são as características dos fogões pretos com guarnições esmaltadas da FÁBRICA PORTUGAL"; "É nota de bom gosto a aquisição de um fogão da FÁBRICA PORTUGAL"; "É melhor experimentar que julgar. Compre um fogão da FÁBRICA PORTUGAL" e no último anúncio "A Fábrica Portugal garante a boa qualidade e eficiência dos seus fogões - Exigir em toda a parte fogões da Fábrica Portugal".
Aqui vão as duas receitas: o pato com arroz à portuguesa, uma delícia mas que dá algum trabalho e uma receita de um doce simples de fazer e muito saboroso.
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PATO COM ARROZ À PORTUGUESA

Para 4 a 6 pessoas:


1 pato bem gordo, 1 litro de água, 5 gramas de sal, 1 cebola mediana, 6 bagos de pimenta, 100 gramas de toucinho, 150 gramas de presunto crú, 250 gramas de chouriço, 1 cenoura mediana, 50 gramas de manteiga, 250 gramas de arroz carolino.

Com os miúdos do pato faz-se um caldo com um litro de água fria, 5 gramas de sal, 1 cebola mediana cortada miúdo, meia dúzia de bagos de pimenta, uma tira de toucinho, 150 gramas de presunto e uma cenoura picada.
Em estando tudo bem cozido, deita-se no caldo o pato bem limpo, com as pernas e asas travadas, em caçarola onde caiba mal. Estando o pato quase cozido, tira-se, corta-se aos bocados e põe-se em travessa ou tabuleiro em que tenha de ser servido e que possa ir ao lume (porcelana ou vidro Pyrex) deixando-o no forno com lume muito brando enquanto com o caldo da cozedura, aproveitando a gordura toda que tiver, se faz um arroz nas devidas proporções para ficar bem solto (arroz de manteiga). Estando o arroz pronto, rodeia-se com ele o pato na travessa, alisa-se bem a superfície, pondo por cima o presunto e o toucinho cortado às tiras, o fígado, a moela e o chouriço também cortados que se cozeram previamente numa caçarola à parte. Deita-se manteiga por cima do arroz e leva-se ao forno a corar o pato e o arroz. Serve-se bem quente.
Também se usa fazer a operação final em pequenas tigelas de barro para serviço individual. Para isso põem-se bocados de pato nas tigelas, cobrem-se com o arroz cozido indo ao forno a corar, servindo-se nas tigelas.


DELÍCIAS DE ABADE

Batem-se oito claras até ficarem em castelo duro. A seguir deitam-se numa vasilha maior com um quilo de açucar em pó e o sumo de três limões grandes ou de quatro laranjas. Bate-se durante meia hora e, depois, com uma colher, das de sopa, dispõem-se pequenas quantidades desta massa sobre folhas de hóstia, tudo em tabuleiro a cozer em forno de calor brando.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Essencial da Compal: um pequeno grande produto (mas de abertura ainda difícil).

Sou um fã da Compal e um consumidor da primeira hora da sua linha de produtos “Essencial” [ou Essential? Para quê esta provinciana utilização de palavras estrangeiras?], em especial da pêra [uma pêra - one pear]. Desde o início que verifico a dificuldade em abrir, desapertar ou fazer rodar a tampa do produto. Constatando esse facto, a Compal lançou um novo Essencial com tampa de “abertura fácil”, mas muito sinceramente, não acho que se tenha conseguido resolver o problema: aquela operação de abrir o produto continua a ser uma grande chatice. Seria importante que a questão pudesse ser resolvida, mas mantendo a actual embalagem de design muito feliz e apelativa e ligada ao conceito do produto. E não parece ser de muito difícil resolução: o que não devem faltar por aí, são tampas que isolam os produtos e têm abertura fácil.
Caso contrário, o produto ainda se arrisca a morrer...pela tampa. Seria uma pena.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A Carta - Pintura de Alfredo Keil (1850-1907)

A Carta, 1874, Museu do Chiado
























Alfredo Keil pode ser mais conhecido como músico do que como pintor, mas não há dúvida que pintava muitíssimo bem, como se demonstra através deste seu famoso quadro. Chamem-lhe “romantismo tardio” ou o que quiserem. Há uma ternura neste quadro e uma atenção aos detalhes que o tornam numa maravilha. Olhamos para ele e é como se estivessemos a ver uma cena de um romance de Júlio Dinis.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Turismo Cultural da Martin Randall Travel

O Porto em 1870
A agência de viagens britânica Martin Randall Travel [MRT], ganhou no passado dia 15 de Janeiro o prémio de melhor agência do ano. É uma agência especializada em “turismo cultural”. Uma excursão da MRT tem habitualmente um número muito limitado de excursionistas, as viagens de avião são em companhias de bandeira e é nomeado um responsável cultural, não confundir com um mero “guia”, geralmente um académico especializado sobre o tema da viagem que pode ser Arte, Arquitectura, Gastronomia, Arqueologia, História, Música ou de tudo um pouco. As excursões são mais caras que o habitual, mas o preço, para quem pode pagar, é compensado pela qualidade.

Claro que estas viagens não são organizadas para “turistas de praia”, mas para “well-read, intellectually curious people”. O Daily Telegraph, primeiro jornal inglês de referência, diz que a MRT é o “especialista líder em viagens culturais”. Nos seus catálogos estão incluídas cerca de 200 excursões, tais como: a História da Arte de Veneza, a Turquia Otomana, Le Corbusier, o Festival de Música do Danúbio, etc.

Sobre Portugal encontramos algumas excursões, como por exemplo a “Arte, Arquitectura e Paisagens no Douro” (do Porto ao Pinhão, por barco e comboio) ou esta que me chamou mais a atenção: “Wellington e a Península”, uma viagem de Portugal aos Pirenéus conduzida por Ian Fletcher, um profundo conhecedor das Invasões Francesas, que escreveu vários livros e colaborou em documentários da BBC, Channel 4 e Canal História, sobre este tema.
Ver http://www.martinrandall.com/tours/mv139.php

Estamos sempre a aprender.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A poesia de Fernanda de Castro (1900-1994)













Asas

Eu tenho asas!
Piso o chão como pisa toda a gente
mas tenho asas
de impalpável tecido transparente,
feitas de pó de estrelas e de flores.
Asas que ninguém vê, que ninguém sente,
asas de todas as cores.
Pequenas asas brancas que me afastam
das coisas triviais
e as tornam leves, fluidas, irreais
- pólen, nuvem, luar, constelações,
irisados cristais.
Asa branca minha alma a palpitar,
bater de asas o doce ciciar
de pálpebras e cílios.
Ó minhas asas brancas de cetim!
Revoadas de pássaros meus sonhos,
meus desejos sem fim!

em “Exílio”, 1952.
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Alma, Sonho, Poesia
Entrei na vida
com armas de vencida;
Alma, Sonho, Poesia.
Quando eu cantava
o mundo ria
mas nada me importava:
cantava.
Depois, um dia,
o mundo atirou pedras ao meu canto
e a minha alma rasgou-se.
Que seria?
Medo, espanto,
revolta ou simplesmente dor?
Fosse o que fosse,
o orgulho foi maior.
Com dez punhais nas unhas afiadas
nos olhos azuis duas espadas,
eu nunca mais seria, nunca mais,
a que entrara na vida
com armas de vencida.
Agora o meu querer era mais fundo:
de um lado, eu, do outro, o mundo.
E começou a luta desigual
do tigre e da gazela.

A vencida foi ela.
Mas que louros colheu dessa vitória
o mundo cego e bruto?
O sangue dos Poetas? Triste glória...
Cinza de sonhos mortos? Magro fruto...
Oh, não, punhais e espadas!
Eu só quero cantar! Não quero ossadas
nem, sob os pés, um chão de campas rasas.
Eu só quero cantar! Só quero as minhas asas
e a minha melodia:
Alma, Sonho, Poesia...
Alma, Sonho, Poesia...

em “Exílio”, 1952..
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Ao comentar estas poesias de Fernanda de Castro*, Ana Hatherly dizia com razão, que “todos os poetas têm asas”. Nós acrescentamos que só muito poucos as conseguiram descrever tão bem, como Fernanda de Castro.
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* Fernanda de Castro foi mulher de António Ferro (1895-1956) e mãe de António Quadros (1923-1993).

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A Noite III – A “noite técnica”

Candeeiro de Lisboa
Com a chegada da luz artificial a iluminar os locais públicos, deixou de existir dia e noite, e passou a ser sempre dia, em especial nas cidades, onde se perdeu também a visibilidade do céu nocturno, devido ao clarão das luzes eléctricas.

A primeira tentativa de iluminação nocturna em Lisboa, foi iniciativa de Pina Manique em 1780 que manda colocar candeeiros de azeite. Só a partir de 1848 se inicia a iluminação a candeeiros a gás, com uma luz muito mais forte. Joel Serrão, historiador estudioso do século dezanove, designa a nova luminosidade como “noite técnica” que teria vindo substituir a “noite natural” e cita o livro “Lisboa de Hontem” de Júlio César Machado, escrito em 1870, que compara o antes com o depois:

“Era a inocência de uma povoação pacata (...). À noitinha fechavam-se as lojas (...). Toda a gente recolhia cedo (...) Vivia-se contente assim. Nisto apareceu a polca e iluminou-se a cidade a gás. A impressão que estes dois factos produziram em Lisboa foi de tal ordem, e mudou logo tudo, mas tudo, tão de repente, que até o céu, limpo e transparente, que tínhamos, nunca mais foi como era!...”

A utilização da luz eléctrica vai iniciar-se relativamente cedo em Portugal, a partir de 1889. No entanto, o uso da lâmpada eléctrica cresce lentamente, só começando a substituir generalizadamente o gás, após a guerra de 14-18.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

A Noite II – Agitadas por um mar sempre em movimento

Pedro Nunes, o maior cosmógrafo português do século dezasseis
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Enquanto a noite nas nossas casas é algo de silencioso e de parado, a noite no mar é totalmente diferente. Primeiro porque o mar é a parte da superfície do planeta [a maior parte] que está sempre em movimento e temos por isso o balancear que nos inebria [suave e agradável se tivermos sorte], o permanente sussurro do mar, as ondas a bater no barco e o barulho do motor. E todo esse movimento às escuras, se não houver luar. Vemos apenas as luzes do barco reflectidas nalguma superfície brilhante ou numa espuma que depressa desaparecem.

Não deixa por isso de ser interessante que a noite se tenha tornado crucial nos descobrimentos portugueses, visto que eram as estrelas e a determinação da sua altura que ajudavam os navegadores a orientarem-se. Os chefes astrónomos de D. João II, José Vizinho e Abraão Zacuto, ambos judeus, estudaram uma forma de conseguir essa mesma orientação, usando o Sol. Mas os cálculos eram complicados e por isso os navegadores preferiam orientar-se pelas estrelas do Cruzeiro do Sul no hemisfério Sul e pela Estrela Polar no hemisfério Norte.

Luis de Albuquerque, um grande estudioso da náutica dos descobrimentos, afirma que a partir de 1460 “pode-se aceitar que a navegação praticada pelos pilotos portugueses começou a depender da astronomia”. Essa orientação pelos astros nocturnos tinha vários inconvenientes, sendo um deles, o facto de não poderem ser efectuadas medições quando o céu estava nublado; outro problema era que esse método permitia apenas a determinação da latitude. Embora conjugando a sua orientação com o uso da bússola, não conseguiam determinar a sua longitude no alto mar [o que só vem a acontecer no século dezoito]: imagine-se a dificuldade dos nossos primeiros navegadores em efectuarem as medições e calcularem o local onde estavam.
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Não tem comparação nos dias de hoje, a facilidade com que através do Google Earth temos acesso a toda a informação sobre os astros visíveis e invisíveis:
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sábado, 16 de fevereiro de 2008

A Noite I – O breu ou como é a noite sem luzes artificiais

Grilos do campo
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Durante a minha juventude vivi na cidade, pelo que só muito tarde, quase nos meus vinte anos, é que descobri a maravilha de olhar para um céu estrelado numa noite escura sem luzes artificiais. Nem sempre foi assim, Fernão Lopes descreve na Crónica de D. Pedro I (ver em http://www.gutenberg.org/) como o rei, sem vontade de dormir, decidiu fazer uma festa nocturna em Lisboa:
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“Jazia el-rei [D. Pedro I] em Lisboa uma noite na cama, e não lhe vinha sono para dormir, e fez levantar os moços e quantos dormiam no paço, e mandou chamar João Mateus e Lourenço Palos, que trouxessem as trombas de prata, e fez acender tochas, e meteu-se pela vila em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janelas, a ver que festa era aquela, ou por que se fazia, e quando viram daquela guisa el-rei, tomaram prazer de o ver assim ledo. E andou el-rei assim grande parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu vinho e fruta, e lançou-se a dormir.”
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O rei podia dar-se a estes luxos. Mas exceptuando certos dias especiais, festas e comemorações religiosas, em que algumas zonas poderiam estar iluminadas com tochas, a noite comum da cidade medieval era tão escura como no campo ou no mar. A luz fraca das lareiras e das candeias no interior das casas, não chegava para iluminar as estreitas ruas com os carreiros dos esgotos a céu aberto cheios pelos despejos do fim do dia. Imaginem essas ruas mal cheirosas, onde não se deveria conseguir ver um palmo à frente do nariz, cheias de ratazanas e de cães. A iluminação pública era totalmente inexistente. Por isso, quando chegava a noite, era para deitar, mesmo nas noites de luar. Só se acordava com o cantar dos galos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A poesia de António Nobre (1867-1900)











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Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!
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Ó as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!

Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a força,
Clamam todas à urra: «Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,

Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:
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Senhora Nagonia!
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Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!
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Senhora Daguarda!
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(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!
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Senhora d'ajuda!
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Ora pro nobis!
Caluda!
Semos probes!
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Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!
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Parecem Nossa Senhora, a andar.
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Senhora da Luz!
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Parece o Farol...
Maim de Jesus!
É tal e qual ela, se lhe dá o sol!
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Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!

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Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...
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Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matosinhos!
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Os mestres ainda são os mesmos dantes -
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...
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Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
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Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!
Bamos em paz!
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Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!
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Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
O Jeques, o Pardal, na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,

«As armas e os varões assinalados...»
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Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:
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Bamos com Deus!
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Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...

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Adeus! adeus! adeus!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Vasco da Gama, clube que é orgulho de brasileiros e de portugueses.


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[Imagem.de.bandeiras.no.blog.de.André.Wernner, ver.http://andrewernner.blogspot.com/]

“O Vasco da Gama, um dos mais famosos clubes desportivos do Brasil, foi obra de emigrantes portugueses e a sua história é significativa: (...) foi de início marginalizado porque se entendia que o futebol era um desporto de dandies, reservado à burguesia alta. Uma das censuras mais graves era a de que o clube metia pretos na equipa. Mas foi com eles que o Vasco ganhou sensacionalmente o primeiro campeonato a que tinha sido admitido. O selecto jogo inglês teve de se “abrir” a todos e tranformou-se depressa no desporto predilecto do povo brasileiro”.
Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal

No sítio do Vasco em http://www.crvascodagama.com/ , a história do clube abre precisamente com a carta do seu presidente em 1924, protestando contra a injustiça da exclusão do Clube:
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A História gloriosa do Club de Regatas Vasco da Gama está repleta de fatos importantíssimos. Nosso Clube tem escrito uma das mais belas páginas do desporto brasileiro. Tornou-se uma tarefa das mais difíceis escolhermos dentre tantos feitos algum que pudesse vir a ser a abertura da história vascaína. Acabamos por pinçar, em meio a tantos acontecimentos relevantes, o ato praticado pelo Dr. José Augusto Prestes, Presidente do Vasco em 1924, que não permitiu que o nosso Clube se sujeitasse às coações no sentido de excluir dos seus quadros os atletas negros bem como os de origem humilde. Reproduzimos, a seguir, a carta magistral do nosso então Presidente, um documento com a marca do pioneirismo, independência e, acima de tudo, justiça social, que caracterizam o Club de Regatas Vasco da Gama.

Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261

Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle M.D.
Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.

Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias. Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.

Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr.

Obrigado

(a) Dr. José Augusto Prestes Presidente

HINO DO VASCO
(Autor: Lamartine Babo - decada de 40)

Vamos todos cantar de coração
A cruz de malta é o teu pendão
Tens o nome do heróico português
Vasco da Gama... tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte-Sul, Norte-Sul deste país
Tua estrela, na terra a brilhar
Ilumina o mar

No atletismo és um braço
No remo és imortal
No futebol és um traço
De união Brasil-Portugal


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma carta particular de Antero de Quental (1842-1891)

[Figura de Antero em Coimbra, 1864, com 22 anos]

É um acto de despudorado voyeurismo, o de estarmos a ler as cartas das outras pessoas. Mesmo 150 anos depois. Mas enfim, que se danem as boas maneiras porque é uma leitura que é um prazer. E como ele já escrevia tão bem, tão novo (teria apenas 16 anos, acabados de completar em Abril). A carta está endereçada para a casa da sua família nos Açores e dirigida a sua mãe, Ana Guilhermina da Maia Quental.

Foi publicada, ainda bem, pela Universidade dos Açores, ed. Comunicação, Cartas I - organização de Ana Maria Almeida Martins, das Obras Completas de Antero de Quental, 1989.
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Coimbra, 29 de Julho 1858.

Minha querida Mamã,

Depois de tantos trabalhos e sustos chegou finalmente o dia, em que dando um suspiro de alívio pude descansar sem cuidados; e por isso é que lhe escrevo debaixo da agradável impressão de ter feito os exames e de me achar habilitado com os exames de Instrução Primária, Francês, Latim, Lógica, Retórica, História e Geografia, Geometria, e Introdução aos três Reinos da Natureza, e apto para me matricular em qualquer Faculdade, a qual será a que o Papá e a Mamã escolherem.
Estou pois muito contente, não só pelo facto em si, como também pela alegria que com isso terão todos os que por mim se interessam; e muito aliviado pois o fim do ano é o maior Cabrion(1) que um pobre Estudante pode ter.
Agora pois estou em Férias, e espero passá-las descansado, e lendo algum livro que possa instruir-me, sem contudo ter o peso da Ciência: agora que lancei a Ciência nas certidões, posso-me entregar um pouco aos meus passatempos favoritos de Literatura e Poesia: são estes os meus divertimentos nesta terra, e confesso que tem para mim milhares de atractivos, e que os prefiro a todos os outros.
Agora estou eu fazendo uma pequena tradução em verso, e estando pronta lha mandarei, visto que a Mamã tem a suma bondade de ler as minhas modestas rabiscas.
Não sei se passarei aqui as férias: eu desejava ir uns 15 dias à Figueira, tomar banhos e passear, pois esta vida de Estudante não é só monótona e incómoda, mas também pode fazer mal sendo contínua: por isso mesmo é que se fizeram as férias, tempo de descanso: além disso o meu estado de saúde pede esta pequena viagem: não que eu tenha doença alguma grave, mas ando sempre com pequenos achaques tais como dor de cabeça, febre, constipação, etc. Já vê a Mamã que preciso espairecer, e mesmo os ares do mar fazem-me iludir um pouco, e transportam-me pelo pensamento aos belos e saudosos tempos que aí passei. Quem me dera já o ano que vem, para lá ir, como o Papá me prometeu: enfim, será quando Deus quiser!
Também lhe quero pedir um favor – Daqui até Novembro, tempo em que começam as aulas, precisava ler alguns livros de Literatura filosófica, para não ir para a Universidade com os olhos fechados sobre este ramo das Letras, que é necessário pela relação íntima que tem com todos os outros: precisava pois comprar esses Livros, e é o favor que lhe peço, o pedir ao Papá que me mande dinheiro para eles, que, para os que por ora preciso, não será necessário mais que 5 ou 6 mil réis. Isto devia eu ter pedido directamente ao Papá, mas não sei que acanhamento me deu, que tenho vergonha de lho pedir, enquanto que à Mamã lho peço com mais confiança.
Peço-lhe me recomende muito a todos; Manas(2), André(3), Prima Anica(4) e Beza(5): a esta última peço lhe dê um abraço da minha parte.

Adeus minha querida Mamã
deite a sua bênção ao seu

Filho muito obediente e amigo

Antero


(1) É um francesismo que caiu em desuso, e que significa uma pessoa que incomoda ou molesta constantemente; vem do personagem Cabrion, do livro Mistérios de Paris de Eugénio Sue, que era um artista que pregava partidas a Pipelet, seu porteiro.

(2) Maria Ermelinda, 18 anos (1840-1908); Matilde, 15 anos (1843-1925) e Ana Guilhermina, 13 anos (1845-1920).

(3) André de Quental, 22 anos, o irmão mais velho (1836-1888).

(4) Ana Guilhermina da Mota Porto Carrero, sobrinha da mãe de Antero e casada com André.

(5) Talvez uma criada antiga.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Copy - Paste

Não temos tudo, nem quase tudo, mas certamente temos muito por fazer em Portugal. Não sei qual a ocupação de quem me lê, mas é fácil de perceber que em países 4 ou 5 ou mais vezes maiores que o nosso, existam 4 ou 5 ou mais vezes de tudo, não apenas de pessoas. Existirão também mais casas, empresas, serviços, objectos, cidades, hospitais, carros, etc. É uma proporção quantitativa fácil de entender e se o país for mais rico e desenvolvido do que o nosso, como uma França ou uma Alemanha, haverá não apenas mais em quantidade e diversidade mas também mais em qualidade. Mais e melhor.

Assim, se o leitor for por exemplo, professor, é fácil perceber o interesse em copiar os métodos lá de fora, cá para dentro: como são dadas as aulas? como são organizadas e geridas as escolas? como são estruturados os programas e a avaliação? E assim por diante. E se for engenheiro ou cabeleireiro, é a mesma coisa. Só precisamos de bons “copistas”, que “pastem” as coisas boas que se fazem lá fora, com melhores resultados do que as que fazemos aqui. Se olhar para o seu sector de actividade verá que 9 em cada 10 vezes, eu tenho razão.

Era uma boa ideia que os nossos jornalistas perguntassem frequentemente aos senhores ministros e secretários de estado, como se resolvem lá fora os mesmos problemas, por exemplo: das urgências na saúde ou dos acidentes de automóvel...

Aceita-se que se possa optar por outros caminhos, desde que justificadamente, mas não se aceita que se decida com desconhecimento de causa:
-“Como é que se faz lá fora Sr. Ministro?”

Lembro-me de uma frase (lida em Últimas Recordações de Alberto Bramão) de António Feliciano de Castilho, que embora sendo cego foi uma grande figura do romantismo português. Pedindo-lhe alguém a sua opinião sobre o livro de um escritor, Castilho comentou:
- Tem coisas boas e coisas novas...coisas novas que não são boas e coisas boas que não são novas.

Vale mais uma boa cópia que uma má originalidade: inovar não é o improviso do que sabe a menos, mas antes, nesta sociedade mundial da informação e do conhecimento, a criatividade do que sabe a mais.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Adolfo Coelho II – Lista das profissões em Portugal, em finais do século dezanove.

Promotor e interveniente das célebres Conferências do Casino, historiador da literatura, introdutor em Portugal dos estudos linguísticos e da pedagogia, Francisco Adolfo Coelho (1847-1919) foi sobretudo - a par de Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso, Leite de Vasconcelos e Rocha Peixoto - uma das figuras decisivas na constituição e desenvolvimento inicial da etnografia e da antropologia em Portugal, no decurso do período que se estende dos anos 70/80 do século XIX até às primeiras décadas do século XX.
Ver em http://www.instituto-camoes.pt



Lista (incompleta segundo o autor) das profissões populares, em 1896: .

Abridor. Acendedor. Adelo. Aguadeiro. Albardeiro. Alcatroeiro. Alfaiate. Algebrista (endireita). Algibebe. Alvenel. Almocreve. Alqueireiro. Alveitar. Alviçareiro. Amolador. Andador de irmandade. Apicultor. Apontador. Aparelhador. Arameiro. Archoteiro. Armador. Armeiro. Arqueiro. Arrais. Arrieiro. Asfaltador. Assadeira. Assedadeira. Assentador de carris. Azeiteiro. Azulejador. Bauleiro. Bainheiro. Bandarilheiro (capinha). Bandeireiro. Barqueiro. Bate-folha. Belforinheiro (bofarinheiro). Bengaleiro. Benzedeira. Betumeiro. Boceteiro. Boieiro. Bolacheira. Botequineiro. Botoeiro. Bonifrateiro. Britador. Brochante. Brunidor. Bunheiro. Burriqueiro. Cabeleireiro. Cabreiro. Cabresteiro. Caçador. Cadeireiro. Caiador. Caieiro. Caixoteiro. Calafate. Calceteiro. Caldeireiro. Calista. Camiseiro. Camisoleiro. Canastreiro. Canteiro. Cantoneiro. Cantor ambulante. Capacheiro. Capador. Capataz. Capelista. Cardador. Cardeiro. Carniceiro. Carpinteiro (de machado, toscano, de branco, etc.). Carregador. Carreiro. Carrejão. Carroceiro. Carteiro. Cartonagens (fabricante de). Carvoeiro. Caseiro. Casqueiro. Castrador (capador). Catraeiro. Cavador (cavão). Cavouqueiro. Ceifeiro. Cerieiro. Cervejeiro. Cesteiro. Chamiceiro. Chegador. Chapeleiro. Chineleiro. Chocolateiro. Cinzelador. Clarificador. Cobrador. Cocheiro. Colchoeiro. Colhereiro. Colador de papel. Colmeeiro. Compositor. Concerta-loiça. Confeiteiro. Condutor de carros, etc. Conserveiro. Contrabandista. Conteiro. Copeiro. Cordoeiro. Corista. Coronheiro. Cortador. Corticeiro. Costureira. Couteiro. Coveiro. Cozinheiro. Cravador. Criado. Criador de gado. Curandeiro. Curtidor. Cuteleiro. Decorador. Dentista. Distilador. Dobadeira. Doceiro. Doirador. Embalsamador. Embutidor. Encerador. Encadernador. Engomadeira. Entalhador. Enxertador. Escoveiro. Esmerilador. Estanceiro. Esparteiro. Espartilheira. Espelheiro. Espingardeiro. Estafeta. Estalajadeiro. Estampador. Estofador. Estrumeiro. Estucador. Farinheiro. Faroleiro. Fazedor. Faz-tudo. Feitor. Ferrador. Ferreiro. Fiadeira, fiandeira. Florista. Fogueiro. Fogueteiro. Forjador. Formador. Formeiro. Forneiro. Fosforeiro. Fressureira. Fruteiro. Fulista. Fundidor. Funileiro. Futriqueiro. Furoeiro. Gaioleiro. Gaiteiro. Galinheiro. Galocheiro. Gameleiro. Gandaieiro. Ganhão. Gomeiro. Gravador. Gravateiro. Guarda-mato. Guarda-noturno. Guarda-soleiro. Horticultor (hortelão). Impressor. Inculcador. Instrumentista. Jardineiro. Joalheiro. Lacaio. Ladrilheiro. Lagareiro. Lampista. Lapidario. Lanifícios (fabricante de). Lapiseiro. Latoeiro (de amarello, de branco). Lavadeira (lavandeira). Lavador. Lavradeira. Lavrador. Lavrante. Leiloeiro. Leiteiro. Licorista. Linheira. Limonadeira. Limpa-chaminés. Loiceiro. Loiseiro. Luvista. Macarroeiro. Machinista. Maltez. Manteigueiro. Marceneiro. Marchetador. Marinheiro. Marmoreiro. Mecheiro. Melaceiro. Melancieira. Mercador. Merceeiro. Mergulhador. Marnoteiro (marroteiro). Mineiro. Moço de recados, fretes, etc. Modista. Moeiro. Moageiro. Moiral. Moldador. Moleiro. Moliceiro (sargaceiro). Montante. Musico ambulante. Obreiro. Odreiro. Oleiro. Oleiro. Olheiro. Ourives. Ovelheiro. Padeiro. Palheireiro. Palhoceiro. Paliteiro. Papeleiro. Palmilhadeira. Paramenteira. Parteira. Passarinheiro. Pasteleiro. Pastor. Pedreiro. Pegureiro. Peixeiro. Peleiro. Peneireiro. Penteeiro. Perfumista. Pescador. Picador. Picheleiro. Piloto. Pinceleiro. Pintor. Pisoeiro. Poceiro. Podador. Poleeiro. Polidor. Pregoeiro. Prensista. Queijadeira. Queijeiro. Quinteiro. Ramalheteira. Recortador. Recoveiro. Redes (fabricante de). Refinador. Regateira. Relojoeiro. Remador. Remolar. Rendeira. Retrozeiro. Rodeiro. Rolheiro. Roqueiro (fabricante de rocas). Roupeiro (que faz, guarda roupa). Roupeiro (pastor queijeiro). Saboeiro. Sachador. Sacristão. Salchicheiro. Salgador. Sangrador. Santeiro. Sapateiro. Sardinheira. Sebeiro. Segador. Segeiro. Seleiro (correeiro). Semblador. Serigueiro (sirgueiro, passamaneiro). Serrador. Serralheiro. Serzideira. Sineiro. Singeleiro. Soldador. Sombreireiro. Sopeira. Sota. Sumagreiro. Surrador. Taberneiro. Tabúa (fabricante de objectos de). Tamborileiro. Tamiceiro. Tanoeiro. Tecedeira. Tecelão (de lã, de algodão, de ourelo, de fitas de elastico, etc.). Telheiro. Tendeiro. Tintureiro. Toicinheiro. Toireiro. Torneiro. Toscano (carpinteiro). Tosquiador. Trabalhador. Trapeiro. Trintanario. Tripeiro. Trolha (codea). Tipógrafo. Valador. Vaqueiro. Varapoeiro. Varredor. Vassoireiro. Védor. Vendedor. Vendeiro. Vestimenteira. Vidraceiro. Vidreiro. Vinagreiro. Vindimeiro. Violeiro. Zagal, zageleto.
Em Project Gutenberg’s Portugal e Ilhas Adjacentes, by F. Adolfo Coelho
Produced by Rita Farinha and the Online DistributedProofreading Team at http://www.pgdp.net [This file wasproduced from images generously made available by NationalLibrary of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)]

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Adolfo Coelho I – Os melhores contos para crianças

A formiga e a neve

Uma formiga prendeu o pé na neve.
“Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!”
Responde a neve: “Tão forte sou eu que o sol me derrete.”
“Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!”
Responde o Sol: “Tão forte sou eu que a parede me impede.”
“Ó parede, tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!”
Responde a parede: “Tão forte sou eu que o rato me fura.”
“Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que impede o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende!”
Responde o rato: “Tão forte sou eu que o gato me come.”
“Ó gato, tu és tão forte que comes o rato que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o gato: “Tão forte sou eu que o cão me morde.”
“Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o cão: “Tão forte sou eu que o pau me bate.”
“Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o pau: “Tão forte sou eu que o lume me queima.”
“Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o lume: “Tão forte sou eu que a água me apaga.”
“Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde a água: “Tão forte sou eu que o boi me bebe.”
“Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o boi: “Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.”
“Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!”
Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva.”


Do livro Contos Populares Portugueses de Adolfo Coelho, 1879.
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Nota importante:

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um regicídio acidental?

Faz hoje 100 anos que foi assassinado o rei D. Carlos. Os meios de comunicação têm procurado divulgar a efeméride, descrevendo as circunstâncias que rodearam a sua morte e também alguns dados biográficos do chamado rei-artista. O assassinato foi praticado por um conjunto de pessoas, ligadas à ala mais radical dos republicanos. Eram extremistas e violentos. Hoje seriam chamados “terroristas”. O assassinato do rei foi (e será sempre) um acto condenável - já aqui o referi em
http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2007/12/monrquicos-vs-republicanos-ii-o-duelo.html , apesar de me considerar um republicano convicto. Acho que o nosso Parlamento deveria ter manifestado por votação essa condenação: revelaria elevação por parte dos republicanos dos nossos dias.

Uma das coisas com que não estive de acordo no textos dos jornais de hoje foi a certeza sobre os factos do drama, daquele dia 1 de Fevereiro de 1908. Um dos jornais diz que o atentado estava há muito a ser preparado, referindo uma carta de despedida do Buiça e outro jornal, diz que o rei se calhar já sabia de uma qualquer trama para o assassinar visto trazer uma arma consigo.
Mas note-se que as memórias de Raúl Brandão, que foi um homem com conhecimentos “de dentro”, desmentem esta versão do “regicídio planeado”:

“Um dos que escaparam no Terreiro do Paço onde acabou a monarquia, foi o José Ribeiro. Foi ele que me contou também o seguinte – continua o meu informador:
- Não fomos para a Rua Alexandre Herculano porque o Buiça, que era um desleixado, deixou passar a hora. Resolvemos então ir para o Terreiro do Paço: contávamos que João Franco, que esperava o rei, havia de aparecer ali.
Postaram-se todos cinco – o Ribeiro, o Buiça, o Costa e outros dois que ainda estão vivos – na esquina da praça. Acabada a recepção, começaram a passar os convidados e eles sempre à espera do João Franco para o matarem. Abalaram as primeiras carruagens e o Costa desesperou. Desceu pelo Terreiro do Paço abaixo, seguido pelo José Ribeiro e pôs-se a ver quem saía do cais. Um, outro e o presidente do ministério
franquista sem aparecer. Até que lhe disse:
- Vai lá acima e diz ao Buiça que aquele ladrão ainda nos escapa!
Nesse momento, ao fundo, aparecia a carruagem real.
- E se nós – continuou ele – deitássemos aqueles abaixo?
E o Buiça respondeu prontamente:
- Vamos a isso!
O resto sabe-se. O Buiça saltou à frente, o Costa pôs o pé no estribo da carruagem, tiros, confusão e a morte do rei e do príncipe.”
Em Raul Brandão, Memórias Tomo II, Obras Completas Vol I, ed. Relógio D’Água, 1999.

E João Franco vinha apenas 2 carruagens atrás da do rei, o qual pode assim ter morrido por precipitação dos regicidas e de improviso, de forma não planeada e acidental. Calhou...