segunda-feira, 31 de março de 2008

O Crónicas Portuguesas faz hoje um ano

O Crónicas Portuguesas celebra hoje o seu primeiro aniversário. Temos procurado evitar muitas vezes os temas da actualidade e até fugimos deles e a razão é simples: a maioria dos assuntos da agenda dos media, são “negativos” ou para “dizer mal” ou para “criticar alguém ou alguma coisa”. Claro que neste blogue poderemos também dizer mal ou menos bem de alguma coisa, mas pelo menos 90% do conteúdo é para fazermos o contrário disso.

Até podemos concordar que dizer mal e criticar, podem ser o caminho certo para debater questões importantes e melhorar muitas coisas - e há muito a melhorar - mas ser apenas negativo pode ser também outra forma de laxismo e de “deixar-andar”. Há também coisas e pessoas muito válidas neste mundo, tanto do passado como do presente, e precisamos alimentar mais o nosso amor-próprio, ganhar confiança e trabalhar melhor pelo progresso.

Já agora, se alguém pensar que "digo bem" porque sou do partido do actual governo, qualquer que ele seja, desengane-se, pois não tenho partidos e procuro também que estas Crónicas Portuguesas sejam “sem partidos” e independentes. Adaptando uma frase de Lopes de Oliveira (iremos falar dele um dia destes), acima dos partidos está a República, acima da República está a Democracia e acima da Democracia está o País.
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O barco vai continuar por entre as ondas azuis.

domingo, 30 de março de 2008

O talento de Cristiano Ronaldo

De puto-maravilha e reguila a um dos maiores jogadores do mundo, é como a cerveja, "provavelmente o melhor jogador do mundo". Ontem ao serviço do Manchester United contra o Aston Villa, para o campeonato inglês, foi brilhante: marcou um excelente golo de calcanhar, e fez mais três grandes assistências para outros tantos golos. Está a ser o melhor marcador do mais mediático campeonato à face da Terra. Palavras para quê?

Oxalá continue assim por muitos e bons anos.

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Vinho branco maduro Quinta de Pancas 2007

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Sempre estive menos atento aos vinhos da Estremadura e do Ribatejo, preferindo principalmente vinhos do Douro e do Alentejo, e como segunda opção de Palmela e do Dão-Bairrada, mas desde há alguns anos que nomes como o da Quinta de Pancas se têm vindo a impor pela qualidade, obrigando-me a rever este preconceito. A propriedade fica situada no concelho de Alenquer não muito longe da Merceana. O seu vinho branco de 2007 agradou-me muito e vai ser o meu vinho branco de eleição para este Verão. É um vinho branco excelente por menos de quatro euros e vou já comprar mais garrafas antes que esgote!
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Parabéns também para o original design, com o rótulo "The Quinta Collection", que dá à garrafa classe e personalidade. É perceptível para o consumidor um pouco mais exigente, quando as coisas são bem pensadas e bem feitas.
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Para mais informação ver o excelente sítio em http://www.companhiadasquintas.pt/

domingo, 23 de março de 2008

Skinheads do século dezanove em “O Mistério da Estrada de Ponte do Lima”

O tema deste livro é aparentemente apenas uma brincadeira de juventude de António Feijó em Ponte de Lima, em finais dos anos de oitocentos, envolvendo uma suposta “quadrilha de carecas”. Mas, ao ler o livro, verificamos ser bastante mais do que isso. “O Mistério da Estrada de Ponte do Lima” é também uma excelente forma para se poder contactar pela primeira vez com o notável poeta limiano ainda pouco divulgado que é António Feijó [neste blogue poderá pesquisar poemas de António Feijó] e ficará também a conhecer um pouco mais do genial escritor de “A Cidade e as Serras”, sobre o qual o autor, A. Campos Matos, tem vasta obra publicada.
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O livro abre com esta deliciosa citação do prefácio de “O Mistério da Estrada de Sintra”*, escrita por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão:
“Aos vinte anos é preciso que alguém seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite. Para ser ponderado, correcto e imóvel há tempo de sobra na velhice.”
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Daqui até ao fim, despretensioso, fácil de ler e profusamente ilustrado, “O Mistério da Estrada de Ponte do Lima” é uma descoberta permanente e bem disposta, principalmente sobre António Feijó, que tão injustamente tem sido esquecido [ao contrário de António Nobre e de Cesário Verde].
Para quem ainda não teve oportunidade, faça uma visita a Ponte de Lima, lindíssima vila minhota. Vai ver que vale a pena**. “O Mistério da Estrada de Ponte do Lima” de A. Campos Matos é uma edição dos Livros Horizonte [ver.http://www.livroshorizonte.pt/].

* Pode fazer o download gratuito de “O Mistério da Estrada de Sintra”, no Projecto Gutenberg em http://www.gutenberg.org/etext/20574
** Consultar o excelente sítio da Câmara Municipal de Ponte de Lima em http://www.cm-pontedelima.pt/

sábado, 22 de março de 2008

Informação verdadeira, informação falsa e gestão.

Cabra-Cega por Orlando Teruz
Para que um qualquer gestor possa decidir correctamente são necessários dados numéricos dos concorrentes, dos clientes, de desempenho, etc, etc, e caso não tiver acesso a esses dados, o gestor terá de decidir às cegas, por “feeling” [algo equivalente ao sexto sentido feminino – ver por exemplo o livro “Blink” de Malcolm Gladwell]. Felizmente há hoje uma maior consciência sobre a importância da informação. O mesmo se passa com os governos e com os organismos internacionais. A todos os níveis de decisão é importante ter dados correctos.

No entanto nem todas os números fornecidos são fiáveis, e existem mesmo alguns deliberadamente falseados ou manipulados, ainda que, por estranho que pareça, com o argumento de o terem sido pelas “melhores razões”.

Tem sido muito citado o caso dos professores serem avaliados pelas notas que derem aos alunos. Se assim fosse, claro que as notas dos alunos subiriam, mas há muitos outros exemplos possíveis, como atribuir prémios aos médicos para terem ficheiros com mais doentes e realizarem mais consultas, às esquadras de polícia para terem menos “ocorrências” ou aos juizes para “despacharem” mais processos. Era bem provável que os números “melhorassem” com prejuízo da qualidade e da ... realidade.

No sector privado estes erros são igualmente possíveis de acontecer. É muito fácil melhorar a qualidade da produção, ou antes, a estatísticas sobre a qualidade da produção, quando o responsável pelo departamento de qualidade fica na dependência do chefe da produção. Para agradar ao superior hierárquico, claro está.
E que dizer sobre um questionário de satisfação dos clientes realizado pelos vendedores de uma empresa? É óbvio que os resultados serão sempre “bons ou muito bons”, e contudo existem agências de pesquisa de mercado, competentes e capazes de produzir inquéritos sérios. Custa dinheiro, pois, e os resultados são menos agradáveis. É o preço da competência e da verdade.

Já se sabe que nos sistemas autoritários se prefere esconder a realidade com números falsos, mas em democracia a mentira não é opção, e a realidade acaba sempre depois, por nos bater brutalmente na cara.

Este desejo de “fabricar os dados de acordo com as conveniências” reincide e repete-se sobre múltiplas formas. Há alguns anos, foi curioso assistir ao “espanto” das autoridades americanas quando do caso “Enron”, sobre a veracidade dos relatórios das empresas de auditoria, como se fosse previsível que auditores externos viessem criticar uma empresa sua cliente. Há que diferenciar "informação para gestão" de "gestão para informação".
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Se queremos uma informação séria, quem recolhe e elabora os dados necessita ter independência relativamente aos resultados obtidos, para garantir que eles sejam correctamente apurados e verdadeiros. É um princípio básico que se aplica sempre, mesmo ao nível dos governos, e de instituições como o INE, ou o Eurostat, que devem gozar de total autonomia.

terça-feira, 18 de março de 2008

O sentimento da língua

A propósito do recente acordo ortográfico que felizmente e finalmente nos vai permitir escrever com as mesmas regras em qualquer parte do mundo onde se falar o português, relembro este pequeno texto, dum livro meio perdido, sobre a língua e o sentimento.

(...) A aprendizagem da língua inicia-se com a mais amorosa das mestras – a autora dos nossos dias – no livro mais lindo da humanidade, num livro de amor – o seu coração. A primeira palavra que aprendemos é também a mais doce do vocabulário. É o nome da nossa santa professora – Mãe.
A linguagem incarna-se no nosso corpo e faz-se alma da nossa pátria. Mal nascemos começa logo a embalar-nos em melodiosas canções, num coro de anjos:

Dorme, dorme, meu filhinho,
Um soninho descansado,
Que o Anjo da tua Guarda
Vela por ti a teu lado.

Quando entramos no quartel florido dos dezoito anos, isto é, quando o céu do nosso viver é só constelado de esperanças e de sonhos, a linguagem aninha-se no coração e irrompe em explosões de amor:

Costumei tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto os confundir,
Nem já sei quais são os meus.

E já na velhice, a linguagem – nota solta e estridente duma alma que viveu e sofreu – adquire o acre sabor de uma despedida:

Quem diz que a despedida
Nada custa ao coração,
Quem tal diz que se despeça
E verá se custa ou não!

(...) Fala-se uma língua estranha pela inteligência, só a nossa pelo coração. Uma é instrumento de utilitarismo; outra é lira de afeições.
Formosa língua minha! Nasceste para todos nós numa alvorada de amor com a palavra Mãe e és tão boa e tão grata que gravaste para sempre, na nossa alma, um eco bem distinto dessa voz que primeiro soou aos nossos ouvidos um canto de louvor e de saudade, traduzido em duas simples palavras: meu filho!


Em “Como se aprende a redigir” de José Guerreiro Murta, 1925.

sábado, 15 de março de 2008

Amália Rodrigues: Maria Lisboa, 1961.




Maria Lisboa
David Mourão-Ferreira e Alain Oulman

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria.
Seu apelido: Lisboa.

Talvez alguns não saibam:
Varina: vendedora de peixe; muitas eram originárias de Ovar, daí o nome.
Corvos: os pássaros "vicentinos", do símbolo da cidade de Lisboa.
Xaile: peça de vestuário; as fadistas cantam tradicionalmente com xaile [como é o caso de Amália neste fado, que brinca com ele, enrolando-o nos dedos antes de cantar].
Chinela: as varinas andavam descalças na Ribeira Nova onde iam busccar e descarregar o peixe, mas para a venda nas ruas, calçavam chinelas; um tipo de chinelas que usavam, era de couro com sola de pau, tipo "tamanco".
Canastra: cesto de cana onde levavam o peixe à cabeça.
Caravela: o barco português dos descobrimentos.
Fragata: barco à vela típico do Rio Tejo.
Traineira: barco a motor da pesca ao largo; pescavam principalmente a sardinha e o carapau.
Apregoar: gritar o anúncio, geralmente sempre a mesma frase ou pregão, da venda, neste caso, de peixe.

David Mourão Ferreira faz uma mistura de todos estes termos populares, dando-lhes novos sentidos: “na canastra, a caravela”, “nas veias o latido do motor duma traineira”, “apregoa tempestades” ou “vende sonho e maresia”. Toda a letra da canção a começar pelo nome, é um composto de trocadilhos, que resulta num conjunto harmonioso e feliz. Com a alegre música de Alain Oulman, o resultado é brilhante. A voz e o talento de Amália fazem da canção um clássico.

sexta-feira, 14 de março de 2008

"Mário - Episódios das lutas civis portuguesas de 1820 a 1834"

Por António d'Oliveira Silva Gayo (1840-1870)
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(Pequeno excerto do início do livro)
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Conheceis a Beira Alta?
É uma fértil província, portuguesa de lei, que vê, a leste, a serra da Estrela com as suas neves; a oeste, o Caramulo com a sua tristeza; ao sul, o Buçaco de gloriosa memória e de mística tradição.
É acidentado o solo, sucedendo-se às pequenas ondulações do terreno as colinas, os cerros e os montes, separados uns dos outros por quebradas e valeiros, onde sussurram as águas, caídas das alturas.
As cumeadas ou são vestidas de urzes e de ásperos tojos, ou são toucadas com a rama verde-negra dos pinheiros. Mas tão rica de seiva é toda a terra que, nos lugares em que o machado desbastou o pinhal, vedes logo aparecer a leira verdejante, que irá escorregando pela encosta, até se casar com a farta cultura dos vales.
Aos soutos de castanheiros de carcomido tronco, e aos pinhais e carvalhedos, segue-se, aqui, o rico plaino animado pelo ribeiro e pelo moinho ruidoso; ali, a vinha a espreguiçar-se na encosta; mais acima, e longe e perto, a oliveira.
São tristes as aldeias, porque o granito beirão, mal desbastando e enegrecido, lhes dá a cor do luto; e como elas, e como a oliveira, é triste o aspecto do país. Não há as amplas planuras, em que a vista se deleita e se namora; nem os meandros da lisa corrente a luzir, em longa fita, por entre as folhas dos salgueirais; nem o alvejar de muita casa branca, no pendor das colinas; nem a laranjeira odorosa, enfileirada em pomares extensos, que, fora do Vale de Besteiros, somente a encontrareis como benéfico atavio da casa do lavrador!
Mas na altura, no lugar vistoso, aparecer-vos-á bem caiada a capela ou a igreja, meia escondida detrás das folhas de castanheiros, de carvalhos e de oliveiras. São a devota alegria das povoações vizinhas; são a respeitada causa de festas e romagens, onde o povo troca por sincera alegria o ar sério e grave, que lhe é habitual.
Na Beira vereis a infância dos processos agrícolas; o homem a suar trabalhos, a mulher a lidar no campo, e até as crianças empregadas no duro serviço, que só é devido aos braços. Mas ao cair do dia, vê-los-eis alegres e cantantes, apesar da fadiga de tantas horas. Descobrir-se-ão diante de vós, e ouvi-los-eis a dizerem «guarde-o Deus» ou «Deus o salve»!
Da torre da próxima igreja descerá o toque da ave-maria, como bênção da tarde, que vem de cima; e enquanto vão caminhando, silenciosos e recolhidos na breve oração, só ouvireis as campainhas dos gados, que se recolhem ao redil.
E em tudo vereis a crença e a força; o trabalho e a paz, e esta sã virilidade dos povos lavradores, que é o eterno louvor da natureza!
Caminhai para leste, vinde comigo. Na falda dessa Estrela, desse velho Hermínio, vereis unidas a agricultura e a indústria: que dos alcantis da montanha lhes corre a água em torrentes, para em baixo ser transformada em motor económico.
Dizeis-me que estamos em Dezembro de 1828; que tudo agora ali está velado por farto lençol de neve; que atravessa o corpo o frígido vento, que de lá sopra; que toda aquela parte da Beira é como um corpo morto e amortalhado.
Vinde, porém, assim mesmo. A hospitalidade é lá generosa e franca, e na lareira das asas crepitam os cavacos e ramos secos.
Daquela altura parecer-vos-á planície, este imenso espaço até ao Caramulo.
Levar-vos-ei ao presbitério de S. Romão: quereis vir?

sexta-feira, 7 de março de 2008

Eça de Queiroz sobre a importância da Arte

A Arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da Vida – que é não ser apagada de todo pela Morte. (...) A única esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a Fama, essa imortalidade relativa que só dá a Arte. (...) E esta promessa, amigo, não é falaz.
A Arte é tudo porque só ela tem a duração – e tudo o resto é nada! As Sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas; e se não passam da memória fugidia dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada de um palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela Arte, porque só ela torna os Deuses verdadeiramente imortais – dando-lhes forma. A Divindade só fica absolutamente divina – quando um cinzel de génio a fixa em mármore (...).
A Arte é tudo – tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. Leónidas ou Péricles não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo. Tudo é efémero e oco nas Sociedades – sobretudo o que mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram no tempo de Shakespeare os grandes banqueiros e as formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles, e o rolar do seu luxo? Onde estão os claros olhos delas? Onde estão as rosas de York que floriram então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o Jardim dos Capuletos. Está vivo de uma vida melhor, porque o seu Espirito fulge com um sereno e contínuo esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misérias da Carne!
Nada há mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a Política. Por toda essa Europa Real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões, enroflados, emplumados, atordoadores, caquerejando infernalmente, de crista alta. Mas concebes tu a possibilidade que daqui a cinquenta anos, quando se estiverem erguendo estátuas a Zola, alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Canovas, dos Bright? Podes-me tu dizer quem eram os ministros do império em 1856, há apenas 30 anos, quando Gustave Flaubert escrevia Madame Bovary? Para o saber precisas desenterrar e esgaravatar com repugnância velhos jornais bolorentos: e achados os nomes nunca verdadeiramente poderás diferenciar com nitidez o sujeito Baroche do sujeito Troplong: mas de Madame Bovary sabes a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia á quinta-feira na Hirondelle para ir encontrar Leon a Rouen!

Excerto do prefácio escrito por Eça de Queiroz no livro de contos “Azulejos” do Conde de Arnoso, em 1886. Título e figuras da minha responsabilidade.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Guerra e Educação

Agostinho de Campos
(1870-1944)
Por Agostinho de Campos, Setembro de 1916.

Na Inglaterra e em França, a propósito da Guerra e dos múltiplos problemas que ela suscita, discutem-se, como era natural, os sistemas, processos e tendências da educação e do ensino nacionais. É o que sempre acontece nos períodos de crises graves: depois do burro morto, chega-se-lhe por onde calha a ração de cevada...
Há, porém, que distinguir. Um país leva sempre muito mais tempo a morrer do que um burro, e as próprias nações moribundas têm diante si um futuro bastante largo, para aproveitarem alguma coisa com as reformas que chegam tarde. O que é preciso é que as reformas cheguem, e que os países reformandos lhe não saiam ao caminho para as impedirem de chegar.
Uma das maneiras mais vulgares, e decerto a mais eficaz de inutilizar as reformas da educação, consiste na mania que têm os homens de quererem melhorar a nação pela via das crianças, ficando eles, por comodismo, com todos os seus queridos vícios e preciosos defeitos. Fazem assim, com muito dinheiro, escolas onde os filhos aprendem maravilhas e se educam magnificamente , para virem depois para casa, ao contacto dos pais, deseducar-se e desaprender.
Depois da Guerra, a julgar pelo que lemos nos seus melhores jornais, vão os ingleses salvar a Pátria, ensinando nas escolas menos grego, menos latim, e muita física e química. Com isto esperam eles desbancar o tino industrial da Alemanha, sem se lembrarem de que não há física nem química suficientes para substituir a resignação ao trabalho contínuo, o avaro aproveitamento de tempo, o sacrifício de algum conforto e de muitos prazeres, virtudes que os rapazitos não podem aprender com pais e mestres que as não praticam.
Os franceses, pelo seu lado, como têm feito nesta guerra – honra lhes seja! – uma grande figura militar e moral, mostram-se contentes consigo próprios e acham que, tirada uma tão bela prova à educação que tiveram, não há motivo para mudarem. Há justiça neste sentimento, mas eu vejo nele também alguma leviandade, e uma certa ingratidão pelos acasos e circunstâncias exteriores que salvaram a França em dois ou três minutos decisivos. E a leviandade, sobretudo, é grave, porque ameaça levar os franceses à crença tentadora de que poderão continuar impunemente, depois da Guerra, a envenenarem-se com alcool, a organizar a intolerância religiosa e política, a esbanjar a fortuna pública para satisfação do egoísmo pecuniário das classes, a sacrificar o crescimento da população à covardia moral das famílias.
Remexer no ensino das crianças ou deixá-lo como está, são coisas igualmente fáceis. Difícil, quando não impossível, é refazer a educação dos homens e mudar o rumo às tendências colectivas.
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Em O Homem Lobo do Homem, ed. Aillaud e Bertrand, 1921.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Poetas brasileiros em Portugal III – João Cabral de Melo Neto (1920-1999)













Foi poeta e diplomata. Seu último posto na carreira diplomática foi em Portugal em 1990, quando se reforma como embaixador. É considerado um dos mais importantes poetas brasileiros. A sua obra mais divulgada é a genial “Morte e Vida Severina”.

Morte e Vida Severina (excerto)

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Em http://www.culturabrasil.org/joaocabraldemelonetoo.htm

domingo, 2 de março de 2008

Poetas brasileiros em Portugal II – Casimiro de Abreu (1837-1860)













De 1853 a 1857 está em Lisboa, acompanhando os negócios do seu pai. É aqui, saudoso do Brasil, que escreve a maior parte dos seus poemas. Faleceu muito novo de tuberculose. O poema “A Valsa” é uma história em verso, romântica e ingénua. Um jogo de palavras a três e duas sílabas, quase uma lenga-lenga. Mas é muito divertido e bem feito, este poema de salão dos meados do século dezanove.

A VALSA

Tu ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas,
Co’as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranquila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias
P’ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então,
Qual pálida
Rosa
Mimosa,
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...


Rio de Janeiro,1858.
Em “As Primaveras”, 1859.

sábado, 1 de março de 2008

Poetas brasileiros em Portugal I – Ronald de Carvalho (1893-1935)




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Nasceu no Rio, licenciou-se em Direito e seguiu a carreira diplomática. Figura do modernismo português e brasileiro. Com Luis de Montalvor, Fernando Pessoa e outros, participa na revista Orpheu. Morreu muito novo, num trágico acidente de automóvel.
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ADVERTÊNCIA

Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas paralelas, com trepadeiras moles balançando e florindo;
Na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a resina de pinheiro e faia;
Na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e discutiram casamentos, colheitas e enterros;
Entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos encardidos, colares, gravuras, papéis graves e moedas roubadas ao inútil maravilhoso;
Diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu riacho serviçal, que engorda trutas e carpas;

Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas, quintalejos, campanários e burgos, que cabe toda na bola de vidro do teu jardim;
Diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho do açude, o choupo do ferreiro, a tília da ponte — que conheces pelo nome como os teus cães, os teus jumentos e as tuas vacas;

Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
Tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas sobre pampas, savanas, planaltos, caatingas onde estouram boiadas tontas, onde estouram batuques de cascos, tropel de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas, picos e grimpas, terras livres, ares livres, florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!

Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se dissolvem,
O nosso espírito áspero e ingénuo flutua sobre as coisas, sobre todas as coisas divinamente rudes, onde bóia a luz selvagem do dia americano!
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Em “Toda a América”, 1926.


SABEDORIA

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faz da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efémero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...


Em “Epigramas Irónicos e Sentimentais”, 1922.