terça-feira, 29 de abril de 2008

Ibn Mucana e os moinhos de vento

Moinho Ibn Mucana de Alcabideche
A mais antiga referência aos moinhos de vento na Europa é a do poeta luso-árabe Ibn Mucana de Alcabideche, a maior freguesia do Concelho de Cascais.
Transcrevemos a comunicação intitulada “Abú Zaíde Ibne Mucana” de Fausto Amaral de Figueiredo, incluída em “Cascais e seus lugares”, revista de cultura e turismo, nº XX, Fevereiro de 1966, quando da realização do I Simpósio Internacional de Molinologia [estudo dos moinhos tradicionais]:

Há nada menos de nove séculos que nasceu em Alcabideche o poeta luso-muçulmano Abú Zaíde Abderramão Ibne Mucana, primeira figura histórica não só da sua terra, mas também do Concelho de Cascais e autor de uma das mais antigas referências literárias aos moinhos de vento, situados na Europa.
Ibne Mucana foi, durante a primeira fase da sua existência, uma espécie de poeta palaciano, que deambulou pelas cortes dos Hamídidas, em Málaga, dos Abádidas, em Sevilha e dos Zíridas, em Granada. Na de Málaga, por exemplo, recitou ele ao rei Idris II, que subiu ao trono em 5 de Fevereiro de 1043(1), um ditirâmbico elogio, que o soberano galardoou com um presente magnífico(2).

Farto, no entanto, da ociosa vida, que levava, decidiu regressar à terra natal, para nela se dedicar às actividades campestres e nela aguardar, serenamente, que a morte o arrebatasse.
Certo dia um contemporâneo viu-o passar, em Alcabideche, já velho e surdo, mas ainda com uma foice na mão e abeirou-se dele, para solicitar que lhe recitasse uns versos. Ibne Mucana – depois de o ter feito sentar , para observar os trabalhos da lavoura, que num campo fronteiro estavam a ser executados – pronunciou, de improviso, esta bucólica poesia, na qual metaforicamente aludiu aos moinhos de vento, que funcionavam com as nuvens, sem necessitarem de fontes:

Ó tu que habitas em Alcabideche, possas tu nunca ter falta de grãos
para semear, nem de cebolas nem de abóboras!
Se és homem de resolução, precisas de um moinho que funcione
com as nuvens, sem necessitar de fontes.
A terra de Alcabideche não produz, quando o ano é bom, mais de
vinte cargas de cereais.
Se dá mais alguma coisa, os javalis
dos despovoados sucedem-se sem interrupção, em grupos compactos.
Ela pouco tem de qualquer bem e de qualquer utilidade, como eu próprio
tenho pouco ouvido, conforme sabes.
Deixei os reis cobertos pelos seus mantos e renunciei
a acompanhá-los nos cortejos e a tirar deles partido.
Eis-me em Alcabideche a ceifar os espinhos comuma foice
ágil e cortante.
Se te disserem: Gostas de toda esta fadiga? – Sim, responderás, o amor
da liberdade é o sinal de um carácter nobre.
O amor e os benefícios de Abú Becre Almodáfer conduziram-me tão bem
que parti para um campo primaveril(3).

Ibne Mucana regressou, pois, a Alcabideche graças aos benefícios do Rei Almodáfer, de Badajós e, portanto, depois de 30 de Dezembro de 1045, data em que o mesmo rei subiu ao trono(4).

Sabe-se, por outro lado, que o escritor luso-muçulmano Abú Alháçame Ali Ibne Bassame, natural de Santarém, ouviu da própria boca do conterrâneo de Ibne Mucana o relato da sua entrevista com o poeta(5) e como Ibne Bassame visitou Lisboa no ano 477 da Hégira(6), é provável que o tenha ouvido por ocasião dessa visita.
A referência de Ibne Mucana aos moinhos de vento, em Alcabideche, foi, portanto, seguramente posterior a 30 de Dezembro de 1045 e, à falta de melhores indícios, parece dever considerar-se anterior ao dia 29 de Abril de 1085 , na véspera do qual findou o citado ano da Hégira.

A partir da conquista de Lisboa, por D. Afonso Henriques, ajudado pelos cruzados ingleses, normandos, germanos e flamengos, cuja frota permaneceu, de 28 de Junho de 1147 a 1 de Fevereiro de 1148, no Tejo(7), estabeleceram-se contactos, mais frequentes e directos, desta região com as dos mesmos cruzados.
Cerca de uns três decénios depois havia um moinho de vento, perto do mosteiro beneditino de Saint-Sauveur-le-Vicomte, a 35 quilómetros de Cherburgo, na região francesa da Normandia, como se verifica por um instrumento ao qual se atribuiu uma data próxima de 1180(8).

No segundo quartel do Século X existiam, já, os moinhos de vento persas da província de Seistan, referidos pelos geógrafos Al-Masudi e Al-Farsi Al-Istacrí(9), o primeiro dos quais percorreu, de 915 a 943, variadíssimos países do Oriente e faleceu depois de 9 de Setembro de 956, mas antes de 28 de Setembro de 957(10). Do segundo, porém, só há elementos biográficos posteriores a 8 de Junho de 951 e anteriores a 29 de Maio de 952(11).

Poderiam também citar-se, na Península Ibérica, os menos conhecidos moinhos de vento de Tarragona, mencionados por Ibne Al-Munim Al-Himyari, na seguinte passagem do seu repertório geográfico e político:

“Uma das curiosidades de Tarragona consiste nos moinhos que foram instalados pelos Antigos; eles andam quando o vento sopra e param com ele”.

O repertório de Al-Himyari foi concluído em 21 de Novembro de 1461, mas a origem da notícia contida nesse trecho pode fazer-se remontar ao geógrafo Abú Ubaíde Albacri, falecido em 1094, depois de 13 de Outubro, mas antes de 12 de Novembro(12). É ggtambém possível que Albacri se tivesse guiado pelas informações do seu mestre, Ibne Addalai(13), nascido posteriormente a 10 de Novembro de 1002, mas anteriormente a 30 de Outubro de 1003, em Dalias, perto de Almeria e falecido nesta cidade, posteriormente a 29 de Abril de 1085, mas anteriormente a 18 de [ilegível] de 1086(14).

Seja, porém, como for, entre os moinhos de vento persas, do segundo quartel do Século X, na província de Seistan e o de 1180, perto de Saint-Sauveur-le-Vicomte, na região francesa da Normandia, temos pelo menos, os do terceiro quartel do Século XI, citados por Ibne Mucana, em Alcabideche.
Eis o facto assinalado por este sóbrio, mas belo monumento, que o distinto escultor António Duarte concebeu e no qual se vê a memória de Ibne Mucana, entre dois grandes blocos monolíticos, feitos da mesma pedra das pedreiras do Concelho de Cascais, utilizada para fabricar as mós no mesmo Concelho produzidas.
À realização do I Simpósio Internacional de Molinologia vinculará ele, para sempre, o nome de Ibne Mucana e o de Alcabideche (...).


(1) R. Dozy, “Histoire des musulmans d’Espagne jusqu’à la conquête de l’Andalousie par les almoravides”
(2) Henri Pérès, “La poesie andalouse en arabe classique au Xie siècle”
(3) Idem
(4) Matias Ramón Martinez y Martinez, “Historia del Reino de Badajoz, durante la dominación musulmana”
(5) Henri Pérès, “La poesie andalouse en arabe classique au Xie siècle”
(6) Francisco Pons Boigues, “Ensayo bio-bibliográfico sobre los historiadores y geógrafos arábigo-españoles”
(7) Charles Wendell David, “De Expugnatione Lyxbonensi – The conquest of Lisbon
(8) Rex Wailes, “A note on windmills”
(9) Abbot Payson Usher, “A history of mechanical inventions”; R.J. Fober, “Power”
(10) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leiden 1936; C. Raymond Beazley, “The dawn of modern geography”
(11) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leiden 1927; C. Raymond Beazley, “The dawn of modern geography”
(12) ”Encyclopédie de l’Islam”, Leyde 1960
(13) E. Lévi-Provençal, “La Peninsule Ibérique au Moyen-Age d’après le Kitab Ar-Rawd Al-Mitar Fi Habar Al-Aktar d’Ibn Abd Al-Munim Al-Himyari”
(14) Francisco Pons Boigues, “Ensayo bio-bibliográfico sobre los historiadores y geógrafos arábigo-españoles”

Ver mais informação no excelente sítio da Junta de Freguesia de Alcabideche em http://www.jf-alcabideche.pt/ onde se encontram as figuras aqui reproduzidas, ou o moderno sítio da Escola Secundária Ibn Mucana de Alcabideche em http://escola.ibn-mucana.com/ - a escola faz sua, uma citação de Ibn Mucana:"O amor à liberdade faz parte do carácter nobre."

domingo, 27 de abril de 2008

Contra-Corrente de Vergílio Ferreira III - intervenção cívica

Estava-se em Abril de 1975, pré-“Verão Quente”, auge da resistência dos democratas contra a tentativa totalitária do PC. A pedagogia da liberdade e da tolerância tornava-se necessária para defender o pluralismo democrático e partidário. Não era nada fácil. Vergílio Ferreira transcreve um discurso seu preparado para ser dito em comício do PS e começava assim:

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.
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(...)
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19-Agosto (terça). Ontem o Vasco Gonçalves largou discurso. Espectáculo extraordinário de desespero, de paranóia. Que se segue? Até quando vai isto durar? Que nos espera? A guerra civil é hoje visível no horizonte. (...)

Era de facto, e se não tivesse sido o 25 de Novembro, conduzido por Ramalho Eanes com Jaime Neves, a história poderia ter sido bem pior.
E já em 1976:

13-Maio (quinta). Convidaram-me (...) para fazer parte da Comissão Nacional de Apoio à Candidatura do General Ramalho Eanes à Presidência da República. Aceitei. Desvanecido...(...) Teremos paz enfim? Tranquilidade?

Tivemos mais ou menos, obrigado. Vergílio Ferreira estaria connosco até Março de 1996.

sábado, 26 de abril de 2008

Contra-Corrente de Vergílio Ferreira II - os dias que se seguiram ao 25 de Abril

Cartaz de Vieira da Silva

Depois do dia 26 de Abril, só a 10 de Maio, quinze dias depois, se regista no diário uma nova entrada. Desta vez a situação já é analisada menos com o coração e mais com a razão. E como o tempo viria a demonstrar, com muita razão.

10-Maio (sexta). Seria útil dar o balanço de quinze dias de revolução. Mas tudo se mantém ainda confuso. No entanto, alguma coisa se vai esclarecendo: de um lado, a ideia de que a revolução é para o interesse de cada um de nós, singularizado no esquecimento dos outros; do outro lado, a visível manifestação a todos os níveis, de núcleos comunistas. Seria uma revolução PC? Greves. Já começaram. Que se não propaguem em epidemia e gerem o caos. Para onde vamos? Por sobre tudo uma certeza: os militares continuam de armas aperradas.

Hoje no liceu correu um manifesto dos meninos. Curioso: o professor foi (um)a grande vítima do fascismo. Mas é sobre ele que incide a exacerbação dos moços. No fundo, o seu programa inconfessável é simples: não estudar, passar o ano e ter o professor às ordens como têm em casa as sopeiras. Exigir dos professores boas notas, muito saber, como à criada exigem lhes traga o café ou o penico. Com o fascismo ou sem ele, o professor continua a ser o escravo que sempre foi.


O PREC – Processo Revolucionário em Curso em 1974 e 1975, foi sobretudo uma luta política, com a tentativa do PC e dos seus aliados civis e militares, em tomar o poder por formas não democráticas [aproveitando os justos sentimentos da população em pretender melhores condições de vida], e a resistência do país contra essa tentativa de estabelecer uma nova ditadura - desta vez de sinal comunista. Em Junho de 1974, Vergílio Ferreira percebia claramente a situação.

18-Junho (terça). (...) Uma boa e exacta propaganda contra o PC seria simplesmente dizer: “Quereis de novo a PIDE? Uma censura? Um campo do Tarrafal com pitadas de Sibéria? Votai no Partido Comunista.” (...) Os comunistas instalaram-se nela [na TV] e são comícios comunistas, entrevistas comunistas, inquéritos aos trabalhadores para se tirarem conclusões comunistas. Até o padre que lá funciona agora fez há dias uma prédica segundo a qual, se bem percebi, o Cristo já se tinha filiado no Partido.

21-Junho (sexta). O Partido continua a instalar-se. Agora, para desembaraço de manobras, lançam a palavra de ordem: “Quem é anticomunista é fascista.” (Ver O Século de ontem ou anteontem.) Mas é um plágio descarado do falecidíssimo Salazar: “Quem é contra a situação é comunista.” E eis, pois, que entre os dois campos fica uma pequena terra-de-ninguém: e quem aí se instalar condena-se a morrer sob fogo cruzado. Mas ao que parece, aí é que se é homem, que fazer? Como de costume, é-se homem onde se leva mais porrada.
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Em Contra-Corrente 1 (1969-1976) de Vergílio Ferreira, ed. Bertrand.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Contra-Corrente de Vergílio Ferreira I - o 25 de Abril de 1974

A 2ª edição do Jornal "Republica" do dia 25 de Abril: em baixo pode ler-se "este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura". O Director era Raul Rego.

25-Abril (quinta). Às sete da manhã, um amigo telefona-me: “Ouça a rádio”. Ouço sem entender: rebentou a Revolução. A Revolução? Que Revolução? Por fim lá vou compreendendo. Toda a manhã a rádio nos vai esclarecendo com notícias. Passámos o dia à escuta. Será possível?

26-Abril (sexta). Vitória. Embrulha-se-me o pensar. Não sei o que dizer. Uma emoção violentíssima. Como é possível? Quase cinquenta anos de fascismo, a vida inteira deformada pelo medo. A Polícia. A Censura. Vai acabar a guerra. Vai acabar a PIDE. Tudo isto é fantástico. Vou serenar para reflectir. Tudo isto é excessivo para a minha capacidade de pensar e sentir.

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Em Contra-Corrente 1 (1969-1976) de Vergílio Ferreira, ed. Bertrand.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Sugestão para as próximas férias: a Romaria da Sra. d’Agonia

Quando chegamos a Maio, geralmente começamos a pensar e a planear as próximas férias de Verão. Aqui fica a sugestão para visitar a mais bonita festa portuguesa do ano: a Romaria da Sra da Agonia em Agosto, na linda cidade de Viana do Castelo .

Vira de Nossa Senhora da Agonia e 5 estrelas para Augusto Canário.



Excerto do texto “Agonia” escrito por Manuel de Sousa Pinto, incluído no Almanaque Bertrand de 1931:

As festas da Agonia – não há ninguém que o não saiba! – celebram-se todos os Agostos em Viana do Castelo, tendo por moldura encantada o cenário da foz do Lima e sua cidade.
É tal o renome desses festejos, que ao aludir a eles se esquece a tristeza da palavra que os designa: Agonia. Gente da terra talvez não a baptizasse assim, mas Viana é porto de mar, e a invocação deve ter nascido nas bocas marujas, entre as pelejas do mar:

...A Senhora da Agonia
...Tem telhadinho de vidro,
...Que lhe deu um marinheiro
...Que se viu no mar perdido.

A ruidosa e colorida agitação, que a grande festa provoca, transforna o compungente vocábulo num grito quente de regozijo. Essa “Agonia” não significa sofrimento, angústia, nem despedida da vida. É, por obra do populacho que a anima, uma agonia alegre, em que não se morre, mas se vive mais intensamente.
Tumultuaria, galhofeira, zabumbante, com pregões e estoiros, bailaricos e descantes, abraços e marradas, copinhos de luzes e canecas de verdasco, aguilhadas e varapaus, títeres e embolações, harmónios e repiques, gaitas, ferrinhos, barracas de feira, carrossel, atordoa, confunde, ilumina, viravolteia.

Que o coração tem, nas festas da Agonia, saliente papel decorativo, como se quizesse deixar de ser o invisível maioral da paixão e do desgosto, para armar, vaidoso, ás vezes filigranado, em garrido adorno. É a festa dos corações a Agonia: do coração objecto dado ou comprado, do coração símbolo do amor e da abastança. Os corações andam por lá a rodo, nos coletes e nas chinelas, nas mangas das camisas e nas tiras dos aventais, nas orelhas e nos cordões; por toda a parte, á laia de brazão amorudo e indispensável penduricalho de uma raça sentimental que pelo coração e para o coração, vive, labuta, canta e morre.
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[Ver toda a informação sobre as festas, incluindo uma notável selecção fotográfica com imagens dos trajes, das procissões no mar e em terra, dos bombos e Zés Pereiras, das concertinas, dos gigantones e cabeçudos, das touradas, dos desfiles etnográficos, etc, em http://www.festas-agonia.com/]
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terça-feira, 22 de abril de 2008

Dia da Terra: para um dia "verde", os Verdes Anos.

Verdes Anos de Carlos Paredes no You Tube, com bonitas imagens.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A AAE - Academia Aeronáutica de Évora

Elogiámos ontem uma escola alentejana, e por isso vem a talhe de foice referir um outro caso, de uma espectacular escola no Alentejo que é um exemplo de qualidade e de excelência: a Academia Aeronáutica de Évora (AAE). Esta escola particular luso-canadiana-holandesa define-se como uma organização de formação de voo, tendo por lema “Flying with excellence”.

A AAE que existe desde 2001, acaba de formar o centésimo piloto português, em cerimónia formal de atribuição de “asas”, realizada na passada semana em Évora, com a presença de várias personalidades da região, entre elas o Presidente do Município.

Numa altura em que tanto mal se diz das nossas escolas, devemos todos olhar para os bons exemplos, públicos ou privados, e aprender com eles: no caso da AAE, perceber por exemplo, como as empresas, neste caso foi a TAP, podem ter um papel relevantíssimo no ensino e formação.
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Toda a informação sobre a AAE, no seu sítio em http://www.aae.pt/

domingo, 20 de abril de 2008

Manuel da Fonseca II - Uma arte, uma escola e um nome.

A melhor informação que descobrimos na rede sobre Manuel da Fonseca, está no sítio da escola secundária que tem o seu nome, a Escola Secundária Manuel da Fonseca (ESMF) de Santiago do Cacém, uma linda terra alentejana, berço do escritor, nascido em 1911 e também o local onde viria a falecer em 1993.

O sítio da ESMF (http://www.esec-manuel-fonseca.rcts.pt/), é um bom exemplo do que podem ser as páginas de uma escola, que está não só preocupada em servir a própria instituição, alunos, pais, professores e funcionários, mas também a comunidade onde se insere. E aquilo que nos atrai, além do excelente grafismo, é a diversidade da informação que se encontra aliada a uma grande qualidade: sobre a cidade de Santiago do Cacém, sobre as ruínas romanas de Miróbriga e sobre o escritor Manuel da Fonseca. Aí encontrámos, além de uma galeria com fotos de Manuel da Fonseca, um notável texto biográfico de Artur Fonseca, seu irmão, vídeos, entrevistas e links.

Manuel da Fonseca é considerado um dos mais importantes escritores da corrente neo-realista, um movimento pós-modernista que adaptava a expressão artística, na pintura, na escultura, na música, no cinema, na literatura, à visão marxista da sociedade e ao determinismo histórico. Os defensores do neo-realismo, que se opuseram corajosamente a Salazar, foram perseguidos e presos pela polícia política do regime, a PIDE. Foi também essa a sorte de Manuel da Fonseca, membro do PCP e destacado intelectual, presidente da Sociedade de Escritores, que foi extinta, no tempo da ditadura.

Para mim, que não sou marxista, penso que a arte de Manuel da Fonseca é património de todos e estará para além de qualquer corrente artística ou ideológica. Ela toca-nos, como se fosse escrita hoje para nós e sentimos e compreendemos isto muito bem, ao ver e ouvir o “Domingo” por Mário Viegas.

sábado, 19 de abril de 2008

Manuel da Fonseca I - Porque amanhã é Domingo

Mário Viegas diz "Domingo" de Manuel da Fonseca,
com Pedro Caldeira Cabral na guitarra portuguesa.
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video

Domingo
(Manuel da Fonseca, 1958)

Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.

Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!...
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores…

Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! –
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendia…

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta:
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!

Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- …no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água…
…um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
…O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... –
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá par ao cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!...

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Os comboios a vapor dos Caminhos de Ferro Portugueses

Porque incluí neste blogue, ontem e anteontem, um pequeno conto sobre uma viagem de comboio dos anos 20 do século passado, lembrei-me de pesquisar na Rede pequenos filmes com velhos comboios. Há vários. Cá está um na linha do Douro [e a propósito, será uma pena se a linha do Tua tiver de fechar por razões de segurança, pois sem dúvida, ela é uma das mais espe(c)taculares linhas de caminho de ferro em Portugal].

A viagem mais extraordinária que fiz de comboio, foi numa automotora, há mais de 40 anos, na antiga linha do Vouga. Creio que partimos de Aveiro e fomos até Viseu. Embora fosse muito novo, devia ter 8 ou 9 anos e estivessemos no mês de Setembro, pois íamos - eu e a minha tia-avó - à feira de S. Mateus de Viseu, nunca esquecerei as impressões causadas pela beleza das paisagens naturais. Depois disso, já andei de comboio em belíssimas paisagens na Alemanha e na Suiça, mas nunca nada se comparou, pelo menos subjectivamente, ao que essa viagem gravou na minha memória de garoto.

Os Caminhos de Ferro Portugueses (CP) que já têm mais de 150 anos, ainda têm locomotivas a vapor a funcionar, que são usadas para certas viagens especiais (ver http://www.cp.pt/).



quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um alegre conto de Campos Monteiro – Parte 2 de 2

“Perfeição ...e rapidez (Apontamentos de uma viagem) por Campos Monteiro, em Moeda Corrente (ed. 1926)

[2ª e última parte do conto]

Torres Novas, 9h 56m: – Torna a haver chassez-croisé de sapatos, os amarelos acariciando os brancos, e os brancos deixando-se acariciar. Mas uma das Fúrias acorda e pergunta se já estamos no Entroncamento. Despertam os restantes. O calçado descansa. E os dois recém-namorados ficam hirtos, um a par do outro.
Mas nem por isso a correspondência cessa. O que um amante não descobre não o descobrirá um polícia da Segurança. Artur, que pousou o jornal nos joelhos, aponta, disfarçadamente, o título do artigo de fundo: – “Para onde vamos?” – Ela percebe, tem um sorriso malicioso. E volta-se para o velho:
– Papá! Chegaremos muito tarde a Salamanca?
– Lá para as dez da noite, minha filha.
– E no Hotel do Comércio esperam-nos, não é verdade?
– Pois claro. Já para lá escrevi há quatro dias.
Indiferente, como quem não ligara importância á conversa, Artur volta a página do jornal. Lê um instante a secção dos teatros. Parece, mesmo, interessá-lo muito a seguinte notícia: “Como estava anunciado, realiza-se hoje a réprise da deliciosa peça “A Chama”. Torna a estender o Diário sobre as pernas. E, com a unha do indicador, vai sublinhando as seguintes palavras: Como...se...Chama?
Novo sorriso da moça, que se demora um instante a pensar, e se inclina enfim para a mãe:
– A mamã não leu a carta que a Laura me mandou?
– Nem tive tempo – tornou a velha. – Com estas barafundas da partida...
– Tenho-a aqui. – diz a pequena.
Abre a saquinha de mão, tira um envelope azul, e de dentro dele uma larga folha de papel cheia de cursivo inglês, que estende á mãe. Mas o envelope fica na mão, o mais naturalmente possível, fazendo de quando em quando de ventarola, mas patenteando o endereço : “M.lle Maria Sara F...da C... – Rua... – Lisboa”.
E Artur ficou senhor de todas as indicações necessárias...

Entroncamento, 10h 15m: – As três Parcas desembarcaram. Ficamos cinco passageiros apenas no compartimento. Os velhos dormitam outra vez. Eu vejo no espelho do lado que Artur tomou uma das mãos de Maria Sara, e não há meio de largá-la.

Albergaria, 10h 58m: – Chamaram para almoçar. Fico numa mesinha a par de outra maior, que tocou a Artur e á família que vai para Salamanca. Não há convivência como a da mesa. Os quatro conversam animadamente. Artur serve Água do Luso á mãe, vinho do Dão á filha, charutos ao pai. No afã de se mostrar delicado e serviçal, as suas mãos andam numa azáfama por cima da mesa. E, por baixo, o seu joelho roça suavemente o de Maria Sara.

Alfarelos, 11h 40m: – Terminou o almoço. Ao atravessar o corredor, a velha entrou no lavabo. O velho ficou esperando-a. Eu debrucei-me na portinhola, para respirar um pouco de ar fresco. Os dois namorados seguem. Olham para trás, vêem o corredor deserto, e enlaçam-se pela cintura.

Coimbra, 12h 11m: – Não voltei ao compartimento, onde faz muito calor. Vejo no espelho porém, tudo que lá se passa. Artur e Maria Sara conversam. Os velhos lêem. Mas uma voz grita na gare:
– Arrufadas frescas!
Os dois velhos debruçam-se na portinhola, muito interessados na compra do doce. E num impulso irresístivel, os rostos de Artur e Maria Sara aproximam-se, os seus lábios unem-se num arroubo inefável.
Não se pode exigir mais de dois jovens que, quatro horas antes, se não conheciam ainda.

Mealhada, 12h 30m: – Lá ficaram na Pampilhosa os velhos, a rapariga e o rapaz. Devem ir a estas horas pelas alturas de Mortágua. Tenho pena de não ter podido acompanhá-los, na certeza de que estes apontamentos terminariam da seguinte forma:

Santa Comba, 13h 51m: – Pelo sr. Artur Qualquer Coisa foi pedida em casamento, a seus pais, que viajam no mesmo comboio, a mão da menina Maria Sara F...da C...

Mangualde, 12h 40m: – Realizou-se o consórcio do sr. Artur Qualquer Coisa com a ex.ma sr.a D. Maria Sara, etc.

Vilar Formoso, 17h 49m: – Deu á luz um robusto menino a esposa do nosso prezado amigo sr. Artur Qualquer Coisa, distinto sportsman lisboeta.

FIM

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um alegre conto de Campos Monteiro – Parte 1 de 2

“Perfeição ...e rapidez (Apontamentos de viagem)" por Campos Monteiro, em Moeda Corrente (ed. 1926)

Campolide, 8h 30m da manhã: - Subitamente, resolvi esta madrugada regressar ao Porto. Cheguei á gare do Rossio cinco minutos antes da partida. Com um pé no estribo da carruagem, tive de esperar uma infinidade de tempo que um cavalheiro espanhol, portador de uma anafada esposa, duas filhas rechonchudinhas, três filhos esgrouviados e doze malas, desatravancasse a plataforma de todos estes volumes.
Já o comboio vai dentro do túnel quando consigo pôr o outro pé dentro do vagão. Os espanhóis praguejando, somem-se com as malas lá para o fundo. Avanço pelo corredor à procura do meu lugar, mas tenho de deter-me ainda um momento porque dois rapazes – um deles alto, loiro, de monóculo – conversam tomando a passagem.
- Tu por aqui, Artur?
- É verdade. Fujo a este calor horrível de Lisboa – responde o do monóculo.
- Para a Figueira?
- Um pouco mais longe: para Biarritz.
- Bravo! Só eu não consigo pechinchar um bocadinho de estrangeiro! Imagina tu: tenho de passar o mês de Agosto em Espinho.
Ó desgraçado! – disse Artur, com um trejeito de comiseração, quase desprezo. – Espinho! Pior que a Nazaré!
Despedem-se, com um aperto de mão. Artur entra no compartimento nº 2 e toma o seu lugar, junto da janela. Eu faço o mesmo. Fico, por acaso, sentado em frente do felizardo.

Braço de Prata, 8h 40m: – Á luz radiante do sol posso enfim examinar os meus companheiros de viagem. São um velhote de cabelos brancos, óculos de aros de oiro e barretinho de seda na cabeça, uma dama de meia idade, três senhoras tão idosas e tão feias que as Górgonas (1), á vista delas, deviam parecer as três Graças e uma menina dos seus 19 anos, gentil, olhos vivos, focinhito arrebitado, e toda ela transpirando mocidade e desenvoltura. Calhou ir sentada ao lado do rapaz, e examina-o disfarçadamente, olhando de quando em vez para o Tejo, como quem goza a beleza da paisagem.

Sacavém, 8h 55m: – O comboio, por qualquer motivo de serviço, teve uma paragem forçada. O velhote vê as horas no relógio e murmura para a dama de meia idade:
- Oxalá que cheguemos á Pampilhosa a tempo de apanharmos o comboio da Beira Alta.
- Oxalá! – respondem ela e a pequena.
- É que o da Beira Alta – explica o velho dos óculos – se este for atrasado, não espera.
- Valha-nos Deus! Diz uma das senhoras feias. – E nós que vamos para Abrantes!
- Então podem ficar descansadas. O da Beira Baixa, no Entroncamento, espera sempre.
Fico sabendo que as Górgonas formam uma família aparte. Neste momento a locomotiva silva e arranca de novo. Recosto-me. Pesam-me as pálpebras. Dormito.

Setil, 9h 15m: – Acordei. Preguiçoso, entreabro ligeiramente os olhos. Vejo apenas os pés dos passageiros que vão á minha frente. O rapaz do monóculo calça sapatos amarelos, á papo seco. A rapariga, sapatos de lona branca. Acabava eu de fazer esta observação quando o sapato de Artur, hão-de ser sempre terríveis, os Artures! – deslizou dois palmos pelo tapete e se encostou ao sapato branco mais próximo. Passaram dois minutos. O sapato branco ergueu-se um pouco e pousou sobre o amarelo, numa pressão que devia ser deliciosa.
- Demónio! – disse eu para comigo, esfregando os olhos. – Estou num comboio ou num cinema?
Este meu gesto, intempestivo, fez com que as duas peças de calçado se separassem rapidamente, regressando ás posições primitivas. Endireitei o busto, como se acabasse de acordar, e olhei a um lado e outro. Artur lia o Diário de Notícias; a pequena, um livro de versos. Papá, mamã, e as três feras, dormiam como santos.

Santarém, 9h 40m: – Não há dúvida. Apesar de desconhecidos quando entraram no comboio, Artur e a pequena entendem-se ás mil maravilhas. Simulei tornar a adormecer. E eis o que vi, pelas fendas das pálpebras semi-cerradas:
Artur olhou meigamente a rapariga, que lhe correspondeu com um olhar muito mais meigo ainda. Depois sorriu. Ela sorriu também. E todo o seu rosto, desde a cóvinha do queixo á raiz do cabelo, sorria. Enfim, tendo préviamente relanceado a vista pelos circunstantes, o rapaz levou a mão ao coração. Ela virou algumas páginas do livro e indicou-lhe o título dum soneto, em caracteres maiúsculos: “Amor eterno”.
Muito significativo!
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(1) Três irmãs monstruosas da mitologia grega
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[Amanhã a 2ª e última parte deste conto]

segunda-feira, 14 de abril de 2008

“Deixem funcionar o mercado!” III – Os Patinhos Feios

O que é de sublinhar no caso português é que empresas que há alguns anos faziam parte do chamado sector empresarial do Estado, que eram apontadas como algo negativo, patinhos feios a extirpar do nosso tecido económico, são hoje as grandes estrelas da economia portuguesa. Estou a referir empresas como a Galp, a EDP, a PT, a Caixa Geral de Depósitos, a TAP, etc. Tornaram-se competititivas, estão a investir aqui e lá fora e os seus gestores são respeitados e enaltecidos.

Pode-se dizer que estas empresas beneficiaram durante muito tempo de condições únicas, tais como mercados protegidos, subsídios e apoios de vária ordem, mas isso vem exactamente provar a minha opinião: a importância dos governos centrais e autarquias locais apoiarem certos projectos empresariais privados é vital. Um exemplo disso no sector privado: a AutoEuropa.

Se como vimos ontem, a nível mundial é possível juntar os “big players” financeiros a uma mesa e estabelecer um plano de acção para resolver problemas essenciais, nós aqui neste quadradinho pequenino não seremos capazes de fazer o mesmo? Agora que temos aquele horrível problema do déficit controlado, que tudo manietava, não será uma boa altura para pensar como nos vamos organizar para preparar o futuro?

Existem na minha opinião um conjunto de factores que poderiam ajudar a construir esse “ambiente” favorável ao empreendedorismo e ao desenvolvimento:

1. Um estado central forte: capaz de cumprir e fazer cumprir a lei e de gerir os seus serviços de forma eficaz e eficiente. Temos sabido dar grandes passos nesse sentido, mas há ainda muito por fazer em áreas como a Educação e a Justiça. Sente-se que os próprios serviços centrais do Estado estão em transformação, disponibilizando já alguns muitas informações e serviços via internet. É o caso da DGCI e da Segurança Social. A Universidade e a Investigação Científica estão a ter um importante impulso.
2. Um sector bancário com uma atitude diferente perante a actividade económica. Se os bancos só existem para emprestar dinheiro para comprar casa ou automóvel e não fazem empréstimos para projectos empresariais, poderemos estar a compromoter o futuro. O sector bancário precisa ser também mobilizado para o desenvolvimento. Os apoios ao investimento da União Europeia vão acabar.
3. Mais cidadania. Temos de ser mais responsáveis, mais positivos e mais interventivos. Precisamos de acreditar mais no esforço e no trabalho como forma de realização pessoal e de melhoria do nível de vida. Não há almoços grátis! Precisamos, enquanto consumidores, ser mais exigentes e dar prioridade aos produtos portugueses e enquanto trabalhadores percebermos que temos de estar permanentemente a aprender e a evoluir (o que era ontem verdade, já não é hoje). Precisamos de mostrar aos políticos que estamos atentos e não os deixar entregues a si próprios.
4. Criar regiões. Estamos aqui também no bom caminho: ao que parece tanto o PS como o PSD pretendem que durante a próxima legislatura o assunto “regionalização” tenha prioridade na agenda política, o que torna mais provável um desfecho positivo. É muito difícil gerir um país que não dispõe de estruturas regionais intermédias entre um Estado Central e 308 divisões concelhias com características muito desiguais. Há que adequar a actividade económica a cada região, criando clusters.

Economia já não é só “deixar funcionar o mercado” e acho mesmo que nunca o chegou a ser.

domingo, 13 de abril de 2008

“Deixem funcionar o mercado!” II – O Northern Rock e Ben Bernanke

O terrível da realidade competitiva, para além dos livros académicos, é que se parece mais com uma “guerra económica do vale tudo”: trabalho mal pago, zonas francas, dumping, etc. As leis internacionais, as europeias incluidas, servem para muito pouco quando estão em causa “interesses estratégicos”. Veja-se o caso da nacionalização do Northern Rock Bank no liberal Reino Unido e vejam-se os esforços da Reserva Federal Americana, e do seu presidente Ben Bernanke – muito criticado (ver a figura do cartoon do New York Times – talvez o melhor jornal do mundo – de ontem), para controlar os efeitos e estragos da crise imobiliária e financeira dos Estados Unidos.

Os intrumentos normais de política económica dos governos, como os impostos ou os subsídios, bem como as políticas para o conjunto de serviços que o Estado proporciona, da Segurança Social passando pela Justiça à Educação, fazem parte de uma complexa mistura que acaba por ser determinante para o desempenho da actividade económica, sua estruturação e competitividade.

O Estado é hoje uma máquina gigantesca que pode travar ou potenciar a actividade económica. Até questões que normalmente aparecem como menos associadas à economia tais como a segurança dos cidadãos ou o nº de acidentes nas estradas podem desempenhar um importante papel quer positiva quer negativamente para certas decisões de investimento. Esta é a verdade de quem já teve alguma experiência com decisores de investimento estrangeiro - depois de se inteirarem sobre as oportunidades dos negócios, pretendem saber como se vive aqui.

Não estou a pretender minimizar a importância dos empresários e dos empreendedores, pelo contrário, aquilo que pretendo transmitir é que eles fariam muito melhor se pudessem ser melhor apoiados, e Portugal parece ser nesse aspecto um caso exemplar, com sucessos e insucessos.

[amanhã continua]

sábado, 12 de abril de 2008

“Deixem funcionar o mercado!” I – O caso Cinderela

É fácil compreender que cá dentro [em Portugal], estamos distantes de muitas decisões globais que nos afectam e que não podemos controlar:

David Rothkopf explica como funcionam "as coisas" na edição de 14 de Abril da Newsweek: ele foi entrevistar o presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, o maior e mais importante banco - entre os 12 existentes - da Reserva Federal americana [a Reserva Federal dos EUA é equivalente ao nosso Banco de Portugal]. O senhor chama-se Timothy Geithner [não confundir com Ben Bernanke, governador da Reserva Federal dos EUA] e explica-nos como a elite mundial actua quando os mercados tremem:
Numa crise anterior a Reserva Federal juntou os líderes das principais 14 empresas financeiras do mundo, de 5 países, que representam 95% da actividade financeira global. Estavam lá suiços, alemães e britânicos. Curiosamente não estavam asiáticos, nem sequer japoneses. O "CEO" da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, designou-os por brincadeira, “as 14 Famílias”, como no filme "O Padrinho". Diz Geithner:
Nós dissemos-lhes que eles tinham de resolver o problema e que nos dissessem como o iriam fazer, que nós asseguraríamos as medidas de apoio necessárias, para que eles se sentissem mais tranquilos. Se eles agissem individualmente, toda a gente os seguiria.
Não havia nada escrito, não havia regras, não haviam processos formais (...) A beleza do mecanismo era a sua absoluta eficiência e
ver como um pequeno grupo de grandes empresas com influência global, podiam agir e ter o trabalho feito com rapidez.

Não partilho de qualquer visão conspiracionista da economia, mas também não se deve acreditar, em mãos invisíveis, em Princesas Encantadas ou em modelos perfeitos de oferta-procura que só existem nos livros. Já se sabe que os modelos de economia estatizada são ineficazes e que os mercados são muito importantes, são mesmo decisivos para o desenvolvimento, mas a Cinderela não existe. Por exemplo, precisamos de compreender, que mesmo que nos esforcemos muito muuuuuuito, nunca [dentro do nosso horizonte visível], conseguiremos produzir mais barato que os chineses.
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[amanhã continua]

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Mondovino: o mundo do vinho.

Está novamente disponível a versão para o mercado português [na FNAC, por exemplo] do documentário sobre o Mundo do Vinho, "Mondovino".
Para as pessoas ligadas ao sector do vinho é obrigatório. Para todos os outros também mas por motivos diversos: um documentário considerado tão bom, que esteve em exibição comercial nos cinemas e que o júri de Cannes resolveu incluir na selecção oficial do seu festival.

O filme, de 2005, mostra como o sector do vinho, sobretudo tradicional e local se vem gradualmente transformando numa indústria global com empresas multinacionais operando em vários continentes, com capacidade e influência para dominar gostos, tendências e preços. Ter um bom vinho [e em Portugal temos grandes vinhos] não chega: o negócio é mais complicado. O realizador é Jonathan Nossiter.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Nocturnos de Gonçalves Crespo (1846-1883)




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Gonçalves Crespo nasceu no Brasil e era filho de pai português; veio a casar com outra importante figura da cultura portuguesa, Maria Amália Vaz de Carvalho.
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As Ondinas

Na praia tranquila murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro,........
[palreiro = falador]
Na areia dormita gentil cavaleiro
Á luz do luar.

As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argento areal.

Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O aureo telim................................................[telim = moedas, dinheiro]

Ess’outra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!........................................[anil = azul indigo]
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,......[rútila = brilhante]
Nos copos brilhantes se apoia azougada,........[azougada = esperta, viva]
Travessa e gentil.

A quarta, saltando, retouça, lasciva,....................[retouça = brincalhona]
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
“Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!”

A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trémula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos subtis...

E o moço, fingindo que dorme tranquilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas..............................[lânguido = voluptuoso]
Á luz do luar...


Na Aldeia

Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem á porta insectos variegados,............
[variegados = vários]
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia á soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho,
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm semi-nús, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.


O Juramento do Árabe

Baçús, mulher de Ali, pastora de camelas,
Viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,.......
[rútilas = brilhantes]
Wail, chefe minaz de bárbara pujança,..............
[minaz = ameaçador]
Matar-lhe um animal. Baçús jurou vingança;
Corre, célere vós, entra na tenda e conta
A um hóspede de Ali a grave e inulta afronta....
[inulta = impune]

“Baçús, disse tranquilo o hóspede gentil,
Vingar-te-ei com meu braço, eu matarei Wail.”

Disse e cumpriu.

Foi esta a causa verdadeira
Da guerra pertinaz, horrível, carniceira
Que as tribos dividiu. Na luta fraticida
Omar, filho de Amrú, perdera o alento e a vida.

Amrú que lanças mil aos rudes prélios leva,..........
[prélios = combates]
E que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,..
[ceva = alimenta, faz crescer]
Incansável procura, e é sempre embalde, o vil...
[embalde = em vão]
Matador do seu filho, o tredo Muhalhil................
[tredo = falso]

Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
Recém colhido em campo, o indómito guerreiro
Falou severo assim:
“Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta,
Em que vive o traidor Muhalhil, diz a verdade;
Dá-me que o alcance vivo, e é a tua liberdade!”

E o moço perguntou:
“É por Alá que o juras?”
- Juro, o chefe tornou –
“Sou o homem que procuras!
Muhalhil é o meu nome, eu fui que espedacei
A lança de teu filho, e aos pés o subjuguei!”

E intrépido fitava o atónito inimigo.

Amrú volveu: - “És livre, Alá seja contigo!”

Significados extraídos do antigo Diccionário enciclopédico luso-brasileiro Lello Universal coordenado por João Grave e Coelho Netto

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Eça de Queiroz, Consul em Havana.

Eça de Queiroz, vestido de chinês



Diz Lopes de Oliveira em “Eça de Queiroz, a sua vida e a sua obra”:

Chega a Havana a 20 de Dezembro de 1872. (...) Em Cuba existiam mais de cem mil colonos asiáticos, que, tendo emigrado pelo porto de Macau, se encontravam, como portugueses, sob a protecção do nosso consulado.
E todos viviam, à chegada de Eça de Queiroz, como verdadeiros escravos.
Existia em Havana uma Comissão Central de Colonização, que não só se dispensava de reconhecer a validade das cédulas que passávamos aos chinos, mas procurava mesmo impedir que as passássemos – para não suscitar veleidades de libertação. Há muitos anos que esta escravidão de facto existia.
O novo Consul travou “luta, que importava não só ao prestígio de Portugal mas à defesa da própria causa da humanidade”.
Encontrou a oposição tenaz, não só dos fazendeiros interessados na condição servil misérrima a que tinham sido reduzidos traiçoeiramente tantos homens livres, mas do próprio Governo de Cuba.
Tudo tentaram, desde a corrupção à ameaça. Em vão.
Archer de Lima [“Eça de Queiroz Diplomata”] observa: - “Compreendeu-se logo em Havana que este português de lei nunca traficaria num caso de honra. Eça aparece aqui, num dos seus aspectos desconhecidos, como um ser de excepção.”
E ainda: “Eça de Queiroz foi nas Antilhas Espanholas um grande funcionário. Guarda o Ministério dos Negócios Estrangeiros, tanto na correspondência consular como na correspondência política, vastíssimas provas duma actividade inteligente e admiravelmente bem dirigida.”
A campanha foi árdua mas gloriosa. Ela encerra uma das páginas mais belas da moderna diplomacia portuguesa.

No entanto as cartas que Eça, em 1873, dirige de Havana a Ramalho Ortigão mostram o seu estado de espírito, o seu enervamento:
“Saí da minha atmosfera, e vivo inquieto, num ar que não é o meu. Além disso, estou longe da Europa, e Você sabe quão profundamente somos europeus, Você e eu. Isto aqui – ou pelo seu mau lado espanhol, ou pelo seu curioso feitio americano (dos Estados Unidos) – é muito diferente daquilo que eu preciso. Eu preciso política, crítica, corrupção literária, humorismo, estilo, colorido, palheta; aqui, estou metido num hotel e quando discuto é sobre cambios – e, quando penso, é sobre coolies.
Portanto, oh querido amigo, Você alegre-se em poder continuar nesse obscuro e velho armário que se chama Portugal, relampejando a sua prosa e ferindo lume com a sua originalidade. Que há de melhor do que sentar-se a uma mesa – de ébano ou de pinho – e, aparando a pena, compor às linhas e à petites plumées, alguma fina subtileza de arte ou de crítica? Não há nada melhor. Eu que o diga – eu, que à hora em que Você arregaça os punhos para amassar a Verdade e deitá-la ao forno de “As Farpas” – me preparo para ir convencer o Capitão General de que os chinas não são inteiramente inferiores aos cães – ou visto a casaca-arreio, para ir para a sala do hotel, conversar sobre cousas graves com os americanos de New York, que estão “a ares!”.

E noutra carta:
"Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa. Assim eu, de Portugal, esqueci o mau, e constantemente penso nas belas estradas do Minho, nas aldeolas brancas e frias – e frias! – no bom vinho verde que eleva a alma, nos castanheiros cheios de pássaros, que se curvam e roçam por cima do alpendre do ferrador...
Estou ridículo? Melhor! Ser ridículo é não se parecer com os insípidos. Mas o que não estou é condescendente com esta terra estúpida, para onde vim (...)."


Mais alguns meses deste inferno, e é depois a grande viagem de Eça á América do Norte.

sábado, 5 de abril de 2008

D. Jaime de Tomás Ribeiro

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O grande poeta Tomás Ribeiro (1831-1901) explica porque escreveu o longo poema em 9 cantos, “D. Jaime”, um marco da poesia portuguesa do século dezanove:
“Nos dois últimos anos da Universidade, que deixei em 1855, começava a falar-se em União Ibérica; os meus brios de português aconselharam-me a escrever contra a tal ou qual propaganda que se queria insinuar entre nós.”

Algumas passagens que escolhi de D. Jaime:

Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim do adolescente,
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar dum rico outono,
sê meu berço final no último sono!

Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar; e amei-os tanto!...
Sonhava as noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos de amor, débeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te o esplendor de imenso brilho...
eu tinha um coração, e era teu filho!

Jardim da Europa à beira-mar plantado (*)
de loiros e de acácias olorosas;
de fontes e de arroios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas,
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas,
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.

(...)

As flores d’aldeia são puras e belas,
Suaves aromas, vivissimas cores,
Os cravos altivos, as rosas singelas,
suspiros sentidos, leais os amores.
Quereis um raminho colhido por mim?...
Pois vinde comigo buscá-lo ao jardim.

(...)

Que idade florida e bela
a dos vinte anos! - Não é?!
ornada, embora singela,
de crenças, de esperança e fé;
em que dorme a austera e fria
luz da prosaica razão;
em que ostenta soberania
infinita o coração!
em que o mancebo tem sonhos
de fabulosa extensão
altivos, nobres, risonhos...
Que bem-fadada ilusão!...

Dos vinte anos a magia
quem pôde roubar-ma assim?
Que é dos olhos com que eu via
em cada cerro um jardim?
em cada gruta encantada
linda moura namorada
com tesoiros para mim?
em cada fonte uma fada?
em cada casa um festim?
em cada peito um abrigo?
um céu em todo o viver?
um irmão em cada amigo?
um anjo em cada mulher?
alta sina em cada estrela?
e em tudo nobreza e fé?!...

Que idade florida e bela
a dos vinte anos! - Não é?!

(...)

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
mãe de sábios, de heróis, crime e virtude;
golfão de riso e dor, que ora serena,
ora referve e escuma em sanha rude.

Rainha do ocidente envolta em sedas,
vaidosa do seu trono de verdura,
de bosques, de jardins e de alamedas,
rica de jóias, oiro, e formusura.

Hospitaleira mãe do navegante,
atenuado, errante em mar profundo;
dominadora altiva desse Atlante
que vai do mundo velho ao novo mundo.
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(*) A expressão "Jardim da Europa à beira-mar plantado" ficou até aos nossos dias.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Agostinho de Campos III – Micróbios do estilo



Ainda dois extractos do livro “Língua e má língua”:

1. Quase todo o português que precisa de escrever um texto, por mais simples que seja, tem medo de tropeçar nos “ques” e o cuidado de evitar a repetição do “que”, “que”, “que”. Mas ninguém repara na teimosia do artigo ou numeral “um”, “uma”.
O filólogo e purista brasileiro Melo Carvalho chamava ao abuso de “um, uma” a “suinização da linguagem”, alegando que o “um” se assemelha ao grunhido daqueles animais cuja carne é saborosa, mas cuja eloquência não deve imitar-se (...)
Títulos de notícias de jornais: Um incêndio em Caxarias. Um drama de família. Uma filarmónica desafinada. Um naufrágio no mar das Berlengas. Ora todos estes zum-zuns são, além de fanhosos e feios, perfeitamente desnecessários porque o próprio substantivo no singular mostra que não houve trinta incêndios em Caxarias, nem setenta dramas de família, nem setecentos naufrágios no mar das Berlengas. Se eu escrever no meu titulozinho “Queda grave”, quem é que pensa que houve três mil e quinhentas quedas graves?
Em ' Micróbios do estilo '

2. Outro micróbio do nosso estilo literário consiste na repetição do verbo “ser”, a propósito de tudo e de nada. Veja-se esta amostra, proveniente de relatório oficial, escrito por pessoa culta e considerada: “Os documentos adiante publicados FORAM extraídos da Torre do Tombo. Não só FORAM excluídos desta publicação os que sabíamos terem SIDO apresentados em público anteriormente, como FORAM também dispensados os que um funcionário copiou do processo, que aliás nunca FOI fornecido a qualquer pessoa estranha a estes serviços. Os documentos SÂO reproduzidos o mais exactamente possível. Resta ainda dizer que muito de propósito, todos estes textos SÃO apresentados sem comentários”.
A fala e a escrita verdadeiramente portugueses possuem recursos para evitar o intrometimento de “foram, é, tem sido, são, serão, era, hão-de ser” e por aí fora.
Consiste um desses recursos na adopção de formas verbais equivalentes à voz passiva, que devemos usar e conservar, porque representam riqueza e variedade expressivas que faltam de todo, por exemplo, na língua francesa.
“São apresentados” equivale a “apresentaram-se”; “foram excluídos” pode substituir-se por “excluiram-se”; “foi extraído” é o nosso “extraíu-se”; etc, etc. Mas vão lá tirar da memória a certos escritores o “sont presentés”, e o “ont été exclus”, e o “a été extrait”, e outros que tais. Nem a ferros.
SEJA como FOR, É preciso não SERMOS distraídos a respeito do verbo SER, que É muito metidiço. Assim É que É. É que o estilo tem de SER variado e, não SENDO assim, É fácil SER-SE acusado de monotonia estilística, o que não É agradável. Isto É a pura verdade, não É?
Em ' A Língua de “é que” e a de “foi que” '


Lá diz o ditado, que aprendemos até morrer.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Agostinho de Campos II – As poucas graças

Agostinho de Campos era muitas vezes um homem de poucas graças. Ele próprio reconheceu que tinha fama de “rabugento”.

Em “Língua e má língua”, um dos capítulos é sobre a atribuição do prémio Ricardo Malheiros de 1938. Este era um prémio literário importante, instituído pela Academia das Ciências para obras de ficção. O prémio tinha ainda poucos anos, mas já o tinham ganho Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Antero de Figueiredo e Sousa Costa. Além disso o seu valor monetário, de dez contos, era significativo para a época.

Agostinho de Campos é nomeado para presidir ao júri que inclui Eugénio de Castro e Rebelo Gonçalves. Apenas um romance se apresenta a concurso. Chama-se Ana Paula e é escrito pelo jovem de 30 anos, Joaquim Paço d’Arcos.
Paço d’Arcos era um homem do regime pois ocupava na altura a chefia dos serviços de imprensa do Ministério de Negócios Estrangeiros, cargo que creio que exerceu durante mais de 25 anos, e seria escritor já conhecido, pois contava com alguns livros publicados, entre os quais o Ana Paula - que tinha sido alvo de uma polémica educada, entre Gaspar Simões e o autor, nas páginas do Suplemento Literário do Diário de Lisboa.

Sendo a única obra aceite a concurso, o júri tinha perante si a difícil tarefa de a considerar virtual vencedora, por falta de comparência de outros concorrentes ou pura e simplesmente não considerar o livro merecedor do prémio e por isso não entregar qualquer prémio nesse ano.

Agostinho de Campos traça uma bissectriz original: propõe a entrega do prémio ao Ana Paula com a publicação do parecer do júri e respectivo anexo. Este anexo é coisa que nunca se tinha visto antes: é uma extensa colecção de erros de gramática, de ortografia, de francesismos e outros erros ou defeitos “apanhados” por Agostinho de Campos, página a página e mais um capítulo do anexo sobre o uso impróprio da palavra “si”.

Foi um escândalo nos jornais: Joaquim Paço d’Arcos sente-se vexado e magoado e renuncia ao prémio, para salvar aquilo que considera ser a sua “dignidade literária”. É apoiado por muita gente ligada aos meios intelectuais e por amigos, entre os quais Marcelo Caetano. No seu diário (vol 3º, 1977), anos mais tarde, descreveria Agostinho dos Campos como “gramático teimoso” e “casmurro”.

Exposto desta forma, apetece dar razão ao “artista” e ao “criativo”[Joaquim Paço d'Arcos é geralmente considerado um importante escritor português do século vinte], contra o “polícia da língua” que seria Agostinho de Campos. Porém, basta a leitura do tão contestado anexo para que se perceba que a razão estava do lado do velho mestre “teimoso” e “casmurro”. A mim, resta-me apenas uma dúvida: se qualquer outro livro analisado desta forma por Agostinho de Campos, não seria susceptível de incluir um anexo com lista equivalente de erros.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Agostinho de Campos I - As graças

Agostinho de Campos (1870-1944) foi um daqueles raros professores de português com obra publicada que ensina a usar correctamente a língua portuguesa. O seu livro mais famoso talvez seja “Língua e má língua”, prefaciado por Júlio Dantas. Nesse livro são citadas algumas graças:

- Porque é que o mar é salgado? Porque tem muito bacalhau de molho.
- Quais são os três melhores apelidos para um motorista? Passos Dias Aguiar.
- Em que se parece a nossa mãe Eva com a hortaliça? Foi a primeira mulher qu’houve.
- Porque é que os peixes do mar não são salgados, apesar de viverem na água salgada? Porque em casa de ferreiro, espeto de pau.
- Quem é mais feio que o diabo? É o Pintam, porque o diabo não é tão feio como o pintam.
- Quando se abre a porta aberta? Quando a Berta bate à porta.

São ainda contadas neste livro algumas histórias com piada, como a de um menino, muito nervoso durante o exame de botânica, em que o examinador perguntou:
- Como se chama a árvore que cresce muito depressa, que tem o tronco muito alto e direito, com uma casca que se desprende em grandes lascas...?
O menino não atinava, e o mestre explicou mais:
-...Uma árvore que se vê por toda a parte em Portugal, e que para cá veio trazida da Austrália...
O menino, nada. E então o professor ajudou mais:
- Então, menino: é o eu..., o euca..., o eucalí...
Nesta altura o examinando lembrou-se de eucalipto; mas, muito nervoso, não sabendo já de que freguesia era, nem em que disciplina estava sendo examinado, começou a conjugar:
- Eu calipto, tu caliptas, ele calipta...
.
Uma vez o saudoso prof. Oliveira Ramos ralhou assim ao seu netinho, durante o almoço:
- O menino não esteja a bater com os pés na perna da mesa...
...lhe respondeu logo – decisivo, convicto, categórico, perfeitamente lógico e regularizador da maneira de conjugar:
- Estejo!...
E continuou a bater com os pés na perna da mesa. Estejou e tornou a estejar.