quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Os Maias" do Eça a propósito do "Acordai" de Fernando Lopes Graça

Já depois de ter publicado neste blogue, hoje de manhã, uma ligação ao You Tube com o Acordai (ver abaixo), de Fernando Lopes Graça, li por acaso esta passagem que julgo dever corresponder ao nosso sentir colectivo, que se pretende despertar através daquela canção:
“Clamamos aí em botequins e livros que o país é uma choldra. Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer a nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa Excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão está toda em quem a trabalha. Até aqui, a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...”
Citação de Os Maias, feita por D. Jaime de Almeida, Marquês do Lavradio, nas páginas da Apresentação, do livro Conversas no Turf em torno de Os Vencidos da Vida.

Acordai

Música de Fernando Lopes Graça e letra de José Gomes Ferreira


quarta-feira, 28 de maio de 2008

A magia dos números III - prova dos nove da multiplicação

Os números não nos deixam de espantar. É o caso por exemplo da prova dos nove da multiplicação. Todos aprendemos a tabuada, pelo menos do 1 até ao 10. Tenho aqui um exemplo até ao 12.















O que podemos fazer é somar os algarismos que compõem cada um destes números ou, o que é a mesma coisa, subtrair os multiplos de “nove”. Dois exemplos: 21 => 21-18=3 ou 21=> 2+1=3; 57=> 57-54 =3 ou 57=> 5+7=12=> 1+2=>3, etc. E traduzir o quadro inicial da nossa tabuada, num novo quadro, depois de subtraídos os “noves”:













A primeira coisa “curiosa” deste quadro é a regularidade das sucessões assim obtidas. Por exemplo a dos 7 é decrescente de 2 em 2 números: 7, 5, 3, 1, 9(noves fora zero), 7, 5, 3, 1, e assim sucessivamente. A dos 3 repete sempre 3, 6 e 9(0) até ao infinito. Há uma permanência e uma regularidade que se repete também em cada nove números. Assim a sucessão do 1 é igual à do 10, à do 19, à do 28, etc, a sucessão do 2 à do 11 à do 20 à do 29, etc. É sempre assim pelo que fizemos o quadro abaixo em que os números com sucessões iguais - até ao 99, estão na mesma coluna.

















Por isso, quando multiplicamos por exemplo 22 por 79, de que resulta 1.738, em termos de prova dos nove seria o mesmo resultado que a multiplicação de 4 por 7. Num caso teríamos 1+7+3+8=19, noves fora 1 e no outro 4x7=28, noves fora 1. O mesmo resultado.

Daí que a prova dos nove da multiplicação não seja 100% segura. Em média falhará em 1 em cada nove erros da multiplicação. O quê??? Não me digam que já se esqueceram de como se faz a prova dos nove da multiplicação...

domingo, 25 de maio de 2008

A magia dos números II - nem todos são iguais


Um dos números mais interessantes que existem, é o número que Isaac Asimov chamou o Número-Terra. Esse número é 10 elevado a 10 elevado a 34 ou 10^10^34, ou seja é o número 10 elevado a 10. 000. 000. 000. 000. 000. 000. 000. 000. 000. 000. 000 – dez seguido de 34 zeros. O número que está em expoente representa o número de zeros a acrescentar a dez. Se cada zero deste número fosse do tamanho de um átomo de hidrogénio, o número caberia quase na precisão, na superfície da Terra. Mas há ainda números muito maiores como os de Stanley Skewes, capazes de atingirem dimensões não apenas terrenas, mas universais.

Indo para números bem mais próximos de nós, a Revista Mensal Ilustrada “Serões”, em Julho de 1905 com artigos entre outros de Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Conde de Sabugosa e Manuel da Silva Gayo, trazia um problema assim formulado:

Um paradoxo aritmético

Trata-se de demonstrar que

..........2 = 3

Para isso, poremos a seguinte equação, a qual não oferece dúvidas

..........4-10 = 9-15

Portanto é igualmente verdadeiro que

..........4-10+25/4 = 9-15+25/4

Ora cada um dos membros desta equação representa o desenvolvimento de um quadrado.

Meditem um pouco, e verão como a equação é absolutamente idêntica à seguinte:

..........(2-5/2)^2 = (3-5/2)^2

Extraindo aos dois membros a raiz quadrada temos

..........2-5/2 = 3-5/2

Logo

..........2 = 3

..................................q.e.d.

.
Ora custa-nos a crer, por mais evidente que se nos afigure a demonstração, que a aritmética esteja desde o começo do mundo a enganar-nos, dando-nos noções absolutamente inexactas sobre a diferenciação dos números. Portanto, devemos supor que algum artifício ou alguma inexactidão houve no decurso da demonstração acima desenvolvida. Vejam agora os leitores onde está o busílis.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A magia dos números I – quebra-cabeças


Dizem alguns que não há nada mais árido ou mais frio que os números. Não é verdade. Tenho provas sobre a magia dos números. Para exemplificá-lo, o que primeiro se atravessa no meu espírito foi o que presenciei em Hong-Kong, em que só carros muito caros conseguem ter nos seus números de matrícula o 9 e o 3, porque nos leilões do governo, por esses números pagam-se fortunas. O número 14 é horrível e por isso os hóteis recusam-se a ter o piso 14 e como para os ocidentais o 13 é considerado número de azar, também não existe o piso 13, passando-se directamente do piso 12 para o 15. Tudo isso acontece devido à tradição taoista de Hong-Kong. Claro que com esta mania dos números, esta gente é louca por jogos de azar. Daí os jogos serem proibidos no território, sendo necessária uma deslocação a Macau para tentar a sorte...

Existiu.uma.polémica.a.nível.internacional.[ver http://en.wikipedia.org/wiki/Monty_hall_problem], a propósito do problema de um concurso e do cálculo da probabilidade de o vencer. O concurso é simples: os concorrentes têm 3 portas fechadas. Atrás de uma das portas está um carro e nas outras duas estão cabras. O concorrente tem de adivinhar em qual das portas está o carro, da seguinte forma:
1- O locutor pede ao concorrente para escolher uma das portas. O concorrente escolhe uma das 3 portas. Por exemplo, entre as portas A, B e C, escolhe a C, deixando de fora a A e a B.
2- A porta escolhida (ex: porta C), não é aberta, permanecendo fechada.
3- O locutor, sabendo de antemão onde está o carro, dirige-se a uma das outras portas que o concorrente não escolheu, onde está uma cabra, e abre essa porta. Seria por exemplo a porta B.
4- O locutor pergunta ao concorrente se deseja manter a escolha inicial, C, ou se prefere mudar a sua escolha para a porta A.

Qual é a maior probabilidade de acertar? Manter a escolha inicial, a porta C, ou mudar para a porta A?

Sabe-se que na primeira escolha do concorrente, a probabilidade de acertar é de 1 em 3 (33%). Mas, na segunda escolha, após a abertura de uma das portas, a probabilidade de acertar é maior, de 1 em 2 (50%). Como deve agir o concorrente? Há quem defenda que na segunda decisão, optar pela porta C, já escolhida ou pela nova porta A é igual, pois existirão 50% de hipóteses, na mesma.

Outra forma de ver a questão era que sendo mais pequena a probabilidade de acertar da primeira escolha, apenas de 1 em 3, e sendo a probabilidade de errar maior, de 2 em 3, mudar de porta significava mudar a probabilidade de acertar de 1 em 3 para de 2 em 3.

Em que ficamos? Quem tem razão?

Sem ir para fórmulas vejamos, a partir do nosso exemplo em que escolhemos a porta C, por cada seis vezes que jogarmos, se todas as possibilidades são iguais, então:
- uma vez o carro está atrás da porta C e o locutor abre a porta B
- uma vez o carro está atrás da porta C e o locutor abre a porta A
- duas vezes o carro está atrás da porta B e o locutor abre a porta A
- duas vezes o carro está atrás da porta A e o locutor abre a porta B
Em cada seis vezes, só em duas o carro está atrás da porta C. Nas outras quatro situações ganha quem muda de porta. É melhor mudar!
.
Porquê esta dificuldade de interessar os nossos miúdos pela Matemática? A Matemática pode ser tornada interessante, porque é interessante.
[ A propósito, parabéns para quem este ano elaborou o teste intermédio do 9º ano de Matemática. Assim é que devia ser sempre. Ver o ficheiro PDF em http://www.gave.min-edu.pt/np3/9.html ]

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Os diferentes cavaquinhos

O cavaquinho havaiano – ukelele, de Israel Kamakawiwo'ole (IZ):


O cavaquinho português num vira “à moda de Júlio Pereira” :


O cavaquinho brasileiro a acompanhar o samba:


A braguinha da Madeira:

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Carlos do Carmo - No Teu Poema

Festival da canção, 1976, RTP*.
.


José Luis Tinoco que acompanha ao piano, compôs a letra e a música.

NO TEU POEMA (José Luís Tinoco)

No teu poema:
Existe um verso em branco e sem medida,
Um corpo que respira, um céu aberto,
Janela debruçada para a vida.

No teu poema:
Existe a dor calada lá no fundo,
O passo da coragem em casa escura,
E aberta uma varanda para o mundo.

Existe a noite,
O riso e a voz refeita à luz do dia,
A festa da Senhora d’Agonia e o cansaço,
Do corpo que adormece, em cama fria.

Existe um rio,
A sina de quem nasce fraco ou forte,
O risco a raiva e a luta,
De quem cai ou que resiste,
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema:
Existe o grito e o eco da metralha,
A dor que sei de cor, mas não recito,
E os sonos inquietos, de quem falha.

No teu poema:
Existe um canto-chão alentejano,
A rua e o pregão de uma varina,
E um barco assoprado, a todo o pano.

Existe um rio,
O canto em vozes juntas, vozes certas,
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar,
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio,
A sina de quem nasce fraco ou forte,
O risco a raiva e a luta,
De quem cai ou que resiste,
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema:
Existe a esperança acesa atrás do mundo,
Existe tudo mais que ainda me escapa,
E um verso em branco à espera...
Do futuro.

*Ver mais vídeos dos festivais RTP da canção em http://www.youtube.com/user/MigMeira

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Bilbao e Kepa Junkera

Bilbao está tão perto de Portugal que admira serem ainda poucos os portugueses que foram visitar aquela cidade e o espectacular museu Guggenheim. Para quem gosta de arte moderna, por exemplo quem gosta da arte do museu Berardo, do museu do Chiado ou de Serralves, vá visitar Bilbao e o seu Guggenheim. Para abrir o apetite, aqui fica uma vista da cidade basca pelo rio Nervión*, com a companhia da extraordinária música de acordeão (trikitixa) de Kepa Junkera:



Toda a informação sobre Bilbao em http://www.bilbao.net/
Mais sobre Kepa Junkera em http://www.youtube.com/user/kepajunkeraweb

* Penso que em basco (ou euskara) se escreve Nerbioi

terça-feira, 13 de maio de 2008

10 de Maio: o primeiro dia de Pangea

Hoje é dia 13 de Maio, 91 anos depois dos acontecimentos registados em Fátima. Há 3 dias atrás foi outro dia importante: o dia de Pangea. Pangea é o nome do continente único dos primeiros tempos do planeta Terra. Ao longo de milhões de anos esse continente original começou-se a separar em vários pedaços: Eurásia, África, Oceânia e América.
Decidiu-se marcar a data de 10 de Maio de 2008 para a primeira comemoração do dia de Pangea, como se o mundo estivesse ainda todo unido: sem divisões políticas, de interesses, religiosas ou culturais. Pretendeu-se realçar o que une todos e não o que divide - todos somos humanos, e afirmar a tolerância e a paz entre todos os povos. Foi no passado Sábado.

Neste blogue alertámos para o dia de Pangea com muita antecedência, em 17 de Setembro de 2007. Devemos orgulharmo-nos porque um dos grandes filmes apresentados no Pangea Day é do português Luís Manuel Almeida e chama-se “Pago para ver”. Outro filme em destaque, foi o notável filme moçambicano “A Bola”, de Orlando Mesquita, incluído no excerto abaixo apresentado, que corresponde aos primeiros vinte minutos dessas comemorações, espalhadas por vários pontos do globo, entre os quais o Brasil.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

História no Paraíso III – por Aquilino Ribeiro

Sempre julguei que a história de Adão e Eva no Paraíso, servia principalmente para estigmatizar a mulher, por parte da hierarquia masculina da igreja e da sociedade, mostrando Adão não exactamente como um inocente, mas quase. Digamos que de alguma forma, ele fora arrastado para a desobediência a Deus, pela companheira. Este anátema sobre as mulheres, permitia mostrar a todos a verdadeira natureza maldosa do género. Claro que Aquilino Ribeiro não poderia nunca concordar. Que solução foi ele encontrar para a questão?

Triunfal
(Parte 3 de 3)

Uma tarde, à sombra fresca dos castanheiros, que davam ricas castanhas longais, sem que precisassem de as dar, cismavam na tentação em que viria colaborar a criação inteira e que tornaria as suas almas seara emaranhada do saber e campo aceso de peleja. Franjada, suando um subtil torpor sobre as rosas e as abelhas, singrava no céu uma nuvem. Uma nuvem, que para eles não tinha nada de comparável, visto que a sua candidez era completa e insciente. Os cronistas mosaicos do século II viriam a compará-la a um grande avejão apocalíptico, emplumado de branco e com rémiges de fogo. Os animais, ia ela pairando, enlanguesciam em sonâmbula lassitude; já duas gazelas, na orla do ribeiro, se perseguiam arrifando. Agastadas, as flores descaíam para terra, e no ar o polén e os aromas, encontrando impenetrável o plafond, rebatiam-se sobre o solo e empestavam o ambiente de enjoativa mofeta. Pelas fendas das rochas – que todas eram no Paraíso de ágata e alvo alabastro – os lagartos confundiam suas casacas verde-gaio.

Adão e Eva, num quebranto que lhes envincilhava os membros ágeis, contemplavam de pupila semimorta o trejeito imprevisto dos seres. A nuvem ancorara sobre eles, de todo impedindo de voar para o trono de Deus a sortida perfumaria do Éden. Como cobras sonolentas, os bálsamos rastejavam e envolviam os corpos nus e cândidos de nossos pais.
– Estamos enredados em hera – balbuciou a mulher.
– São cordas de sol que passam pelo arvoredo – respondeu Adão.
Eva lembrou-se que o Senhor dissera: sereis tentados a comer o pomo proibido pela conjura dos elementos. Teria batido a hora? Palpitou-lhe que sim, mas tolheu-se de advertir Adão. O que fosse, soaria.
Tudo à volta deles era suspeito: aquela languidez; os bichos a arfar; o colapso das rosas; o estado de sideração do Jardim todo. Na riba encantada da lagoa, a libré vistosa de dois crocodilos palpitava, e, a meio dos bosques, suspiros estranhos feriam o silêncio.
– Ai, anda-me lume no rosto! – gemeu Eva.
– Qual lume! Já te disse, são os incensos que encontram fechada a porta dos céus... – respondeu Adão.
– E porque está fechada, homem? – atreveu-se ela a dizer, quase a descair em revelar-lhe a sua apreensão.
– Eu sei lá! Pergunta-o ao nosso amo...
A nuvem baixou ainda, até poisar sobre a copa das árvores. Uma luz indecisa banhava o Paraíso.
– Que nuvem tão carregada! Abafa-me!... Ah! – lamuriou Eva.
– Cala-te, é a aeronave em que Deus vem visitar-nos.
As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lãzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:
– Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal?
– Porquê?
– Se não tivesse, não era assim proibido!
Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:
– Mas não era melhor que nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!
– Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!
– Tu serias capaz, eu não.
– Sei lá!

Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata e a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lha entre as suas, pronunciando:
– Olha para ali... olha como se enroscam as serpentes...!
E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.
– Faze-me como as serpentes e como a nuvem – disse para Adão a tentadora e subtil.
E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia, daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo – Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade; e a nuvem, alcandorada num instante como enorme avejão, desprendeu-se e librou-se nas alturas. Arquejantes mas risonhos, nossos pais compreenderam que haviam tragado o pomo em que se encerrava a peçonha do bem e do mal e que tudo o que Deus lhes dissera fora em tom de alegoria. Uma paz inquietadora paralisava o Jardim das Delícias. E ficaram transidos de ânsia, à espera.
Por cima deles repercutiu, a breve espaço, um formidável trovão que os atirou um contra o outro a bater os dentes de medo. Robles, castanheiros e olmos lascavam em sinistro fragor, e as aves, alucinadas, corriam o espaço, como setas na batalha dos Anjos Revéis.
Um serafim, de cenho raivoso e couraçado, veio voando do alto direito a eles. E, à espadeirada, enxotou-os para fora do horto, em volta do qual surgiram, de golpe, muros altos, insuperáveis.
– Perdão, senhor Anjo! – suplicou Eva, ajoelhando. – Pecámos por ignorância...
– Por ignorância!? – ribombou a voz de Deus entre nuvens. – Ser preverso e astucioso, já o teu coração tinha adivinhado antes de a tua carne o sentir. A mim não enganas tu! Há muito que a tua alma sofria entre o mistério e o desejo. Encontraste; agora ide, ide para o mundo sem fim, sofrer, lutar, correr por entre mil tormentas para a ténue emboscada de um gozo.
Eva soluçava; Adão, sacudindo a cabeça em rasgo de decisão, travou dela nos braços:
– Que importa, se descobrimos o amor e decifrámos o enigma da vida! Que importa, se conhecemos os segredos de Deus!
A criação inteira rompeu empós. E até as aves em seu cantar pareciam dizer:
– Também vamos, ó homem, para o mundo sem fim. Amor, és tudo!
As cancelas do divino horto fecharam-se de repelão; a terra e o céu ardiam, as ondas no mar ardiam.
Nossos pais meteram, de cabeça dobrada, contra o frio e o vento. Dos animaizinhos, não obstante não terem sido escorraçados do Jardim das Delícias, cada par, mesmo os mochos, disparou para seu souto. Ao fim do amplexo que povoou o mundo, uma voz melopaica murmurejou, subiu em acento, esplendeu um hino, a vida toda. E era um triunfal:
– Amor, amor és tudo! A ti nos rendemos na dor e na alegria! Amor, és tudo!

Afinal, o verdadeiro motivo da expulsão do Paraíso teria sido um fruto muito especial: o amor prazenteiro entre Adão e Eva, leia-se – sexo. Quem o praticasse, nunca poderia almejar a permanência no Paraíso.

[Este.conto.pode.também.ser.lido.em

domingo, 11 de maio de 2008

História no Paraíso II – por Aquilino Ribeiro

Até agora Adão e Eva viviam felizes no Paraíso, beneficiando de todos os prazeres colocados à sua disposição por Deus. O único cuidado a terem, seria o de evitarem comer o fruto da árvore da ciência. Deus prevenira-os que desobedecerem a essa ordem implicava a sua expulsão do Paraíso, mas eles estavam curiosos.

Triunfal
(Parte 2 de 3)

Adão e Eva divagando nos Jardins das Delícias, em que as árvores eram andores garridos e pasmados, e as fontes trauteavam minuetes ao espraiarem-se sobre as areias de topázio e sardágata meditavam:
– Vá lá saber-se que raio de árvore é aquela! Pois não é verdade que se parecem todas umas com as outras e, em matéria de frutos, adeus, minhas encomendas, seria preciso ser pomicultor para acertar?! Nosso bom amo sempre arma cada esparrela à gente!
– Assim miraculoso e vedado, muito bom deve ser tal fruto! – murmurou Eva, relanceando olhos escrutadores aos pomos sazonados, sem grainha e sem bichos, que se lhes ofereciam dos ramos.
– Se deve! – assentiu o homem, abanando a fronte, sombreada de espessa guedelha preta.
Seu enigmático patrão, outro dia que os surpreendeu em consultas ralhadas um com o outro, foi um pouco mais longe:
– Nesse fruto, meus meninos, estão açaimados todos os flagelos... ódio, ciúme, angústia... guerra...
– Só flagelos, Senhor?
– Flagelos... e poucos e mentidos prazeres.
– Mas os nossos olhos são de cegos! – argumentou Adão. – Sem querer, podemos faltar às vossas ordens!
– Se o meu Senhor lhe pusesse um sinalzinho de alarme... – observou Eva que era sagaz.
– Uma campainha, não? O alarme ser-lhes-á dado por tudo à roda: aves, flores, céu. E não lhes digo mais nada.
E, desde então, no intuito de não delinquirem por ignorância, o entendimento deles palpitou por saber qual era o fruto temível e saborosíssimo que encerrava os príncipios que frutificavam em angústia e guerra e em raros e falaciosos deleites. Não compreendendo do que se tratava, nem que coisa era tal monstro, experimentavam um respeitável medo. Na variedade infinita do Éden, todos os pomos eram óptimos e cometedores. De cada um lhes diziam picanços e vespões, quando se banqueteavam:
– Oh que bem que sabe! Provem, provem!
Mas qual fosse o pomo singular, que compreendia tão tremendo laboratório, não atinavam os divinos moradores. E porque não atinassem, o receio de poderem, involuntariamente, trair o amo flutuava em seu cuidado e já enrugava a face lisa do seu mar de doçuras. E, se em corpo e alma permaneciam purinhos sem a menor mácula, começavam a sentir o gume dos dias lavrando sulcos mansos na sua felicidade.

Às temporadas, o Senhor descia a visitar os colonos; e havia grande arraial no Jardim das Delícias, em que os animais todos, desde o grilo ao diplodoco, tomavam parte. Adão e Eva entoavam o proverbial Te Deum festivo dos súbditos, sempre agradecidos, aos monarcas, sempre paternais. Faziam coro leões, tigres, elefantes e muitos outros paquidermes, todos mais pacíficos e bem ensinados que cónegos e acólitos de catedral em dia de jubileu.
Sempre Deus se retirava contente, cofiando o linho alvíssimo da barba e rebolando a menina do olho na fronte sumptuosa de ancião. Duma dessas visitas, quando percorriam os três uma das alamedas do parque, abóbadas de frutos, Eva rompeu a choramingar:
– Mas, Senhor, temos medo de cair em erro. Que fadário o nosso! Por quem sois, por vossas bonitas barbas de prata, dizei-nos qual é o pomo proibido...!
De má catadura, o Senhor atalhou que nem era bom falar nisso, pois seriam réprobos no dia em que o soubessem. Eva, entretanto, que estava podre de mimo, rompeu a colher frutos e a lançar-lhos aos pés. E, cortando, cortando, ora as açucaradas peras, ora as romãs rubras e as camoesas ingénuas, interrogava:
– É este, Paizinho do Céu?
E, invariavelmente, Deus respondia, severo mas não irado:
– Não, Eva, não!
– E este, meu rico Senhor?
– Nada, nada disso!
– Ah, que nos quereis perder!
– Que heresia, Eva, que heresia! Mais do que isso, que má-criação! Já disse e redisse que seriam tentados pela conjura dos elementos, por todos os seres... todinhos, até por aquele feio bicho... – e o Deus do Céu e da Terra apontava duas serpentes de rabo a bulir, tão cosidas uma à outra, como um calabre a destrançar, e as duas cabeças sobrepostas, que davam ideia do cabuchão dum anel.
– Ah! – e Eva, que era a finura das finuras, deu conta que, no olhito de Deus, boiava mais luminosa a sua cintila luminosa. Estariam então perto do fruto proibido? Deus, porém, não o confessava, e lá iam arrastando o temor de ser maus servos e a curiosidade de devassar um mistério de tão estupenda cubagem. Estes dois sentimentos mitigavam-lhes a beatitude exaustiva de colonos do Jardim das Delícias. E a asa do tempo já muito bem a sentiam ir revoando.


(Continua)

sábado, 10 de maio de 2008

História no Paraíso I – por Aquilino Ribeiro

Aquilino tinha aquela grande qualidade da palavra, que era não só uma erudição académica, fruto da sua formação de seminário e de muitas leituras, mas também uma “erudição popular”, se é lícita a expressão, consequência da sua vivência e observação. Tinha ainda uma incomensurável imaginação, como se pode comprovar através deste conto “fantástico” de 1913, intitulado no original “Triunfal”.

Triunfal
(Parte 1 de 3)

Tinha Deus aposentado Adão e Eva no Jardim das Delícias, onde viviam como os mais desabusados regalões. O homem era esbelto e sólido, embora nunca houvesse exercitado os tendões na marcha, nem apurado os bíceps a colher o antílope no laço; ela, um lambisco de primeira, esgalgada e especiosa, a quem os cabelos vestiam de oiro à maravilha, sem pensar na folha de parra para a nudez, nem cinábrio para a boca, que de seu natural era rubicunda.
Não sabiam de onde eram, nem como estavam ali, nem tão pouco se importavam de saber; acharam-se dentro do horto uma boa manhã, e todas as demais manhãs, na plenitude dum gozo inapreciável, porque nunca espinho, sol mais destemperado ou hora amarga lhes ensinara que aquilo era o sumo bem. Se alguma coisa soubessem desejar, o seu Senhor provê-los-ia instantânea e abundantemente como o mais solícito mordomo; mas nem desejos, nem cobiças, nem necessidades, picavam os seus corações inocentes; não admiravam porque tudo era admirável; júbilos, ternuras, esperanças não sentiam, que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No céu, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos cem por cento, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado.
– Gozem, gozem, mas muita cautela, não me toquem na árvore da ciência!...Vejam lá! No dia em que o fizessem tinha-lhes soado a hora da desgraça...Tu, homem, ias regar a terra com o suor do corpo; e tu, mulher, serias votada à condição da criatura mais frágil e cativa entre as criaturas.
– Mas, Senhor – retorquiu nosso pai, que era um moloço fiel – nós seremos tão tolos que desrespeitemos as vossas ordens?! Não, meu senhor, enquanto eu aqui estiver, ninguém toca na tal árvore da ciência.
– Bonita charada! Pois está bem de ver que ninguém toca – acudiu Eva, com certo despeito por ser excluída pelo homem do resguardo prometido. – A questão toda é saber-se qual ela é...
– É verdade, Senhor, ninguém ergue um dedo para semelhante planta – tornou nosso pai que era cabeçudo. – Mas não seria mau ensinar-nos qual é...
– Se o dissesse, perdia todo o mérito a vossa observância. Além de que ficavam a saber tanto como eu! A árvore defesa é aquela cujo pomo mais violenta e repentinamente lhes apetecer – respondeu o Pai Celeste. – Serão tentados a comê-lo por serpentes, abelhas, aves... a conjura toda dos elementos.
– Tão gostoso é esse pomo proibido?! – inquiriu Eva curiosa.
– Lá gostoso, não digo que não seja. Mas no sumo concentram-se todas as peçonhas. Vocês a darem a primeira dentada e o seio a tornar-se-lhes o ninho infernal dum mundo misterioso e tumultuário. Nem podem imaginar! E eu ver-me-ia obrigado a pô-los no olho da rua Gozem à farta, mas lá com as minhas recomendações, muito sentido!
Retirou-se o Padre Eterno para a excelsa morada, no meio da corte de arcanjos e de serafins, à testa da qual fungava uma filarmónica de trombetas e saxofones de oiro, tão afinada e imponente que seria capaz de competir com a charanga do Braço de Pau, que se havia de formar dali a milhões de anos na aldeia turdetana de Vila Cova à Coelheira.

(Continua)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Al-Edrisi e o imaginário medieval português

Mapa mundo de Al-Edrisi






















Porque há poucos dias recordei Ibne Mucana de Alcabideche, resolvi hoje* assinalar outra figura árabe, Al-Edrisi (ou Al-Idrisi), um geógrafo medieval muito importante e conhecido.
É geralmente muito citada a carta do Prestes João de 1170, como fazendo parte do imaginário medieval e do quadro mental português, que influenciaria mais tarde a epopeia lusíada da procura do Prestes João, liderada pelo Infante D. Henrique. É contudo menos referida a possível influência de Al-Edrisi que em 1154 publica a sua Geografia.
No seu mapa, era considerado que as zonas mais ao Sul de África seriam inabitáveis devido ao calor excessivo [já os gregos assim pensavam]. A Peninsula Ibérica é desenhada com os principais rios que vêm desaguar ao território português e com a Serra da Estrela. Diz Al-Edrisi:

“O oceano rodeia os limites terrestres e tudo para além daí é desconhecido. Ninguém foi capaz de verificar o que quer que fosse, devido às dificuldades e perigos da navegação, a sua grande obscuridade, profundidade e tempestades frequentes; devido ao medo dos peixes monstruosos e terríveis ventos; no entanto existem muitas ilhas, umas com gente e outras desabitadas. Nenhum marinheiro se arrisca a entrar nessas águas profundas, e se alguns o fizeram, foi percorrendo ao longo das costas terrestres, receosos de se afastar demasiado. As ondas deste oceano, embora movendo-se com altura de montanhas, mantêem-se inteiras e sem se quebrar, porque se se quebrassem, seria impossível para um barco ultrapassá-las.“

Ao olhar o seu mapa, seria possível chegar pelo oceano, contornando África, à Índia...
Al-Edresi narra o episódio de um grupo de fugitivos, que no século oitavo fugiam da Península Ibérica, que estava a ser ocupada pelos mouros. Tratava-se de um arcebispo do Porto, seis bispos e outros cristãos que saíram numa embarcação de Lisboa:
“Depois de onze dias de navegação, chegaram a um mar, cujas espessas águas exalavam um cheiro fétido (...) em seguida navegaram para o Sul durante doze dias e chegaram à ilha dos carneiros, de carne amarga e impossível de comer. Continuando para sul durante mais doze dias, aportaram a um grande cidade onde viram homens nus, de alta estatura, com a pele vermelha, o corpo coberto de pêlos e com cabelos lisos e compridos. As mulheres eram extremamente belas.”
.
Aqueles marinheiros que partiram de Lisboa já seriam, no século oitavo, mareantes experientes e demonstravam que era possível navegar durante muitos dias para Sul.

*Só hoje tive conhecimento que em 2,3 e 4 de Maio [no passado fim-de-semana], decorreu uma Conferência Internacional, subordinada ao tema O Gharb al-Andalus na obra do geógrafo al-Idrisi, em Vila Real de Santo António.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O triângulo Lisboa-Sintra-Cascais


Agora que as praias da Costa da Caparica são já uma imagem dum passado [diz-se que mercê de umas dragagens feitas durante anos, que alteraram as correntes da foz do rio, as praias da Costa perderam o seu imenso areal], cada vez mais os alfacinhas fazem a sua “volta dos tristes” de fim-de-semana, no triângulo Lisboa-Sintra-Cascais.
Desde Santo Amaro de Oeiras - aberta “a banhos”, até ao Guincho, com a vinda do bom tempo todas as praias enchem. E é assim, que certos restaurantes em S. Pedro de Sintra ou em Alcabideche se enchem de gente.

Verdade seja dita, que nos tempos que correm, as idas à praia já não são de dia inteiro de tacho e garrafão, como nos anos 50 a 80 do século passado. O problema do ozono e a consciencialização sobre os perigos do cancro da pele, provocou que os banhistas a partir dos anos 90, começassem a permanecer menos tempo nas praias apanhando os -antigamente terapêuticos [e hoje considerados perigosos] “banhos de sol”. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Contam-nos Branca de Gonta Colaço e Maria Archer em “Memórias da linha de Cascais”:

No século XVIII, no início do século XIX, a sociedade elegante de Lisboa veraneava no Ribatejo, enchendo de rumor e vida as sumptuosas quintas e palácios da região. Em Vila Franca havia caçadas reais, em Salvaterra touradas de fidalgos. Alhandra era, na época de D. Maria II, um ponto de veraneio muito na moda. Sintra, tão gabada por Byron nos começos do século XIX, só esteve na berra quando o rei D. Fernando se apaixonou pelas paisagens deslumbrantes que avistava do velho convento arruinado, pelas sombras e os silêncios das matas que o castelo mourisco coroa do emblema heráldico das suas ameias.
Instalou-se D. Fernando no castelo da Pena, D. Luís e D. Maria Pia mandaram restaurar o Palácio da Vila, a condessa de Edla teve o seu palacete na encosta da serra – e então a nobreza do reino ergueu mais palácios e muros de parque por toda a serra que vizinha o Palácio da Vila e o Palácio da Pena. Sintra surgiu no turismo nacional pelo capricho desse rei amante das velhas árvores e do murmúrio das águas nas sombras das matas – mas D. Luís, que fora marinheiro e gostava do ar salgado e das vistas infinitas do oceano, fez com que se construísse, em 1868, a estrada entre Sintra e Cascais. O triângulo turístico Lisboa-Sintra-Cascais, que ainda hoje perdura e é a ostentação máxima do turismo nacional, vem-nos em herança, do bom gosto dos nossos reis.
.
Façam o fim-de-semana como quiserem, mas acima de tudo sigam este conselho - usem um bom protector/filtro solar:
.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Primeiro de Maio

Já sei o porquê de neste 1º de Maio, só me lembrar das fotografias de Trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado: acho que aquelas imagens, que vi pela primeira vez no CCB, ficaram a marcar-me para o resto da vida.
.











Kisangani, Zaire, 1997