domingo, 29 de junho de 2008

Férias, gasolina e comboio




Nunca o preço do gasóleo e da gasolina estiveram tão altos, afectando os custos das transportadoras aéreas e marítimas e as viagens de carro. Na primeira página do Público de hoje escrevia-se: “Ferias de verão à medida da crise e da factura dos combustíveis”.
O Sunday Times, jornal inglês de maior circulação ao domingo, questionava o porquê da necessidade de viajar de avião e sugeria como alternativa mais económica e interessante para viagens na Europa, o comboio. Os passes europeus permitem viajar com qualidade, de forma tranquila e com muito maior economia do que por avião ou carro. Ver por exemplo em http://www.interrailnet.com/

O nosso país continua a ser destino turístico para muitos portugueses e estrangeiros e em Portugal também existe alternativa ferroviária para passar umas boas férias. Sugiro que se consultem os roteiros de Portugal dos Caminhos de Ferro Portugueses [ver http://www.cp.pt/].

Há uma calma e um encanto especiais, sem stress, que podemos usufruir viajando de comboio. No nosso país dispomos de uma excelente rede de hotéis, de turismo rural e de campismo, o que possibilita passar umas férias agradáveis, bem instalado e a viajar, consoante o programa escolhido e as possibilidades de cada um.

sábado, 28 de junho de 2008

Alexandre Soares dos Santos [Jerónimo Martins]: “Todos pela quinta!”









“Trabalho e determinação. E de uma vez por todas, querermos ser alguém que não o povo miserável que temos a mania de dizer que somos. Temos empresas moderníssimas. Temos universidades muito boas. Há que deixar de olhar para o País como a quinta de poucos. A quinta é de todos e temos de fazer mais pela quinta.”

Alexandre Soares dos Santos numa entrevista imperdível ao Diário Económico

terça-feira, 24 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais IV – O presépio de Dona Vitória.

Presépio tradicional português

Diz-se que o primeiro presépio terá sido o de São Francisco de Assis. Não sei se é verdadeiro ou se é lenda, mas faz todo sentido ter sido ele o primeiro a representar a cena natalícia.
O presépio português, com o monte, o musgo e os caminhos, exerce sempre grande fascinação entre os miúdos. Quando era pequeno recordo-me que gostava de lhe acrescentar, para dar um ar mais pessoal e realista, os meus bonecos de plástico de brincar: índios e caubóis. Era apenas, claro, um comum presépio caseiro, sem as dimensões e complexidade do presépio de Dona Vitória em A Morgadinha dos Canaviais.
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Henrique voltou com o conselheiro a admirar o primor que a paciência de um artista imaginoso realizara na confecção do presépio, onde estavam representados todos os episódios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era efectivamente uma complicada máquina aquele presépio, e seria prova de profunda indiferença artística passar por ele sem um exame, embora fugaz.
Este traste, antiquíssimo na família, gozava de nomeada num círculo de léguas em redor. Havia empenhos para o ver no tempo do Natal, e, se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe recomendasse o visitar o presépio, como coisa digna de ver-se.

Consistia ele numa espécie de Santuário de pau-preto, no meio do qual havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel com estames de fio de prata. Dentro desta gruta estava deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos impulsos do compadecido coração de Dona Vitória, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de lençóis de renda com cercadura doirada; colcha de cetim bordado, e colchão e travesseiros da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quase iguais às do menino; mais longe a vaca e a mula tradicionais. Os episódios, porém, eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Vários grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuários, ornavam a cena. Ali um cego tocador de sanfona; um grupo de galegos dançando, ao som da gaita-de-foles; uma pastora com ovos mais adiante; ao lado, um grupo celebrando um “pic-nic”, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata e botas de cano; -- outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona inglesa com o seu jockey galopava pelas cercanias de Belém; um vareiro e uma vareira caminhavam a par com ofertas para o menino. Ao longe, nos visos da serra, apareciam os três Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar a baixo.

Não esqueceu o inspirado autor daquele monumento escultural os muros de Jerusalém. Eles lá estavam coroados de ameias e de milicianos fardados à inglesa e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aqueles guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer deles era duas vezes maior do que as figuras do plano da frente. Do alto da muralha arvorava-se a bandeira portuguesa. Havia vários santos espalhados pelas agruras daquelas montanhas, e, entre os aditamentos feitos pela devoção de D. Vitória ao presépio, contava-se o de um Santo António de Lisboa, que, apesar de taumaturgo, parecia muito admirado de se ver naquele tempo e lugar. Um galo colossal soltava do telhado do presépio o grito anunciador; anjos e querubins espreitavam do Céu por entre nuvens de algodão e estrelas de ouropel. Era um prodígio!

domingo, 22 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais III – O discurso político de Eusébio Seabra, o “Brasileiro”.

Imagem de um caleidoscópio
Congresso do PSD: Manuela Ferreira Leite incomoda muita gente, por isso gostei do ar enfatuado e condescendente de alguns comentários de opositores internos e de alguns “analistas” mais próximos do governo. O discurso dela chama-se “falar sério”: sem grande espectáculo, sem PSD azul e com o mínimo de maquilhagem. “Que grande chatice”, parecem dizer alguns congressistas deitados sobre as cadeiras, a bater pequenas palmas, displicentemente, ou nem isso. Manuela Ferreira Leite deu mostras de pretender fazer as coisas como deve ser, e assim sendo, o país e o próprio governo do país, beneficiarão finalmente de um discurso consistente e mais credível no PSD e na oposição.

Já no tempo de Júlio Dinis, não havia pachorra para ouvir discursos “caleidoscópicos”, como o de Eusébio Seabra, o “Brasileiro” de A Morgadinha dos Canaviais.

-- Isso não é assim -- atalhou o Brasileiro, tomando uns ares catedráticos, cheios de gravidade. -- Vossemecê é ignorante e por isso é que fala desse modo.
-- Eu digo... -- tartamudeou, intimidado, o lavrador.
-- Pois sim: mas não deve meter-se a falar em coisas que não entende. As estradas não servem para nada! As estradas são meios de comunicação e... facilitam o... o... o tráfego comercial e aumentam por conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um capital... sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital morto... quero dizer... um capital que... não vive... Quero dizer... sim... suponhamos: o crédito por exemplo... O crédito... sim... aí está o crédito... Pois que é o crédito?... O crédito é... é o crédito... depende de muitas coisas... Por outra, suponhamos... se nós não tivéssemos estradas... Uma suposição... Partamos de um princípio. A produção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a produção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... Daí que resulta? Está claro que um desequilíbrio. E depois?... Depois, boas noites... Não havendo estradas... Aí está que se diz por aí que a livre exportação, que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquilo... Pois não é assim. É preciso que se atenda também às condições económicas dos povos. Sim... eu digo: O comércio deve ser livre... Muito bem... Em termos já se sabe... Mas... o comércio livre... a livre troca... entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... Ora suponhamos... suponhamos que não havia estradas... Os transportes eram mais difíceis e portanto mais caros... E, se, além disso, os géneros fossem escassos, e... Diz vossemecê: para que servem as estradas? Ora diga-me uma coisa, Sr. Manuel: suponhamos que... os impostos indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer?
-- Impostos, Deus me livre deles! -- murmurou o lavrador, cujos instintos trepidaram à palavra «impostos».
-- Isso também não é assim... Deus me livre! Não se diz «Deus me livre», porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a exploração... Percebe?... Ou... suponhamos... por exemplo... Não... vamos cá por outro lado... Há um défice num orçamento... desce o preço das inscrições... Ora bem... Mas... suponhamos que há boas estradas, etc... A riqueza tende a aumentar... e... e... Enfim, lá que as estradas são úteis, isso é que não tem questão.
Toda esta lengalenga económica foi escutada pelo auditório com profunda atenção.
O Brasileiro, assinante e leitor infalível de vários periódicos políticos, conseguira, à força de leitura, fixar na memória certas frases do artigo de fundo, e acabara por convencer-se de que possuía grandes noções de ciência política. Em ocasiões como esta dava uma sacudidela ao intelecto, e aquelas frases, como os variados objectos do interior de um caleidoscópio, tomavam uma disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e assim lhe saía uma dissertação, como essa que viram. Em permanente indigestão económica vivia este portento. A doença não é das mais raras entre políticos.

sábado, 21 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais II – A chegada do correio.

TEMPOS DO CORREIO NO CONTINENTE, DESDE LISBOA - SEC XIX
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Uma das passagens mais divulgadas de A Morgadinha dos Canaviais é a da chegada do correio. Numa época em que as comunicações ainda eram muito lentas e difíceis, e nas aldeias não existia electricidade, nem telefone ou telégrafo, receber uma carta era um acontecimento. Por outro lado, uma atitude sacaninha de quem administra pequenos poderes, mania mesquinha muito tipicamente portuguesa, encontra-se aqui bem retratada por Júlio Dinis, na figura de Bento Pertunhas.

Chegou enfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os óculos com umas delongas, que formavam com a ansiedade do povo um contraste desesperador, abriu fleumaticamente o saco, extraiu um não muito volumoso maço de cartas, que despejou num cesto de vime, e tomou apontamentos.
Era digno do pincel de um artista aquele grupo de fisionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bocas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterizava profundamente a ansiedade que lhe dominava os ânimos.
Mestre Bento Pertunhas achou a ocasião apropriada para dizer a Henrique:
-- Pois, senhor, eu nasci para artista. Quase sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.
Henrique volveu o olhar para o auditório; apiedou-o a consternação daquelas fisionomias. Resolveu valer-lhe.
-- Tem a bondade de ver se há alguma carta para mim?
-- Ah! Pois já as espera hoje?
-- Não é provável; porém...
Mestre Bento Pertunhas, em vista disto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescritos.
Seguiu-se novo e não menos interessante espectáculo.
A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, às vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos acrescentar, ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros, os não nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o maço, que diminuía, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
-- Luísa Escolástica, do lugar dos Cojos -- lia o mestre Pertunhas.
-- Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! -- exclamou uma mulher jovem, apoderando-se avidamente da carta.
-- Joana Pedrosa, de Serzedo -- continuava ele.
-- Aqui estou; será do meu António, senhor? -- disse uma velha pobremente vestida.
-- Será do seu António, será -- respondeu o insensível funcionário --; o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha, e ela, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
-- Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que há de ser dela -- disse um dos circunstantes.
-- Coisas do mundo! -- respondeu outro.
Estes comentários foram interrompidos pela continuação da leitura.
-- João Carrasqueiro.
-- Pronto, senhor -- bradou um velho.
-- A mesada, hem? -- disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos óculos. -- O rapaz não se esquece.
-- Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem sido.
-- D. Madalena Adelaide de... -- É a Morgadinha, é a Morgadinha -- disseram a um tempo muitas vozes.
-- Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação -- disse o Pertunhas; e, passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, acrescentou:
-- Leve-lha lá a casa.
E prosseguiu:
-- Augusto Gabriel...
-- É o mestre-escola...
-- Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como ele vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lha a casa, leve, leve também...
-- João Cancela.
-- É o João Herodes.
-- Esse foi a Lisboa.
-- Então, quando vier, que apareça.
-- O tio Zé Pereira ficou de receber as cartas. É compadre dele.
-- Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé Pereira que se ocupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.
A leitura, mais ou menos acompanhada destes diálogos, prosseguiu, redobrando de momento para momento a ansiedade dos que iam ficando. Um fundo suspiro, uníssono, melancólico, expressivo de desalento, seguiu-se à leitura do último nome e às poucas palavras com que o funcionário fechou a tarefa.
-- E acabou-se.
Os que ainda estavam na loja saíram cabisbaixos, morosos e com má vontade, como se ainda tivessem esperança de comover a inexorável sorte.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Morgadinha dos Canaviais I – A primeira noite na aldeia.

Depois de recordar há dias Júlio Dinis [1], vieram-me à memória uma ou outra passagem de A Morgadinha dos Canaviais. Como esta por exemplo, quando, obrigado por conselho médico a passar uma temporada na aldeia, devido aos ares puros e à vida bucólica e tranquila do campo, e já depois de uma longa e cansativa viagem pelo Minho [2], Henrique de Souselas - um jovem adulto, citadino alfacinha, hipocondríaco, de carácter irritadiço e pessoa de noites mal dormidas - chega finalmente ao fim do dia à Quinta de Alvapenha, casa de sua velha tia Doroteia que vive só com uma antiga ama e criada, Maria de Jesus.
A cena passa-se no momento de se deitar, entre Henrique, sua tia e Maria e tem parecenças com a primeira refeição de Jacinto em A Cidade e as Serras do Eça [3]: o bem-estar proporcionado pelas coisas simples do campo, em justaposição à elaborada e complicada vida urbana.

-- Mas vai descansar, menino, vai e faz por dormir. Olha lá: tu costumas dormir com luz?
-- Não, tia, não costumo.
-- É porque nesse caso... Ó Maria, onde está aquela lamparina, que me serviu quando eu estive doente, há seis anos?
-- Está lá dentro, senhora; se a senhora quer, eu...
-- Vê lá, menino...
-- Não, tia, não quero.
-- Há pessoas que não podem dormir às escuras -- dizia a criada. -- Eu, graças a Deus, durmo bem de qualquer forma.
-- Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, hás de ver se queres o travesseiro mais alto, ou...
-- Muito agradecido, tia Doroteia, tudo deve estar bom -- disse Henrique, procurando fugir às muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as duas o iam perseguindo até ao quarto.
-- Olha, ó menino, tu bebes água de noite?
-- Às vezes.
-- Você pôs-lhe água no quarto, Maria?
-- Pus, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia que antes sem luz do que sem água.
-- Bem, então está bem. Então muito boa noite, menino.
-- Boa noite, tia.
-- Ai, é verdade. Hás de ver se queres mais roupa na cama.
-- Não hei de querer, não, tia.
-- Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria?
-- Cinco, senhora.
-- Cinco! -- exclamou Henrique, quase horrorizado. -- Cinco cobertores!
-- É pouco?
-- Pouco?! -- É de morrer esmagado debaixo deles.
-- Ai, quer não! Olha que está muito frio.
-- Bem, bem, eu cá me arranjarei.
-- Então, muito boa noite.
-- Muito boa noite, tia.
E Henrique ia a fechar a porta.
-- Olha... -- disse ainda a tia.
Henrique parou.
-- Não sei o que é que me esquece...
-- Não há de ser nada, tia; boa noite.
-- Não esquecerá?... Eu se?... Enfim... Boa noite. Ai, é verdade... Sempre é bom ficar com lumes prontos.
-- Ai, sim; lá isso sempre é bom.
-- Vês? Não que bem me parecia.
-- Já lá estão, senhora -- disse a criada de longe.
-- Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.
-- Muito boa noite, tia.
E Henrique conseguiu fechar a porta.
Estava finalmente só.
-- Que desastrada lembrança a minha! -- disse o pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si. -- Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinências me esperava! Ai, Lisboa, Lisboa! E pensar eu que só posso voltar para ti à custa de outra jornada!
O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de almofada na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava o auxílio de cadeira para trepar acima dele, uma cómoda com um pequeno espelho, um baú, um lavatório e duas cadeiras mais, constituíam a mobília toda.
Henrique de Souselas sentia a falta de mil pequenos objectos de toucador a que estava habituado. Aquele estritamente necessário não lhe prometia grandes confortos.
Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvíssimo e respirava um asseio e frescura convidativos; os travesseiros, de largos folhos engomados, possuíam uma moleza agradável às faces; o colchão de penas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado.
Henrique conchegou a roupa a si; à falta de velador pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, pôs-se a ler, para obedecer a um hábito adquirido.
Não teria ainda lido um quarto de página, quando ouviu a voz da tia Doroteia, que lhe dizia de fora da porta:
-- Ó menino, tu já te deitaste?
-- Já, sim, tia Doroteia.
-- Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um medo de fogos!
-- Esteja descansada, tia. Eu apago já.
-- Então será melhor. S. Marçal nos acuda.
E afastou-se, rezando ao santo.
Henrique continuou a ler.
Daí a pouco a mesma voz:
-- Tu já dormes, Henriquinho?
-- Não, tia, ainda não durmo.
-- Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um medo de fogos! Não descanso, enquanto não vejo tudo apagado em casa.
Henrique perdeu a paciência.
-- Pois pode sossegar. Olhe.
E apagou a vela meio zangado.
-- Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por dormir. Então muito boas noites.
-- Muito boas noites -- respondeu Henrique quase amuado; e ajeitando-se na cama, dizia consigo: -- E esta! Já vejo que nem ler me é permitido aqui. Olhem que vida me espera. E isto é que me devia curar? Que fatalidade!
Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, únicos que conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu efeito, insinuando nos membros cansados da jornada um agradável calor. Convidavam ao sono o som da água num tanque que ficava por debaixo das janelas do quarto e as gotas da chuva, que dos beirais do telhado caíam compassadas na tábua do peitoril.
A noite sossegara. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam bater as vidraças. Era como estes estados, que sucedem a um choro aberto. Correm ainda algumas lágrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será completa a serenidade.
Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar naquele confortável leito e no meio daquele sossego; fecharam-se-lhe enfraquecidos os olhos, e deslizou suave, insensivelmente, no mais profundo, tranquilo e restaurador sono, que, havia muito tempo, tinha dormido.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Maluda e os seus Quiosques de Lisboa em selos

Quiosque
É uma palavra que vem do turco, kioshk, pavilhão. É um pequeno pavilhão de estilo oriental de madeira e ferro existente nas cidades, para a venda em locais públicos, sobretudo de tabacos, jornais e revistas.
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[Toda a informação sobre Maluda em http://maludablog.umnomundo.eu/]

quarta-feira, 18 de junho de 2008

A Fundação Eça de Queiroz e Tormes

Quase tenho vergonha de dizer que nunca visitei Tormes e a Fundação Eça de Queiroz (FEQ). Deveria ser um local sagrado de peregrinação para todos… julgo que as agências de viagens portuguesas, deveriam pensar oferecer produtos de turismo cultural com maior frequência e maior visibilidade, nomeadamente que envolvessem este tipo de destinos, como faz por exemplo a Martin Randall Travel para os britânicos
(ver
http://cronicas-portuguesas.blogspot.com/2008/02/o-turismo-cultural-da-martin-randall.html).

Um dos percursos sugeridos pela FEQ é o de Jacinto (de A Cidade e as Serras) entre a estação de comboios e a quinta (ver figura ao lado e consultar http://www.feq.pt/), que logo nos faz vir á lembrança o que conta o "nosso" Zé Fernandes, naquela primeira refeição de Jacinto em Tormes:

Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda sómente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim descansa.
Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de suas Incelências». Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e aí logo á porta o meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, dum vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea dum imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento puído.
Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto:--«Está bom!»
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
--Também lá volto! exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!
E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio...
--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!
O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, á vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
--Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
Eu, que não gosto que me avantagem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
--Hanc olim veteres vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!
E imóvel, com a mão agarrada á infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.
Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior--que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão.

Tal como Jacinto, sou cem por cento citadino e abomino favas. Tenho de lá ir!
A Fundação disponibiliza refeições queirosianas , alojamento, visitas guiadas, seminários, etc. (em http://www.feq.pt/ )

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A ramalhal figura

Ou de como Augusto de Castro descreve Ramalho Ortigão, em Homens e Paisagens Que Eu Conheci, 1941.

(…) Ainda conheci o Ramalho do largo chapéu desabado, bigode frondoso, à Segundo Império, grande fato às riscas, olhar e passos de granadeiro – tal como o pintou Sargent [ver figura]. Foi seu genro Eduardo Burnay, quem me aproximou do escritor de A Holanda. Estou a vê-lo ainda subir a Rua do Alecrim, com a sua grossa bengala inglesa, o andar largo, o ar esfusiante, ou descer vagarosamente o Chiado, ao lado de Rafael Bordalo, que foi o Ramalho Ortigão da caricatura portuguesa.
Um dia – eu concluíra havia pouco a minha vida universitária e começava a minha vida literária – encontrámo-nos, numas termas do norte, Ramalho, Antero de Figueiredo e eu. Já contei publicamente este episódio, mas creio que vale a pena recordá-lo.
Depois do jantar, obrigado a canja e a compota, no simpático e barulhento hotel, costumávamos passear os três pela poeirenta e pitoresca estrada minhota que bordava a povoação. Ramalho, que era um conversador magnífico, pontificava. Naquela tarde, a conversa caíra sobre a raça, o vigor muscular, a saúde, Portugal, o português. Ramalho concluía:
- O português não sabe andar. Daí lhe provém quase todos os seus defeitos de consciência e de corpo. O andar não é apenas um exercício. É uma escola. A andar educa-se a espinha, enrijecem-se os rins, tempera-se a alma. O português corcova e arrasta-se.
E, diante de nós, o escritor juntava a prática à doutrina, aprumando-se, soberbo, no seu arcaboiço de hércules e, direito, gravemente, batendo no pó da estrada as botas de duas solas, marchava á frente, alargando as pernas.
- Assim. Assim é que se anda! Direito, firme, forte. Antero de Figueiredo, o encantador Antero, quis seguir o Mestre. Ao lado dele, eu procurava também aproveitar da lição. Mas aquilo que no escritor do Culto da Arte em Portugal era aprumo, tornava-se em nós empertigamento.
- Nada, nada disso – ditava Ramalho. Esse peito para a frente. Esses braços à vontade. Mais firmeza. Apoiem-se nos calcanhares! Esses ombros, olhe-me esses ombros, ordenava a Antero. Respire, respire melhor, gritava para mim.
Mas não. Positivamente não havia maneira. Eu e Antero dávamos dois passos e emperrávamos. E diante da simplicidade e da harmonia que aquele homem de setenta anos punha em cada um dos seus movimentos e dos seus gestos, desistimos.
Foi então que eu me atrevi a dizer:
- O que eu admiro é que, sendo o Sr. Ramalho tão amigo de Eça de Queirós, nunca o ensinasse a andar…
A “ramalhal figura”, como dizia Fradique Mendes, parou, concentrou-se um momento, gravemente e respondeu:
- Efectivamente, o Queiroz não andava. Trotava…
Creio que esta anedota dá a medida, o reflexo, o desenho – e ao mesmo tempo encerra a lição – da vida exemplar desse homem que consagrou uma existência inteira e uns trinta ou quarenta volumes a “ensinar a andar” Portugal, numa obra que é uma lição de saúde e de beleza (…).

domingo, 15 de junho de 2008

Poesias de Júlio Dinis

Tal como no caso de Camilo Castelo Branco (ver este blogue da passada 2ª feira), estamos perante um genial prosador, romancista do século dezanove. O nome verdadeiro de Júlio Dinis era Joaquim Guilherme Gomes Coelho, ilustre médico, nascido na cidade do Porto em 1839 e tendo falecido apenas 32 anos depois… com a doença de Sousa Martins e de tantos outros: a tuberculose.
O seu livro “Poesias” só foi publicado três anos após o seu falecimento, em 1874. Seleccionei desse livro Uma consulta, escrita em Janeiro de 1860. Teria o autor apenas 20 anos e decerto seria ainda estudante. Diz ele como comentário a este poema:
- “A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante, que me contaram”.
Visto tratar-se de um diálogo entre médico e doente, optei por diferenciar os personagens através do uso da cor. O doente a tinta vermelha e o médico a tinta preta. Deliciemo-nos pois com a sua poesia escrita há 148 anos.


Uma consulta

- Dá licença? – Entre quem é.
- Muito bons dias – Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe vossa excelência
Se a não conhecia agora.
- Sem mais… Á sua ciência
Recorrer venho.
– Deveras?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras)
Então que temos? – Padeço
- Sim? Porém de que doença?
Essa é boa! Acaso pensa
Que eu, porventura a conheço?
- Ah! Não conhece? – Quem dera!
- Então não o consultava.
- (E eu que muito estimava)
Mas diga, então? – Eu lhe conto…
Oiça bem. Não perca um ponto.
- Nem um ponto hei de perder
- Ai doutor, doutor, meu peito…
- É do peito que padece?
Quem havia de o dizer?
- E Jesus doutor parece
Que me quer interromper?!
Não era a isso sujeito
- Nem o tornarei a ser…
Vamos lá – Ora eu começo…
Atenção é o que lhe peço;
Diga-me: que lhe pareço?
Não me acha muito abatida?
- Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
- Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
- Então o que é que sente?
- O que sinto? Ora eu lhe digo:
O doutor é meu amigo?
- Ó! Senhora… - E é prudente?
Oiça pois: eu dantes era
Fera e rija, que era um gosto!
Ou em Dezembro ou Agosto
Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada
- E hoje? – Não lhe digo nada
Nem comigo posso já.
- Mau é! – Quer saber doutor?
Só para vir até cá
Que tormentos não passei!
- Diga-me, se faz favor,
Que idade tem? – Eu nem sei…
Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia
- (É grande consolação!)
- Tenho ainda outros dois manos
Que mais velhos do que eu são
Porém, como eu lhe dizia
Doutor…
- Que mais sente então?
- A vista sinto estragada,
Até já me custa a ler,
De mais a mais sou nervosa.
Isso não lhe digo nada!
Olhe estou sempre a tremer.
- Faço ideia - Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé
- Lisonjeia-me – Outra queixa…
Que eu sofro também
– Qual é?
- É dum forte mal de dentes.
Todos me caiem
– Bem, bem
- E os que restam, mal assentes,
Qualquer dia vão também
- É provável – Ai doutor!
Que cruel enfermidade!
Não acha?
– Acho e o pior…
- Há de curar-me, não há de?
- E então não sente mais nada?
- Nada… ai, sim, tem-me parecido,
Porém, talvez me iludisse…
- Diga – A semana passada
Como ao espelho me visse…
Pareceu-me ter percebido…
- O quê? – Que a pele não era
Como dantes, tão macia
- E então? – Quem visse dissera
Que eram rugas
– (Eu dizia)
E é isso que padece?
- Ainda pouco lhe parece
Doutor?
– Por certo que não.
- Então que doença tenho?
- Em sabê-lo muito empenho
Sempre tem? – Eu? Pois então!
Para isso o procurei.
- Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
– Ó meu doutor! – O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
- Ai Jesus! – E muita gente
Dele morre – Ó Santo Deus!
Por quem é não diga tal!
E… morre-se, de repente?
- Conforme – Pecados meus!
E então é isso que pensa?
Porém ainda me não disse
O nome dessa doença.
E eu sempre o quero saber…
- O nome? – Sim – É… velhice!
………………………………...
- E o remédio? – Morrer?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Poemas de Camilo Castelo Branco

Nas Trevas, é um livro com data de 1890, de poemas, amargo, e julgo que o seu último publicado em vida, visto ter falecido em Junho desse ano, há 118 anos. Nesta altura, Camilo estaria já quase cego, daí o título. É curioso verificar que as reacções dos media criticadas nos dois sonetos abaixo, são semelhantes às dos dias de hoje.




















A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”


Comédia humana

Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…

Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim.
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Nota: a "tasca" do Penim era na verdade um restaurante chique, frequentada por artistas e pessoas famosas; situava-se na Rua do Regedor (junto à Rua da Madalena na Baixa Pombalina).
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Um grande elogio é feito por Camilo neste livro, ao poeta Tomás Ribeiro, e à sua íntegra carreira política.
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Tomás Ribeiro

Ao cantor de D. Jaime era ousadia
Dedicar uns insípidos sonetos,
Bem pálidos, mesquinhos esbocetos
Dos Ridículos grandes d’hoje em dia.

A ti que ileso passas nesta orgia,
Modesto, honrado e amado, que amuletos
Te salvam destes pântanos infectos
Em que chafurda a esquálida anarquia?

Tantas vezes Governo!... E não tens pejo
De ser pobre, ó Tomás?... Isto que vejo
Me inspira o vaticínio que registro:

Dirão de ti as porvindouras eras:
“Ministro pobre em Portugal! Quimeras!...
Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!”

Nota: sobre D. Jaime ver neste blogue em

terça-feira, 3 de junho de 2008

Visite a Feira do Livro

Como sempre, imperdível. É sempre um prazer estarmos rodeados por todos aqueles livros. A minha perdição são os livros usados e os alfarrabistas. Há para mim qualquer coisa de heróico e de sobrevivente nos livros usados, que lhes dá uma dignidade superior aos livros novos.
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Imagem da 1ª Feira do Livro de Lisboa, realizada no Rossio (1930)
Leia sempre muitos livros.