sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Cimeira Luso-Brasileira e a Crise Financeira

Texto extraído do excelente blogue brasileiro:
http://democraciapolitica.blogspot.com/
Mantive o português do texto original. É bom que todos nos habituemos a ler as coisas uns dos outros.

[LULA DEFENDE PAPEL DO ESTADO COMO REGULADOR DO SISTEMA FINANCEIRO, em
http://democraciapolitica.blogspot.com/2008/10/lula-defende-papel-do-estado-como.html]

O site “Carta Maior” ontem postou o seguinte artigo de Luciana Lima, da Agência Brasil:

"O sistema financeiro tem obrigação de ganhar o seu dinheiro em coisas que gerarão empregos, produtos, riqueza. Não podemos permitir que o sistema financeiro mundial brinque com a sociedade.

Não podemos admitir que alguém fique rico apenas trocando papéis e poucas vezes se gerou um paletó, uma bota e um alfinete", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura da 9ª Cúpula Brasil-Portugal, em Salvador.

SALVADOR - “Chegou a hora da política”, disse ontem (28) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender o papel do Estado como regulador do sistema financeiro.

Falando na 9ª Cúpula Brasil-Portugal, em Salvador, Lula se colocou contrário aos que defendiam o liberalismo econômico sem a interferência do poder público.

“Teve uma época, por muito tempo, em que os políticos andaram de cabeça baixa diante do neoliberalismo. O que estou defendendo não é o Estado se intrometer na economia, mas é o Estado que tenha força política para regular o sistema financeiro”, disse o presidente no pronunciamento que fez, ao lado do primeiro-ministro de Portugal, José Socrates.

“Fomos eleitos, assumimos compromissos com o povo, e o Estado, diante da crise mundial, volta a ter papel extraordinário, porque todas essas instituições que negaram o papel do Estado na hora da crise procuram o Estado para socorrê-las da crise que elas mesmo criaram”, afirmou Lula.

O presidente também voltou a criticar as empresas que especularam e tiveram prejuízos com a crise mundial.

“As empresas brasileiras têm grandes investimentos, rodovias, ferrovias, siderurgia, portos, agricultura. Trabalhamos honestamente por seis anos para por a economia num padrão respeitável no Brasil inteiro. É por isso que juntamos US$ 207 bilhões em reservas. É por isso que fizemos ajustes fiscais.

Entretanto, por que estamos vivendo sinais da crise? É porque alguns setores resolveram investir em derivativos, fazer um cassino.

Portanto quem foi para a jogatina perdeu. Portanto, ninguém tinha o direito de tentar, diria de forma ilícita, mais que aquilo que o próprio sistema produtivo oferecia ao país”, disse o presidente

Lula enfatizou que os setores da economia devem concentrar seus esforços em ganhar dinheiro com a produtividade. “O sistema financeiro tem obrigação de ganhar o seu dinheiro em coisas que gerarão empregos, produtos, riqueza. Não podemos permitir que o sistema financeiro mundial brinque com a sociedade.

Não podemos admitir que alguém fique rico apenas trocando papéis e poucas vezes se gerou um paletó, uma bota e um alfinete”.

O primeiro-ministro de Portugal, José Socrates, apoiou a colocação do presidente Lula e disse que em Portugal a ação do governo foi a mesma tomada no Brasil, com o objetivo de minimizar os efeitos da crise na economia interna: a de dar mais liquidez aos bancos.

“Concordo com o presidente Lula quando ele diz que chegou a vez da política.

Esse é um momento decisivo e Portugal e Brasil querem ação, não inação, fingir que nada aconteceu”, afirmou o chefe de Estado de Portugal, ao se referir às ações para o combate à crise econômica.

Para Socrates, a crise mundial funcionou como um divisor de águas. Ele ressaltou que não se trata de uma crise cíclica e sim de uma crise grave, “que acontece apenas uma vez na vida de cada pessoa”.

“Existe um antes e um depois da crise mundial. Antes, existia um pensamento único de que qualquer intervenção do Estado seria de forma burocrática, com finalidade de aumentar imposto. Hoje há o entendimento de que é necessária a ação da política para construir essa nova ordem mundial econômica de uma globalização mais justa”, ressaltou.
Lula e Socrates também se uniram na defesa do fortalecimento da União Européia e do Mercosul. “Se não estivéssemos na zona do euro eu não sei que seria de Portugal”, disse Socrates.”

sábado, 18 de outubro de 2008

Encantada Ilha da Madeira

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A Boa Nova

Donde vem a caravela
que sobe grácil o rio?
Toda a gente acorre a vê-la
voltar donairosa e bela
ao Tejo, donde partiu.

- De que singular viagem,
de que distante jornada
regressa a sua equipagem,
que vem de glória nimbada(1)?
- Que heróica Aventura a leva,
que alto destino a conduz
sulcando p’la vez primeira
um mar coberto de treva
e agora cheio de luz?

- Como feliz mensageira,
traz ao Reino, pressurosa,
esta nova de assombrar:
- uma ilha, a mais formosa
que a mente possa sonhar,
surgiu virgem, viçosa,
dentre o mistério do mar.

Nela toda a Natureza
dá-se aberta num sorriso.
Terra de tanta beleza
é, decerto, o Paraíso.
Não cobrem distantes céus
mais viridente(2) jardim:
- parece ter vindo assim,
há pouco, das mãos de Deus!

Ante a imponência silvestre
dessa terra abençoada
fica a alma extasiada
de beleza e de emoção:
- é o Paraíso terrestre,
mas sem Eva e sem Adão…

A Deus por certo é devida
a alta glória de a achar:
- jóia sem par escondida
na bruma densa do mar.

A nova corre ligeira,
comove toda a Nação:
- foi descoberta a Madeira,
A terra mais feiticeira
De todo o mundo cristão!

Naquela hora que passa
dê-se tréguas à moirama,
que a audácia heróica da Raça
em Fé mais viva se inflama!

É tal o contentamento,
tamanha a satisfação,
que o povo a todo o momento
fala de Zarco e de Tristão
com igual aprazimento.

E já o Senhor Infante
(a quem cabem as maiores
honras do Descobrimento),
de alegria radiante,
cumula os Descobridores
de mercês, louvores vários
e – galardão sem igual! –
faz deles os Donatários
da jóia de Portugal.

José Teodoro Correia, 1890-1955.
(do livro “Ciclo das Caravelas” de 1946)
em Almanaque Bertrand, 1948.

(1) Ou aureolada (auréola, círculo de luz que rodeia a cabeça das imagens dos santos e pessoas divinas)
(2) Ou verdejante


[Claro que nos nossos dias, a viagem para a Madeira faz-se sobretudo de avião. Não resisto por isso, a indicar a visualização no interessantíssimo blogue http://irmaosasas.blogspot.com/, de um filme com a aterragem no Aeroporto do Funchal, em http://irmaosasas.blogspot.com/2008/09/aterragem-no-aeroporto-do-funchal.html]

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Charlatão [texto de de Miguel Torga, vídeo de José Mário Branco]



Por qualquer razão, e se calhar no meu inconsciente, ligada à minha preocupação com a crise económico-financeira que vivemos, fui esbarrar com este fabuloso texto do nosso Miguel Torga. Não resisti a acompanhar com a grande música de José Mário Branco...
Já nos bastavam os problemas que tínhamos, para aparecer agora esta crise financeira inventada por uns idiotas irresponsáveis, principalmente em Wall Street.

- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pelos ombros, e era impossível fugir à magia daquela enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver…
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas; os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados, a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha na verdade, graça.

Os tempos iam de mal a pior. Deus sabe com que vontade quem tinha os seus precisos para o resto do ano os vinha vender por qualquer preço. Por isso, depois de duas lágrimas dadas ao balido de uma ovelha, à mansidão de um porco criado a caldo, ou à brancura de uma peça de linho fiada à luz da candeia e a horas tiradas ao sono, era um alívio perder meia hora ali. Iam-se embora as canseiras, os cuidados, e a feira passava a ter o ar de festa que o coração de todos desejava.
E não pensasse lá ele que acreditavam nas aldrabices que dizia do elixir! Quem? Mas, enfim, eram só dez tostões, e às vezes, para um remedeio…
- Vou agora mostrar a V. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
Excelências! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas, ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por excelência? E um de Almalaguez perdeu a cabeça e lá comprou aquele “talismã da Ventura” por cinco escudos.
- Bem burro! – não se conteve uma criada.
Mas estava era com pena de a não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, pruridos, eczemas, impingens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o Demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!
Até um soldado estendeu o braço à pechincha.
- Tu para que é que queres isso? – interrogou, espantado, um colega.
- Sei lá!
Não prestava: era a convicção geral. Mas aqueles olhos a fuzilar o mal e a curá-lo; aquele rato branco, de quando em quando parado e atento às palavras do dono; aquela mão erguida ao alto como um destino, turvavam a vontade do mais pintado.
- Aldrabão!... – gritava-lhes o resto do bom senso na agonia.
Pois sim. Era ouvi-lo. Era esperar um instantinho e então se veria.
- Eu sei que há muitas pessoas que me chamam aldrabão. Coitadas! Onde pode chegar a ignorância humana! Ora vejamos…
E pantomineiros, daí a pouco, passavam a ser aqueles indivíduos que todos os da roda tinham como pessoas fora do alcance de qualquer suspeita. Mas ele? Pelo amor de Deus! Quem é que tinha a coragem de vir assim, honestamente, explicar os factos, receber sugestões, pôr-se, numa palavra, em contacto directo com o respeitável público? Aldrabão! Sempre a mesmíssima coisa! Mas não era isso que lhe fazia cabelos brancos. Dava o mundo inteiro como testemunha da sua isenção e da sua honradez…
- Duvidam?
O silêncio de todos bastava-lhe como resposta.

Em “Rua” de Miguel Torga, 1942.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Durão Barroso sobre a crise financeira

É um artigo publicado ontem no International Herald Tribune, a edição internacional do New York Times. Chama-se “Para lá das fronteiras” e é assinado pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Traduzimos, não o artigo completo, mas apenas aquilo que nos pareceu o essencial. Para ler e reflectir.

O.artigo.completo.em.inglês.em http://www.iht.com/articles/2008/10/02/opinion/edbarosso.php

A rapidez e a dimensão da crise financeira que se iniciou nos EUA há cerca de um ano, causou ondas de choque em todo o mundo. Ninguém está a salvo. (…)
O que interessa agora é que os dirigentes políticos dêem as respostas adequadas – para parar com a crise no imediato, proteger as poupanças dos cidadãos e assegurar que os negócios tenham suficientes créditos para as suas necessidades, e depois pôr no terreno um melhor sistema de administração para o futuro. (…)
O nosso principal objectivo deve ser restituir a plena confiança no interior do sector financeiro, bem como a confiança do público no sistema financeiro. (…)

Esta semana, a Comissão Europeia está a fazer propostas para a melhoria da qualidade do capital detido pelos bancos e para criar colégios de supervisores para bancos trans-fronteiriços dentro da UE. Nas próximas semanas apresentaremos um novo sistema de regulação das agências de “rating” do crédito.
Quanto mais depressa os estados membros e o Parlamento Europeu adoptarem estas propostas, maior o impacto na recuperação da confiança. (…)

Para além do vasto conjunto de medidas acordadas pelos ministros das finanças e das propostas actuais da Comissão, penso que podemos fazer mais:
Em áreas como a supervisão da UE de bancos trans-fronteiriços, assegurar a concertação e a rapidez na implementação das medidas. Esquemas mais consistentes de garantia dos depósitos em todos os estados membros da UE. E novos mecanismos para avaliação de “activos complexos”, para evitar a volatilidade dos frágeis preços do mercado e para assegurar que os bancos da UE fiquem em condições idênticas uns com os outros, quando falamos por exemplo de temas como a aplicação de regras contabilísticas.
É também necessário aprofundar a questão dos vencimentos dos executivos, a partir das recomendações já elaboradas pela Comissão em 2004. Tivessem elas sido adoptadas mais generalizadamente e teríamos talvez evitado alguns problemas. (…)

Com a nossa experiência de combinar capacidade técnica com visão política, a UE tem muito a oferecer não apenas para os europeus como também para um mundo à procura de um sistema melhor de regulação dos mercados financeiros.
A proposta do Presidente Nicolas Sarkozy para uma conferência internacional é uma ideia excelente: vivemos com o actual sistema mais de 50 anos, mas devemos aos que foram atingidos pela crise, um trabalho sério para encontrar as formas de assegurar estabilidade e prosperidade no futuro.