domingo, 30 de maio de 2010

Simonetta Luz Afonso do “Projecto Farol”: Indústrias da Língua valem 17% do PIB.

Simonetta Luz Afonso declarou no último “Expresso da Meia Noite” da SIC Notícias que “as Indústrias da Língua valem 17% do PIB”. Esta valorização foi obtida, de acordo com um levantamento realizado pelo ISCTE. Procurei na Net e verifiquei que esse estudo tinha sido elaborado em 2008 (ver.por.exemplo.em.
http://www.instituto-camoes.pt/encarte-jl/lingua-portuguesa-representa-17-do-pib.html). Fiquei espantado! Sei por experiência própria a importância da língua comum, em países africanos de língua oficial portuguesa, em Macau e Timor Leste e claro, nas relações com o Brasil, mas 17%? (Ora deixa-me lá ver quanto valem as exportações para estes países. Pois é. Só aí quase 2% do PIB, e está muito por fazer).
No dia seguinte no Plano Inclinado, foi Ernâni Lopes que voltou a sublinhar o valor de setores identificados pela SAER (ver http://www.saer.pt/index.php) como “cidades e desenvolvimento”, “ambiente”, “turismo” e o já famoso ”hipercluster do mar” como alguns dos grandes potenciais de crescimento do país. Todos estes potenciais lidam com aspetos por vezes difíceis de valorizar em termos económicos, como a língua, a geografia, o clima, a história, as atividades locais tradicionais, os hábitos alimentares, a idiossincrasia das pessoas, os monumentos, etc. Fatores que para um economista “clássico” como eu, são errada e frequentemente vistos como intangíveis e quase marginais. Não que não dê importância á “cultura”, este blogue é a prova, mas porque não me recordo por vezes da absoluta necessidade da cultura acompanhar o desenvolvimento e, mais do que isso, dela ser em si mesma, um motor desse desenvolvimento. Obrigado por me terem lembrado disso a Simonetta Luz Afonso, ao Projeto Farol (ver em http://www.projectofarol.com/) e ao ISCTE (ver em http://iscte.pt/).
Para reforçar esta tomada de consciência, saiu no New York Times deste Domingo um longo artigo intitulado “Portugal Old, New and Undiscovered”
(ver em http://travel.nytimes.com/2010/05/30/travel/30Douro.html) sobre o Douro e o Porto, onde o autor, Frank Bruni, tem dificuldade em descrever a admiração que sentiu ao visitar a região, provar os vinhos, saborear a comida, passear pelas ruas, conhecer as igrejas, etc. Entre vários outros, são referenciados a Quinta do Vallado e o restaurante Casa do Aleixo, a viagem de comboio da Régua ao Pocinho, a alheira transmontana, e claro, as magníficas vinhas do Douro. Estou convencido que se pudesse ter lido na língua original, os escritores do Norte, como Eça ou Torga, ficaria ainda mais maravilhado.
Cultura e Língua, são tesouros de Portugal.

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sexta-feira, 21 de maio de 2010

André Brun: III - epílogo.

Prolóquio
Em “Os meus domingos”, terceira série, 2º milhar, de 1926, ano de falecimento do autor.
Notas da responsabilidade deste blogue.

Este é sem dúvida, o último livro que publico. Quero, pois, despedir-me de ti, leitor incauto, paciente e generoso.
Que as bênçãos do Céu se derramem sobre a tua cabeça! Que as rosas da ventura brotem do basalto da rua em que tu moras a cada passo que nele te apeteça dar! Que as notas de mil escudos te floresçam nos bolsos a cada suspiro que teus lábios soltem! Que o câmbio volte para a casa dos trinta e a gabardine cubra a preços razoáveis o teu corpo airoso! Que de todas as prosperidades que te desejo compartilhem teus parentes e aderentes, esposas, concubinas e hetairas(1) anexas. Estes são os votos sinceros deste teu humilde servo, prestes a deixar um mundo de enganos para ir gozar no Paraíso as delícias eternais e prometidas, em nome de Alá, por Mafoma(2), nosso profeta, aos homens de boa fé que conservassem a sua alma pura.

Todos me conheciam. Sabido era que, chegado aquela idade feliz dos quarenta e poucos, em que o homem é finalmente uma bela flor desabrochada, eu levava uma vida de trabalho modesto, independente, resignado e alegre. Não tinha outra ambição que não fosse angariar, sem prejuízo do vizinho, os milhões de centavos necessários à minha decente sustentação, indispensável agasalho e honesto recreio. Não punha as minhas intenções mais alto que o razoável. Não pretendia ser administrador gerente do Teatro Nacional, não intrigava para que me nomeassem liquidatário dos Transportes Marítimos e não pedira para ir à exposição do Brasil nem como intelectual, nem como barbeiro, nem como bailarina. Minha alma pairava, serena e sem motor, sobre os abismos sem fundo que separam outubristas de democráticos, nacionalistas de sindicalistas, extremistas de ultraconservadores e todos os dias, após as minhas abluções matinais, prosternava-me, voltado para Meca, e a Alá suplicava que entre os homens estabelecesse a concórdia necessária para a felicidade de todos e a integridade do meu esqueleto. Respeitava todas as crenças e todas as religiões, desde a cristã em que foi embalada a minha infância até à muçulmana, à qual me converti ultimamente após larga e proveitosa ponderação. Amava o próximo como a ele mesmo e não lhe desejava a mulher senão à sorrelfa(3) para evitar balbúrdias em casa e falatórios na vizinhança. Convivia quanto possível com os indígenas e nas horas em que, como o meu falecido confrade nas letras Lope de Vega, me parecia que para andar comigo me bastam mis pensamientos, fazia-o sem desprimor para ninguém e não desfazendo em quem está presente. Escrevia com pena inábil e despretensiosa, para possível regalo dos meus contemporâneos de boa boca literária e com o fim de auferir alguns indispensáveis direitos de autor, livros de singela trama e despretensioso estilo, bem como entremezes(4), comédias, farsas e outros divertimentos de tablado, tendo o cuidado de em meus escritos maltratar o menos possível a opinião dos outros e a sintaxe de concordância, senhoras a quem todo o respeito é devido.
Tratava de realizar os meus créditos – que nunca é bom deixar por mãos alheias – e de pagar as minhas dívidas. Cada noite recolhia ao meu catre e cada manhã dele me erguia com a consciência relativamente tranquila, não tendo a mínima responsabilidade, como é sabido, nem com os desgostos da Arábia infeliz, nem no descalabro das finanças nacionais, nem nas vicissitudes políticas do meu velho amigo e correligionário Lloyd George. Terminada a Grande Guerra, arrumara num canto do guarda-fato a minha espada de major e, tendo-a sacado com razão, embainhara-a, não direi com glória, mas com cuidado de a azeitar para que se não enferruje. Seguindo os conselhos da verdadeira sabedoria, esquecia o dia de ontem e não cuidava do dia de amanhã, quando, de súbito, Aquele que tudo sabe e tudo pode me anunciou a minha morte próxima.

Há quase três anos, regressado de França e das minhas peregrinações aos campos da Flandres e às boites de Montmartre, voltei a fixar residência nesta Lisboa que me vira nascer, em cujas setes colinas tinham folgado a minha infância, a minha adolescência e a minha mocidade. Durante os dez semestres que durara meu apartamento, entre outros problemas da vida agravara-se o da habitação e, na ânsia de procurar um teto que cobrisse a minha cabeça, depois de calcorrear meia cidade acabei por alugar, a peso de papel-moeda, um rés-do-chão á beira do hospital de Rilhafoles(5), numa das artérias do arteriosclerótico bairro do Conde Redondo.
Os meus penates são compostos essencialmente, como nove décimas partes das casas de Lisboa, dum corredor que liga a casa debruçada sobre a rua á que espreita os quintais da retaguarda. Dum e outro lado desse corredor abrem-se portas de vários compartimentos, tais como o quarto dos baús, o gabinete de pensar, a dispensa, o almário(6) das criadas. Na casa da frente fiz a minha oficina de homem de letras. No outro extremo, a vontade dos construtores situara a casa de banho. Esses construtores, ainda hoje senhorios da casa, eram no tempo em que o Deus dos cristãos andava pelo mundo e nem todos os animais falavam, um deles servente de pedreiro, o outro carpinteiro de obra grossa e ambos proletários inconscientes e desorganizados. Um dia veio-lhes a ideia de construir prédios e procuraram um dos muitos indivíduos que há por essa Lisboa dispostos a emprestar dinheiro mediante seguras hipotecas e avultados juros. Poucos meses não eram passados que não se erguesse do chão, nas piores condições de conforto e de segurança, o sonho desses dois lusitanos audazes e empreendedores. Mal foi construída a casa, logo sobre ela se precipitou a necessidade de vários, entre os quais me deverão contar a História e a Crónica.
As rendas eram fabulosas, se recordarmos as idades felizes a que mais acima discretamente faço alusão. Mas que remédio! O cidadão necessita por lei dum lugar onde habite, o pensador carece dum refúgio onde “emigre para o interior” quando assim lhe convenha, o homem de sociedade, depois da invenção dos bilhetes de visita, não pode passar sem uma casa às ordens de V. Ex.ª...
O pior, meu querido leitor, é que, há dias, mal acabavam de soar na velha catedral do relógio da casa de mastigar as onze badaladas das vinte e três horas, se ouviu na casa de banho um estrondo arrepiador e, ao passo que um curto-circuito geral enchia de trevas os restantes compartimentos, da citada casa de banho saíam gritos aflitos e lancinantes. Quando á luz duma vela se conseguiu verificar o que acabava de suceder, eu pude, sem ideia de pecado, contemplar as pernas da minha vizinha do primeiro andar penduradas dum formidável buraco aberto no teto do meu lavatory. Passado algum tempo e mercê de vários e engenhosos meios mecânicos, a pobre senhora foi extraída da sua perigosa situação e eu, de castiçal na dextra, deixei correr os olhos doloridos sobre as ruínas do esquentador, dos frascos de loção capilar e ergui do chão, onde jaziam em pedaços o boiãozinho da brilhantina destinada á ondulação do meu cabelo, por tantos suposta natural.

Recolhi á minha câmara, triste é certo, mas resignado. Os desígnios de Alá são sempre justos. Este é o princípio do fim. Depois do teto da casa de banho, vai abater o da cozinha, que já tem gretas maiores que as do edifício social. A seguir cair-me-á sobre a cabeça e quando eu estiver dormindo – quem sabe? Talvez sonhando, o teto do meu quarto. Todas as madrugadas, pela altura das três horas, eu oiço, através da diáfana(7) e estucada renda que nos separa, alguém déverser le trop plein de son coeur(8) num caseiríssimo utensílio de louça esmaltada. Dizem-me ser uma criada de idade que, na casa de cima e com pontualidade invejável por todos os doentes de bexiga, exerce as suas funções diuréticas. Pois é sob essa criada de idade que estou destinado a sucumbir uma noite destas.
Prepara, meu caro leitor, a tua sobrecasaca de comparecer, se estás disposto a acompanhar o meu préstito(9) fúnebre. Vou morrer vítima dos gaioleiros, dos homens das hipotecas e das repartições da Câmara Municipal. Mas perdono a tutti. Não lhes guardo rancor. Alá o determina! É a sua vontade que eu seja colhido ainda formoso e na flor da idade, antes que os anos me transformem numa barriga de água ou num podagra(10) senil. Assim seja! In’ch’ Allah! Se Alá quiser!
Quando a velha criada de cima desabar com seu vaso de louça esmaltada em cima desta cabeça, dentro da qual, como na de André Chenier(11), il y avait peut-être quelque chose(12), não derrames, meu amigo, lágrimas inúteis sobre o meu corpo inerte. Não te peço que plantes á beira da minha campa o chorão que Musset(13) requisitava á posteridade. Mas que a minha morte sirva de exemplo! Ergue a tua tenda num descampado; dorme ao relento fazendo das pedras cabeceira e das estrelas cobertor, como aconselha a trova(14); vai pernoitar às esquadras de polícia e vive de dia nos bancos de jardim; mas nunca a tua fantasiosa imaginação te sugira o alucinado propósito de residir nas casas novas do bairro Conde de Redondo!...

(1) Eram assim chamadas na antiga Grécia, as “companhias femininas”
(2) Maomé
(3) Dissimuladamente
(4) Composição dramática de género burlesco
(5) Hoje é o Hospital Miguel Bombarda
(6) Armário
(7) Transparente
(8) Derramar o conteúdo transbordante do seu coração
(9) Procissão
(10) Gota nos pés
(11) André Marie Chénier (1762-1794) – poeta francês
(12) Existiria talvez qualquer coisa
(13) Alfred Louis Charles de Musset-Pathay (1810-1857) – dramaturgo, poeta e romancista
(14) Penso que André Brun se refere a:
“Quem tem amores vai dormir
Na porta do seu amor
Das pedras faz cabeceiras
Das estrelas cobertor.”
Em “Recordações do escrivão Isaías Caminha” de Lima Barreto (1881-1922), escritor brasileiro, onde a quadra é apresentada como trova popular
Ver em
O Cancioneiro Geral dos Açores de Armando Cortês-Rodrigues inclui uma quadra
muito parecida:
“Hei de deitar-me a dormir
Á porta do meu amor:
Pedras serão cabeceiras,
As estrelas cobertor.”
(Sta.Maria)

André Brun, como aqui confessa, tinha-se convertido ao islamismo e acabou por falecer pouco tempo depois, mas por motivos completamente diferentes dos invocados neste “Prolóquio”. Exatamente às quatro horas e cinco minutos da madrugada de 21 para 22 de Dezembro de 1926. A descrição dramática do Diário de Notícias, onde Brun publicou inúmeras crónicas, é realizada por um amigo próximo, do jornal, que esteve a seu lado nos últimos momentos - talvez tivesse sido o próprio Eduardo Schwalbach, então diretor da publicação. O artigo não tem assinatura mas, o que me faz desconfiar de ter sido Schwalbach, é a autoridade de quem escreve e o facto de, a notícia, ter saído ainda na edição do mesmo dia, a 22 de Dezembro: “(...) André Brun foi sempre, fisicamente, um fraco. A vida das trincheiras na Grande Guerra e, principalmente, os gases asfixiantes concorreram para ainda mais depauperarem a sua saúde. Veio de lá excessivamente abatido e, desde então, a tísica da laringe e a tísica pulmonar, numa aliança daninha, entraram no afã de lhe encurtar a vida (...).”

Ver também André Brun (1881-1926): I - Autobiografia.
André Brun: II - Bibliografia.
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 15 de maio de 2010

André Brun: II - Bibliografia.

Bibliografia de André Brun, de acordo com a lista da Guimarães, no livro “Os meus domingos”, terceira série, 2º milhar, de 1926, ano de falecimento do autor:

PROSA
1910- Dez contos em papel – 10º milhar.
1913- Sem pés nem cabeça – 7º milhar.
1914- Cada vez pior – 7º milhar.
1915- Sem cura possível – 7º milhar.
1915- Soldados de Portugal. A guerra peninsular. A legião portuguesa – 3º milhar no prelo.
1916- Folhinha de qualquer ano – 6º milhar no prelo.
1916- Praxedes, mulher e filhos – 8º milhar.
1917- Outra vez Praxedes – 7º milhar no prelo.
1918- A malta das trincheiras. Migalhas da grande guerra – 12º milhar.
1923- Sumário de várias crónicas – 4º milhar.
1924- Os meus domingos. Primeira série. Ilustrações de Francisco Valença – 4º milhar.
1925- Filosofia de Felix Pevide – 4º milhar.
1926- Os meus domingos. Segunda série. Ilustrações de Francisco Valença – 4º milhar.

VERSO
1917- Almas dum outro mundo – 2º milhar.
1923- Histórias em verso. Ilustrações de Francisco Valença – Edição especial numerada e assinada pelos autores – Primeiro e único milhar.

TEATRO
1916- Quatro peças num ato. Código penal, art.***, Ano novo, vida velha. Cavalheiro respeitável. O primo Isidoro. – 3º milhar no prelo.
1922- A vizinha do lado. Comédia em quatro atos – 3º milhar.
1923- A vida dum rapaz gordo. Comédia em três atos – 3º milhar.
1923- Auspicioso enlace. Comédia em três atos. Em colaboração com Carlos Selvagem – 2º milhar.
1926- O Pinto calçudo. Farsa em três atos. Em colaboração com Ernesto Rodrigues – 3º milhar.

As edições aqui referidas representam 100 mil livros, de 1910 a 1926, o que é notável para a época. Não conheço outro nome das nossas letras, que tenha vendido tantos livros durante a Primeira República. E no entanto André Brun foi quase esquecido. É hoje muito pouco referenciado. Surge citado sobretudo quando se fala do teatro, em especial por causa da sua peça “A maluquinha de arroios” e quando se fala de cinema, por causa da adaptação para filme da sua peça “A vizinha do lado” – o filme foi realizado em 1945, na época de ouro do cinema português por António Lopes Ribeiro e conta com grandes atores como António Silva, Ribeirinho, Carmen Dolores e António Vilar, entre outros.
Ver em http://pauloborges.bloguepessoal.com/47466/CARTAZ-DO-FILME-A-VIZINHA-DO-LADO/


O único livro que merece por vezes alguma atenção é “A malta das trincheiras. Migalhas da Grande Guerra”, o maior sucesso editorial de André Brun, que foi herói da Flandres e bem conheceu aquela realidade. No site da SPA, Sociedade Portuguesa de Autores, também encontramos o nome de André Brun, como um dos seus ilustres fundadores em 1925.
A editora “Livraria Civilização” publicou alguns livros de Brun nos anos 30 e acrescenta á lista de livros acima citada os seguintes:

PROSA
A Sogra do Barba Azul
Namoro alfacinha
Procópio Baeta

TEATRO
A Maluquinha de Arroios – Comédia em três atos.

À exceção deste último título, publicado por esta editora na sua “Colecção Civilização – Série Amarela”, com o número 8, desconheço se os outros títulos foram também por ela publicados. Desta coleção, sei no entanto que foram ainda publicados: com o número 34, “Contos humorísticos”; número 35, “Contos sentimentais”; número 69, “Domingos escolhidos” e número 100, “Entrevistas de ontem”.

Encontrei diversos livros de André Brun publicados pela editora “Casa do Livro” nos anos 40, numa coleção de “Obras Completas”. Desconheço se a editora chegou a publicar todos os seus livros.

Sei ainda do livro “Consultório psicológico. Doenças do coração e miolo”, de 1935, das edições Gleba. E é tudo.

Julgo que só consultando o arquivo da Biblioteca Nacional, poderemos ter uma visão mais completa da obra de André Brun.

Brun era um penetrante observador da realidade e um excelente escritor. Não compreendo o porquê de contos humoristas e comédias, serem considerados géneros menores na arte de escrever. Acaso alguém menoriza Mark Twain por ter sido humorista? Sobre esta tema, Brun inclui na abertura de “Cada vez pior”, um texto bastante cáustico de Gaston de Pawlowski (1874-1933), escritor francês:
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“É na verdade costume entre a burguesia literária considerar o humor como o mais fácil de todos os géneros. É um pouco como as solteironas de província, que se consolam da sua virtude imaginando que, se elas se quisessem oferecer, como outras, aos diretores dos teatros, seriam hoje grandes atrizes. É da mesma forma que igualmente se consolam as gentes honestas da sua mediocridade, imaginando que, naturalmente, se tivessem escolhido ser bandidos dos grandes caminhos, poderiam ter sido milionários. Os pontífices literários consolam-se, da sua nulidade, imaginando que afinal de contas, se tivessem renunciado às orações fúnebres e às pesquisas históricas, teriam podido alcançar triunfos fáceis no humor.(...)”
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O texto é em francês e aplica-se tanto ao caso francês como ao português (a medíocre tradução é da minha responsabilidade), e um bom exemplo disso é a intelligentzia do burgo não ter considerado suficientemente André Brun: não é incluído em antologias literárias e não é lido nem lembrado e no entanto, o Realismo/Naturalismo português fica mais vivo e rico com a leitura dos seus textos. Mas, acima de tudo, uma leitura hoje de André Brun continua a fazer rir e a confortar o coração.

Ver também André Brun (1881-1926): I - Autobiografia.
e André Brun: III - epílogo.

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

quinta-feira, 13 de maio de 2010

André Brun (1881-1926): I - Autobiografia.

“Autobiografia” de André Brun, do seu livro “Consultório Psicológico, doenças do coração e miolo”,
Edições Gleba, 1935.
Notas da responsabilidade deste blogue

Nasci em 1881 em Lisboa, na Rua do Salitre no prédio onde então vivia e depois se suicidou Júlio César Machado(1).
Meu avô paterno, Regis Clement Brun, era rachador de lenha em Sassenage, cerca de Grenoble, e pai de treze filhos, dos quais o undécimo casou com minha mãe, Ana Lodoyskd Nougaraid, filha de François Laurent Nougaraid e André Seguis. Este meu avô materno foi, no seu tempo, um aventureiro. Começou por ser curtidor de peles. Como tal, iniciou e concluiu o seu “tour-de-France”. Foi, além disso e que eu saiba, negociante de carnes na América do Sul, diretor de museus de figuras de cera que passeou em Portugal e no Brasil; aeronauta, tendo feito subir um burro em balão de fumo; inventor com patentes requeridas para várias engenhocas entre elas um filtro popular e uma gasosa de flor de sabugueiro. Faleceu professor de francês, estimadíssimo por quantos o conheciam. Não cuido que possa haver criatura mais alegre. Sabia milhares de canções, desde as de Beranger(2) às de Desaugiers(3), desde as de Pierre Dupont(4) até às tradicionais dos mil recantos da França por onde tinha andado. Minha mãe era também muito alegre. Meu pai levava o dia trabalhando e cantarolando. Viera para Portugal para dirigir as oficinas de luvaria da Casa Malbonissou, do Chiado, e, pouco depois, tomou para si uma loja na Rua da Cruz dos Poiais, que chegou a ter celebridade em Lisboa. Cresci num ambiente de alegria e assim explico que tenha sido quase sempre alegre e que o meu bom humor só me tenha desamparado nas horas realmente graves da minha vida. Aos seis anos sabia ler. Aos oito fazia exame elementar com distinção. Aos dez começava o curso dos liceus. As ideias de meu pai eram ensinar-me o seu ofício para que eu continuasse a obra que ele tinha criado. Luveiro era então, realmente, um excelente ofício, mas um pouco violento e eu era quase microscópico. Continuei, pois, a estudar e achei-me às portas da Politécnica. Aqui se coloca uma esquina interessante da minha vida. Eu era francês. Os estudos feitos em Portugal de nada me serviam em França. Meu pai não tencionava lá regressar e pretendia terminar tranquilamente os seus dias. Eu sentia uma certa vocação para a marinha. Desconfio que era influência da leitura do Loti(5), pois ainda hoje não sei nadar.
Pedi a meu pai que me deixasse optar pela nacionalidade portuguesa e concorrer à Naval. Levantou-se uma formidável objeção. Meu pai fizera a guerra de 1870, tinha encasquetada(6) a ideia da desforra e, calculando que, quando ela chegasse já estaria velho, contava comigo para o substituir. “Et s’il y a la guerre?”(7).
Então eu tomei um compromisso solene:
- “J’irai, n’importe comment” (8).
Só assim ele consentiu que eu mudasse de nacionalidade. Concorri à Naval, fui rejeitado por falta de vista, tentei entrar para a Alfandega, fui rejeitado por falta de empenhos, e, tendo meu pai falecido quase subitamente, fui forçado a entrar para a Escola do Exército para o curso de infantaria.
Dentro dessa arma, rainha dos batalhões, atingi o posto de major que me foi dado por distinção nas trincheiras de França, onde cumpri o melhor que pude a promessa feita a meu pai. Tenho várias condecorações militares, entre elas a Cruz de Guerra e o Valor Militar.
Como disse, aos seis anos sabia ler. Tive o furor da leitura, li, li, li tudo que me foi parar às mãos. Com vários camaradas fundámos um cenáculo artístico “Águia” onde havia literatos, pintores, músicos, caricaturistas e que fazia quanto podia para imitar o de Murger(9). Foi aí que declamei os meus primeiros versos e li os meus primeiros ensaios de prosa. Eram meus companheiros Carlos Simões, Francisco Valença, Manuel Ribeiro, Fernando Germak, Carlos Walbeem, Eugénio Vieira, Munzó Navarro, Luís Silva, Bernardino Chagas. Apareciam de vez em quando Rocha Martins e Forjaz de Sampaio.
Foram ali escritas muitas das páginas que compõem os “Dez contos em Papel”.
Em 1907 comecei colaborando nas “Novidades” e no “Suplemento Humorístico do Século”. Ao cabo dum certo período desta última colaboração achei-me com o material suficiente para um livro alegre, quase de disparates, que levei ao editor Paulo Martins, da Guimarães & C.ª. O sucesso foi enorme. O “Sem pés nem cabeça” teve como sucessores o “Cada vez pior” e “Sem cura possível”.
Era género novo que aparecia no mercado dos livros.
Com efeito, antes, e a não ser “Lisboa em camisa” de Gervásio Lobato, onde havia um livro alegre escrito em português?
Em dezasseis anos editei vinte e dois volumes. Sou – e dizem-no o número de minhas edições e o dos exemplares impressos, bastante mais de cem mil – um dos escritores portugueses que mais se vendem. Isso nada prova acerca do mérito da minha obra, senão que o público por ela se tem interessado. A par da minha obra livresca, tenho obtido no teatro os mais lisonjeiros êxitos e alguns indispensáveis proventos. Entre originais, adaptações e produções, o meu nome figurou, até à data, em cinquenta e nove cartazes diferentes.
De todos os meus livros prefiro sentimentalmente “A Malta das Trincheiras” pelo muito que de mim mesmo lhe anda ligado. Artisticamente prefiro “A folhinha de qualquer ano”. É nesse livro variado, ferindo notas muito diversas, que é mais fácil estudar a minha personalidade literária, se é que a tenho digna de estudo.
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(1) Júlio César Machado, 1835-1890, escritor.
(2) Pierre-Jean de Béranger, 1780-1857, compositor francês de canções populares.
(3) Marc Antoine Désaugiers, 1739-1793, compositor francês de óperas cómicas.
(4) Pierre Dupont, 1821-1870, compositor e poeta francês.
(5) Pierre Loti, 1850-1923, oficial da marinha e escritor francês.
(6) Metida na cabeça – visto que um casquete é uma cobertura para a cabeça, como um barrete ou uma carapuça.
(7) “E se houver guerra?”
(8) “Eu irei, não interessa como”
(9) Henri Murger, 1822-1861, escritor francês, artista boémio do Quartier Latin.

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NOTA FINAL: Brun foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores em 1925. O nome então era Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Esse facto não está mencionado no texto, que provavelmente é anterior. Talvez de 1923.
Ver em

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Ver também André Brun: II - Bibliografia.
e André Brun: III - epílogo.
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 1 de maio de 2010

Francisco de Sousa Tavares (1920-1993): “O Meu 25 de Abril”.

O texto que aqui transcrevo é extraído de um artigo do jornal “Público” de 27/04/91. Um dia talvez me atreva a falar um pouco sobre o seu autor, Francisco de Sousa Tavares, advogado, jornalista e político, sempre íntegro, corajoso, exigente e polémico, como só muito poucos foram capazes de ser. Um exemplo para todos nós.

Lendo as palavras que se seguem, ficamos a conhecer melhor uma importante parte do que aconteceu naquele distante dia 25 de Abril de 1974, quando “tal como a Primeira República, em 1926, a Segunda caiu de empurrão”*.

(...) 
Foi para mim um dia longo e emotivo: às quatro da madrugada, o telefonema dum sobrinho – Bernardo Castelo-Melhor – avisou-me que, de meia em meia hora, o Rádio Clube Português emitia um comunicado do Movimento das Forças Armadas, no qual se falava em liberdade e se apelava à calma e à adesão do povo. Entre cada emissão, ouviam-se canções de José Afonso, de Adriano, de Fanhais, baladas proibidas, todas elas portadoras da esperança da liberdade, do fim da sujeição e do estado ignominioso duma nação privada de direitos.
(...)
Não pude conter a minha impaciência e fui para a rua; também queria ajudar, contribuir para a revolução, associar-me tanto quanto possível ao movimento em curso, e ajudar a rodear o golpe militar da adesão maciça dum povo que queria de novo ser senhor da sua dignidade e do seu destino.
Nas horas que passei no Terreiro do Paço, compreendi a serenidade do ataque e a inércia da defesa. Acima de tudo, pairava o horror a qualquer combate entre irmãos de armas e o cenário da revolução desdobrava-se em afirmações de vontade, em diálogos sem solução e num exame aturado da capacidade e número das forças alinhadas.
(...)
Mas o grande palco da revolução ia ser o largo do Carmo. Pude ver que o Rossio estava totalmente ocupado por forças fiéis ao Governo, bem como a Rua do Carmo e os largos do Camões e do Chiado. A PIDE dominava a António Maria Cardoso e os acessos do Cais do Sodré e Corpo Santo, mas estava fechada com tal medo que, perante gritos hostis dum grupo de rapazes, ceifou dois, que ficaram a ser as poucas vítimas de sangue do 25 de Abril.
No largo do Carmo, estava a força de Santarém e estava sobretudo Salgueiro Maia. Nas longas horas que com ele ali vivi e confraternizei, pude apreciar a tranquila audácia dum homem que, com duas autometralhadoras e centena e meia de recrutas, estava a destruir cinquenta anos de história, de farroncas de força e de poder, mantendo em respeito uma força profissional e adestrada como era a Guarda Nacional Republicana. Salgueiro Maia estava cercado; pelo Rossio quase até ao alto da Calçada do Carmo, pela Rua da Trindade e Largo da Misericórdia, onde se encontravam entrincheiradas as forças da GNR. No Chiado, até aos largos, os blindados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras 1. Mas nem sequer um sentimento de dúvida ou de incerteza pairou na praça. Levada pelo sopro da liberdade, a multidão acorria e o quadro do povo expressava ali a vontade da nação contra qualquer veleidade de repressão sangrenta. Maia, audacioso e sereno, pediu-me que falasse ao povo. Fi-lo por duas vezes, uma através dos microfones dum camião da Rádio e, mais tarde, com um megafone, empoleirado na guarita da sentinela do Carmo – imagem de Épinal** da Revolução em que o povo e a tropa se abraçavam para libertar a Nação. A certa altura falei a Maia do cerco potencial em que se achava envolvido e na evidente necessidade de não prolongar indefinidamente a tomada do Carmo, onde Marcelo e parte do Governo se encontravam, guardando com eles o selo da soberania e do poder. Foi então que pude medir a dimensão extraordinária daquele homem. Respondeu-me na calma: sabe, estes homens que eu trago não sabem atirar e o seu manejo de armas é totalmente incipiente; o que você diz também me preocupa, mas pode-me fazer um favor – ficou de vir ter comigo, aqui ao Carmo, a força revolucionária de Estremoz, de Cavalaria 3, que é importante e já cá devia estar. É comandada pelo capitão Ferreira, está atrasada e tenho receio de que, conhecendo mal Lisboa, não saiba o caminho. Parti imediatamente e tive a sorte de encontrar Cavalaria 3 na Rua Castilho. Tomei lugar no carro de comando com o capitão Ferreira e voltámos para o Carmo o mais depressa possível. No Largo da Misericórdia, depois duma conversa de Ferreira com o capitão ou major que comandava a GNR entrincheirada, levantou-se o cerco para nos deixar passar. E mal chegou Estremoz, Maia sentiu-se em posição de enviar um ultimato de rendição ao quartel e lançar dois tiros de aviso à fachada, perante o entusiasmo incontido da multidão que gritava: Está na hora! Viva a Liberdade!
Meu futuro genro, Francisco Ribeiro Teles, hoje secretário da Embaixada de Portugal na ONU, vinha como miliciano com as tropas de Maia – onde só havia voluntários. Confirmou-me, no telhado dum edifício do Carmo onde o fui ver que era verdade a condição de recrutas com instrução quase nula dos soldados comandados por Salgueiro Maia. E desde aí, guardei uma profunda admiração um enorme respeito e uma séria amizade – que sempre se exprime quando se cruzam as nossas vidas distantes – por esse herói tão esquecido e que foi, sem dúvida, como operacional, o elemento-chave da Revolução de Abril.
Fiquei no Carmo até à rendição do Governo. A partir daí, a euforia da vitória inundou Lisboa (...).
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* Jornal “A Capital” de 24/04/80, Francisco de Sousa Tavares.
** ”Imagem de Épinal” é uma expressão de origem francesa, aplicada a uma imagem, quando esta assume um significado ingénuo, algo que nos mostra apenas o lado bom de um acontecimento. Francisco de Sousa Tavares refere-se às fotografias que lhe tiraram, quando sentado na guarita do quartel do Carmo, falava com um megafone à multidão. 



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