segunda-feira, 28 de junho de 2010

Made in Portugal e Mãos à Obra: dois grandes programas da TSF.

A TSF é a minha rádio preferida. Está muito diferente daquela “rádio pirata” rebelde e polémica dos primeiros tempos. A informação em cima da hora e alguns programas fizeram história. O Flashback era incendiário e ficaram lendárias as discussões entre José Magalhães, Nogueira de Brito e Pacheco Pereira. Marcelo Rebelo de Sousa tinha as suas famosas crónicas em que atribuía notas aos políticos. Depois, Timor: a TSF mobilizou o país e ninguém conseguia deixar de acompanhar a estação. Timor está para a TSF como a Guerra do Golfo para a CNN. A TSF impôs-se e institucionalizou-se. Pessoalmente, gosto mais de linhas editoriais incómodas e irreverentes, por isso é com saudade que relembro os primeiros anos da TSF. Mas aconteceu o mesmo a outros órgãos de comunicação social, como o Expresso, cuja leitura é obrigatória para quem se deseja considerar informado, independentemente da preferência política. O que se manteve sempre na TSF, foi o alto nível de qualidade dos seus programas e o imediatismo da informação, razões que tornam indispensável a sua audição todos os dias.

Não deixa pois de ser algo paradoxal, que ao fim destes anos, tenha sentido necessidade de chamar a atenção para dois programas transmitidos pela TSF e elaborados com o apoio de organismos governamentais: o “Made in Portugal” com o Ministério da Economia e Inovação e o “Mãos à Obra” com o Instituto de Emprego e Formação Profissional. Como mudam os tempos.

São programas simples e curtos, com casos concretos onde ouvimos exemplos de iniciativa, coragem, risco e sucesso, de gente e empresas que resolveram agarrar o destino com ambas as mãos. Ao fim de muitas dezenas de programas, já não se pode falar em exceções. É um caudal e uma força que ali se apresenta, capaz de mudar o destino nestes dias difíceis do país. Mais que uma realidade, é uma esperança que passa pela TSF naqueles poucos minutos.

A – Programa TSF “Made in Portugal”
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"Por todo o país há empresas que fazem coisas boas. São inovadoras, criativas, tecnológicas, ousadas. Algumas brilham lá fora mas são desconhecidas cá dentro. Diariamente, a TSF apresenta retratos destas empresas que não se resignam, que apostaram e venceram... ou estão perto de o conseguir. Com o apoio do Ministério da Economia e Inovação. Made in Portugal, com coordenação de Rui Silva. De Segunda a Sexta, 09h47m. Repete às 17h47m. Candidate a sua empresa ao Made in Portugal. Preencha o formulário disponibilizado aqui e envie por e-mail para o endereço madeinportugal@tsf.pt" [texto da TSF – para melhor informação sobre o programa ver em http://www.tsf.pt/].
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Lista de programas até finais de Maio que foram já transmitidos e que podem ser ouvidos no sítio da TSF:
2010-05-28 TEandM; 2010-05-27 Ecoprogresso; 2010-05-26 Wavecom; 2010-05-25 Traducta; 2010-05-24 MakeWise; 2010-05-21 Derovo; 2010-05-20 Vortal; 2010-05-19 STAP; 2010-05-18 Ferreira Avelar & Irmão; 2010-05-17 Sinmetro; 2010-05-11 TLC; 2010-05-10 Termolab; 2010-05-07 TUPAI; 2010-05-06 SENDA; 2010-05-05 Mind; 2010-05-04 VisualForma; 2010-05-03 Barata & Ramilo; 2010-04-30 CAPA; 2010-04-29 Wink; 2010-04-28 Porto Editora; 2010-04-27 Pay Up; 2010-04-23 Lusotufo; 2010-04-22 Ready to Shoot; 2010-04-21 Espaço Visual; 2010-04-20 COMFIRA; 2010-04-19 Arte em gestão; 2010-04-16 Tintas CIN; 2010-04-15 Eurotrials; 2010-04-14 WSBP; 2010-04-13 Multiwave; 2010-04-12 Solar da Giesteira; 2010-04-09 Papelarias Emílio Braga; 2010-04-08 Shaker PT; 2010-04-07 Essencial Data; 2010-04-06 Beira Baga; 2010-04-05 Operational Consulting; 2010-04-01 Indasa; 2010-03-31 Brasopi; 2010-03-30 Square; 2010-03-29 Eneida; 2010-03-26 Easy Works; 2010-03-25 Be Active; 2010-03-24 Alberto Guimarães e Companhia; 2010-03-23 Confeitaria Arcádia; 2010-03-22 Vinália; 2010-03-19 SIM; 2010-03-18 Elemento Digital; 2010-03-17 Collab; 2010-03-16 Menina Design; 2010-03-15 HidroSwim; 2010-03-12 Cardmobili; 2010-03-11 Phyton Di; 2010-03-10 Land2Build; 2010-03-09 Casa Santos Lima; 2010-03-08 Malo Clinic; 2010-03-05 Cifial; 2010-03-04 Ecoinside; 2010-03-03 EFAPEL; 2010-03-02 Acordo Óbidos; 2010-03-01 Thelial; 2010-02-26 Sinuta; 2010-02-25 Energica; 2010-02-24 Quattro Energy; 2010-02-23 Brahmi; 2010-02-22 Colunex; 2010-02-19 Dashing; 2010-02-18 Energie; 2010-02-17 Inosat; 2010-02-12 Arquiled; 2010-02-11 Geoglobal; 2010-02-10 Solzaima; 2010-02-09 Eudactica; 2010-02-08 AJP Motos; 2010-02-05 Susana Gateira; 2010-02-04 Megaloule; 2010-02-03 Utildose; 2010-02-02 Salsicharia Trancosense; 2010-02-01 Grupo Lusopirotecnia; 2010-01-29 Fixeads; 2010-01-28 Give Me Options; 2010-01-27 Sotarte; 2010-01-26 Heliflex; 2010-01-25 Carsiva; 2010-01-22 Siscog; 2010-01-21 Sun OK; 2010-01-20 Silampos; 2010-01-19 BOI; 2010-01-18 Eclo; 2010-01-15 Bluepharama; 2010-01-14 Spin Energia; 2010-01-13 Unipasta; 2010-01-12 Idonic; 2010-01-11 Barbot; 2010-01-08 Grey Matter; 2010-01-07 Safira; 2010-01-06 Jobs; 2010-01-05 Coba; 2010-01-04 Castros2009-12-18 Ideias do Futuro2009-12-17 Cobermaster.
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B – Programa TSF “Mãos à Obra”
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"Ao longo da semana, em 2 minutos, Mãos à Obra lança na antena da TSF pequenas histórias de grandes mudanças de vida. Relatos de quem fez do desemprego o ponto de partida... e criou o próprio emprego. Os instrumentos, os exemplos, as dificuldades e as soluções para quem aposta numa nova perspetiva. Ao Sábado, António Peres Metelo põe mãos à obra e ajuda-nos a discutir as dúvidas e os problemas levantados ao longo da semana. Uma parceria TSF/ Instituto de Emprego e Formação Profissional. Mãos à Obra, com a coordenação de Nuno Amaral. De Segunda a Sexta, às 09h50, com repetição às 17h50. Aos Sábados, depois das 14h30" [texto da TSF – para melhor informação sobre o programa ver em http://www.tsf.pt/].
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Lista de programas até finais de Maio que foram já transmitidos e que podem ser ouvidos no sítio da TSF:
2010-05-28 José Martins - I9 Home; 2010-05-27 Madelino Euroskills II; 2010-05-26 Madelino Euroskills; 2010-05-25 Centro Profissional de Indústria de Calçado IV; 2010-05-24 Centro Profissional de Indústria de Calçado III; 2010-05-22 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-05-21 Santa Casa da Misericórdia Crato; 2010-05-20 Centro de Formação Profissional da Indústria de Calçado II; 2010-05-19 Centro de Formação Profissional da Indústria de Calçado; 2010-05-18 CEPRA II; 2010-05-17 CEPRA I; 2010-05-15 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-05-11 Obra Nossa Sra. da Purificação II; 2010-05-10 Obra Nossa Sra. da Purificação I; 2010-05-08 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-05-07 Inov Social; 2010-05-06 Casos pessoais: Lúcia Barbas; 2010-05-05 Ensino profissional; 2010-05-04 Sabores da Manhã; 2010-05-03 World Skills IV (Saúl Silva); 2010-05-01 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-04-30 Emprego ; 2010; 2010-04-29 Horta à Porta; 2010-04-28 ISQ; 2010-04-27 Skills - Rodolfo Santos; 2010-04-24 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-04-23 World Skills IV; 2010-04-22 World Skills III - André Rodrigues; 2010-04-21 World Skills II - Daniela Marques; 2010-04-20 World Skills I; 2010-04-19 GIP; 2010-04-17 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-04-16 Ceramed; 2010-04-15 Casos pessoais: Guadalupe Lobo; 2010-04-14 Cenfim III; 2010-04-13 Cenfim II; 2010-04-12 Cenfim 1; 2010-04-10 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-04-09 Casos pessoais: Carminda Simões; 2010-04-08 Casadinho e Torres; 2010-04-07 Tekbox II; 2010-04-06 Tekbox I; 2010-04-05 Creativeland; 2010-04-01 Tecnologia Informática; 2010-03-31 Casos pessoais: Esmeralda Gomes; 2010-03-30 Accessible Portugal; 2010-03-29 Luís Simões; 2010-03-27 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-03-26 Programa Ocupacional II; 2010-03-25 Programa Ocupacional I; 2010-03-24 Croquiplanta; 2010-03-23 Motor 7 Estágio; 2010-03-22 Casos pessoais: Carla Martins; 2010-03-20 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-03-19 FEG - Carla Martins; 2010-03-18 Casos pessoais: Liliana Viegas; 2010-03-17 Associação Infante Sagres; 2010-03-16 Motor 7; 2010-03-15 Bio 3; 2010-03-13 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-03-12 Apoio à Contratação; 2010-03-11 Nextconsulting; 2010-03-10 Infantário S. Vicente; 2010-03-09 APIRAC; 2010-03-08 Paladar ao Pormenor; 2010-03-06 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-03-05 Insight Visions; 2010-03-04 Restaurante Bons Hábitos; 2010-03-03 MOG Solutions; 2010-03-02 Elaboração de Curriculum; 2010-03-01 Inov Jovem; 2010-02-27 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-02-26 Oficina 3D; 2010-02-25 Colégio do Centeio; 2010-02-24 Tuisca; 2010-02-23 Plano Pessoal de Emprego; 2010-02-22 Atelier de Instrumentos Musicais de Corda; 2010-02-20 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-02-19 Inov Jovem II; 2010-02-18 Inov Jovem I; 2010-02-17 Electrotua; 2010-02-13 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-02-12 Mobilitec; 2010-02-11 El Corte Inglês; 2010-02-10 Português Claro ; 2010-02-09 Génios em Casa; 2010-02-08 Deficifield; 2010-02-06 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-02-05 Clínica e Psicologia; 2010-02-04 Prémio de Mérito Integração Profissional de Pessoa com Deficiência; 2010-02-03 Reabilitação Cabeleireiro; 2010-02-02 Glib Solutions; 2010-02-01 YDreams; 2010-01-30 Mãos à Obra - Compacto Semanal; 2010-01-29 IMT II; 2010-01-28 IMT I; 2010-01-27 Casulo Designers; 2010-01-26 Rlut; 2010-01-25 Vinivista; 2010-01-23 Mãos à Obra - Compacto Semanal.

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

domingo, 20 de junho de 2010

Plano Inclinado da SIC Notícias em 12-06-10 com Ernâni Lopes

Ernâni Lopes dá uma lição imperdível sobre a actual situação portuguesa.

video

Vídeo em http://videos.sapo.pt/MyeqOBCz5YZlVQzC7EvP





















































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Eu não sabia, mas "videirinho" ou "videiro" são adjetivos que designam aquele que para chegar aos seus fins, não olha aos meios nem hesita em cometer baixezas (Dic. Lello Universal).

Ver outros programas "Plano Inclinado" da SIC Notícias em

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 12 de junho de 2010

Crenças Populares II – As moiras encantadas

“As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve” por Ataíde Oliveira (1), Tavira, 1898.
Notas da responsabilidade deste blogue.

Na introdução do livro, Ataíde Oliveira apresenta a conquista do Algarve aos mouros, pelo rei Afonso III, como acontecimento de “celeridade pasmosa”. Muitos mouros fugiram e outros, talvez acreditando que “nova invasão sarracena viesse colocar tudo no antigo estado, ou porque se doíam de deixar este belo torrão, em que tinham sido criados, preferiram ficar na província, escolhendo as cavernas e as furnas para a sua habitação, de dia, ousando apenas sair alta noite. A habitação nas cavernas não lhes era estranha. Em vista do exposto fácil me parece explicar a origem das lendas das mouras encantadas e dos encantamentos.”
Fosse como fosse, os receios ficaram, e não apenas no Algarve [embora aqui mais frequentes], mas um pouco espalhadas pelo país. Ataíde Oliveira conta esta história:
“Quando uma velhinha do campo me narrou o episódio de uma moura, que pretendia atrair a si com promessas de diamantes e outras riquezas um mancebo, percebi que tremia.
- Mostra estar com medo! Observei-lhe.
- Se lhe parece! Se o mancebo tocasse somente com um dedo na mão da moura ficava eternamente perdido...
- Porquê?
- O simples toque de um dedo era o bastante para o moço perder os santos óleos, que recebera no batismo, e ficar ali preso por anos sem fim.”
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Uma das razões que dá maior interesse ao livro, é Ataíde Oliveira fazer as descrições na primeira pessoa, com casos concretos. As personagens com quem fala, são geralmente pessoas de idade.
“Bati á porta de uma casa de fraca aparência e apareceu-me uma velha quase cega.
- O que quer?
- Sou um pouco curioso e desejo que me conte alguns episódios referentes à moura Cassima, respondi.
- Naturalmente tem pouco que fazer e...
- Ilude-se a meu respeito: desejo simplesmente consignar num livro essas tradições de tempos antigos (...).
- Entre.”
E após se instalarem o melhor possível, começa a conversação.
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“- Eu era muito criança, ouvi contar a minha avó que, em certo dia de Junho, aproximou-se seu avô da fonte e viu dentro desta, sentada numa cadeira de prata, uma senhora a pentear seus cabelos de ouro com um pente que parecia um grande brilhante. O avô de minha avozinha ficou muito assustado, mas não se atreveu a afastar-se dali.
- Talvez fosse ilusão...
Minha avó repetiu-me muitas vezes o que o avô lhe contara e que ele afirmava com uma espantosa convicção. E seu avô nunca mentira, segundo a opinião da minha santa avozinha. Noutra ocasião, continuou a velhinha quase cega, andavam uns meus vizinhos trabalhando na eira, muito perto da fonte da moura...
- A fonte Cassima?...
- Não, senhor. A fonte Cassima (2) fica aí em baixo, a uns cinquenta metros, a fonte da moura fica ao lado e tem a aparência de um bajanco (3)... Como ia dizendo, um dos trabalhadores veio buscar água á fonte Cassima e passou defronte da fonte da moura a uns cinco metros. Viu então expostos ao sol numa esteira belos figos. Estranhou que em Junho já houvesse figos ao sol e aproximou-se da esteira para se certificar. Apanhou uns cinco e meteu-os nos bolsos. Neste momento reparou então que á entrada da fonte estava uma mulher vestida de moura, que lhe disse: apanha, apanha... O meu vizinho assustou-se e pôs-se a correr em direção da eira, onde contou aos companheiros o que lhe sucedera. Como duvidassem, ele tirou dos bolsos os figos, mas só encontrou cinco carvões.
- É notável! Observei na minha ingenuidade.
- Dele foi a culpa, porque se ocultasse o que tinha visto, em vez de carvões encontraria cinco peças de ouro.
- E isso há muito tempo?
- Teria eu uns cinco anos, e eu tenho setenta e nove. Numa noite, continuou a velhinha, estava minha mãe deitada com meu pai, que chegara de Faro, e eu dormia no berço. Pela meia-noite ouviu minha mãe bater á porta da rua. Receosa de que continuassem a bater, e acordassem-nos, ergueu-se da cama e foi á porta. Abriu o postigo e viu três mulheres.
- O que querem a estas horas?
- Amanhã, antes do sol nado, diga a seu marido que alugue duas cavalgaduras e as traga para aqui. Quando seja meia-noite, conduza a senhora as cavalgaduras á fonte da moura e carregue-as com o ouro que encontrar á entrada da fonte, e que ali está em monte como um monte de trigo. Depois de carregadas traga-as para sua casa, podendo então contar tudo ao marido.
- Quem são as senhoras? Perguntou minha mãe.
- Somos as tristes encantadas.
E desapareceram imediatamente. No dia seguinte contou minha mãe o que lhe sucedera. Então meu pai respondeu:
- Parva! Se te calasses seríamos muito ricos.
No entanto o meu pai foi alugar as duas cavalgaduras, minha mãe conduziu-as á fonte da moura, mas o monte de ouro tinha desaparecido. Se minha mãe se tivesse calado, seria eu hoje muito rica.
- Pelo que me conta há por aqui mais de uma moura...
- Mouras e mouros. Aqui bem perto há a fonte das Romeirinhas, onde têm aparecido mouros e mouras. Quando eu tinha os meus dezasseis anos, foi vista á meia-noite uma formosa moura a pentear-se com um pente de ouro. Na vila não são poucas as mouras e mouros encantados.
- Nunca ouvi falar disso na vila.
- O mundo finge-se hoje muito desprendido destas coisas, e os que acreditam nestas verdades não ousam contá-las com receio das línguas malévolas. Pois creia que há muita gente que o senhor pode consultar e que sabe de tudo tão bem como eu.”

(1) Ataíde Oliveira (Algoz, 1842 - Loulé, 1915), foi um arqueólogo português. Licenciado em Teologia e Direito, dedicou-se à arqueologia e à história das povoações no Algarve. Tornou-se um dos maiores autores sobre a história e o folclore da região, tendo publicado diversos estudos. Fundou, igualmente, o jornal O Algarvio em Loulé. [Em Wikipedia. Fonte citada: Ferro, S. (2002). Vultos na Toponímia de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos.]
(2) Fonte Cassima, outro local em Loulé, onde se diz existir uma moira encantada, de nome Cassima, filha do último governador mouro da cidade.
(3) Bajanco. Cavidade na qual se conserva a água. Trata-se de uma depressão no manto calcário, também, por vezes, designada de pocinho, bajouco, chabanco, chabouco.
[Encontrei o significado de "bajanco" em
http://www.scribd.com/doc/23304001/Tecnologia-e-Economia-Agricola-no-Territorio-Alcobacense-Seculos-XVIII-XX-VolII]
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 5 de junho de 2010

Crenças Populares I - As doenças

“Ares e Males” por Antero de Figueiredo
Em Antologia Portuguesa organizada por Agostinho de Campos, volume com textos selecionados, da autoria de Antero de Figueiredo publicado em 1923 pelas Livrarias Aillaud e Bertrand

(Notas da edição original em parêntesis curvo)
[Notas da responsabilidade deste blogue em parêntesis recto]

Ah, as doenças!
Um ar as traz, um ar as leva! Qual? O ar da figueira, o ar do cisco, o ar da fresta, o ar do postigo – o ar disto, o ar daquilo. Como? Porquê? Ninguém o sabe.
- “Dá-nos o Tranglo-Mango”[1] – eis tudo!
Mas quem faz caso de doenças? Ninguém. Como vieram, vão. O melhor é atirá-las para trás das costas, que elas lá passam; e, se não passarem, temos as ervinhas que tudo curam, os unguentos que tudo saram, os emplastos que tudo levantam.
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A eripsela talha-se com nove folhas de hera e nove pingas de água, ou seca-se com palhas-alhas em azeite fervido; o flato do estômago expulsa-se com cidreira e limonete; à espinhela caída levanta-se a brandeza[2] com emplastos confortativos de murtinhos abeberados em vinho. O fogo do cobrão (1) apaga-se com alhos esmagados em vinagre; as quartãs[3] desaparecem com chás de casca de carvalho; as impigens alimpam-se com saramagos esmagados, ou com esfregadelas de saliva, em jejum; as verrugas caem com leite de ceruda(2); e as catarreiras deitam-se fora com tarraçadas[4] de vinho quente e mel, tomado na cama e abafado com montanhas de cobertores de papa, de talhaduras(3) – todos os manteiros que houver na casa!
Se se trata de desnocado(4) ou mau jeito, chama-se o endireita, que, com esticões – puxa daqui, puxa dali – tudo leva aos jogadouros. Se é quebra de osso, nivelam-se os tutanos, encaneiam-se as carnes com tabuinhas ou malhais, e, depois de bem corridos os dedos pelos tendões, para os apertar, empapam-se as ligaduras em aguardente e sal, e espera-se que a Natureza obre por si. E obra: em poucas semanas, o osso da criatura ou bicho solda, forma calo, e por aquele sítio é que não arreda mais!
Ás vezes, porém, os males não se vão embora nem com ervas nem com mezinhas. O mal é outro: é mal de mau-olhado, de quebranto, de feitiço, de enguiço – de queixas várias, já agoiradas no uivar de cães, no piar de mochos. É carântula[5], é embruxamento. Para o curar, lá estão as mulheres de virtude. Essas, sim, são sábias a valer. Veem o invisível; ouvem o silêncio; cheiram cheiros que ninguém pressente; apalpam sombras; saboreiam a luz. Dirigem-se diretamente aos sopros vitais que ensalmam e encantam. Predizem. Não se servem de boticadas – mixórdias, mas de estremalhadas palavras de transposto sentido ignoto, doutas e espirituais, contendo poderes de magia afugentadora, que tudo degradam, tudo lançam fora. Essas mulheres sabem secretas rezas salutadoras – falas com santos – sapientíssimas. Ante elas, os espíritos ruins espantam-se e abalam. É um saber sagrado e que vem de toda a antiguidade!
Respeito!
(...)

[1]=doença provocada por um feitiço; do galego, tangano-mangano.
[2] =brandura; “levantar brandeza” creio que tem o sentido de “efeito miorrelaxante”; o oposto a dureza.
(1)=cobrelo; erupção da pele atribuída pelo povo à passagem de alguma cobra pela roupa.
[3]=febre intermitente.
(2)=celidónia; erva-andorinha.
[4]=tigelada.
(3)=mantas.
(4)=deslocamento, desarticulação. Voc. pop., formado talvez por influência de nó (articulação).
[5]=caracteres ou imagens de que se servem os feiticeiros.

Ver também Crenças Populares II – As moiras encantadas
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--