sexta-feira, 23 de julho de 2010

A crise III: Portugal.





Um dos desportos favoritos dos economistas é correlacionar variáveis. Diz um: se os impostos aumentarem a atividade empresarial diminui e o desemprego aumenta. Diz o outro: o investimento público a diminuir em tempo de crise, é uma opção recessiva. Todos têm opinião e todos têm números para mostrar. É uma discussão que me faz lembrar o célebre gráfico da Igreja do Monstro do Esparguete Voador (ver em http://www.venganza.org/, que me desculpem as pessoas mais religiosas, não pretendo ferir suscetibilidades).
Quando o número de piratas diminui, a temperatura aumenta. Divertido, mas absurdo. A realidade económica portuguesa é muito menos divertida, mas igualmente absurda.
Vejamos se conseguimos não nos deixar enganar com os gráficos que construí, com a ajuda dos dados do PORDATA (http://www.pordata.pt/) até 2009 e do PEC1 aprovados pelo Governo Sócrates e pela União Europeia.

De 1999 (altura em que o euro substituiu o escudo como moeda escritural e passou a valer como meio de troca) até agora, a história da dívida do Estado está representada nos gráficos acima. Bem sei que os números do PEC1 já estão ultrapassados, mas servem para demonstrar o caminho seguido pelo país, depois da adesão ao Euro.
A parte superior da figura é um gráfico que corresponde ao valor total da dívida do Estado português em percentagem do PIB. De acordo com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (aceite por todos os países da Zona Euro), este número não deveria ultrapassar os 60% do PIB.

O consulado de Guterres é bem demonstrativo das nossas dificuldades. Antes do Euro a dívida diminui. Após o Euro, a dívida aumenta, ficando no limiar dos 60%. Barroso e Santana estiveram sempre acima dos 60%. Quase atingiram os 70%. Sócrates depois de 3 anos (2006, 2007 e 2008), em que consegue parar o crescimento da dívida, teve 2 anos excessivos, em que consegue não apenas ultrapassar os 80% mas atingir este ano os 85%. A partir deste momento já nenhum investidor internacional deseja comprar dívida pública portuguesa a juros baixos. Quando emprestam, se a isso estão dispostos, consideram um risco alto (de incumprimento) e por isso fazem-se pagar a juros elevados. Valha-nos São BCE.

A razão da dívida é que o Estado gasta mais do que deveria gastar, como se vê na parte inferior da figura, no segundo gráfico, Guterres chegou a gastar em 2001, mais 10% do que aquilo que recebeu e no ano de Santana, 2005, atingiu-se 15%! Sócrates esteve sempre acima dos 5%, em 2009 gastou mais 23,5% do que recebeu e no PEC1 previu que em 2010 esse valor seria cerca de 20%. Imagine-se cada um de nós, a gerir assim o nosso orçamento familiar, em que todos os anos gastamos 5%, 10%, 15% ou 20% a mais do que recebemos e acumulamos dívida. Chega-se a um ponto em que mais ninguém nos empresta.
Entretanto, com tanto dinheiro emprestado, dir-se-ia que o Estado o aplicou e enriqueceu o país?

[Mais uma vez vou socorrer-me dos dados da PORDATA - graças à Jerónimo Martins e à equipa de António Barreto, que estes dados estão tão facilmente à nossa disposição].
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Em nenhum ano depois de 2000 o PIB cresceu mais de 2%. Temos até anos negativos (2003 e 2009). É uma economia anémica e geradora de desemprego.

O dinheiro não foi pois usado para o crescimento do PIB. Onde está? Penso que uma importante parte da resposta está no gráfico seguinte, a preços constantes (base: 2000) em milhares de euros.


Usámos uma boa parte do dinheiro emprestado para pagar importações. Mais de 10 mil milhões de Euros por ano a preços constantes de 2000, é a diferença entre importações e exportações.
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Conclusão: não fazemos crescer o produto, exportamos pouco para as nossas necessidades, não contemos o desemprego e nem sequer conseguimos pagar a dívida já assumida. E até 2008 não havia crise nenhuma internacional! Foi o país que fez isto sozinho.

Neste cenário, a meu ver, várias opções de política económica são essenciais:
1- Para evitar criar ainda mais dívida, o orçamento do Estado não pode continuar a ser negativo. Para isso, o Estado tem de ser mais seletivo nos apoios que presta. Excetuando os mais pobres, a gratuitidade universal não é sustentável. Não há nada gratuito, alguém tem sempre de pagar e os estrangeiros já não querem pagar mais.
2- Os limitados recursos de investimento e de crédito, precisam ser essencialmente dirigidos para empresas exportadoras e/ou que substituam importações. As grandes obras de investimento estatal retiram meios financeiros à economia produtiva, às exportações e ao emprego.
3- Estimular a poupança interna. É bom para o Estado e para o sistema financeiro, que assim se financiam internamente. Mas se pagam lá fora empréstimos a 5%, não vão pretender pagar ao Zé depósitos a prazo a 2%, pois não?
4- Oferecer condições para atrair investimento estrangeiro de qualidade. Veja-se o exemplo da AutoEuropa. Para ter cá bom investimento é preciso oferecer vantagens. A coisa não vai lá só com sorrisos e teatro.
5- Resolver de uma vez por todas a confusão da Justiça e da Educação. Temos sido incompetentes para resolver isto. Olhem-se para os melhores sistemas lá de fora e copiem-se os bons resultados. Se não há gente capaz para refazer o sistema, contratem-se técnicos estrangeiros para virem para cá ajudar a pôr isto a funcionar.
6- Apoiar o melhor possível os desgraçados que ficam sem emprego ou na miséria. Como se vê, o Estado já não tem meios para fazer face a tudo. Mobilizemos também a sociedade para a ajuda social e para as ONGs. É um dever de cidadania. Quando consciente, o povo português sabe ser solidário.

Se isto for feito, talvez evitemos o pior, que nem me atrevo a dizer (mas não deixo de pensar na Argentina). Temos tido um sinal de esperança: durante o recente período de desvalorização gradual do Euro, a dinâmica das nossas exportações.
Penso que estas questões são transversais aos partidos políticos que têm partilhado o poder desde o 25 de Novembro. Todos fizeram disparates, todos têm essa responsabilidade histórica.

NOTA: já depois de ter escrito este texto, li o artigo publicado hoje na imprensa assinado por Jean-Claude Trichet, presidente do BCE e intitulado “Não estimular mais – é tempo de todos se conterem”. Diz ele a propósito da política económica seguida como reação à crise de 2008:
“(...) vemos quão infeliz foi a simplista mensagem de estímulo orçamental, passada para todas as economias industriais sob o lema: “estimulem”, “ativem”, “gastem”! Felizmente um grande número de economias tinha espaço de manobra; outras tinham pouco espaço de manobra; e algumas não tinham qualquer espaço de manobra e deviam já ter começado a consolidar. Estratégias específicas devem sempre ser feitas à medida de cada economia. Mas há poucas dúvidas que a necessidade de implementar uma consolidação orçamental credível a médio prazo é válida agora para todos os países (...).”


--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

domingo, 18 de julho de 2010

A crise II: a infeção alastra à Europa.

Embora num primeiro momento durante 2008, parecia que a crise que então se designava do subprime, se restringia aos Estados Unidos, na última parte desse ano começou a verificar-se que a contaminação financeira também se estendia à Europa. Os bancos europeus tinham igualmente adquirido títulos “tóxicos” em grande quantidade, e para que não houvesse uma corrida aos bancos, alguns governos tiveram de intervir, pagando pelo salvamento dos bancos ou mesmo nacionalizando e impondo controlos mais apertados sobre as operações financeiras, em especial com offshores e regras mais exigentes sobre a capitalização bancária.

A primeira vítima foi a Islândia. Um pequeno país que vivia à sombra de um sistema financeiro de raiz especulativa, que valia várias vezes o PIB do próprio país de origem, não teve capacidade de ajudar a sua banca e afundou-se. Existia o receio que o mesmo pudesse acontecer com a Suiça, um país com um setor bancário gigantesco (com o primeiro e o sétimo maiores bancos do mundo). Felizmente, não foi o caso. Quem sofreu, foram no entanto os países da União Europeia.

Em primeiro lugar o Reino Unido, principal placa giratória dos fluxos financeiros euro-americanos, em segundo, as economias cujo crescimento estava dependente não apenas de um sistema financeiro frágil mas sofriam também de “bolhas” imobiliárias, como a Irlanda, em terceiro, os países com maior dívida pública externa, como a Grécia e Portugal. Estes países endividados eram apenas a ponta de um enorme iceberg que urgia resolver antes que o mal se propagasse, sobretudo a Espanha, que sofria um pouco de todos estes males.

O Banco Central Europeu, a autoridade monetária máxima da zona Euro, cujo único objetivo de política monetária tinha sido até agora, evitar os riscos inflacionários, não tinha os meios de um banco central como por exemplo, a reserva federal nos EUA. Não podia emitir moeda para além de certos limites muito estreitos e por isso via-se impossibilitado de emprestar dinheiro em países em dificuldade, não podendo sequer adquirir títulos de dívida - “bonds”, dos estados membros da zona Euro. Esta política monetária tinha servido durante uma década para assegurar preços e juros baixos e um Euro forte, mas em situação de crise, não se dispunham dos meios de intervenção adequados.

Muitos estados e muitas economias tinham usado esse chapéu-de-chuva protetor do BCE durante uma década para se endividarem, mas agora com um crédito escasso, só conseguiam obter empréstimos a juros muito altos. A Alemanha, economia mais forte da zona Euro e país de contas equilibradas, opunha-se a que se alterassem as regras do BCE. A maioria dos outros países da zona Euro, defendiam a necessidade de uma intervenção mais ativa do Banco Central Europeu para fazer face aos novos problemas colocados pela crise financeira. Foi preciso esperar pelas reuniões dos dias 7-9 de Maio de 2010 para se tomar uma decisão comum.

A reunião das decisões

Estes dias de reunião dos responsáveis da zona Euro não foram fáceis. As anteriores conversas de Jean Claude Trichet, presidente do BCE, e de José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia tinham já convencido a chanceler alemã Angela Merkel de que não era apenas a Grécia, Portugal ou a Espanha que estavam em causa, mas toda a zona Euro.

Apesar dos apelos não se conseguia chegar a um acordo. Junker, primeiro ministro do Luxemburgo, queixava-se que nestas reuniões a maior parte do tempo era gasta em conversas de corredores. Os gregos descreviam a situação social no país como apocalíptica. Trichet insistia que o sistema financeiro internacional estava próximo do abismo. Sarkozy, apelava para a construção de um mecanismo de empréstimo e que o BCE deveria comprar “bonds” dos estados, caso contrário a União Europeia poderia desmembrar-se. Foi logo apoiado claro, por Berlusconi, Sócrates e Zapatero. Trichet reagiu mal, afirmando que o BCE não tinha competências para o fazer. Merkel apoiou Trichet. Naquele dia 7 ninguém chegou a acordo.

O dia seguinte foi um Sábado. Obama faz segundo telefonema a Sarkozy, em dois dias, a salientar a urgente necessidade da UE chegar a acordo (antes dos mercados asiáticos abrirem na 2ªfeira, madrugada de domingo para segunda, na Europa). Não houve reunião no Sábado. Fez-se uma paragem de 24horas para a Comissão (de Barroso) tentar elaborar algumas propostas que seriam para discutir no Domingo. Lá esteve o Zé Manel a trabalhar no Sábado.

Chegou então o Domingo, 9 de Maio. Não havia muito tempo e tinha de se arranjar uma solução. A reunião de Domingo era com os ministros das finanças e começou mal. O ministro das finanças alemão, Schäuble, adoeceu durante a viagem de avião e não podia estar presente. Tinha de se esperar por um representante alemão. Berlim decidiu enviar Maiziere, ministro do interior. As pessoas esperaram conversando, comendo sanduíches e pizzas. Começou finalmente a reunião. Durante o fim de semana, franceses e alemães tinham decidido um pacote de auxílio até 500 mil milhões de euros, mas não conseguiram durante a reunião estar de acordo quanto aos mecanismos. A Alemanha era contrária a uma ajuda institucionalizada da UE que poderia ser considerada ilegal nos tribunais, mas era favorável a um pacote de empréstimos bilaterais desde que os empréstimos fossem concedidos mediante o cumprimento de certas condições para os estados em dívida. Estava a aproximar-se a hora limite, uma da manhã em Bruxelas, hora que abriria a bolsa de Tóquio. Os órgãos de comunicação estavam impacientes e temia-se o pior. Como por milagre, surgiu a solução. Berlusconi e Sarkozy propõem uma conjugação de empréstimos, apoiados em garantias governamentais, organizados inter-governamentalmente. Era uma solução rebuscada que resolvia criativamente o problema, pondo todos de acordo. Já com cara de sono, eram 3 da manhã quando os detalhes foram divulgados e Trichet anunciou que o BCE iria adquirir “bonds”.

[A história destes dias é contada com mais detalhe, na edição do Financial Times de 11/05/2010]


--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 17 de julho de 2010

A crise I: tudo começou nos Estados Unidos com o “subprime”.

Nos Estados Unidos, o “subprime”, empréstimo bancário com juro mais caro que o empréstimo normal (ou “prime loan”), é o único recurso daquelas pessoas que necessitam recorrer ao crédito, mas que não dispõem de bens ou de fontes de rendimento capazes de assegurar perante a banca, um empréstimo normal. Têm por isso de pagar um juro mais alto.
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. Durante a era Clinton, a economia florescia, a bolsa atingia números recorde e o défice do orçamento federal estava controlado. Lançou-se então um programa que oferecia a promessa de “uma casa para cada americano”. Como? Tornando possível, através das agências governamentais Fannie Mae e Freddie Mac, oferecer garantias à banca, de pagamento dos créditos em regime “subprime”. Os angariadores de crédito, agentes bancários, desataram então a conceder empréstimos a eito, ao abrigo dessas garantias governamentais, mesmo a pessoas de poucos rendimentos, muitos notoriamente incapazes de vir a conseguir pagar no futuro, as quantias assumidas. Foi um sucesso estrondoso. O “subprime” chegou a atingir em certos anos, 80% dos novos empréstimos para a habitação.

A banca americana embarcou nesta loucura por dois motivos, essencialmente. Primeiro, porque no mercado habitacional americano, os imóveis estavam sempre a valorizar. Se alguém não pudesse pagar as suas prestações, a banca vendia a casa e recuperava o valor do empréstimo. Segundo, porque a dívida era titulada e colocada no mercado bolsista com juros muito atrativos, permitindo financiar a operação. Toda a gente estava feliz e contente.

Na realidade o esquema não era sustentável. O mercado habitacional atingiu um ponto de saturação, os preços cairam e os bancos começaram a ter sérios problemas com os incumprimentos de pagamentos das prestações do subprime. O governo federal, ainda na altura de W. Bush, foi obrigado a intervir injetando dinheiro (Bail Out) na Fannie Mae e na Freddie Mac, mas as casas continuaram a baixar de preço. E depois foi pior. Os investidores da bolsa começaram a fugir dos títulos que davam liquidez à operação, ora muitos bancos tinham comprado esses ativos e assim a perda foi dupla e rápida. A falência do banco de investimentos Lehman Brothers, quarto maior dos EUA, com mais de 150 anos, em 15 de Setembro de 2008, alertou o mundo para um grande problema do sistema financeiro e pode-se dizer que, pelo menos em termos mediáticos, marcou o início da crise financeira americano-europeia.

É claro que as coisas estão aqui um tanto simplificadas. Temos um enquadramento económico difícil nos Estados Unidos, com a ascensão dos países emergentes – em especial da China, as guerras no Iraque e no Afeganistão pós 11 de Setembro, a habilidade de Greenspan – então presidente da Reserva Federal (o banco central americano), hoje um homem arrependido, e claro, a irresponsabilidade e vigarice, da parte de alguns gestores financeiros. Julgo no entanto, ter feito uma síntese do mais importante.

Ver também A crise II: a infeção alastra à Europa.
e A crise III: Portugal.

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

domingo, 11 de julho de 2010

Almeida Garrett: a Monarquia Portuguesa e a Igreja.

Bem sei que esta coisa dos blogues é principalmente para cada um escrever por si próprio. Porém, se tenho estes textos admiráveis de gente capaz de escrever muito melhor do que eu, não será lógica a troca?
Este breve artigo de Almeida Garrett que transcrevo quase na íntegra, foi publicado em O Cronista no ano de 1827. A edição do livro que possuo, é de 1992, da Editorial Estampa. O título, “Portugal e os Jesuítas”, é suficientemente elucidativo, apresentando uma interpretação pouco conhecida, de um importante aspeto da História de Portugal.
A nota única com parêntesis curvo é de Garrett, as outras com parêntesis reto, são da minha responsabilidade.

(...) A primeira raça dos nossos reis, daqueles grandes capitães e não menores políticos que fizeram querida dos Portugueses a monarquia, e arreigaram entre nós o princípio, não destruído ainda por tantas oposições, de que a realeza era o seguro paládio [1] da nossa liberdade e independência; essa primeira raça começou logo desde Afonso Henriques a manter e fomentar o espírito de resistência contra os princípios teocráticos que então subjugavam o mundo, que muito tempo depois o dominaram, e ainda hoje o perseguem e querem submeter a seu império.
É verdade que em diversas épocas da monarquia foi por vezes necessário transigir com as leis ou com as circunstâncias do tempo; mas o sistema da independência do poder civil, da justa liberdade dos povos e do horror ao teocracismo constantemente se manteve no gabinete dos nossos reis, como o fogo sagrado de Vesta [2] de cuja perpétua duração dependiam os fados do povo romano.
E quem dirá todavia que não eram religiosos aqueles príncipes ilustres, que a toda a parte levaram o estandarte do evangelho, e plantaram a cruz de Cristo nos ângulos mais remotos da terra?
Mas a seita formidável que já então existia bem como existe hoje, embora conhecida por outras denominações, e que sempre olhou para Portugal com olhos de vingança, não descansou enquanto o não empolgou todo nas garras e o entregou lacerado ao ludíbrio de seus inimigos, para escarmento [3], como já disse, dos povos da terra.
Para conseguir porém esta vitória era necessário iludir os veladores daquele santo fogo, fazê-lo apagar, ou amortecer ao menos.
Grande arte, grande habilidade era necessária nos ministros e executores de projeto tão difícil.
Apareceram-lhe quais os desejavam. Os Jesuítas se incumbiam da execução da sentença de extermínio lavrada contra Portugal. Esta foi a sua primeira façanha política; foi o nosso país o teatro da sua primeira glória, e que estabeleceu a reputação das suas armas invencíveis.
Ainda estavam quentes na memória e saudade dos povos as cinzas de D. João II, ainda fazia palpitar os feitos portugueses a recente lembrança daqueles filhos de D. João I, família mais ilustre e generosa que ainda se viu em tempo nenhum, em nenhum povo, à roda do trono. Os nomes do infante D. Henrique, o sábio, de dom Fernando, o santo, mártir da pátria, o Régulo [4] da história portuguesa, de dom Pedro o protetor dos povos e das suas liberdades, o maior homem de estado do seu tempo que pereceu vítima da sua pátria e de seus generosos princípios, de dom João que sacrificou diante da honra e glória nacional todos os afetos de coração e todos os preconceitos de nascimento, são nomes que não precisam de mais epíteto para serem conhecidos e comprovar o que disse.
Dom Manuel, herdeiro de tanta glória, de tantas virtudes e venturoso legatário do produto de tantos trabalhos, forçosamente continuou no sistema que lhe havia preparado a glória e fortuna do seu reinado.
Estava el-Rei D. Manuel mui seguro e possuído da bondade deste sistema de seus predecessores; e com isso não era possível vingar o plano de destruição de Portugal.
Mas veio seu filho [5], cujas boas intenções e desejo de felicidade pública não podem ser duvidosas, porém mais timorato e menos homem de Estado cedeu mais facilmente, e se deixou iludir dos embustes jesuíticos.
A inquisição estabelecida em Portugal por um ardil vergonhoso, foi o primeiro golpe decisivo dado na independência da coroa e da nação.
Desde este momento o teocracismo contou com a vitória, e a começou a cantar. Não faltou quem conhecesse este erro funesto, e calculasse as fatais consequências dele. E muitos escritores daquele tempo nos ficaram ainda nos monumentos da indignação dos homens de luzes, verdadeiramente religiosos, e amigos da pátria e do rei; basta ler as cartas de Sá de Miranda para se conhecer a verdade desta asserção.
Mas pela morte deste pio e mal aconselhado rei vieram a empiorar ainda as circunstâncias de Portugal. A regência sucumbiu completamente ao jugo monástico e à dominação jesuítica.
El-Rei D. Sebastião educado em princípios diversos dos de seus imortais antepassados, enfim vítima das maquinações dos jurados inimigos de Portugal, foi sepultar nas areias de África a sua coroa e a sua nação.
Não podia ser mais completo o triunfo do teocracismo e de seus ministros e exército, os jesuítas (*) [6].
No breve e triste reinado do cardeal-rei [7] pouco mais tiveram eles que fazer do que aprofundar a cova já aberta para a sepultura de Portugal, ou antes carregar a terra e a pedra do monumento sobre o seu cadáver já sepulto.
Sessenta anos jazeu no monumento a desgraçada pátria: e se não fora a incúria e impolítica do III Filipe (IV de Castela) e sobretudo o arrojado denodo da principal nobreza ajudada da pronta cooperação de todo o povo português, ainda hoje seríamos talvez verdadeiros hilotas [8] de Castela, nem teria o marquês de Chaves [9] e seus conjurados, necessidade de tanta luta e trabalho para nos entregar à dominação estrangeira.
Vexou-se, mas não desanimou o parido teocrático. Sua guerra surda continuou e redobrou de intenção.
D. João IV foi assassinado [10]; mas a Providência salvou Portugal deste novo golpe, e falsou o tiro do miserável instrumento do parricídio.
Entramos em época mais recente: não quero individualizar factos nem recordar desgraças [11], cuja lembrança pode ainda ferir a sensibilidade de alguém que porventura sem crime dos seus atos, e decerto sem nenhum próprio, padeça ainda das consequências dessa desgraça.
O sangue de el-rei D. José correu sobre o altar do jesuitismo ofendido; e se escapou, quase por milagre, com vida foi-lhe necessário para a conservar, não somente expulsar a traidora sociedade de todos os seus domínios, mas decepar as cabeças todas da hidra espalhadas pela Europa, e enfim ir a Roma feri-la no coração e fazer-lhe dar o último suspiro [12].
Permitiu assim a Providência que o teatro das primeiras glórias da sociedade fossem também seu afrontoso patíbulo [13]. (...)
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[1] Paládio = salvaguarda.
[2] Vesta = deusa romana da casa e da família, simbolizada pelo fogo sagrado.
[3] Escarmento = exemplo.
[4] Régulo = jovem rei.
[5] Garrett gosta tão pouco dele, que nem o nomeia. Trata-se, claro, de D. João III.
(*) Nem sou nem desejo mostrar-me parcial em coisa nenhuma. Houve muitos jesuítas em Portugal que foram homens honrados, bons cidadãos, súbditos leais, e excelentes religiosos. Basta citar os nomes de S. Francisco Xavier, do seu historiador Lucena, do Padre António Vieira para se ver que mui honrosas exceções tem a geral imputação que em Portugal se há feito à sociedade em geral. Ainda mais: é certo também que muitas, ou pelo menos algumas, das incriminações que lhe faz a Dedução Cronológica [6] são infundadas.
[6] A Dedução Cronológica referida na nota (1), é um livro de acusação aos Jesuítas, cujo autor se presume ser o Marquês de Pombal, ou alguém sob a sua orientação.
[7] Tal como quando se referia a D. João III, ver [5], Garrett também não dá nome a este “cardeal-rei”, um inquisidor-mor, que ao falecer deixou a independência perdida. Trata-se evidentemente de D. Henrique.
[8] Hilotas = população quase escrava dominada por Esparta na Grécia antiga.
[9] O marquês de Chaves era um líder militar miguelista-absolutista, que recebia apoios de Fernando VII de Espanha, enquanto Garrett, era um fervoroso liberal.
[10] Garret refere-se a uma tentativa de assassínio falhada em 1647 contra D. João IV.
Ver em http://pedraformosa.blogspot.com/2007_08_01_archive.html :
“Por sentença, em processo sumário, lavrada em 12 deste mês, contra o vimaranense Domingos Leite Pereira, escrivão da correição do cível em Lisboa, que na procissão Corpus Christi quisera ou tentara assassinar a El-rei D. João IV, foi executada neste dia 16. A sentença condenava-o como traidor aleivoso, parricida, assassino e incurso no crime de lesa-majestade de 1ª cabeça, e por esse motivo, com baraço e pregão foi levado pelas ruas públicas, de rastos à forca, onde lhe deceparam as mãos no pelourinho e depois o enforcaram, sendo o corpo deitado numa fogueira para que não ficasse dele nem memória.”
Ver também o romance O Regicida, de 1874, da autoria de Camilo Castelo Branco sobre este assunto. O ebook encontra-se disponível no sítio do Projeto Gutenberg, pesquisando em http://www.gutenberg.org/wiki/Main_Page
[11] Dado que de seguida fala do reinado de D. José, Garrett pode pretender referir-se a certos acontecimentos do Antigo Regime, como a expulsão dos judeus, a horrível morte dos Távoras durante o consulado pombalino ou as terríveis perseguições de Pina Manique no tempo da louca viradeira. Julgo no entanto que está principalmente a pensar nas feridas abertas, e certamente ainda presentes em 1827, pelas Guerras Peninsulares. É que, verdade seja dita, alguns vintistas tinham sido colaboracionistas dos franceses. O que voltou a unir a nação foi o sentimento independentista anti-inglês.
[12] A Companhia de Jesus foi extinta em 1773 pelo papa Clemente XIV. Foi restaurada em 1815 por Pio VII, mas nunca mais voltou a ter a influência de tempos anteriores.
[13] Patíbulo = cadafalso. Garrett refere-se ao fato de ter sido Portugal, o primeiro país a expulsar os Jesuítas, em 1759. Alguns anos depois foi a vez de serem expulsos de França e depois de Espanha. Este processo viria a culminar na extinção da ordem.Ver [12].

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--