domingo, 15 de agosto de 2010

De Paço de Arcos ao Dafundo: Tomás da Fonseca.

O governo provisório presidido por Teófilo de Braga, constitui-se logo no dia 5 de Outubro de 1910. José Tomás da Fonseca ocupava o cargo de Chefe de Gabinete do Ministro das Obras Públicas, António Luís Gomes. A vida no ministério era complicada, muitos interesses e todos queriam conhecer os novos governantes e reivindicar alguma coisa. Tomás da Fonseca iniciava o dia de trabalho cedo no Terreiro do Paço e só partia no último comboio da noite, do Cais do Sodré para o apeadeiro do Dafundo, que existia naquele tempo junto ao Aquário Vasco da Gama. Habitualmente viajava em 3ª classe. Fazia depois a pé o pequeno trajeto até sua casa.

Este, foi um dia de muitos afazeres e preocupações no Ministério. Para mais era Inverno e chovia. Pesavam as nuvens e o trabalho. Tomás da Fonseca chegou exausto à estação do Cais do Sodré. Tinham-lhe dado nesse dia, no Ministério, um passe de livre circulação que poderia usar no comboio. E aqui começa a sua odisseia [as notas são da minha responsabilidade]:

(...) Valendo-me do tal passe que me dava direito a escolher carruagem, tomei uma de 1ª classe. Assento fofo, luz mortiça, corpo debilitado, em dois minutos estava profundamente adormecido (...). E de tal modo que foi preciso o revisor sacudir-me com força para que abrisse os olhos.
- Onde estamos?
- Em Paço de Arcos.
- Ah! Mas eu vou para o Dafundo...
- Agora? Só se for a pé! Este é o último comboio e não passa daqui.
Deus clemente!
Esfreguei os olhos e pegando no chapéu dirigi-me à estação, onde procurei informar-me dos caminhos que me levassem a casa.
O que não disse, porque não lhes interessava, foi que minha mulher [ver nota 1] aguardaria o meu regresso, de pé e a face colada aos vidros da janela, até que me visse entrar pelo portal, ou vivo ou morto.
O carregador pôs-me na estrada e notei logo que as árvores se inclinavam, fustigadas pela ventania que soprava do mar. Todo o dia os beirais da cidade pingaram, mas era chuva miudinha, a que só molha os tolos, porque os outros abrem o guarda chuva ou envergam a capa de borracha, conforme os gostos e... os teres.
Eu tinha guarda-chuva e sobretudo. Este, prenda de casamento com que o Dr. Bernardino Machado mimoseara o moço que então lhe catalogava os livros, que distribuíra em duas casas... Mas, adiante, que já não é da narração.
Enquanto os focos da estação me alumiaram, tudo correu sem novidade. Quando porém, faltaram, comecei avançando na noite, com grande precaução, visto que a estrada estava má e porque só de longe em longe a treva era picada pela vaga fosforescência de lâmpadas cuja luz a chuva mais ainda amortecia.
Porque o céu, embora todo o dia se conservasse carrancudo, pouco lacrimejando, descia agora ameaçador, rolando nuvens carregadas, de onde sopravam bátegas, que faziam cantar a água nas valetas e descer, em tumulto, por canos e aquedutos em direção ao mar, que rugia também, fustigando, em baixo a riba penhascosa.
E eu que nunca passara em tal estrada!

Mas a abnegação tem asas. Por isso, fazendo das tripas coração, continuei avançando, a largos passos quando havia luz, mas tateando as zonas que ficavam no escuro.
E a razão de tal prudência foi ter metido um pé numa poça de onde logo espirraram água e lama. Mas a prudência não bastava, porque a estrada, em certos pontos, era um perfeito barrocal.
Dois, três passos, e uma poça.
E se fossem apenas os buracos que salpicavam o chão, vá com mil diabos. Mas a chuva a bater-me nas pernas! Mas o vento a voltar-me o guarda-chuva! Mas o arvoredo a lançar ramos ao caminho!
Quis um dia, mais tarde, verificar o sítio onde, para me desviar de certa mancha escura, escorreguei para a valeta, com tão pouca firmeza de perna, que fui meter a mão num arbusto espinhoso, retirando-a, não direi como um sudário, mas com bastantes picadelas. Procurei, mas não dei com o tal espinheiro.
Como também não descobri o local onde metera ambos os pés na mesma poça. Julgando-a de dois palmos, fiquei sabendo que tinha, pelo menos, dois metros. E tão funda que de aí por diante nunca mais deixei de ouvir aquela música monótona e enervante que só conhece e sente quem é desventurado: chap, chap, chap...
Eram os pés dentro das botas!

A pequena distância de Caxias deparei com a estrada inundada. Outro qualquer daria volta pelos montes ou aguardaria que a enxurrada passasse. Mas eu, que aprendera a nadar tinha seis ou sete anos, encarei sem medo o incidente, e naveguei...
Devo afirmar que tanto aqui, como lá atrás, quando me chapei contra a barreira e o arbusto picante... qualquer menino da cidade perderia os sentidos ou, pelo menos, limparia na face quatro ou cinco lágrimas. Pois eu nem perdi os sentidos nem verti uma lágrima. Mas em compensação – e isto posso jurá-lo sobre qualquer dos evangelhos – nunca chamei a ninguém tanto nome feio como ao tal conselheiro que me levara ao gabinete o pequeno quadrado de papel que me autorizava a tomar assento em carruagem de 1ª.
Pois não sabia ele que eu viajava sempre em 3ª, com a gente do povo? Que era um filho do povo? Que com ele aprendera a ser modesto, a lutar pela vida, a resistir, a ter saúde e a ter caráter? Quis talvez perverter-me... Fazer de mim um renegado...
A tal suposição, não me contive, atirando-lhe com esta imprecação, que também aprendi com a gente do campo!
- Os diabos o levassem para as profundas do Inferno!
Estava agora dentro de Caxias, que atravessei rapidamente, encostando-me às casas e aos muros, para me livrar do temporal que me varava os panos e os ossos. Mal deixei, porém, o aconchego das moradias, a ventania desvirou-me outra vez o guarda-chuva, arrancou-me o chapéu da cabeça, levando-me de novo, para a berma da estrada, onde as botas quiseram avaliar a fundura da terra amolecida pela chuva.
Procurado e encontrado o chapéu, que ia seguindo na valeta, ao denavau [ver nota 2], começou então entre o antigo aldeão do Caramulo e o atual chefe de gabinete, um monólogo que só terminaria depois da Cruz Quebrada, cujos terrenos firmes conhecia, por lá ter estado dias antes.
- Ora aqui tens o que lucraste em teres saído fora dos teus hábitos... Há pouco responsabilizaste o conselheiro pela difícil situação em que te encontras. Não tiveste razão! Ele fez o que faria qualquer outro. É da praxe. Sai um chefe de gabinete? É-lhe cassado o passe que entra automaticamente na carteira daquele que lhe sucede. Também hás de largar o teu, nem que te custe... Portanto o conselheiro fez aquilo no cumprimento de um dever e também, quero crer, na pretenção de te ser agradável. E tu, em que moeda lhe pagaste? Atirando-lhe à cara quanta porcaria juntaste no convívio da escória. Pobre homem! Mal imaginaria ele que, em paga das suas atenções, o maltratarias daquele modo. Foste um galego... Pior que uma varina... Tens que fazer-lhe uma visita, a fim de retirares a linguagem despejada...
Ia continuar, mas distraído como vinha, a voltas com a consciência, tropecei num monte de calhau que o Diabo, decerto, ali pusera para eu praguejar e, perdendo a graça do Senhor, perder também a alma. Enganou-se, porque me limitei a prosseguir na estrada e no solilóquio interrompido.

- Não caíste, mas era bem feito que caísses. Para que entraste na tal carruagem almofadada? Não te serviam já os bancos de madeira? Bem sabemos que vinhas fatigado e que a 1ª é menos barulhenta e mais macia... Considera, porém, que não foi feita parati, mas para outras classes de que não fazes parte... És banqueiro? Sabes bem que não és, meu pobretana. És fidalgo ou titular? Não és nem serás nunca, alma de plebeu! E oficial do exército? Não és nem o desejas ser. E representante do clero? És núncio? És bispo? És cónego da Sé? És, ao menos, capelão de regimento? Longe disso. Então para que meteste o nariz onde não eras chamado?
A chuva, tocada pela ventania, tinha-me entrado no pescoço e molhado a camisa. Desdobrei o lenço em quatro e fi-lo descer costas abaixo, não fosse apanhar algum resfriamento.
- Que não era mal feito, a ver se colhias emenda... Era lá coisa que fizesses encostar-te àquelas maciezas, habituadas a receber corpos de pessoas elegantes, penteadas, perfumadas, ornadas de brilhantes, mas sobretudo, bem dormidas, bem almoçadas, bem lanchadas e ainda por cima bem falantes e por isso bem despertas? Pois não vias, casmurro, que o cansaço aliado aos estofos, havia de dar aquilo, fatalmente? Bem: não vale a pena enegrecer-te mais a noite. Mas vê se aproveitas a lição que, como estás vendo, é dada por mão de mestre.
E de facto, tanto a chuva como a ventania continuavam a flagelar-me as carnes, a desviar-me do caminho e a recordar-me que só tinha, no estômago, o vazio deixado pelo café com leite da manhã e o pão com filetes de bicho que não sabia classificar.
A conversa faz encurtar as horas e os caminhos, e por isso voltei de novo à fala com o manga de alpaca.
- Bem vês... Na tua idade, já com mulher e filhos... Estes [ver nota 3], coitadinhos, devem estar dormindo a sono solto. Ela, porém, é que não despega o rosto da vidraça, nem os olhos do passeio, em frente, onde há muito não vê sombra de transeunte...
Na Cruz Quebrada vi as horas. Três e meia, a passar...
- Bonita conta... Mas também, em chegando à ponte, entras no trilho do elétrico e dali a casa são dois passos.
E assim foi.
Abri, de mansinho, a cancela do jardim, meti o trinque, dei volta à lingueta, empurrei a meia-porta... Ao cimo da escada lá estava ela, à minha espera...
Julguei que desatasse a rir, mas estacou, pondo as mãos na cabeça.
- Como tu vens!
É, que, realmente, o que ela via era desconcertante, porque em vez do marido que de manhã partira, lavado, agasalhado, penteado, escovado, tinha, na sua frente um trapo humano a escorrer água, salpicado de lama, o chapéu amolgado, o guarda-chuva esfarrapado, o cabelo em desalinho, acalcanhado, derreado... E além disso olheirento e com fome.
Era ridículo! (...)

Em Memórias dum Chefe de Gabinete de Tomás da Fonseca
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Nota 1: Clotilde Madeira Branquinho da Fonseca

Nota 2: não encontrei o significado de “denavau”, nem mesmo nos antigos dicionários que por vezes me salvam. Teria sido gralha ou a palavra existe? Quereria o autor escrever no manuscrito, “devaneio” ou “vendaval”? De acordo com o texto da extensa errata, o livro foi publicado (a edição que tenho é de 1949), sem as provas terem sido revistas pelo autor.

Nota 3: um deles, o mais velho, chamava-se António José Branquinho da Fonseca, grande escritor português do século XX e o impulsionador das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian.

Importante:
1- Em boa hora a Antígona resolveu recentemente re-editar a obra de Tomás da Fonseca. Já estão publicados dois títulos, Na Cova dos LeõesO Santo Condestável. Para 2011, a Antígona planeia continuar com pelo menos um novo livro de Tomás da Fonseca (ver detalhes em http://www.antigona.pt/).
2- Para mais informações sobre Tomás da Fonseca, visitar o excelente sítio do Município de Mortágua em http://www.cm-mortagua.pt/, e selecionar Município - Figuras Ilustres - Tomás da Fonseca.
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--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--

sábado, 7 de agosto de 2010

Observações sobre a oliveira por Raul Lino.


Por causa dos incêndios que quase todos os verões devastam largas áreas de floresta no nosso país, não resisto a incluir neste blogue um magistral texto de Raul Lino (ver também A Casa Portuguesa do arquitecto Raul Lino (1889-1974)). É do livro “A Uriverde Jornada” de 1937, e foi retirado da palestra “Espírito na Arquitectura”.

“No admirável conjunto da Natureza que nos rodeia, devemos apreciar as árvores não só pelo que elas representam de materialmente útil para a nossa vida, como também por constituírem elas o mais belo adorno que a paisagem possa ter. As diferentes regiões da Terra distinguem-se, entre outras coisas, pela variada distribuição das essências, pela abundância, escassez ou raridade com que estão semeadas; e há quem julgue ter influência na psicologia das gentes o facto de existir ou não, de ser abundante ou de minguar este género vegetal nas regiões povoadas.

De todos os tempos se tem atribuído personalidade às árvores mais vulgares, reconhecendo-se em cada espécie caráter particular adequado a certas noções religiosas, filosóficas ou simplesmente heráldicas. É sabido que o cipreste, com sua forma esguia, meditativa, sempre verde, apontando eternamente para o céu, simbolizava na antiga Pérsia a independência espiritual; o loureiro de fino recorte, incorruptível e – segundo a crença – resistente aos raios, significava, para os Antigos, fama; enquanto que entre os filhos de Mafamede, a tamareira, que prodigaliza os seus frutos, passa por ser a imagem da generosidade; o carvalho robusto significa força, a palma altaneira e triunfante vale por vitória – e assim por diante. A cada espécie corresponde uma noção que é sempre baseada nas características próprias da árvore, e assim se explica a longevidade destes símbolos vegetais determinados na sua origem, com certeza, por criaturas de sensibilidade superior e mantidos através dos tempos devido justamente ao acerto da sua escolha.
Não só artistas pintores, poetas também e músicos dos melhores, algumas vezes se têm inspirado na árvore como forte motivo de expressão, envolvendo num título sugestivo como: o castanheiro, a tília, a nogueira – um mundo de sensações...

De todas as árvores que povoam o bom solo de Portugal, porém, uma das mais belas – e também das mais caluniadas – é, sem dúvida, a oliveira. Das mais belas digo eu porque é uma das que melhor se integram na paisagem, casando-se perfeitamente com todos os terrenos e, sobretudo, em tal harmonia com a nossa atmosfera, que a sua ramagem em vez de se recortar no horizonte – como sucede nas outras essências – parece, pelo contrário, querer confundir-se, diluindo-se na suavidade do nosso céu azul. O tronco cinzento, envelhecido, da oliveira, torturado nos contornos, irrompe da terra em arrancos de labareda e é como que a imagem de qualquer continuado anseio que se estivesse purificando nas suas próprias cinzas. Pela cor incerta de prata esmaecida que apresenta, o tronco, burilado e contorcido, lembra velhas alfaias de igreja, poídas pela oração e pelos fumos de incenso, na penumbra das naves.
Esta árvore que tanta gente insensível soe chamar feia e triste, mas que já o nosso Fernão Lopes sagazmente dizia ser “a boa e mansa oliveira portuguesa”, pelo seu feitio ao mesmo tempo humilde e venerando, pela constância da sua ramaria de magoado verde que se dilui no céu como palavras duma prece eterna, pela generosidade com que no verão esparge as suas modestas florinhas da cor da cera, e, finalmente, pela qualidade do seu fruto que tempera a merenda dos pobres e que serviu para alumiar suas vigílias durante séculos e séculos, – esta árvore, a oliveira, não é só das mais portuguesas, é certamente a mais cristã de todas as árvores.

Foi ao abrigo de uma oliveira que Jesus Cristo soltou as derradeiras orações na véspera da sua imolação. Foi junto das árvores do Getsêmani que ele confirmou ao mundo a qualidade essencialmente humana de Sua natureza divina, sofrendo a agonia que todos os deuses do Olimpo jamais conheceram, – Getsêmani quer dizer lagar onde se espremem os frutos do olivedo.
Notem V. Ex.as que não foi junto de qualquer outra árvore que o Deus-Homem orou. É o que está dito nas Escrituras. Nem podia deixar de assim mesmo ser. Concebe-se porventura a oração num Horto que não fosse de oliveiras; Cristo à sombra de loureiros, de palmeiras ou de jacarandás – ainda que os tivesse havido na Palestina?
Por isso quem queira representar a Jesus no Horto, de modo verdadeiramente, profundamente cristão, terá de colocar a sua Figura prostrada ao pé de oliveiras, e só de oliveiras.
O artista que queira representar este passo da vida de Cristo, se for pintor, há que dar às árvores feitio e a cor da oliveira; se for escultor, poderá trabalhar não importa em que material – mármore, madeira, cimento ou até miolo de pão – mas terá sempre que indicar as particularidades da oliveira, estilizando-a de modo que melhor entender. Só assim fará obra cristã; porque se trocasse aquela essência por outra, logo prejudicaria o necessário efeito de unção, desprezando o caráter de humildade e fortaleza, de paz e brandura que só encontram expressão na árvore de cujo produto a Igreja se serve para duas vezes ungir a seus filhos – à entrada e à despedida deste mundo em que vivemos.”

--Este artigo foi escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico (com a ajuda dos programas Word e Flip)--