sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Rei Sebastião I, o Desejado, e o Sebastianismo.

As crises e o desespero, como foi o caso da ocupação espanhola, do indescritível período anárquico das invasões francesas no início do século dezanove ou ainda da louca irresponsabilidade vigente durante o final da Monarquia e durante a Primeira República, fazem surgir o desejo do aparecimento de homens providenciais, salvadores da pátria. Não é só em Portugal que este fenómeno acontece, mas foi no nosso país, com uma tradição cultural saudosista, que nasceu o mito do Encoberto, ou dito de forma mais abrangente, do sebastianismo. Nesta interpretação, o Encoberto será um predestinado, uma encarnação sobrenatural do espírito de conquista de D. Sebastião, alma de um Quinto Império vieirista, um novo-velho Portugal glorioso.

Diz Pessoa no início da terceira e última parte da Mensagem [com o título O Encoberto] em D. Sebastião:

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Um dos bons textos sobre o sebastianismo é da autoria do Conde de Sabugosa, membro dos Vencidos da Vida, em Donas de Tempos Idos, livro publicado em 1912.

D. Sebastião foi talvez um louco, um desiquilibrado, um nevropata, e as suas taras herdadas fizeram dele um ente anormal. Mas nem por isso deixa de ser o simbólico representante das aspirações de um povo, a quem o instinto da própria decadência impelia às empresas ousadas que lhe dessem a ilusão da antiga virilidade; a quem a fé agitava a alma fremente e arrepiada com as arremetidas atrevidas dos infiéis, ou fossem as do ardente fanatismo muçulmano aqui ao pé da porta, ou as geladas e agrestes rajadas calvinistas e luteranas que sopravam dos lados do norte; de um povo a quem devorava a sede de África, essa sede de África que ainda hoje se manifesta, embora, por forma diversa, nos dirigentes da velha Europa. A empresa africana, contrariada pelas exortações dos espíritos sensatos, não foi um ato de loucura individual, mas a resultante de um impulso coletivo. É por isso que o moço Rei, consubstanciando em si as partículas anímicas de todo um povo, foi o seu ídolo, ainda mesmo quando o arrastava ao suicídio sublime de Alcácer-Quibir, que representava o supremo arranco deste pequeno bando de aventureiros ocidentais. É por isso que, logo após a derrota e o desaparecimento, a figura do Rei começa a renascer das próprias cinzas, numa aura de amoroso enlevo que se transforma no sebastianismo.
O sebastianismo não é só a aspiração messiânica de uma raça, ou a mística esperança num milagre próximo, não é apenas o sintoma mórbido que indica a alucinação do náufrago ou do moribundo; não é somente uma consequência da caquexia [1] nacional, ou a aspiração nascida no pressentimento do próximo esfalecimento orgânico. É tudo isso, mas é muito mais. E como todos os sentimentos complexos, e como todas as ideias vagas, apresenta formas diversas segundo as épocas em que desabrocha.

É um arrepio pré-tumular, logo após a catástrofe.
É a nostalgia da pátria livre, durante os anos de escravidão.
É a esperança de um ressurgimento, de uma explosão de energias latentes, quando o organismo social começa a reaver a consciência da sua força.
É a expressão do desalento, quando sente esgotada a seiva vigorosa que lhe corria nas veias, durante a mocidade.
É o génio da raça portuguesa aventureira, generosa, irrequieta, procurando no inesperado e no sobrenatural a solução de problemas melindrosos.

E porque esse Rei encarnou tantas das qualidades que caracterizam o português, e tantos dos defeitos que lhe desvairam a alma; porque prefere as empresas heróicas combatendo inimigos longínquos, e as correrias atrás de uma quimera, às pacíficas ocupações da gestão dos negócios públicos; porque é mais um chefe guerreiro que um pastor de povos; porque nele a infantil e louca idealidade de D. Quixote domina o bom senso de Sancho Pança; porque caminha de olhos fechados para a ruína, levando consigo ao sorvedouro trágico a flor de Portugal, e na sua bagagem os apetrechos com que se haviam de correr as canas, e alcanzias[2], e organizar os torneios festivos no dia da vitória; porque não atende às vozes dos velhos e só pensa em quem há de cantar os seus feitos em futuras epopeias, ele é o vulto que mais prende a fantasia popular, e em louvor do qual se tem mais artificiosamente tecido e rendilhado uma nova Canção de gesta. Tem esse Rei o heroísmo, a generosidade louca, o quid [3] sobre-humano que seduz a humanidade. Vem trazido numa onda de profecias e de lágrimas que tanto impressionam a alma céltica.
As suas frases são curtas, incisivas, por vezes nebulosas. Tudo na sua existência é fora do natural; sai do banal. E a pluma que encima o elmo, arrancado ao jovem Capitão de Deus pelos Alarves no mais aceso da refrega, continua tremulando intemeratamente, através dos tempos pela História adiante.
Para mais despertar o interesse, e acirrar a curiosidade dos pósteros [4] há em volta dele um ambiente de mistério, e na História a incerteza do seu destino. É desse interesse, desse mistério, dessa incerteza que nasceu a lenda, e se compôs a mística toada de sebastianismo, que se perpetuou em sucessivas gerações. Ele ficou o Desejado! Ele ficou o Encoberto!


Notas deste blogue:
[1] Caquexia = fadiga, fraqueza.
[2] Correr canas e alcanzias =  as alcanzias eram bolas de barro para as quais se atiravam canas, em jogos praticados a cavalo.
[3] Quid = cerne, quê.
[4] Pósteros = os vindouros, os que virão depois de nós.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um grande Porto


Uma agradável surpresa, o novo Croft Pink (na verdade lançado em 2008, mas só há pouco tempo reparei nele), que vem ocupar um espaço vazio, em especial junto do público mais jovem. Mais leve que um tradicional Ruby, deve ser bebido como um vermute ou um martini, frio e com uma rodela de limão, e ainda assim conserva o travo doce comum ao Vinho do Porto. Recentemente, sugeri no blogue de Eric Asimov (um dos mais lidos comentadores de vinhos do mundo, na coluna do New York Times, que lamentava a falta de renovação do Vinho do Porto) que experimentasse o Croft Pink [Eric Asimov é sobrinho do celebérrimo autor de ficção científica Isaac Asimov].

A Croft incentiva o uso do Croft Pink em cocktails, fornecendo no sítio http://www.croftpink.com, um conjunto de receitas para cocktails, dos mais simples aos mais elaborados. Asimov lamentava precisamente no seu artigo do New York Times, o pequeno consumo do Vinho do Porto no dia-a-dia, por exemplo em cocktails, e que a imagem do Vinho do Porto estava demasiado ligada a pessoas de idade. Até agora a minha utilização do Vinho do Porto era também algo limitada: preferia o Fonseca Bin 27 depois do jantar, e em ocasiões especiais como aniversários e Natal, um tawny de 20 anos, da Taylor ou da Burmester. Julgo que o Croft Pink tem em si potencial para criar um novo conceito de utilização do Vinho do Porto e conquistar novos e mais jovens consumidores. Que me desculpem os mais puristas.

E porque uma surpresa nunca vem só, a Taylor, a Croft e a Fonseca, associadas na Fladgate Partnership abriram o hotel The Yeatman.

O principal negócio deste grupo familiar é a produção e comercialização de Vinho do Porto, e foi iniciado há três séculos em 1692. Mas a Fladgate Partnership tem também elevada experiência na indústria hoteleira. Em meados dos anos 90, abriu o primeiro hotel de nível mundial no Vale do Douro, uma propriedade Relais & Châteaux que ajudou a promover a região do Vinho do Porto como um destino vinícola de luxo. A Fladgate Partnership detém ainda a Três Séculos, empresa que gere um restaurante de alta qualidade e realiza serviços de banquetes. A experiência e mestria do grupo na produção do melhor vinho e na gestão de hotelaria de luxo estão agora unidas fazendo do The Yeatman um dos melhores hotéis vínicos do mundo. É como que um santuário da Vinhoterapia. Situa-se em Gaia, com uma vista maravilhosa sobre a fantástica cidade, capital do Douro e do Norte que é o Porto. Tem oitenta e dois quartos!

Já agora aproveito para clarificar que não tenho quaisquer interesses ligados à Fladgate Partnership, nem conheço estes senhores de lado nenhum(x). Alfacinha dos sete costados como sou, adoro o Porto e o caráter empreendedor e independente do seu povo. Aprecio as tradições individualistas da burguesia portuense, tão bem retratadas por Garret ou por Júlio Dinis, e limito-me a observar como os empresários do Norte continuam ativos, com iniciativas de grande qualidade, em muitas áreas da economia portuguesa.

(x) Serão, segundo me apercebi, empresários britânicos há muito ligados a Portugal e ao Vinho do Porto e empresários portugueses.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A propósito do falecimento de Ernâni Lopes (1942-2010)

Este blogue, embora principalmente construído em torno da cultura e dos livros, tem refletido muitas vezes, preocupações sociais e económicas. Criado em Março de 2007, publicava em Janeiro de 2008 um artigo intitulado O “cluster” do mar onde era referido o trabalho de Ernâni Lopes e da SaeR – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco. Nessa altura, o blogue incluiu, na sua primeira página, uma hiperligação ao sítio da SaeR. Em Junho deste ano, após a magistral lição de economia de Ernâni Lopes no programa Plano Inclinado de 12-06-2010, acrescentou-se no blogue a hiperligação ao programa de Mário Crespo e de Medina Carreira e os quadros aí apresentados. Do que foi dito, o mais importante, foi a explicação de Ernâni Lopes de como a cultura e a formação do caráter dos indivíduos, precede e determina a atividade económica, fazendo lembrar Max Weber. Depois, atirou-nos à cara, todos os nossos vícios. Impiedosamente.
Ernâni Lopes era dos raros economistas portugueses com pensamento estratégico, com uma ideia do que deveria ser Portugal. Talvez possamos encontrar um ou outro com essa preocupação, mas nenhum com a sua experiência, profundidade e autoridade. Durante o excelente Colóquio Dívida Pública - Causas, Consequências e Perspetivas de Evolução, organizado pela Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República, no passado dia 19 de Outubro, Silva Lopes teve um honesto desabafo, dizendo que “todos queremos crescimento económico, mas não sabemos como o havemos de conseguir”. Ernâni Lopes vai-nos fazer muita falta. Oxalá os seus escritos sejam estudados e o seu exemplo frutifique.