domingo, 18 de dezembro de 2011

Votos para 2012? Que seja o ano da economia.

Intermitentemente, neste blogue, onde se gosta mais de escrever sobre livros, também se fala de economia. E a esse respeito, 2011 foi um ano muito importante para Portugal. Que me desculpem a franqueza e o estilo, mas vou ser direto sobre o tema, sem paninhos quentes:

- O país sentiu-se enganado, não apenas por um político e um partido, mas por toda uma legião de políticos, diria mesmo, por todo o funcionamento do sistema político saído do 25 de Abril, onde durante muitos anos em cada eleição, vencia quem prometia mais benesses ao povo, caídas do céu. Vencia quem era mais demagogo, bem parecido e bem falante. Depois, iam irresponsavelmente pedir empréstimos ao estrangeiro. Por três vezes já, após 1974, tivemos de chamar o FMI para evitar a bancarrota. Sem essas intervenções, é muito provável que a democracia não sobrevivesse sem percalços bem maiores.

- Nas eleições de Junho de 2011, a maioria dos votantes decidiu apoiar partidos de direita, que apresentavam um programa liberal e cujo principal desígnio era o de pôr em ordem as contas do país. Pela primeira vez em muitos anos, os políticos que ganharam não prometeram o céu e a terra. Falaram em dificuldades e em cumprir um plano de austeridade assinado pelo PS, pelo CDS e pelo PSD, com a União Europeia e o FMI, como forma de ultrapassar as dificuldades financeiras.  

Desejo que 2012  seja novamente um ano muito importante para Portugal:

1)    Que sejam cumpridos os acordos assinados, e sejam obtidos os resultados esperados, para que não nos falte o dinheirinho, que tanta falta nos faz, e possamos, tão rápido quanto possível, saltar fora deste constrangimento para todos, que é o programa de austeridade.

2)    Que para além da austeridade, 2012 seja o ano da economia, o ano em que descobrimos o rumo que queremos traçar, e unimos esforços para o seguir. É uma caminhada que teremos de percorrer. Só assim se poderá garantir a manutenção de um “Estado Social”, com serviços estatais de educação e de saúde, subsídios públicos de reforma e de desemprego.

3)    Que nada de mau aconteça ao Euro e aos nossos parceiros europeus, porque precisamos deles com moeda e economia estável. Se eles estiverem mal, seremos arrastados. Este é um cenário que ninguém de bom senso desejará. Portugal beneficiará, como beneficia e já muito beneficiou desde 1986, ano de entrada na então CEE, com uma Europa forte, unida e solidária.

Compreensivelmente, em 2011, as nossas atenções estiveram sobretudo viradas para a austeridade e para os problemas financeiros. Dos comentadores económicos portugueses, poucos tentaram sequer, abordar o tema da economia. Aos especialistas que comentam, não basta dizer que o governo precisa ter uma estratégia económica, é preciso também lançar e discutir ideias, sugestões, propostas, projetos.

O último “Negócios da Semana” da SIC Notícias, transmitido na passada quinta-feira, dia 14-12-2011, deu  um bom pontapé de saída para se discutir o tema da Economia Portuguesa em 2012. O programa é da responsabilidade de José Gomes Ferreira, que tem demonstrado ser um excelente jornalista económico e nesta semana teve dois convidados de luxo: a de José Eduardo Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa, um conhecedor do universo empresarial, e a de José Ferreira Machado, diretor daquela que é hoje, a melhor faculdade de economia  em Portugal, a Faculdade de Economia da Universidade Nova. Os temas levantados ao longo do programa, são certamente um bom começo para discutirmos as questões económicas em 2012. Escolhi um pequeno excerto:

video

Parece lógico o conceito do Professor José Ferreira Machado sobre crescimento económico sustentável: temos de contar em primeiro lugar com as nossas próprias forças e vantagens competitivas. A miragem do investimento estrangeiro nos vir salvar, não é mais do que isso, apesar dos projetos de investimento estrangeiro serem bem-vindos e úteis a Portugal. Mas chegam tão facilmente, como se vão. A economia tem de ser recuperada pelas pequenas e médias empresas em articulação com as vantagens competitivas locais e nacionais. 
Tenho dúvidas sobre a ideia de criar em Sines, um porto gigante tipo Roterdão: uma vantagem de Roterdão é estar perto dos maiores mercados europeus, Alemanha e França. Sines, não só está longe dos mercados do centro da Europa, como também o transporte das suas mercadorias dependerá sempre da boa vontade de Espanha, de que não acredito, pois é potencialmente o nosso principal concorrente. Além disso, necessitará provavelmente de muitas centenas de milhões de euros, aplicados pelo estado. Os “investimentos produtivos” estatais, transformam-se demasiadas vezes em despesas gigantescas e improdutivas. Elefantes brancos pagos por todos nós, sem qualquer benefício. Admito estar enganado, e gostaria de ver debatido o tema mais detalhadamente, para formar uma opinião melhor fundamentada.

Diz Aquilino Ribeiro em “Aldeia - Terra, Gente e Bichos ”, creio que de 1946 (tenho a edição Bertrand de 1964), a propósito dos portugueses: “este português, filho da má sorte ou da felícia, não sabemos – que tem vivido sempre de ilusões, a Índia, o Brasil, as mouras, os tesouros enterrados no tempo dos franceses, o volfrâmio, confiado em tutelas, nem sempre eficientes, Santa Bárbara, S. Jerónimo, o brasileiro, o deputado, o senhor administrador – pouco faz para que tenha o seu poço cheio de água e a fonte da sua terra sempre a deitar com abundância e limpeza.”

A nossa última ilusão foi o Euro. Pensámos que podíamos viver com dívidas ilimitadas.

A dívida incontrolada não é coisa pouca: origina golpes de estado e ditaduras. O hitlerismo só foi possível como consequência dos desmandos da república de Weimar, o leninismo da corrupção do czarismo e Salazar, da anarquia em que caiu o regime saído do 5 de Outubro. Só não temos hoje em Portugal a hiperinflação e a desvalorização, irmãos da dívida que acompanharam aqueles regimes, porque perdemos a autonomia monetária, mesmo antes do Euro, e a Europa recusa imprimir (e oferecer-nos) as notas que tanto ambicionamos. Mas temos a estagnação económica, e pior que tudo, o desemprego, especialmente o de longa duração e o dos jovens.

Não sei se serve de consolação dizê-lo, mas não estivemos sós. Pessoalmente, não é consolação ter de integrar o meu país entre os mais mal governados da Europa nos últimos 15-20 anos.  Viver em democracia, não nos exime do trabalho, do estudo e da disciplina, da organização e da seriedade, pelo contrário, esses são valores estruturantes básicos para uma vivência social saudável. Valores que se devem assimilar desde criança. Espero, que de uma vez por todas, tenhamos enterrado o discurso das facilidades e aprendido a desconfiar dos fala-baratos. O vigarista é sempre muito simpático.

Desde há demasiado tempo na nossa terra, que existe muito por mudar e por fazer. Precisamos que 2012, seja a altura de começar a construir um país melhor. Para nós e os nossos. Estamos cá para isso. Senão, o que é que andamos todos aqui a fazer?

Bom Natal, saúde para todos e votos de Feliz Ano Novo de 2012!


domingo, 27 de novembro de 2011

A Flor do Maracujá de Fagundes Varela

José Osório de Oliveira (1900-1964), foi um ilustre setubalense, poeta e crítico literário, grande divulgador da literatura cabo-verdiana e apologista de maior proximidade entre a literatura portuguesa e brasileira. É da sua autoria, o texto seguinte sobre o poeta brasileiro Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875):

Luís Nicolau Fagundes Varela
Nasceu em 1841, em Santa Rita de Rio Claro, na então província do Rio de Janeiro, estudou Direito em São Paulo e no Recife, mas não concluiu o curso por ter necessidade de trabalhar para manter a família, que cedo constituíra. Tendo perdido a mulher e o filho, entregou-se a uma vida errante pelos campos e matas, procurando refúgio na natureza (a natureza tropical tão pouco hospitaleira!). Ao voltar para a cidade, casado segunda vez e novamente pai, entrega-se, cada vez mais, ao vício do álcool, de que acabou por ser vítima. Morreu em 1875. Não souberam os seus contemporâneos reconhecer a verdadeira grandeza desse poeta, a qual residia no sentimento lírico da natureza e, mais ainda, talvez, no espírito religioso que lhe ditou Anchieta ou O Evangelho nas Selvas. Além desse poema editou: Noturnas, O Estandarte Auriverde, Vozes da América, Cantos e Fantasias, Cantos Meridionais e Cantos do Ermo e da Cidade, tendo sido publicados postumamente dois livros mais: Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro, pois nem o álcool esgotara a veia desse que foi poeta e só poeta, dos maiores do Romantismo brasileiro.

A lindíssima passiflora
Li alguns poemas de Fagundes Varela, mas o que mais gostei foi A Flor do Maracujá. Antes da sua leitura, convém que se saiba que esta perfumada flor, originária da maracujeira ou maracujá, planta trepadeira do Brasil, transporta um significado religioso. Para os cristãos ela simboliza a Paixão de Cristo, daí o nome de Flor da Paixão ou Passiflora.

A lenda diz que o sangue de Cristo, molhou uma pequena planta que se encontrava junto da Cruz. Essa planta transformou-se no maracujá, para lembrar o sacrifício do Calvário: a sua flor lembra a coroa de espinhos, os 3 cravos e as 5 chagas.
No poema, Fagundes Varela sintetiza o simbolismo da flor do maracujá, a natureza e o amor. Depois, é um poema que só consigo imaginar dizer, com o sotaque do português do Brasil, como quando João Gilberto canta “Chega de Saudade”.


A Flor do Maracujá
em Cantos Meridionais, 1869.

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá [1],
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá [2],
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá [3],
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá [3],
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água [4]
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá [5],
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá [6],
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá [7],
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá,
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová,
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em  a,
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá,
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!


Notas da responsabilidade deste blogue:

[1] Sinhá = senhora; forma como os escravos brasileiros chamavam a patroa ou senhora.
[2] Sabiá = tordo; o nome deriva da língua tupi.
[3] Manacá e gravatá = plantas da floresta brasileira.  
[4] Mãe-d'água = nascente.
[5] Plumas do ubá = julgo tratar-se da cana-ubá, cujas folhas brancas fazem lembrar penas de ave ou plumas.
[6] Borboletas azuis que descem do Panamá = na América do  Sul existem as mais belas borboletas do mundo, algumas azuis são de uma beleza espectacular, uma delas é a Mariposa Azul, sobre a qual foi feito um filme com William Hurt; não sei se era esta a borboleta a que Fagundes Varela se queria referir [ver figura abaixo].
[7] Minas do Sincorá = minas de diamantes, na serra do Sincorá da Bahia. 


Mariposa azul







sábado, 19 de novembro de 2011

Quadras Populares: poesia do povo.

As quadras dos Santos Populares, de Amor, dos poetas Fernando Pessoa e António Aleixo, são as minhas preferidas. Depois, claro, temos muitos cantares com quadras, incluindo o Fado. Deixo por isso, um pequeno extrato de um fado muito conhecido.

SANTOS POPULARES
  
Santo António, Santo António
Ó meu Santo milagreiro
Arranja uma moça bonita
Para um rapaz solteiro.

Se São Pedro me ajudar,
Solteirinha é que eu não fico!
Pois por certo hei de arranjar
Quem regue o meu manjerico!

Meu querido São João
És um Santo popular
Traz teu arco e teu balão
Vem com o povo dançar!


"Santos Populares" de
Célia Freitas e Miguel Gomes














AMOR

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.

Costumei  tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto confundi-los,
Nem já sei quais são os meus.

Ó meu amor, se te fores,
Leva-me, podendo ser,
Que eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.
















ALEIXO

Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão 
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são,
Maiores querem parecer. 

Para não fazeres ofensas 
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
















PESSOA

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Saudades, só os Portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranquilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!
















CANTIGAS

Se eu pudesse contar
Num poema o meu passado,
Com a Guitarra a trinar,
Minha vida dava um Fado.

O padre da minha aldeia,
No sermão do mês passado,
Jurou p’la saúde dos filhos
Que nunca tinha pecado!

Aqui vai um cheirinho de uma canção interpretada por Frei Hermano da Câmara, da qual apenas pretendi exemplificar a parte do cantar da quadra. Quem quiser ter a música completa, deverá comprar o disco. Será uma belíssima prenda de Natal.

Toma lá colchetes d'oiro,
Aperta o teu coletinho,
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.

video 

domingo, 6 de novembro de 2011

Curiosidades na Internet à volta da palavra “Moura”

Passeei por esta internet e consultei uma plêiade de sítios, com histórias, sobre pessoas, localidades, sobre os mais diversos temas, tudo a propósito da palavra “moura”. Aquilo que encontrei é o assunto deste artigo.

a)      MOURA – ORIGEM DA PALAVRA

Não descobri a origem da palavra “moura”, feminino de “mouro”. Aponta-se a palavra grega “mavros” (μαύρος), que significa “negro” ou, do latim, a palavra “maurus”, habitante do noroeste de África, província romana da Mauritânia. Esta última talvez seja a mais provável.

Mapa do Império Romano em 125 dC na Wikipedia. Ver as províncias
romanas designadas "Mauretania", nos actuais países Marrocos e Argélia..





















b)      MOURA – ENCANTADA

Uma das reminiscências da estadia dos mouros em Portugal são as histórias que se contam das lendas das mouras (ou moiras) encantadas, de que já se falou neste blogue em Crenças Populares II.
Muitas destas narrativas são histórias de amor ou estão ligados a certos lugares específicos, de norte a sul do nosso país. Por exemplo, em Trás-os-Montes, Alexandre José Parafita Correia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD, fez um extenso estudo e levantamento, que está na Net em ficheiro PDF. Do trabalho por ele apresentado, extraí um desses contos:

A moura do Castelejo

Na aldeia de Pombal de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, num monte sobranceiro ao rio Tua, e junto às águas termais de S. Lourenço, há um conjunto de fragas muito bem alinhadas a que o povo chama Castelejo. O povo diz também que em noites de lua cheia ali se ouve o bater de um tear e, às vezes, o choro triste de uma moura encantada. Há quem tenha conhecido na aldeia um pastor que, ao passar ali numa certa noite, viu a moura a pentear os seus longos e belos cabelos. Cheio de curiosidade, e porque lhe parecia uma mulher muito bonita, aproximou-se para meter conversa com ela. Só que nessa altura pôde vê-la melhor, e descobriu que ela apenas era mulher da cintura para cima. Daí para baixo era uma cobra.
"era tão bela como nenhuma outra mulher"
O pastor arrepiou-se todo e deu então três passos atrás, pronto para fugir. Mas ela chamou-o, dizendo:
– Não tenhas medo da minha triste sina. Estou neste estado, mas sou uma mulher bela. E se tens dúvidas, vem cá na noite de S. João, e ver-me-ás, tal como sou, a banhar-me nestas águas.
Diz-se que o pastor lá foi nessa noite, e que a viu a tomar banho nas águas de S. Lourenço. E que era tão bela como nenhuma outra mulher. Também se diz que, durante muito tempo, era costume as moças da aldeia, nas noites de S. João, irem banhar-se nessas águas, na crença de que ficariam belas e sedutoras.

Fonte – versão A: TEIXEIRA, Flora – "O Castelejo", in O Pombal, Carrazeda de Ansiães, Associação Rec. E Cultural de Pombal de Ansiães, Setembro de 1997. Fonte – B: Inf.: Maria da Conceição Félix Fonseca, 43 anos; rec.: Zedes, Carrazeda de Ansiães, 2000.


c)       MOURA – LOCALIDADE

Brasão de Moura, Alentejo.
A cidade alentejana de Moura deve o seu nome, diz-se, a uma história sobre mouras. Trata-se da conhecida Lenda da Moura Salúquia, que se atirou por desgosto da torre do castelo, quando as tropas cristãs conquistaram a cidade no tempo de Afonso Henriques. Esse acontecimento, está inscrito no brasão da cidade.

Há uma outra pequena cidade chamada Moura, mas que fica nos antípodas do Alentejo. Trata-se de Moura, em Queensland, na Austrália. Curiosamente, foi um britânico, Charles Marshall, que atribuiu o nome ao local, situado numa zona interior do nordeste australiano, em 1854. Marshall tinha servido no exército inglês durante as guerras peninsulares, e talvez estivesse com saudades da Moura alentejana, onde tinha estado, ou de alguma moura encantada...
A Moura de Queensland foi muito citada no final de 2010, início de 2011, quando terríveis cheias inundaram três quartos do enorme estado de Queensland. Em Moura, estabeleceu-se um dos mais importantes centros de evacuação e apoio às populações.

d)      MOURA – APELIDO

Máquina inventada por Bento
de Moura Portugal, publicada
no Philosophical Transactions,
Royal Society, Londres, em 1752. 

Há muita gente ilustríssima com o nome Moura: o escritor Vasco Graça Moura, o cavaleiro tauromáquico João Moura, o candidato presidencial Defensor Moura, a jornalista Manuela Moura Guedes, o professor/cantor José Barata Moura, a fadista Ana Moura, o arquiteto Souto Moura - que recentemente ganhou o prémio Pritzker, etc. Depois, há os apelidos Mouro, Mourão, Mourona, Mourinho e Mourinha. Lembro-me sempre daquele nosso notável professor de economia que foi Francisco Pereira de Moura. Recordo a sua figura e as suas Lições de Economia, que todos nós, estudantes de economia, tínhamos de ler.

Mas gostaria de referir especificamente duas figuras históricas: Bento de Moura Portugal (1702-1776), o grande físico português do século XVIII, protegido de D. João V e que acabou por falecer nas cadeias  Pombalinas e o brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928), inventor da transmissão sem fios, um dos pais da rádio. Sobre Bento de Moura Portugal, sugiro a consulta ao blogue de Carlos Fiolhais e outros, Rerum Natura, e sobre Landell de Moura, o artigo do sítio A Minha Rádio.

 e)      MOURA – CONCLUSÃO

Uma palavra apenas, chega para revelar a nossa gigantesca ignorância e a nossa ainda maior curiosidade. Resta-nos a fraca consolação de que nunca poderemos saber tudo, mas apenas uma pequeníssima parte de todo o conhecimento acumulado. “Maturidade” e “Sabedoria” são, de certa forma, mitos. Obrigatoriamente, morremos todos ignorantes e infantis. O nosso corpo é frágil e transitório demais, para carregar as potencialidades de conhecimento de um cérebro humano a funcionar em pleno a longo prazo. Um dia, acredito, conseguiremos resolver este problema relativo.

domingo, 30 de outubro de 2011

Maià Póçon III – Domingo na roça

Foto antiga da formatura, na roça de Água-Izé. Ver nota [7]
São Tomé e Príncipe é a vegetação luxuriante, as praias equatoriais e o turismo, as roças, o cacau, e principalmente, a sua gente. Mas, quando falamos na cultura do país – para quem não é santomense – a ignorância, é quase total. Vem-nos apenas à memória nomes como os de Viana da Mota e de Almada Negreiros, mais ligados à cultura europeia que à africana. Não conhecemos os seus escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, etc. Apesar disso, encontrar o livro Maià Póçon do santomense Viana de Almeida, de 1937, não é apenas um mero exercício de curiosidade literária, é o conhecimento que ele nos dá de todo um povo, nos idos anos 30 do século XX. Nestas poucas linhas do conto que aqui transcrevo, Viana de Almeida, condensa aspetos da vida de um trabalho forçado, a música e a dança, a tristeza e a alegria.

Na minha modesta opinião de leitor, Maià Póçon é uma rara pequena-grande jóia da literatura de língua portuguesa do século passado. Um livro não se mede aos palmos. Pela realidade que cuidadosamente descreve, pelas temáticas que discute, pelo estilo elegante e principalmente, inteligente. Se nos dias que correm, os contos de Maià Póçon parecem estar esquecidos ou menorizados, nos tempos que estão para vir, creio, as novas gerações descobrirão o seu real interesse. Único.

TRABALHO E DANÇA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Domingo na roça” de Viana de Almeida, 1937.

(...) A multidão dos trabalhadores, homens, mulheres e crianças, irrompe das portas das senzalas [1] e, ainda ultimando os preparativos, alinha-se numa formatura impecável de batalhão treinado em manobras militares. Os capatazes que hão de dirigir os diversos grupos, já estão a postos. O Administrador da roça observa da varanda da sua casa e o Feitor Geral passa revista minuciosa, dando a este e àquele uma ordem seca e breve. Ao cabo, perfila-se e comanda: larga!
Ordenadamente a formatura desfaz-se e compõe-se vários grupos que se dispersam pelos centros de trabalho. Mas a tarefa, ao domingo, não é fatigante. Para uma minoria consiste em dar o último toque a qualquer ocupação que, no dia anterior, tivesse ficado em suspenso. Os demais vão cortar capim que ficará amontoado num celeiro para pasto do gado durante o dia.
Ora, sabem que cortar capim é obra que a ninguém assusta: pelo contrário, faz-se agradavelmente. Em primeiro lugar, a tarefa chega ao final em pouco tempo. Ao meio dia, soa a hora de largar o trabalho. Este assim, realiza-se todo de manhã, pela frescura das primeiras horas do dia. O sol não castiga a pele, fazendo correr pelas costas regos de suor. Na atmosfera lavada corre uma aragem que sussurra no alto ervaçal. E depois não se sentem os olhos dos capatazes cravados nos que mourejam, em vigilância constante.
Há possibilidade de trocar dois dedos de paleio para amenizar, chalacear com certa rapariga ao pé e de cantar uma melopeia monótona, mas que ajuda a suportar o cansaço. Desta forma, chega o momento de regressar à Sede. De grandes molhos de capim sobre a cabeça, aí voltam eles em alegre tropeada [2] sob a direção, por um dia, negligente dos capatazes.

Há uma nova formatura no terreiro. Quando o Feitor Geral terminada a revista, dá ordem de largar, de todos os peitos sai um grito estrepitoso de júbilo. Deixam a formatura em balbúrdia de palavras e exclamações e, como um rebanho tumultuante, dirigem-se para as senzalas.
Hora alegre! Hora pela qual começa uma tarde de descanso bem ganho, de festa, de lambança [3]! Hora única na semana, para a gozar, deitam-se para trás das costas todos os cuidados!
Primeiro que tudo, trata-se da paparoca. Toca a pôr as panelas ao lume e a preparar a farinha da mandioca fina, a malagueta cáustica e estimulante e o peixe seco que há de dar molho de fazer cantar a língua nos dentes. Tudo isto há de servir para a confeção do “funje” [4] que, ao domingo é o prato de todos aqueles que verdadeiramente se prezam.
Daí a pouco, espalha-se no ar o cheiro do azeite de palma frito e, quando se põe o almoço na mesa feita de esteira, então, senhores, é que é ouvir as risadas de alargar o peito, os gritos estrídulos [5] das mulheres, as palmadas que ressoam nas coxas.
Quando a fome já se encontra satisfeita, cada um pode fazer o que lhe der na cachimónia. Se há quem tenha amigos ou namorada nas outras Dependências da roça e quer cumprir os seus deveres de etiqueta, é livre de se pôr a caminho e de lhes levar o gosto da sua presença e da sua conversa. Outros ao invés, fazem as honras da casa e recebem visitantes que vêm de longe. Há novidades a ouvir e impressões a trocar sobre a forma como as coisas correm.
É bom que se deixe abrandar o ardor da canícula, antes de sair para o terreiro, para começar o batuque. Á hora em que o sol começa a descer para o mar, é que um homem pode conhecer bem o que é a embriaguês das músicas, dos tambores, dos chocalhos, da dança. Mas já se começam a ouvir os primeiros repiques, ensaiados por dedos nervosos sobre a pele de cabra. Até o sangue parece que lateja mais forte nas veias. O que será então quando a “puíta” começar com os seus borbotões surdos!
Quando chega o momento, esperado com tanta impaciência, já o coração pula, os músculos estão contraídos esperando a ocasião de se distenderem, os artelhos não sabem como se hão de conter por mais tempo, todo o corpo estremece em vibrações reprimidas.

Puíta. Ver nota [6]
Dispõe-se numa roda ampla, em que se alternam homens e mulheres. Aqueles têm o tronco modelado pelas camisolas. Sob os panos de riscado e blusas das mulheres, pressentem-se linhas com o garbo característico dos corpos de ginastas. No contorno interior da roda, dispõem-se, de espaço a espaço, os rufadores de tambor. O que vai tocar “puíta”[6] coloca-se entre eles também. É uma espécie de tambor de pele furada ao centro em cujo orifício se mete um pau com um êmbolo na extremidade. Do outro lado coloca-se a mão esquerda, acende-se uma fogueirazinha que se deve manter viva. Coloca-se sobre ela, a uma certa altura, a “puíta”, o calor dilata a pele e, quando o tocador agita o êmbolo num movimento de vaivém, extrai do instrumento um som entrecortado e rouco.
É de tarde, e tudo no terreiro está em imobilidade que dir-se-ia expectante. Em torno, são linhas convulsas de montanhas cobertas até o perder de vista pela sombria massa de frondes majestosas. Do lado do poente, o planalto em que o terreiro está situado, vai descendo, mansamente, em socalcos de brando relevo, alarga-se depois em planície fecunda que se arrasta até se confundir com o mar.
Mas, na calma sonora, os tambores ressoam e a “puíta” começa a fazer ouvir as suas variações rítmicas. Um improvisador coloca-se ao centro e canta, numa melopeia cadenciada pelos tambores, palavras que a inspiração do momento lhe trouxe. Toda a roda acompanha o ritmo batendo as palmas e, em coro, repete a cantilena e os versos do poeta.
Os tambores rufam mais ansiosos e a “puíta” parece que a cada instante vai ganhando mais febre. Um dançarino frenético pula para dentro do círculo, baila que baila e aproxima-se numa reverência de uma mulher da sua escolha. Recua para se aproximar de novo. A assistência canta, batendo sempre as palmas. Depois, o bailarino, num implulso, chega-se ao pé da negra com os braços levantados e, ao grito de homem, os dois corpos chocam-se em contacto ligeiro de ventre com ventre. É o convite para a dança. Ela sai e o par renova, dentro da cadência imutável da “puíta”, dos chocalhos e dos tambores, as reverências e multiplicam, segundo a sua ciência, os passos consagrados do batuque.
Separando-se, a mulher toca com o ventre um homem; o seu par faz o mesmo a outra negra. O novo par envolve-se na dança e, de tempos a tempos, há nova improvisação feita por outro poeta.

Uma tarde, enquanto se dançava, passou, como raras vezes acontece, um vapor muito próximo da terra. O entusiasmo cedeu lugar, por um instante, à curiosidade e o batuque teve um curto intervalo.
Ia para o Sul, o vapor. Ia para Angola, a terra de onde quase todos os que ali estavam haviam sido transportados e que nunca mais tinham voltado a ver. Uma saudade confusa passou no ar. Mas nisto os repiques chamaram novamente. Então, da roda saiu um velho. Tinha a pele engelhada, curtida por sóis e misérias e os músculos como cordas que perderam a elasticidade. A carapinha era toda branca, uma barbicha rala orlava-lhe o queixo. Era o Cambanza, um dos grandes animadores das festas, improvisador sempre com chalaças e alusões galhofeiras.
Pôs-se no centro, voltou-se para o lado do mar e cantou na sua voz quebrada:
- “Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas. Diz à nossa gente que ainda não morremos. Trabalhamos sob o sol e sob a chuva. Queremos partir, mas não podemos. Vapor, vapor, tu segues e nós ficamos... A nossa dor não tem fim.”
Quando acabou, os soluços tinham-lhe embargado a voz. Em roda, a paisagem era de uma quieta serenidade e o ritmo da “puíta” tinha-se feito caricioso e dulcíssimo, como a voz de uma alma que não pode clamar e chora baixinho... A mesma onda de emoção dominou os festeiros e a multidão, chorando, cantou:
“Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas...
Depois os pares dançaram um momento em silêncio. Mas num grito prolongado, Cambanza anunciou que era chegado o intervalo para o repouso.
Quando a roda se recompôs, a vaga de emoção tinha passado e os tambores, a “puíta”, os apitos e os chocalhos, incansavelmente repicaram até que a noite, serena, caiu sobre a terra.

Após esta leitura, fui procurar a música de São Tomé e Príncipe na net. Fui ter ao sítio dos videos da National Geographic e, ao fazer a pesquisa “são tome”, encontrei um documentário curto sobre os elementos do conjunto Grupo Tempo. Depois no YouTube, deparei com esta maravilha,  em http://www.youtube.com/watch?v=3GgZ08IvqpA:

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Notas da responsabilidade do blogue:

[1] senzalas –  originalmente, as senzalas eram habitações muito pobres, destinadas aos escravos; o nome manteve-se para os trabalhadores das roças.
[2] tropeada – de tropel, barulho com os pés.
[3] lambança – muita conversa.
[4] funje – creio tratar-se de uma papa de farinha de mandioca.
[5] estrídulos – estridentes.
[6] puíta – no texto original “puita” sem acento agudo. A foto pode ser encontrada em http://eportuguese.blogspot.com/2011/09/instrumentos-musicais.html
[7] Formatura na roça de Água-Izé, ver foto em postais antigos de São Tomé no sítio http://stomepatrimonio.blogspot.com/2007/12/roa-gua-iz.html


Nota importante:

Porque estamos a falar de São Tomé e Príncipe, o meu muito obrigado a João Carlos Silva, aos seus programas, à sua exemplar comunicabilidade e sobretudo, às suas receitas, principalmente as doces, sempre com muito amor. Talvez por esses tachos na roça, quem sabe, a minha primeira curiosidade pelo Maià Póçon.

sábado, 15 de outubro de 2011

Maià Póçon II – O ódio de raças

Sem título de Manuel Ceita
em www.artafrica.info 
No livro de contos “Maià Poçon” de 1937, Viana de Ameida continua a história, que desconfiamos ser em boa medida autobiográfica, de um estudante santomense que acabado o seu curso em Lisboa, volta a casa (ver Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé), num período – segundo quartel do sec. XX – em que aquele país, era ainda colónia portuguesa.
Num dos contos do livro, “Ódio de Raças”, utiliza-se a personagem de um vivido médico santomense, Augusto de Almeida, que durante uma conversa de café com um amigo, conta a sua atribulada experiência após retorno à terra natal. Embora seja um “conto de ficção”, são citados nomes conhecidos de São Tomé, como Demóstenes de Almeida ou Jorge Neto, referências reais, como que a indicar-nos que a história é mais próxima da realidade que da ficção.

Escrever sobre o racismo em São Tomé num ambiente editorial de censura oficial, não deve ter sido tarefa fácil para Viana de Almeida. A ditadura salazarista estava pujante nos anos 30. É o único texto que conhecemos desta época a tratar diretamente o tema do racismo e da prepotência dos colonos sobre os africanos, nas colónias portuguesas. Mas com arte e habilidade, o escritor deixa-nos este relato.

RACISMO E CONFLITOS ENTRE COLONOS E NATIVOS
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Ódio de raças” de Viana de Almeida, 1937.

[Diz o médico santomense Augusto de Ameida sobre a sua experiência em São Tomé, após concluir os estudos em Lisboa]

A minha geração estudava e pandegava, mas, tanto nas horas de trabalho como de boémia, os meus camaradas nunca fizeram distinções de cores.
Terminados os estudos, pensei logo em tratar da vida, instalando-me como clínico na nossa terra. Nesse tempo, muitas roças importantes tinham mudado de dono, passando das mãos de patrícios nossos para as de potentados europeus, que ainda hoje são seus possuidores. Ao mesmo tempo, um grupo de rapazes santomenses, briosos e ardendo em desejos de se educarem e defenderem os interesses dos nativos, formavam agremiações com caráter recreativo e cultural. Encomendaram-se livros, organizaram-se pequenas bibliotecas, os mais cultos encarregavam-se de orientar os que desejavam trabalhar, ensaiavam-se os que mostravam alguma vocação para o teatro, enfim, esboçava-se na terra um movimento para a elevação mental e social do negro que despertava entusiasmo.
Parece-me que este entusiasmo só poderia ser simpático, mas o certo é que ele não foi bem visto por certos elementos dos colonos europeus. Tiveram a argúcia de descobrir nele não sei que intuitos revolucionários e libertadores, tomaram-no como um desafio insolente à supremacia que, na opinião deles, o branco deve exercer sobre o preto, qualquer que seja o meio em que se encontrem. Deste estado de espírito resultaram provocações, e já algumas questões se tinham travado quando desembarquei em São Tomé. Você sabe de que maneira lá na terra recebem os patrícios que voltam da Metrópole, com evidente cultura e requintada ilustração. Eu cheguei acompanhado de outros rapazes, como Demóstenes de Almeida, José Sequeira, Jorge Neto, André Batista, Adalberto Aguiar, e outros que se tinham formado em direito, engenharia, etc. Trataram-nos como heróis e, muito naturalmente, sem que déssemos por isso, achávamo-nos dirigindo o movimento cultural de que eu lhe falei.

Sem título de Armindo Machado
em www.artafrica.info
Você compreende que, muito naturalmente também, a maior força dos ódios recaiu sobre as nossas cabeças. Os nossos contendores não nos pouparam insultos, barafustaram e chegaram a reclamar que fosse proibida a admissão de negros ás Universidades. Entre eles destacava-se um homem muito conhecido em São Tomé pelo nome de Bruno Vinagre. Você com certeza que o conheceu. Era um homem de estatura regular, atarracado, sanguíneo, de punhos grossos. Tinha ido para lá numa condição muito humilde, mas trabalhara, fizera-se negociante de importância. Era o tipo do homem inculto, impulsivo, que se deixa arrastar e dominar irresistivelmente por certas ideias que lhe são transmitidas por qualquer forma. Entre estas, estava a do desprezo pelo negro. Pelos seus atos, dir-se-ia que o ódio de raça era um sentimento que lançava raízes até ao fundo da sua alma. No entanto, chegou a época de se fazerem as eleições para deputado. Tomava-se unanimemente entre os santomenses, a resolução de fazer deputado um filho da terra, e a escolha recaíra sobre mim. Não sei dizer-lhe a quantos estratagemas recorreram aqueles que nos combatiam, com o fim de impedir os eleitores de votarem nas diferentes localidades e a marcha regular das operações. Subornaram, ameaçaram, chegaram a destruir estradas que conduziam às vilas onde se votava. Houve, como não podia deixar de ser, tumultos e a luta chegou a um tal grau  de acuidade, que as nossas instalações foram assaltadas e destruídas. E como os homens não sossegavam, o governador tomou a resolução de me afastar por algum tempo da Colónia. Estive em Angola por alguns meses e regressei de novo à minha vida. Os ânimos tinham serenado e eu empreguei todos os esforços por trabalhar nobremente sem suscitar ao de leve novos conflitos.
Uma noite, seriam umas três horas da madrugada, dormia a sono solto, foram acordar-me, dizendo-me que um dos meus colegas brancos me chamava com urgência. Abotoei à pressa o pijama e fui dar com o Dr. Eduardo Salgueiro com o qual eu mantivera sempre relações cordiais. O que há, o que não há, ele expôs-me o que se tratava.
Antes de continuar, devo dizer-lhe, meu caro amigo, que dentro da minha profissão há um ramo ao qual me tenho dedicado com uma certa felicidade: é o da obstetrícia. Posso mesmo dizer-lhe, desculpe-me a ufania que, entre as dezenas de casos difíceis encontrados na minha carreira, só me recordo de um que fosse fatal.
Mas, voltando agora ao Salgueiro. Vejo-o com cara de enfiado e ele diz-me:
- Meu caro Augusto, antes de qualquer outra coisa, deixe-me declarar-lhe que venho recorrer não só à sua reconhecida competência de clínico, como também à sua generosidade de homem. Eu sei perfeitamente que você tem graves motivos de queixa de Bruno Vinagre. Pois bem: a mulher dele está neste momento para dar à luz uma criança, mas está em perigo de vida. Somos vários médicos reunidos em torno dela, mas nenhum de nós possui a sua especialização e estamos todos de acordo em que se há algum recurso que possa salvar a infeliz senhora, esse está em suas mãos.
E, continuando, ele disse-me que tinham tido um trabalhão para convencer o Bruno a chamar-me e que o homem, desesperado, chorava, dizendo que, apelar para o meu auxílio, seria uma vergonha para ele, dado o estado das nossas relações.
E o Salgueiro, fitando-me muito nos olhos, disse-me:
- Mas eu tenho confiança em si, meu caro Augusto. Você não se recusa, não é verdade?
Eu respondi simplesmente:
- Sem dúvida. Aliás, não faço mais que o meu dever.
Vesti-me e partimos. Em casa do Bruno abriram-nos a porta, atravessámos uma sala de visitas, onde, na pressa com que íamos, distingui, entre vários vultos, o nosso homem profundamente abatido e que não ousou avançar para me cumprimentar. Introduziram-nos no quarto da enferma. Vejo a desordem do aposento alumiado por um candeeiro de petróleo, o rosto pálido como cera, os olhos desvairados da mulher. Deixei falar um momento os meus colegas, depois pedi-lhes que me deixassem apenas acompanhado do enfermeiro. Assim, sentia-me mais à vontade, e eles obedeceram ao meu desejo. Era, efetivamente um caso desesperado. Quando no quarto se extinguiu o tumulto de tanta gente que o ocupava, procurei tranquilizar a doente e inspirar-lhe coragem. Depois, com estas grandes mãos que você aqui vê, trabalhei o ventre que tanto sofria e, daí a pouco, um grito lancinante ecoava pela casa. Um silêncio... depois cortado pelo vagir de um recém-nascido.
Ia-me voltar e dirigir-me para a porta, mas ela abriu-se com ímpeto e, antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, senti as pernas presas pelo Bruno Vinagre que, de bruços, bradava alucinado:
- Perdão! Perdão!
Levantei-o e abraçámo-nos.
Desde então, somos os melhores amigos deste mundo. Rompeu-se o véu da ilusão criada por doutrinas inumanas, e o homem que exigia uma separação absoluta entre as duas raças, é hoje um defensor convicto dos negros.

O racismo é a forma de pensar mais estúpida e irracional que uma pessoa que se julgue civilizada, pode ter. Esteve presente em matanças e genocídios e nas piores guerras civis e internacionais, como foi o caso da Segunda Guerra Mundial. O racismo não está assim tão longe de nós como gostaríamos de pensar. É um inimigo poderoso. Ainda em 2007, um anúncio da Amnistia Internacional na televisão portuguesa, contra o racismo dirigido aos imigrantes, fazia lembrar este conto de Viana de Almeida e usava também a figura de um médico negro:

video

sábado, 8 de outubro de 2011

Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé

Maià Póçon é um livro de contos de 1937, Edições Momento. Segundo o seu autor, Viana de Almeida, “Maià Póçon, no idioma santomense, quer dizer, Maria da Cidade”. É também o nome do primeiro conto do livro.

Tive alguma dificuldade em obter o livro - só o consegui de aluguer – e informações sobre o autor, João Maria da Fonseca Viana de Almeida, santomense, que consegui apurar ser descendente dos Barões de Água-Izé. A Roça de Água-Izé é uma das mais importantes de São Tomé (para saber informações sobre a Roça de Água-Izé clique aqui, e veja o trabalho efetuado pelos alunos da professora Marta Gomes no Liceu Nacional de S. Tomé e Príncipe).
Livro biográfico sobre o 1º Barão de Água-Izé e o seu
retrato. Foto da Roça Simalô na Ilha do Príncipe.
Ver Nota Final.

O 1º Barão de Água-Izé tinha introduzido na sua Roça Simalô – e, em consequência disso, naquela zona de África, no início do sec. XIX – a cultura do cacau, trazido do Brasil. . Viana de Almeida era bisneto do 1º Barão, e colaborou com o jornal alfacinha O Século.

Maià Póçon não é um livro de contos vulgar, porque nele não se respira a ficção, mas a autenticidade. Viana de Almeida tem a capacidade de nos transportar sempre para a vida real, sejam momentos tristes e dramáticos, sejam momentos de alegria e felicidade. Dir-se-ia que presenciou aquelas situações, e que o livro de contos é uma reportagem de acontecimentos vividos. Parece que o autor apenas utiliza a fórmula do livro de contos, para nos trazer ao conhecimento uma realidade que conhece muito bem, senão mesmo, de forma "autobiográfica".
Um excelente exemplo da escrita de Viana de Almeida, é logo no início do livro, a descrição que faz sobre a vida de um recém-licenciado santomense, em Lisboa. Nesses tempos, eram muito poucos os cidadãos, mesmo os vivendo em Portugal, que teriam possibilidades de concluir o ensino superior. Certamente menos de 0,5% da população. A percentagem de 1% só seria atingida durante os anos 70 do século passado – e encontra-se hoje ainda, abaixo de 8%, segundo a PORDATA. Por isso, naquela primeira metade do sec. XX, em Portugal, a sensação de acabar uma licenciatura, deveria ser algo de muito raro e especial.

RECÉM-LICENCIADO SANTOMENSE EM LISBOA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Maià Póçon” de Viana de Almeida, 1937.

Saí – eu, Valentim de Sousa Dantas [1], natural da ilha de S. Tomé – não há muitos meses da Escola Médica de Lisboa [2], formado, segundo me dizem, na arte de tratar as mil e uma enfermidades que afligem o corpo e a imaginação dos meus semelhantes. Eis-me, pois, médico, com a minha carta metida num canudo de folhas conforme velhos usos que encontrei consagrados pela tradição de dezenas de gerações e que eu, embora tocado de algum fermento revolucionário, respeito e sigo reverentemente.
A verdade é que este canudo, de aspeto tão banal, que já me acostumei a ver como um objeto familiar pousado sobre a mesa de pinho envernizado do meu quarto de pensão, me inspira um sentimento complexo de respeito, de alegria e, ao mesmo tempo, de receio.
Efetivamente, dentro encerra, como um ente adormecido, que pode ser benfazejo ou maléfico, segundo os casos, o diploma que recebi da secretaria da Universidade de Lisboa e cujo primeiro contacto nas minhas mãos me deu a sensação de apalpar, corporizado, o objetivo das minhas ambições, acarinhado durante anos de trabalho e de fadiga.
Como não experimentar alegria com a posse de um documento, que é a prova tangível de que, finalmente, me libertei dos receios e angústias que pontualmente me esperavam no fim de cada ano letivo, como dragões mitológicos defendendo o acesso aos diferentes andares de uma torre, cuja escalada se faz com mortais dificuldades? Porque, podem crer, nunca fui um estudante mau de todo e as minhas classificações atestam que muita vez cheguei a fazer figura distinta nos exames. Mas, confesso-lhes também – e isso com íntima  humilhação – jamais pude abordar um júri sem uma impressão singular de ventre que subitamente se esvaziou e de nó que me aperta a garganta, produzindo uma espécie de soluço angustioso. Dramático e cómico não acham?
Pensem, além disso, que esta caixa de folha contém, como tesouro precioso, a justificação do tratamento com que, atualmente, me distinguem. Ah! Ainda não perdeu a sua força dominadora esta voluptuosidade que se apodera de mim, quando oiço ou vejo o  meu nome precedido do título de “doutor” em cumprimentos que recebo na rua ou nos envelopes das cartas que me mandam. Volúpia igual devia experimentar, em tempos que já lá vão, o traficante enriquecido, que se via guindado, de um momento para outro, de plebeu a fidalgo.
Mas também não consigo escapar a um sobressalto secreto nos momentos de contemplação beatífica de tal caixa. Já, quando ainda estudante, eu era encarregado do tratamento de algum doente – e é preciso notar que este tratamento era feito sob os olhares vigilantes do professor ou de um assistente – me preocupou, a ponto de me tirar algumas horas de sono, a ideia de depender de mim a sentença de vida ou de morte pesando sobre a cabeça de um doente. Que vida será a minha, quando, em vez de um infeliz, eu tiver a responsabilidade da existência de uma clientela numerosa? Mas uma conversação com um colega já batido na vida dissipou-me parte das minhas dúvidas.
Garantiu-me este médico, que goza da estima e gratidão dos seus clientes, que eu, como novato, atravessava uma fase natural, mas passageira. Aconselhou-me a não ser orgulhoso e a considerar, como elemento preponderante no êxito ou no fracasso dos meus tratamentos, a fatalidade.
Sobre cada enfermo pesa um destino certo e cego: não será a competência do facultativo [3] a sua salvação, nem um erro de diagnóstico – natural em todo aquele que estuda as doenças caprichosas – motivo do seu despacho para um mundo melhor. Agora, o essencial é manter a distância necessária entre nós e os acontecimentos. Sem ela, a maior sumidade não passará de um asno chapado.
Depois de formado tive de resolver o problema do rumo que havia de dar à vida. Não basta triunfar do último exame da escola: alcançado o diploma é necessário saber servirmo-nos dele e procurar o sítio em que o seu emprego nos poderá proporcionar maior rendimento. No decurso dos meus estudos, sorriu-me sempre o projeto de me estabelecer e fazer clínica em Lisboa. Aplicar-me-ia e, bafejado por fortuna e boa sorte, conquistaria fama, atrás da qual viriam rendosos honorários, ganhos à custa de ciência e de trabalho. Residiria nas Avenidas Novas com qualquer lisboetazinha de corpo nervoso e alma ingénua que quisesse associar o seu destino ao meu, dando por compensada a minha cor escura com a categoria de doutor de fama. Esta arvéola [4] poder-se-ia encontrar: depois que me formei, algumas moradoras do meu bairro passaritam à minha roda, ansiosas por adivinhar os meus desejos.
Seria uma vida deliciosa, mas tive de abandonar o projeto. Tenho de acreditar que, ou o clima de Lisboa afugenta as doenças ou que existem nesta cidade tantos médicos, que não sobra mais espaço para os recém-chegados, famintos de casos de estrondo e de riqueza.
Até agora, só pude tratar um companheiro de pensão, a quem por decoro nada pedi, e uma vaga senhora idosa das minhas relações, atacada de histerismo.
Uma carta da minha madrasta, junta à minha impaciência, fez-me enveredar para novos caminhos. Meu pai morreu há três anos, deixando-me algumas propriedades em S. Tomé, e à sua mulher legal a sra. D. Eugénia Dantas. Enquanto eu tirava o meu curso, a sra. D. Eugénia encarregou-se da administração das terreolas, mas a pobre senhora, idosa e cheia de achaques, encontra-se muito cansada e sente um receio salutar de administradores gananciosos. Escreveu-me então, aconselhando-me a ir assumir a gerência dos nossos modestos haveres. Com trabalho e persistência poderia aumentar as minhas posses, e nada me impediria de consagrar-me ao exercício da minha profissão, que havia roças que estavam precisando de médicos.
O alvitre pareceu-me sensato e resolvi pô-lo em prática. Disse adeus à vida de Lisboa, à graça das suas mulheres, resolvi adiar por alguns anos a conquista de um suave coração, já fiz as minhas malas e aqui estou pronto a partir no primeiro paquete da Companhia Nacional de Navegação. Não foi sem custo que me resignei a este projeto, mas tomada a resolução, senti-me invadir por uma onda de recordações de infância que me impelem para a terra natal e, a esta hora, sinto-me impaciente de pisar o solo santomense.
   
Notas da responsabilidade deste blogue:
[1] Acredito ser o próprio autor com um nome diferente.
[2] Creio que a velha Escola Médica era ainda no Campo Santana, estando ligada ao Hospital de Santa Marta. Nos anos 50 foi transferida para Santa Maria, onde é hoje a Faculdade de Medicina de Lisboa.
[3] Facultativo – Médico, indivíduo que exerce legalmente a medicina.
[4] Arvéola – Nome de pássaro.

Nota Final:
A paternidade da figura tem diferentes origens, consoante as imagens.
- O livro de Amândio César, encontra-se no sítio da Livraria Candelabro.
- A imagem do 1º Barão de Água-Izé estava em “Saber tropical”, sítio excelente do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), num artigo onde se procura determinar a origem da introdução da cultura do cacau em África.
- A imagem da Roça Simalô (ou Simaló, como escreve Amândio César) encontra-se no interessante blogue Stparquitecturarte, em blogspot, da autoria de Neco Bragança.
A todos, o meu reconhecimento.


 Ver ainda Maià Póçon II e Maià Póçon III