segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Portugal, país insolvente da zona euro, o reescalonamento da dívida portuguesa e a “renovação” do Plano Inclinado da SIC Notícias

O "Plenum dos professores alemães de economia" (ver Plenum) adotou uma posição muito explícita, sobre a presente crise da dívida europeia que afeta na sua maioria os países periféricos da UE. Nos nossos jornais li a expressão “bancarrota controlada”, e “defendem 200 economistas alemães”. As notícias têm pouco mais de meia dúzia de linhas e fica-se com a sensação de ser coisa sem importância. A questão por eles colocada não é no entanto de somenos.
Eugéne Delacroix: a liberdade
guiando o povo
Olhando para as experiências em curso da Irlanda e da Grécia, verifica-se que estes países dificilmente conseguirão pagar os encargos da dívida, apesar das ajudas do FMI e do BCE e dos pesados sacrifícios impostos. A proposta de declaração de insolvência e consequente reestruturação da dívida dos países sobre-endividados, alargando prazos e diminuindo a pressão asfixiante dos juros e amortizações é uma saída que nestes cenários faz todo o sentido. Tanto mais que esta proposta prevê que estes países não sejam obrigados a sair do euro. Pelo contrário, propõe-se uma ajuda assistencial por parte dos outros estados membros da UE.

Precisamos de continuar a ouvir a opinião de Medina Carreira no Plano Inclinado sobre este e outros temas. Oxalá que a “renovação” do Plano Inclinado (ver Notícia do jornal Público) nos volte a trazer Mário Crespo e Medina Carreira com a mesma liberdade de palavra que anteriormente. Infelizmente, a maioria da nossa imprensa continua, demasiadas vezes, a passar superficialmente por cima das questões mais importantes, por isso aqui vai a tradução para português, com a qualidade que a minha pobre habilidade permite, do texto aprovado pelo grupo professores de economia de língua alemã.

Em Maio de 2010, a UE instituiu um fundo de resgate, limitado a 3 anos, para países do euro sobre-endividados. Alguns apoiam agora o aumento do montante deste fundo e a sua manutenção como um serviço permanente de apoio aos países com crises de liquidez. No entanto, para ambas as propostas falta uma justificação verdadeiramente convincente. Também não é evidente, que os riscos alarmistas tenham sido realisticamente avaliados, e que medidas adequadas tenham sido estabelecidas, no caso de falha do fundo de resgate.
O atual valor, com classificação AAA, do fundo de resgate, excede em quase 80% as necessidades de refinanciamento da Irlanda, Portugal e Espanha até 2013. Por esta razão, é incompreensível porque é que o fundo deva ser aumentado. Para apoiar estados com crises de liquidez, mas não ainda insolventes, um fundo de resgate não é necessário, visto que estes estados são capazes, juntamente com os seus credores, de negociar uma reestruturação da sua dívida nacional. Os estados que necessitem de resgate, porque os seus credores não estão convencidos que eles apenas enfrentam uma escassez temporária de liquidez, devem ser considerados insolventes. Dirigimos esta questão ao governo alemão, mas as suas implicações refletem-se por toda a Europa.
Uma segurança dada pela UE, que garantisse a solvência de estados aparentemente apenas sem liquidez, mas de facto insolventes, através de créditos comunitários, teria consequências extremamente negativas. Condições de crédito favoráveis e as garantias da comunidade europeia, dariam aos estados sobre-endividados um poderoso incentivo para repetir os erros do passado e para continuarem uma política de endividamento à custa dos restantes parceiros europeus.
Além disso, porque faltam os instrumentos compulsivos necessários, a UE não está em posição de corrigir estes incentivos negativos com normas de controlo orçamental mais restritas ou através do recentemente proposto “Pacto de Competitividade”. Estas medidas são limitadas, e não conseguem contrariar de forma duradoura, incentivos negativos que resultariam duma garantia permanente de solvência financeira a países sobre-endividados. O resultado seria o de intensificar a crise da dívida na Europa, colocando enorme pressão na solidariedade dos países solventes, tanto a nível económico como político, em última análise pondo em perigo os pilares em que assenta a UE.
Uma estratégia de longo prazo para inverter a crise da dívida na zona euro, requer a possibilidade de um estado ficar insolvente e subsequentemente reestruturar a sua dívida. Um aspeto importante desta questão é que também os credores privados terão de adiar uma parcela dos seus recebimentos dos estados devedores. Só depois disto feito, poderão ser estabilizados os empréstimos da UE.
A participação dos credores privados nos custos de reescalonamento da dívida, significa que o pagamento da dívida dos estados sobre-endividados será efetuado com o prémio de risco mais apropriado, o que contrariará subidas do nível da dívida muito mais eficazmente, do que controlos políticos ou ameaças de sanções. Mesmo nos casos em que o sobre-endividamento esteja já a um nível em que o custo dos juros e das amortizações exceda um nível sustentável, um reescalonamento da dívida possibilita aos estados afetados reduzir a pressão da dívida e iniciar uma nova etapa na sua política orçamental. Um reescalonamento da dívida não implica que o país insolvente abandone o euro, e também não coloca em causa a estabilidade do sistema euro.
Sem reescalonamento da dívida, as reformas económicas necessárias nos países afetados poderão gerar frustação e protesto, se apesar de medidas de consolidação ambiciosas, o serviço da dívida não for reduzido de forma a ser sustentável. O reescalonamento da dívida também assegura que o risco de incumprimento seja suportado parcialmente pelos credores privados, que beneficiaram já com altos prémios de risco. Por outro lado, um mecanismo de resgate permanente que exclua a insolvência estatal e o reescalonamento da dívida, conduzirá a uma injustificada redistribuição, dos contribuintes dos países solventes da zona euro para os credores dos estados devedores.

Uma estratégia para contrariar a crise da dívida que inclua como possibilidade credível a insolvência de um estado, deve assegurar que as suas consequências não sejam excessivas. Daqui pode advir a necessidade de limitar o teto máximo dos riscos de incumprimento, a que os credores mais importantes, com influência a nível sistémico, se devem deixar envolver, de forma a prevenir reações de pânico nos mercados financeiros, durante a introdução de medidas de reescalonamento da dívida nos novos acordos de crédito, após Junho de 2013. Em nenhumas circunstâncias, deverá a UE assumir na totalidade os riscos de incumprimento.
É também necessário, após concluído o acordo de reescalonamento da dívida, que a UE providencie crédito aos países afetados, pois a experiência mostra que empréstimos privados, imediatamente após um estado declarar insolvência, são virtualmente impossíveis de obter. Estes créditos devem ter preferência sobre os dos credores privados e devem ser concedidos apenas sob estritas condições de ajustamento estrutural.  
Finalmente, uma questão chave é, após a conclusão de um procedimento de reescalonamento da dívida, saber a forma como poderá um estado readquirir a sua competitividade. Uma vez que a zona euro não permite desvalorizações monetárias, a competitividade internacional só pode ser atingida por via de reformas estruturais nos estados afetados. O FMI tem vasta experiência nesta área e pode também providenciar assistência técnica e administrativa, por exemplo no campo da administração fiscal. Contudo, reações recessivas aos ajustamentos estruturais não poderão ser completamente evitados.   
 
Um conjunto de regras que incluam a possibilidade de insolvência de um estado só é credível quando os decisores políticos tenham o incentivo de o usar em casos de crise. Estes incentivos devem estar disponíveis em particular para os representantes dos países solventes que tenham de suportar as consequências da insolvência. Cada decisor deve pesar cuidadosamente os custos e benefícios de uma possível insolvência. Se os custos das perdas de crédito são relativamente concretas e irreversíveis para a banca e para o BCE, os benefícios podem ser menos tangíveis.
Acresce que uma decisão sobre este assunto, torna-se ainda mais complicada pelos riscos políticos, uma vez que uma insolvência e os seus resultados não podem ser discutidos em público antecipadamente e obter apoio parlamentar. Deverá por isso ser tentador que os políticos tentem ganhar tempo procurando garantias adicionais para o país sobre-endividado, em vez de concordarem com a insolvência sem consentimento parlamentar. Por esta razão, será desejável mudar a decisão de insolvência para uma instituição independente, por exemplo o FMI. Só após a decisão de insolvência por uma instituição independente deve ser proporcionada a assistência dos países solventes.
As declarações de insolvência de países sobre-endividados não deverão ser  alteradas ou adiadas pelo BCE, através do uso dos seus instrumentos de política monetária em apoio destes estados. A compra seletiva de dívida estatal de risco elevado, favorece individualmente estados membros e pode gerar inveja em outros estados com pesados níveis de dívida. Esta situação colocaria em perigo a reputação e a independência do BCE. Além disso, as intervenções do BCE não são de forma nenhuma apenas de curto prazo e destinadas a apaziguar os mercados, uma vez que não é capaz de vender dívida adquirida sem causar perturbação nos mercados. Por esta razão o BCE deve estar concentrado na sua obrigação institucional de garantir a estabilidade monetária e deixar a solução do excesso da dívida aos governos da zona euro, de acordo com o princípio de que o devedor deve ser o pagador.

A crise da dívida na UE pode conduzir a 3 resultados concebíveis: primeiro, pode ser ultrapassada através do crescimento dos países sobre-endividados; segundo, pode ser resolvido através de procedimentos de insolvência para com os países afetados e com as subsequentes medidas de assistência e terceiro, pode levar à “comunitarização” das dívidas de estados membros individuais, provocando aumento dos impostos ou maior inflação em toda a UE.
Os riscos de uma política que se concentre exclusivamente na primeira e mais favorável destas hipóteses são consideráveis. Ninguém pode prever hoje se os estados afetados conseguirão os recursos para pagar as suas dívidas, que têm vindo a crescer ainda mais através do recurso ao Mecanismo Europeu de Resgate.
Por esta razão pedimos ao governo alemão que se previna para o caso de falhanço do Fundo Europeu de Resgate e – conjuntamente com os parceiros europeus – desenvolva de imediato um plano detalhado de insolvência para países sobre-endividados que corresponda às razões acima descritas. Só assim poderemos impedir a UE de cair na terceira alternativa, com efeitos fatais a longo prazo para o projeto da integração europeia.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

III- Antes do futebol, eram as touradas: quando o futebol chegou.

Henrique Galvão, figura de
muitas facetas, "warholizado".
O texto aqui colocado, é originário da cidade do Porto, de Julho de 1944, extraído do livro Irreverência (notas à margem da política e dos costumes) de 1946. Na sua maioria é uma compilação de artigos publicados na imprensa. O autor é Henrique Galvão, uma figura mítica da oposição a Salazar. Não era um ex-republicano nem anarquista ou comunista, pelo contrário. Enquanto militar tinha participado no 28 de Maio e tal como Humberto Delgado, foi durante muito tempo destacado apoiante do Estado Novo – entre outros cargos foi governador de Huíla, Angola, e diretor da Emissora Nacional. Quando do assalto ao paquete Santa Maria em 1961, apresentou-se como “jornalista”. Escrevia admiravelmente bem e os seus livros continuam subvalorizados até hoje, talvez porque a maior parte abordavam temáticas coloniais.

"Futebol e Família" por Henrique Galvão – transcrição parcial.
[notas entre parêntesis reto da responsabilidade deste blogue]

(..) Um dia esta família [pacífica], que gostava imenso de touros e cavalhadas, romarias e bailaricos... apaixonou-se pelo futebol. E o exercício, que principiou por simples divertimento espetaculoso, não tardou a pôr a Casa [a Casa, com maiúscula, é Portugal] em alvoroço. Formaram-se grupos, com os grupos produziram-se choques, conflitos, mais bulhas. Em cada andar formou-se um clube. E entre os que jogavam e os que assistiam ao espetáculo, de palanque, por causa de ídolos transitórios e de encontros emocionantes, surgiram novos pretextos para escavacar a mobília e pôr a casa em desordem.
Mas dir-se-ia que qualquer coisa de corrosivo suava desta paixão: ao espírito da família substituía-se, lenta mas sensivelmente, o espírito, digamos, de clube. O Pai, alarmado com o desassossego, viu-se obrigado a instituir uma espécie de Direção Geral dos Desportos, que fez quanto pôde para reconstruir a mobília e reforçar as paredes, o que, ao cabo, se não evitou os pontapés, conseguiu, pelo menos, acabar com o jogo violento.
E já se voltava um pouco ao antigo gosto pelas touradas e cavalhadas, quando principiou a disputar-se, entre outras famílias das relações da Casa, um grande campeonato – o maior e mais emocionante da história das lides... desportivas.

O nosso Homem, absorvido pelas obras que tinha em Casa e, aliás, incrédulo quanto às vantagens do futebol, como agente de formação física e moral das famílias, firmou, desde o princípio, o propósito de não entrar no campeonato o que, evidentemente, o não impedia de continuar bom amigo dos seus amigos.
- Bem basta, dizia ele aos filhos, que tenhamos de suportar a vozearia do exterior
e uma ou outra vidraça partida... por bolas que irão fora. Vamos trabalhar, cuidar da nossa Casa.   
Mas qual. A paixão do futebol estava de tal maneira entranhada no corpo e alma dos filhos, que estes, embora estranhos à competição, feitos público, o espírito de família calcado pelo espírito de clube, logo se dividiram em simpatias tão desvairadas pelos contendores, que quase deixaram de pensar no futuro da Casa. Uns pelo “Benfica”, outros pelo “Sporting” (os grupos mais fortes do grande campeonato)* – tanto discutiam e barafustavam que, pela primeira vez parecia diminuída ou enxovalhada a virtude secular que enobrecia a família.
O Pai, desolado, mas firme, dizia-lhes:
- Só a Casa conta; a Casa, a nossa Casa!
Mas os sportingófilos entendiam que a Casa só se salvava se toda a família entrasse para o Sporting. Os benficófilos, por sua vez, asseguravam em altos berros que era no Benfica que estava a salvação. E todos argumentavam, de mãos estendidas ou punhos cerrados, com lógica de cimento armado, cada um a favor do seu ponto de vista – e com tal azedume, que alguns andavam de relações cortadas com o próprio Pai!
Quando um dos grupos marcava pontos, a bulha recrudescia: “Benfica! Benfica!” ou “Sporting! Sporting!”.
O Pai bramava:
- Vamos para Casa. Temos que fazer. Não serão o Benfica nem o Sporting que farão em nossa Casa o que a nós cumpre fazer. A vida é mais alguma coisa que o futebol (...).

*Nota do autor:
Como esta história é muito antiga, não se trata evidentemente dos dois clubes de Lisboa que têm o mesmo nome – nem dos seus simpáticos adeptos. Simples coincidência de nomes.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

II- Antes do futebol, eram as touradas: a relação com o fado.

A relação entre o fado e a tourada sempre atraiu a minha curiosidade. Ela começa por ser, nos primórdios do fado, uma relação de alcova - o que vem a propósito, hoje, dia dos namorados - entre a Severa e o Conde de Vimioso. É contada no notável Lisboa d’Outros Tempos {*}, 1898, de Pinto de Carvalho (Tinop), que aqui parcialmente transcrevo.   {*}http://openlibrary.org/books/OL24361717M/Lisboa_d'outros_tempos_por_Pinto_de_Carvalho_(Tinop)

O conde de Vimioso foi a primeira figura do sportismo hípico, foi o lídimo herdeiro das nobres tradições do velho marquês de Marialva, o grande mestre da equitação, estribeiro-mor de D. José I, e , segundo muitos, o autor da Luz da liberal e nobre arte de cavalaria, impressa em 1790.
O conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, nascera em 28 de Julho de 1817, e morreu em 9 de Julho de 1865, havendo sido casado com D. Maria Domingas de Castelo Branco, condessa viúva de Belmonte, dama da Rainha D. Maria II, e filha dos segundos marqueses de Belas.
O conde de Vimioso sucedeu no pariato (1) a seu pai, o 5º marquês de Valença e 12º conde de Vimioso, par do reino desde 1826, ministro de estado honorário, e brigadeiro do exército. Mas o redondel é que foi a arena dos seus combates, e o Capitólio (2) das suas glórias. Apesar da sua estatura meã, era elegantíssimo a cavalo, onde se mantinha firme, ereto, como um busto de bronze florentino sobre uma coluna de mármore de Carrara. Cavaleiro de haute encolure (3), subjugava o mais fogoso cavalo, que, debalde, se encabritava apertado pelos seus joelhos de ferro; vencia as máximas dificuldades no exercício da gineta (4), com tanta facilidade e felicidade como metia farpas num touro. Vimioso fazia correr o seu cavalo, aligero (5) como o dum campino, que, de pampilho (6) na mão e barrete frígio ao vento, persegue o touro tresmalhado da manada na planura rasa da lezíria ribatejana.
Assinatura de Tinop
O conde de Vimioso, o mais notável de todos os cavaleiros tauromáquicos, era exímio nas sortes à tira ou à estribeira (7) como também lhe chamavam, e que ele realizava com a maior perícia nos touros levantados, isto é, nos touros que estão no primeiro estado, quando saem da gaiola de cabeça erguida, correndo sem fixarem os vultos. Sabia estar numa sala, sustentar conversação espirituosa com as damas, possuía mesmo muita graça, a faceciosa (8) graça portuguesa, sem nunca descambar na lerda chalaça. Mas, uma vez fora das salas, só o encontravam nos picadeiros, nas estrebarias, nas feiras de gado, acamaradado com toureiros, boleeiros (9), e troquilhas de cavalos (10). Era sua natural propensão, seu ínsito pendor.
Contam-se, a trecheio (11), as tretas e maranhas do Conde de Vimioso. Teve um cavalo que umas poucas de vezes vendeu por vários preços e umas poucas de vezes comprou por seis mil reis. Certa ocasião ofereceu-o ao sr. João Fletcher pelo dinheiro que tivesse na algibeira. Este aceitou a oferta, e deu-lhe seis moedas em papel, que então valiam 32 pintos (12).
Mandou guardá-lo na cavalariça do Almeida Navarro – na rua de S. Francisco, onde agora está uma vacaria – e, indo aí para experimentar o solípede, este atirou-o ao meio da rua. Fletcher corre ao Campo de Santana, onde, nessa ocasião, morava a Severa, e em cuja casa era habitual encontrar o conde. Fletcher propôs-lhe, por sua vez, vender-lhe o bicho, o que o Vimioso aceitou logo, comprando-lho por seis mil reis. Tornou a vendê-lo por trinta moedas a Eugénio de Faria, casado com a condessa da Póvoa, mas este, vendo que o animal era indomável, mandou matá-lo com um tiro. Vimioso, sabedor do caso, exclamou melancolicamente: – Lá se foi o meu morgado!
O Vimioso possuía um rocim já velho e cego, que não prestava nem para uma atafona (13). Aparecendo comprador mostrou-lhe a alimária, e dizia, gabando-lhe as qualidades: – O cavalo não é uma estampa, não tem vista, mas é bom, apesar desse senão. – O comprador regateou no preço, até que, havendo-lhe chegado à conta, comprou o animal. Passados dias, reconhecia, com pasmo, que o cavalo era cego. Voa a casa do conde de Vimioso, tentando desfazer o negócio sob a alegação de vício redibitório (14). Mas o conde ponderou-lhe que o não enganara, porque sempre lhe afirmou que o cavalo, não tinha vista. Era habilíssimo nesta ordem de transações, a ponto de iludir os mais astutos ciganos.
Falando-se no conde de Vimioso deve-se falar na Severa, porque juntos entraram na tradição oral trigueira, nervosa e sobre o magro, a Severa tinha uns negros olhos mandingueiros (15) como pura cigana que era.
Fizera parte das hordas de ciganos que bivacavam (16) na Carreira dos Cavalos, onde se entregavam a negócios variados, empregando sempre o embuste, que é um dos mais acentuados traços psicológicos desse povo, cuja filiação histórica é ainda hoje um problema insolúvel, posto que alguns o considerem hipoteticamente, o continuador dos Hykssos ou Pastores que invadiram o Egito depois da 14ª dinastia, e que aí dominaram durante quinhentos anos (sendo no seu tempo que entraram os hebreus), até serem expulsos pelo rei Ahmés I, ou Amosis, indo então estabelecer-se na Síria.
Ninguém, como a Severa, dispunha de um tão primoroso vocabulário regateiral (17), de tão crua adjetivação polémica, de tantas rabularias (18) garotas; ninguém, como ela, apreciava os encantos duma corrida de touros, as esperas do gado, o vaguear à toa e à tuna (19); ninguém tinha, como ela, os movimentos esquadrilhados, os sacarotes (20) petulantes no fado batido (21).
E quando uma ponta de embriagues lhe afogava os olhos numa ternura húmida, e, de cigarro ao canto da boca, passava a dedilhar na banza (22) um rigoroso, Por Dios! (23) dissipava a melancolia melhor do que a tradicional nepenthes de Plínio (24). Por isso a Severa cantava, fazendo gemer a guitarra sob as unhas acaireladas (24):

Eu já vi numa tourada
Um valente cavaleiro,
Era o D. José lanceiro
Pai da rapaziada.
Não se lhe deu para nada
Que dele tivessem dó
A combater c’um boi só.
Diz uma velha dali
Ai! Que ele está aflito,
Mas não pode dizer Tó.
[Nota do autor: “Folhetim do sr. Alberto Pimentel, publicado no Diário de Notícias de 12 de Junho de 1893”]

O conde de Vimioso adorava esse olhar agudo como uma espada, esses negros olhos gitanos ardendo  em febre, as voluptuosidades exaustivas, as carícias afrodisíacas dessa mulher crapulosa, cujo sangue, abundante em fósforo e em iodo, a espicaçava de lancinantes desejos cupidínios. Mordido pelo dente incisivo da paixão, pretendeu confiscá-la em seu proveito exclusivo, e, para esse fim, chegou a fechá-la à chave numa casa, como já tinha encerrado o seu amor na mais recôndita gaveta do coração. Mas a barregã, um belo dia, pendurou-se da janela, que era baixa, e, ao passar uma carroça de lavadeiras, deixou-se cair sobre as trouxas da roupa, e escapuliu-se. Outra vez, ainda, tornou a fugir ao conde de Vimioso, que, em vão, a procurou por toda a parte. A Severa – de anagoas (26) amarfanhadas, meias azuis, e tamanquinhas de polimento pespontadas a retrós – estava numa taberna do largo dos Inglesinhos, improvisando chularias à guitarra, nesses delírios do seu cérebro esquentado pelo álcool.
Os circunstantes gargalhavam estridulamente como soalhas de alcancareiros (27) em romaria sertaneja. Um amigo do Vimioso passava por ali, e viu a Severa na taberna. Deitou a cabeça para dentro e cantou:

Todos aqueles que são
Da nossa súcia efetiva
Lamentam a fugitiva
Da rua do Capelão.  
[Nota do autor: “Folhetim já citado”]

A Severa, ilustração de abertura do
livro homónimo de Júlio Dantas, 1901.
Fora descoberta; quis fugir, mas, desta vez, não pôde. No meio dos seus amores – através dos quais passou escuteira – foi o conde de Vimioso quem campou (28). Para ele todos os tesouros dos seus nervos, para ele todas as riquezas dos seus ardores sensuais! A Severa morreu aos 26 anos, depois de uma ceia de borrachos assados, regados por alguns quartilhos de crasso torriano [na História do Fado{**}, Pinto de Carvalho (Tinop) corrige-se: “Maria Severa morreu, segundo papagueia a lenda, de uma indigestão de borrachos regados de boa pinga. Mais uma vez, porém, somos forçados a retificar a lenda. A Severa adoeceu na sua casa da rua do CapeIão, á esquina do beco do Forno, e foi conduzida ao hospital, onde se finou na enxerga de uma enfermaria especialista”. Estávamos em 1846].

A morte desta marafona de viela foi considerada uma perda irreparável no mundo fadistal. Choraram-na nas tascas, nos bordéis, nos garitos (29) populares...
O faia (30) guitarrista e lovelaciano (31) derramou quentes lágrimas ao desaparecer essa rameira, que acordava as paixões que dormiam nas almas como armas em estojos fechados, ao morrer essa cantárida (32) que queimava o sangue dos homens para estuarem na febre dos caprichos eróticos, nas convulsões espasmódicas dos abandonos amorosos, nas curtas vibrações do prazer carnal.
E o seu De-profundis foi cantado pela poesia ácida dos bardos da rua...

Assim como as flores vivem,
Minha Severa viveu;
Assim como as flores morrem,
Minha Severa morreu!

Levantai-lhe um mausoléu.
Com um negro cipreste ao lado,
E o epitáfio que diga:
Aqui jaz quem soube o fado!  

Notas da responsabilidade deste blogue (aquelas coisas que tive de ir ver ao dicionário):

     (1)     Pariato: é um membro da Câmara dos Pares do Reino.
     (2)     Capitólio: colina romana onde se edificou o Templo de Júpiter e donde partiam todas as grandes vias, que ligavam Roma antiga a todo o Império.
     (3)     Haute encolure: do francês, pescoço levantado (do cavalo).
     (4)     Gineta: maneira de andar a cavalo com os estribos curtos.
     (5)     Aligero: que tem asas.
     (6)     Pampilho: garrocha ou vara de tanger ou açoitar o gado.
     (7)     Sortes à tira ou à estribeira: é quando o cavaleiro chama o touro na ocasião em que ele está do seu lado direito e lhe mete a farpa no momento em que ele prepara a pancada muito próximo da sua perna direita.
     (8)     Faceciosa: de facécia (galanteria).
     (9)     Boleeiros: cocheiros.
     (10) Troquilhas de cavalos: cavalos para trocas.
     (11) Trecheio: muito, excessivamente.
     (12) Pinto: unidade monetária equivalente a 480 réis.
     (13) Atafona: moinho.
     (14) Redibitório: efeito de tornar a vender ao vendedor por defeitos não declarados.
     (15) Mandingueiros: feiticeiros.
     (16) Bivacar: estacionavam ao ar livre.
     (17) Regateiral: de regateiro/a .
     (18) Rabularia: fanfarronada.
     (19) Vaguear à toa e à tuna: andar sem destino a vadiar.
     (20) Sacarotes: não descobri o significado; se a palavra estiver ligada a sacar ou tirar, faz-me pensar que possam ser “tiradas”, no sentido de “dizeres”.
     (21) Fado batido: fado com ritmo mais rápido.
     (22) Banza: guitarra.
     (23) Por Dios!: julgo tratar-se de uma exclamação de espanto perante a mestria da Severa no canto fadista; algo de semelhante quando dizemos em Portugal “Meu Deus!”.
     (24) Nepenthes de Plínio: Plínio descreve esta planta, cujo extrato é uma droga psicoativa.
     (25) Acaireladas: enfeitadas (na minha interpretação, por estarem sujas).
     (26) Anagoa: saia branca por cima da camisa.
     (27) Soalhas de alcancareiros: soalhas são pequenos pratos de metal, colocados aos pares na extremidade das pandeiretas; alcancareiros os tocadores de pandeiros 
     (28) Campar: triunfar.
     (29) Garito: casa de jogo.
     (30) Faia: fadista.
     (31) Lovelaciano: namorador.
     (32) Cantárida: inseto, que esmagado, é usado como afrodisíaco.

Nota final: Júlio Dantas conta nas suas memórias, que quando a peça A Severa da sua autoria, estava para estrear, Hintze Ribeiro terá pessoalmente intercedido para que não fosse mencionado o nome do conde de Vimioso. A descendência do conde era muito influente nas altas esferas do Estado Monárquico. Assim, em sua substituição, é criada a figura do “conde de Marialva”.