sexta-feira, 27 de maio de 2011

I - Os portugueses judeus: o juiz Benjamin Cardozo.

Sempre gostei de história, mas nunca me tinha debruçado sobre a temática dos portugueses de religião judaica. Sabia vagamente, que existira uma importante comunidade judaica já durante a ocupação muçulmana, que qualquer coisa acontecera no reinado de D. Manuel I e que com o Marquês de Pombal, judeus teriam sido expulsos, mas pouco mais. Na realidade nunca julguei que nada de muito importante ou de muito diferente de outros países se pudesse ter passado neste pequeno canto europeu. Era um assunto arquivado em gaveta pouco usada da minha memória. Como cheguei à conclusão que deveria chamar à atenção sobre o assunto dos “portugueses judeus” neste blogue, é o tema deste conjunto de textos.

Convém em primeiro lugar dizer que sou agnóstico, a resvalar para o ateu, mas que a religião não me é indiferente em nada, como qualquer um poderá verificar consultando o arquivo do Crónicas Portuguesas. Orgulho-me é certo, das minhas raízes culturais judaico-cristãs. É difícil cada um de nós não deixar de ser um produto do seu ambiente cultural. A palavra cultura tem por base o “culto”, a religião, a qual, como é historicamente visível, é a principal matriz organizadora dos valores sociais e consequentemente, individuais, sejamos nós mais ou menos “religiosos”.

Acompanho por vezes temas da política internacional. No Verão de 2009 segui com muito interesse a polémica sobre a nomeação de Obama para o supremo tribunal de justiça norte-americano, da juíza Sonia Sotomayor. Era uma figura de carreira pouco consensual, além de mulher, e principalmente, hispânica.
 O supremo tribunal de justiça na América, é o tribunal mais importante do país, tal como em Portugal, mas nele estão contidos também poderes de tribunal constitucional - que me perdoem os homens de leis, mas eu, que não sou especialista, é assim que interpreto os poderes deste tribunal. Cada juiz do supremo, tem de ser proposto pelo Presidente da República e aprovado pelo Senado, onde a sua personalidade, a sua carreira e a sua vida é passada a pente fino em audição pública e na imprensa. Uma vez aprovados, a nomeação é vitalícia, até a saúde e a vontade o permitirem. Ruth Bader Ginsburg de 78 anos, uma juíza de Nova Iorque, é atualmente o membro com mais idade do supremo americano. Com juízes praticamente inamovíveis e capacidade de decisão quase absoluta, o poder do supremo tribunal de justiça é inultrapassável por qualquer outro órgão do estado americano. Na América, a nomeação de um novo juiz para o supremo, é sempre assunto de curiosidade dos media e de discussão nacional.

Benjamin Cardozo (1870-1938)
Quando da nomeação de Sonia Sotomayor, alguém disse que seria a primeira “latina” do supremo tribunal – o núcleo duro da América conservadora sempre foi a cultura WASP (White, Anglo-Saxon, Protestant). Quando aparece alguém fora deste quadro de referência, de forma mais ou menos consciente, o escrutínio exercido pela imprensa é sempre maior. A eleição do próprio Obama, é um exemplo evidente do muito que tem vindo a mudar naquele país, mas Sonia Sotomayor, as suas simpatias “liberais” e a ascendência porto-riquenha foi do conhecimento geral do americano médio, minimamente informado.
Logo, se discutiu que Sonia Sotomayor não seria o primeiro juiz de origem hispânica, pois teria existido o juiz Benjamin Cardozo, “português”. Uma das explicações que li contestando este facto, foi a seguinte: o termo “latino” incluía pessoas de cultura e línguas com origem em Espanha, assim como os países da América Latina ex-colónias de Espanha, chamados “hispânicos”, de cultura e língua portuguesa, em especial portugueses e brasileiros, de cultura e língua francesa, sobretudo franceses e canadianos francófonos, e a importante comunidade italiana. Estes outros latinos não seriam hispânicos. Deste ponto de vista, embora existissem opiniões diversas, Sonia Sotomayor seria de facto a primeira hispânica com assento no supremo.

Mas entretanto, a minha curiosidade obrigou-me a querer saber mais coisas sobre Benjamin Cardozo. Tanto mais que as referências a Cardozo eram seguidas dos mais rasgados elogios à sua importância na história do sistema de justiça americano. Durante os mais de duzentos anos de história do supremo tribunal de justiça, Cardozo teria sido um, de um pequeno grupo dos dez mais importantes. Há uma longa lista de livros na Amazon a falarem da vida e obra de Benjamin Cardozo, existem a  Benjamin N. Cardozo High School e a Benjamin N. Cardozo School of Law, ambas em Nova Iorque.
O primeiro texto que li sobre este juiz, encontrei-o no sítio do Infoplease (o Infoplease é um conhecido nome editorial americano, ligado a almanaques e dicionários e faz hoje parte do grupo Pearson, de Londres, proprietário entre outros da Penguin e do Financial Times):
“A história da família de Benjamin Cardozo data da Guerra da Revolução [a guerra da independência americana], durante a qual os seus antepassados lutaram contra os britânicos”
 Então se os Cardozo já estavam na América na altura da independência, em 1776, como se poderia dizer que Benjamin Cardozo era “português” em 1932, altura em que entrou no supremo tribunal de justiça? Quem era esta família? Já tinha percebido que eram judeus sefarditas - nome atribuído aos judeus expulsos e fugidos de Portugal e de Espanha.
Na Jewish Library diz-se que: “os Cardozo são uma das mais antigas e distintas famílias americanas. Estão entre os fundadores [Gershom Mendes Seixas (1745–1816)]  da Congregação Shearit Israel [que incluía também sefarditas espanhóis - ver nota final], a mais antiga congregação judaica dos Estados Unidos e a instituição central da comunidade sefardita de Nova Iorque (...) Um antepassado ajudou a fundar a bolsa de Nova Iorque [Benjamin Mendes Seixas (1748-1817)].”
A história da família encontrava-se repleta de personalidades notáveis e intimamente ligada à história americana.
Andrew Kayfman em “Cardozo”, escreve: “a tradição familiar dos Cardozo diz que os seus antepassados eram marranos portugueses – judeus que praticavam secretamente o judaísmo após conversão forçada ao cristianismo – que fugiram da Inquisição no século XVII. Refugiaram-se primeiro na Holanda e depois em Londres.” Curiosamente, segundo mais tarde apurei, Benjamin Cardozo considerava-se agnóstico.

Depois, verifiquei existirem muitos outros nomes de sefarditas portugueses que se tinham notabilizado nos Estados Unidos. Nomes como Bernard Mannes Baruch, Uriah Philips Levy, Jefferson Monroe Levy, Emma Lazarus, Aaron Lopez, Moses Lopez, Abraham Pereira Mendes, Annie Nathan Meyer, Samuel Nunez, Haym Salomon, Moses Seixas, Isaac Touro, Moses Michael Hays, Judah Philip Benjamin, Rebeca Gratz e Salomon Parreira, Henry Pereira Mendes, etc. Eram muitas as famílias de origem portuguesa, que orgulhosamente continuavam as suas tradições religiosas e a memória de uma vivência negada, de um país que um dia tinha sido o seu.

Fui à procura de saber o que lhes tinha acontecido.

Nota final
Até aos dias de hoje, a Congregação Shearit Israel, continua a ser a mais importante congregação judaica sefardita de Nova Iorque. No livro “The World of Benjamin Cardozo”, Richard Polenberg refere que “o contraste mais óbvio relativo ao ambiente dos serviços religiosos sefarditas [relativamente a outros judaicos] é o seu carácter austero e solene”, além disso, durante o culto algumas palavras de origem permanecem: a quem levanta a Tora após a sua leitura, chamam o “levantador” e aos reservados lugares de honra, chamam “banca”. E noutro local do livro, “a influência das famílias sefarditas provavelmente atingiu o apogeu nos anos 70 e 80 do século XIX. A sinagoga portuguesa podia gabar-se que representava uma parte muito proeminente da riqueza, cultura, posição social, negócios empresariais, dos judeus de Nova Iorque."


Ver também II - Os portugueses judeus: a "Nação Portuguesa" em Amesterdão.
e ver também III- Os portugueses judeus: em solo pátrio.

sábado, 14 de maio de 2011

A obra de de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
Tem sido difícil encontrar uma lista, tão completa quanto possível, das obras de Camilo Castelo Branco, publicadas em vida. A maior dificuldade deve-se ao facto de ele ter sido um escritor excecionalmente prolífico e versátil.  Faleceu a 1 de Junho de 1890 e no dia 3 de Junho, o jornal Diário de Notícias publicava uma lista das suas obras, que aqui apresento. Esta lista não é isenta de algumas falhas. Por exemplo não encontramos o seu livro de versos Nas Trevas, alguns números de ordem estão repetidos e muitas obras não têm data. Mantive este tipo de falhas, mas procurei re-escrever o nome das obras em português atual. Os títulos das colunas são da minha responsabilidade.  

Número de ordem
Obras A a Z
Ano da edição
1
Abaixo os bigodes

2
Abençoadas lágrimas
1861
3
Agostinho de Ceuta
1887
4
Agulha em palheiro
1865
5
Amor de perdição
1864
6
Amor de salvação
1864
7
Amores do diabo
1872
8
Amores de um valido

9
Anátema
1858
10
Anos de prosa
1863
11
Ao anoitecer da vida

12
(O) Assassino de Macário
1886
13
Aventuras de Brito Fernandes Enxertado
1863
14
Bico de Gás
1864
14
Biografia de Vieira de Castro

15
Boémia de espírito
1886
16
Brasileira de Prazins
1882
17
(Os) Brilhantes do brasileiro
1869
18
(A) Bruxa do monte Córdova
1867
19
Caleche

20
Cancioneiro alegre
1887
21
Carlota Angela

22
(O) Carrasco de Vitor Hugo José Alves
1872
23
Carta de guia de casados
1873
24
Catálogo de livros pertencentes a Camilo
1870
25
Cavalaria da Sebenta

26
Cavar em ruínas
1866
27
Caveira da mártir
1876
28
Cego de Landim (3º - novelas)
1876
29
Clero e o sr. Alexandre Herculano
1850
30
Coisas espantosas
1862
31
(O) Comendador (2ª – novelas)
1876
32
Como os anjos se vingam
1870
33
Condenado
1870
34
Com uma rica cartonagem

35
Coração, cabeça e estômago
1862
36
(A) Corja
1880
37
Correspondência epistolar
1874
38
Cousas leves e pesadas
1867
39
Críticos do Cancioneiro
1887
40
(A) Cruz
1853-60
41
Curso de literatura

42
Degredado (6ª – novelas)

43
Demónio do ouro

44
Dicionário de educação e ensino
1873
45
Difamação dos livreiros
1886
46
Discurso sobre os desvarios do espírito humano
1869
47
Divindade de Jesus
1865
48
Doida do Candal
1888
49
Dom António Alves Martins
1870
50
Dom Luís de Portugal
1883
51
Doze casamentos felizes
1861
52
Duas épocas da vida
1865
53
Duas horas de leitura
1857
54
Ecos humorísticos do Minho
1880
55
(A) Engeitada
1866
56
Entre a flauta e a viola
1882
57
Esboços de apreciações literárias
1865
58
Espada de Alexandre
1872
59
Espinhos e flores
1857
60
Esqueleto
1865
61
Estrelas funestas
1862
62
Estrelas propícias
1862
63
Eusébio Macário
1880
64
Fanny
1861
65
Filha do Arcediago
1858
66
Filha do dr. Negro
1864
67
Filha do regicida
1875
68
Folhas caídas apanhadas na lama
1854
69
Folhas caídas apanhadas a dente
1855
70
Filho natural (5º – novelas)

71
(A) Formosa Lusitana
1877
72
Freira no subterrâneo
1884
73
Garantia, ciências e estudos de cavalaria
1874
74
Gazeta literária do Porto
1868
75
(O) General Carlos Ribeiro
1884
76
(O) Génio do cristianismo
1860
77
Gracejos que matam (1º – novelas)
1875
78
História e sentimentalismo
1880
79
História de Gabriel Malagrida
1875
80
(Um) Homem de brios
1856
81
Horas de paz
1865
82
Hossana
1852
83
Imortalidade, a morte é a vida
1865
84
(O) Inferno
1871
85
Inspirações, poesias
1851
86
Jesus Cristo perante o século
1863
87
José Balsamo
1874
88
(O) Judeu
1866
89
Juízo final e sonho do inferno
1845
90
Justiça, drama em 2 actos
1874
91
Lágrimas abençoadas
1878
92
Lenda de Machim
1880
93
Livro de consolação
1872
94
Livro negro do padre Dinis
1863
95
Luta de gigantes
1865
96
Luís de Camões
1880
97
Maria da Fonte (também nº 188)

97
Maria da Fonte (8ª novela)
1885
98
Maria Moisés (7ª novela)

99
(O) Marquês de Torres Novas
1858
100
Mártires do Chateaubriand
1865
101
Mata-a ou ela te matará
1872
102
Memória do frei João de S. Joseph Queirós
1868
103
Memórias do cárcere
1862
104
Memórias de Guilherme do Amaral
1863
105
Morgada de Romariz (4ª novela)

106
Morgadinha de Val de Amores
1882
107
Morgado de Fafe em Lisboa
1861
108
Morgado de Fafe amoroso
1865
109
Mosaicos e silva de curiosidades
1868
110
Mulher fatal
1870
111
Mundo elegante
1858-59
112
Murraça
1848
113
Mistérios de Fafe
1877
114
Mistérios de Lisboa
1861
115
Narcóticos
1882
116
(O) Natal, na residência
1871
117
Neta do arcediago
1860
118
No Bom Jesus do Monte
1864
119
Noites de insónia
1874
120
Noites de Lamego
1863
121
Nostalgias
1888
122
Novelas do Minho (8 romances)
 1875-76
123
O Bardo (jornal de poesias)
1854
124
O bem e o mal
1863
125
Olho de vidro
1866
126
Onde está a felicidade
1856
127
O que fazem mulheres
1858
128
Otelo, o mouro de Veneza
1886
129
(O) Papa e a liberdade

130
(O) Parente de 53 monarcas
1867
131
Pensamentos sobre o cristianismo

132
Perfil do marquês de Pombal
1882
133
Poesia ou dinheiro? (drama)

134
Poesias a S. João Batista
1865
135
Poesias

136
Preceitos da consciência

137
Preceitos do coração

138
(Uma) Praga rogada nas escadas da forca
1862
139
Pundonores desagravados
1845
140
Purgatório e paraíso (drama)
1871
141
Quatro horas inocentes
1872
142
Queda de um anjo
1866
143
Regicida, romance histórico
1874
144
(O) Retrato de Ricardina
1888
145
Revelações
1852
146
Riquezas do pobre e misérias do rico
1858
147
Romance de um homem rico
1861
148
Romance de um rapaz pobre
1865
149
(O) Sangue
1868
150
(O) Santo da Montanha
1866
151
Cenas contemporâneas
1856
152
Cenas contemporâneas (2ª edição)

153
Cenas da Foz
1857
154
Cenas da hora final
1878
155
Cenas inocentes da comédia humana
1863
156
Senhor do Paço de Ninães
1867
157
Senhora Rattazi
1886
158
Sentimentalismo e história
1880
159
(A) Sereia
1865
160
Serões de S. Miguel de Seide
1882
161
Solemnia verba (cenas da Foz)
1857
162
Sonho do inferno
1845
163
Suicida

164
Teatro cómico

165
(As) Três irmãs
1866
166
Último Ato: drama em 1 ato
1862
167
Um livro
1866
168
Vaidades irritadas e irritantes
1866
169
Vespa do Parnaso

170
Vida de D. Afonso VI
1873
171
(A) Vida futura
1877
172
Vingança
1863
173
Vinho do Porto
1884
174
Vinte horas de liteira
1864
175
Virtudes antigas

176
Visconde de Ouguela
1873
177
Viúva do enforcado

178
Vulcões de lama  (romance)
1886
179
Voltareis, ó Cristo? Narrativa
1871