domingo, 26 de junho de 2011

Um disco a comprar: Novos Talentos FNAC 2011



Por apenas 4(quatro) euros, a FNAC está a vender um duplo CD com 40(quarenta) faixas de outros tantos novos talentos. A maioria das faixas são em inglês, algumas em português. As faixas minhas preferidas - sem desprimor para todas as outras, é apenas uma opinião - são, infelizmente, todas em inglês: "I Said" dos The Doups, uma banda de Setúbal com um som espetacular, e ainda não consegui perceber o significado do nome (quererá dizer do-ups?); "Curses" dos The Paperboats, também uma grande banda, para mim a faixa com o melhor vocalista; finalmente, talvez a música que se vai tornar a mais conhecida do disco, "Time (Better Not Stop)" dos We Trust (ver teledisco da RTP no YouTube, abaixo), que me fazem lembrar os Air. A miudagem anda por aí a tocar muito bem!

video


A FNAC disponibilizou a audição do CD online. De qualquer forma não deixem de adquirir o disco que apenas por 4(quatro) euros é uma pechincha e, além da divulgação de novos talentos, as receitas, garante a FNAC em associação com a AMI, revertem para uma boa causa: a favor do combate à infoexclusão. Em conjunto com empresas da área da comunicação, há já alguns anos que a AMI está nesta batalha contra a infoexclusão, designadamente criando infotecas e pondo-as ao serviço das populações. Estas coisas custam dinheiro. Obrigatório ser solidário e comprar.

Parabéns à FNAC, à AMI e aos Novos Talentos 2011.

sábado, 25 de junho de 2011

D. João de Castro (1500-1548): tromba marítima e tufão no Roteiro de Lisboa a Goa.

“A experiência é a madre das coisas”
Duarte Pacheco Pereira (1465-1533)

Em viagem para a Índia, é uma notável descrição, a que D. João de Castro aqui faz, de uma tromba de água e de ventos ciclónicos. Não tenho essa indicação, mas acredito que os fenómenos tenham ocorrido no Atlântico, em zona tropical, a Noroeste de São Tomé e Príncipe, ou a Nordeste do Brasil, uma zona de formação de ciclones que cruza com a rota para a Índia, entre Julho e Outubro.   

D. João de Castro
‘Domingo, 14 de Julho, todo o dia foi o vento sueste e lés-sueste [1], e assim como largava ou escasseava, assim fazíamos o caminho, o qual, descompensando um por outro, ficaria à meia partida [2] do Nor-Nordeste. Este dia, às dez horas de pela manhã, vimos da banda do Noroeste umas nuvens bastas e dobradas, e, do meio delas, descia ao mar uma amostra como tromba de alifante, a que os marinheiros chamam “manga”; e por derredor desta tromba ou manga, não havia coisa alguma que nos impedisse a vista, assim como nevoeiro ou cerração.
A parte desta tromba que apegava nas nuvens, afastava por uma parte, e outra fazia uma testa; e dali para baixo até o mar era muito roliça e redonda. A ponta que pegava no mar erguia um grande fervor por derredor e, segundo notávamos os que isto víamos, parecia chupar água e levá-la por dentro da tromba acima. Duraria isto espaço de um quarto de hora, e estaríamos arredados dela pouco mais de meia légua [3]; e, como se desfez, deu-nos uma chuva grossa com trovões. O princípio como se ordenou esta manga, foi aparecer no mar uma grande fumaça e fervência de água do tamanho de uma nau, e, em espaço de dois Credos [4], foi crescendo para o céu, até pegar nas nuvens, deixando figurada esta tromba, por onde subia água a elas.
De noite, começaram a dar muitos relâmpagos por todas as partes do céu, com grande número de trovões; os fuzis eram tantos que nenhum momento de tempo estava sem eles; o vento era sueste, escasso e fresco; governámos ao Nordeste, quarta do Norte [5].
O piloto e marinheiros haviam por coisa muito averiguada que todos estes sinais demonstravam calmaria, mas o mestre, receoso ou guiado por Deus, amainou as velas, sendo passados quatro relógios da prima [6], do que clamavam muito os marinheiros. E acabando as vergas de serem em baixo, deu em nós tamanho vento, qual até aqui não temos visto nesta viagem. Durou este vento grande e espantoso até o fim do quarto da madorra [7], e entrando o quarto da Lua [8], abonançou e tornámos a dar às velas, sem monetas [9], governando ao Nor-Nordeste; o vento seria como lés-sueste. Toda esta noite choveu muito, e o mar andou muito manso.’

Notas da minha responsabilidade:

[1] lés-sueste – entre o (L)este e o Su(d)este
[2] à meia partida – termos médios, entre os rumos da rosa dos ventos.
[3] meia légua – mais ou menos 2,5km
[4] espaço de dois Credos – tempo que se leva a dizer dois Credos; cerca de 2-3 minutos; tive de ensaiar e medir pelo relógio; estarei correcto?
[5] ao Nordeste, quarta do Norte – a quarta é uma das 32 divisões da rosa dos ventos; a minha interpretação é a seguinte: olhando para a rosa dos ventos, dos dois espaços entre o Nordeste e o Nor-Nordeste, o rumo corresponde ao espaço que está junto ao Nordeste.
[6] quatro relógios da prima – a expressão “hora de prima” designa as nove da manhã, mas neste caso, creio que ele se refere ao início dos trabalhos, após o “quarto da prima”, entre as 8 e a meia-noite; não faz sentido serem nove da manhã, visto estarmos no período da noite; o relógio mais referido como usado nos navios da época, era a ampulheta de areia com meia hora de duração, então quatro relógios equivaleriam a 2 horas; se foi esse o tempo que demoraram os marinheiros a recolher as velas, entre meia-noite e as duas da manhã, pendurados nos mastros e com a chuva e a escuridão, deve ter sido uma carga de trabalhos.
[7] até o fim do quarto da madorra – o mesmo que quarto da modorra, da meia-noite até às 4 horas da manhã.
[8] quarto da Lua – tenho dúvidas, visto que a seguir ao quarto da modorra é o quarto da alva, das 4 às 8 da manhã; a expressão quarto da Lua, julgo que deva ser uma expressão  correspondente a esse período do dia e que queira significar o poente lunar.
[9] monetas – são pequenas velas que se abrem por baixo das velas mais baixas dos navios (ou papafigos) quando está tempo bom; as monetas não se desenrolaram, creio que por precaução.

domingo, 19 de junho de 2011

III- Os portugueses judeus: em solo pátrio.


Fig.1  Amato Lusitano
A história dos judeus em Portugal é mais antiga que a própria nacionalidade. Já se encontram vestígios judaicos na antiga Lusitânia. Provavelmente as primeiras fugas dos Judeus da Palestina, deram-se ainda antes da era cristã nas guerras contra Nabucodonosor da Babilónia. Mas é sabido que foram os romanos, os principais responsáveis pela fuga dos judeus nos séculos I e II da nossa era (1), vindo muitos estabelecer-se no outro extremo do continente, na Península Ibérica (ou Sefarad, em língua hebraica).
Quando se dá a reconquista cristã aos mouros, muitos judeus já estavam integrados na sociedade árabe, confundindo-se com eles. A sua capacidade para as atividades económicas levou a que o “ministro das finanças” – na altura designado de “almoxarife-mor” - de D. Afonso Henriques tenha sido um judeu: D. Yahya Ibn Yaish.  Alguém poderá reclamar-se mais português que a população de religião judaica em Portugal?

No início da nossa nacionalidade, existiam muçulmanos, judeus, cristãos arianos, cristãos papistas e acredito, alguns vestígios do xamanismo lusitano. É desta amálgama que somos feitos. Várias raças, vários credos, várias culturas. O homem português é mestiçado e herda o messianismo judaico, o fatalismo árabe-muçulmano, o paganismo lusitano e o misticismo cristão. A explicação para a nossa capacidade natural de tentar estabelecer contacto com “o outro”, diferente de nós, veja-se por exemplo a Carta de Pero Vaz de Caminha, encontra-se talvez mais na génese demográfica, que na génese política. O português “cruzou-se” com todos os povos. Tema de estudo para os antropologistas.

Os nossos primeiros reis nomeavam um Arrabi-Mor (ou Grande Rabi), autoridade máxima dos judeus, que "despachava diretamente com o rei e sancionava a eleição dos arrabis, feita pelas comunas" [comunidades judaicas] (2). Os arrabis tinham funções legislativas e administrativas dentro das comunidades (3), atendendo, naturalmente, às leis judaicas. As disputas entre judeus e cristãos eram julgadas pelos juízes judeus, se o judeu fosse réu e eram julgadas por juízes cristãos se o cristão fosse réu, respeitando-se a regra de que o queixoso “devia seguir o foro do réu”(4). Em 1307 constrói-se a grande sinagoga de Lisboa.

Felizmente Carsten L. Wilke, especialista alemão em estudos judaicos, publica em 2009, em português, a primeira síntese histórica sobre os judeus portugueses (5), das origens até aos nossos dias. Era um livro que faltava. Só depois de ter escrito e publicado no blogue o primeiro e o segundo texto sobre este tema, me apercebi do facto. Os nossos compêndios de História de Portugal, mesmo os mais modernos, são pouco desenvolvidos sobre o assunto e tendem a esquecer alguns aspetos que reputo de essenciais a muito do que aconteceu no nosso país (e depois com a diáspora, muito do que aconteceu na Holanda e em Nova Iorque).
Wilke descreve um período entre 1147 e 1492, como sendo de “proteção dos reis de Portugal” aos judeus. São três séculos e meio sem paralelo a nível europeu, uma Europa onde os judeus eram perseguidos e julgados pela sua religião. Era natural portanto, que considerassem ser esta a sua nacionalidade. Tinham-na visto nascer, ajudavam a construi-la e aqui criavam as suas famílias, praticavam a sua religião e prosperavam. E com eles o país.
A sua influência estendia-se a muitas áreas. Eram mercadores, médicos, cientistas, estudiosos, como por exemplo Amato Lusitano (ver figura 1), Garcia de Orta, Abraão Zacuto ou Pedro Nunes. Os linguistas discutem que certas formas do português, como o uso comum do infinitivo pessoal, sem paralelo noutras línguas latinas, pode ser de origem hebraica (por exemplo: para estudar melhor, eu prefiro o silêncio). Existia um país criativo e desenvolvido para a época.
Aconselho vivamente a ler o discurso proferido por Antero de Quental, na sala do Casino Lisbonense, em Lisboa, no dia 27 de Maio de 1871, chamado “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”. Diz Antero: “Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação 50 ou 60 anos! Em tão curto período era impossível caminhar mais rapidamente no caminho da perdição.”

Fig. 2 Memorial do massacre de 1506,
no Largo de São Domingos, em Lisboa
As mais significativas perseguições aos portugueses judeus iniciaram-se ao finalizar o século XV e foram piorando durante toda a primeira metade do século XVI. Desde a segunda metade do século XVI, o país nunca mais voltaria a ser o mesmo, a decadência instalou-se para não mais nos abandonar. Paradoxalmente, depois disso, enraizou-se na população, o mito mais messiânico da cultura portuguesa: o sebastianismo.

 O acontecimento que mais nos envergonha de toda a História de Portugal

Durante a “semana santa”, entre 19 e 21 de Abril de 1506, conduzida por padres fanáticos, uma multidão assassina em Lisboa, invade as casas, tortura e mata sem piedade, crianças, mulheres e homens, “cristãos novos” judeus ou marranos (6). Mulheres prostituídas e mortas, fogueiras improvisadas, crianças esmagadas. Nenhum crime tinham praticado estes inocentes que foram aos milhares. A maldade e o fanatismo não conseguiram como vimos, destruir os portugueses judeus, mas acabariam por destruir o país que Portugal tinha sido (ver figura 2).

Um Anjo Redentor

Fig. 3  Aristides Sousa Mendes
Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus durante a Segunda Grande Guerra, salvou a vida a dezenas de milhares de judeus, passando vistos que permitiram sua entrada em Portugal (ver Fantasia Lusitana), contrariando as ordens de Salazar. Custou-lhe a sua carreira. Morreu na mais pobre miséria em 1954. A revista Life definiu-o como "the greatest Portuguese since Henry the Navigator".  Faltam-me palavras para conseguir elogiar este homem (ver figura 3).

Esta é uma história contada às avessas. Começou em Nova Iorque no século XXI, deslocou-se para a Amesterdão do século XVII e desembocou na antiga Lusitânia, num conjunto de três textos. Não foi uma pesquisa histórica, foi uma viagem da curiosidade individual, baseada em factos publicados e depois, na minha própria interpretação - suscetível a erros, admito-o. Mas serviu-me para perceber muitas coisas que desconhecia sobre a história dos portugueses e de Portugal, e lamentar que estes homens e mulheres fossem perseguidos de forma tão bárbara no seu próprio país. Eram pelo menos tão portugueses quanto os que cá ficaram, mas tinham outra religião. Foram mortos, torturados, queimados vivos, os filhos roubados às mães. Os mais felizes conseguiram fugir e sobreviver. Nada fizeram para merecer esse destino. Merecem hoje, todo o apreço que lhes possamos dar. Será que seremos capazes de o fazer? Acredito que sim.



O mínimo que podemos todos fazer agora

Assinar a petição pública que solicita “perante os Poderes constituídos da República Portuguesa , a restituição da nacionalidade portuguesa aos judeus sefarditas portugueses”. É algo, que já deveria estar consagrado na nossa lei, há muito tempo. Para ler a petição clique aqui. Para assinar a petição clique aqui.

(1) Os judeus no Noroeste da Península Ibérica de João Domingos Gomes Sanches, ed. Âncora editora, pag 17, 2010.
(2), (3) e (4) Dicionário da História de Portugal de Joel Serrão, Vol III, pag 409, ed Figueirinhas, 1985.
(5) História dos judeus portugueses de Carsten L. Wilke, edições 70, 2009.
(6) Julgo que a palavra “marrano”, usada para os judeus portugueses, não tem o mesmo significado da palavra “marano” utilizada em Espanha para os judeus, que quer significar “porco”. O “Marrano” em português, vem do hebreu, “disfarce”.

Blogues que aconselho ler e seguir:


Sítios que aconselho visitar:

www.catedra-alberto-benveniste.org/  (Estudos Sefarditas da Universidade de Lisboa)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

II - Os portugueses judeus: a “Nação Portuguesa” em Amesterdão.

Estava muito longe de supor, que iria ficar francamente surpreendido com o que iria encontrar sobre os portugueses judeus sefarditas no exílio. Tinha começado por notar a sua relevância na América e em especial em Nova Iorque. 

Mercador judeu retratado por Reembrandt
Os judeus de origem portuguesa em Nova Iorque tinham principalmente 3 origens:
- Recife, em Pernambuco, Brasil, que durante parte do século XVII, tinha caído em mãos holandesas e chamava-se “New Holland”. A ocupação holandesa no Brasil, tinha trazido portugueses judeus de Amesterdão. Quando Portugal reconquistou o território, os judeus, com medo de caírem novamente sob a alçada da Inquisição, fugiram para Nova Iorque, também sob o domínio holandês, então chamada “Nova Amesterdão”.
- Londres, onde viviam famílias portuguesas vindas principalmente de Amesterdão, como foi o caso dos pais do economista David Ricardo. Com a segunda metade do século XVII, o poderio holandês decaiu e o império britânico tinha já iniciado o seu domínio hegemónico, que duraria 300 anos. Londres afirmou-se como o centro do comércio e da finança mundial, atraindo banqueiros e comerciantes.
- Amesterdão, que parecia ser o centro mais importante da diáspora sefardita portuguesa.

Por isso, a minha atenção foi orientada para a Holanda, e em particular para Amesterdão. Pesquisei , com as palavras “amsterdam” e “jews”, a Amazon. A primeira surpresa foi a de muitos livros dedicarem os seus títulos aos portugueses judeus do século XVII. Um em especial chamou-me a atenção: Hebrews of the Portuguese Nation – Conversos and Community in Early Modern Amsterdam. Verifiquei que tinha sido vencedor nacional do troféu do livro judaico em História e prémio Koret em História, nos Estados Unidos. A autora é uma historiadora americana, professora universitária, investigadora e especialista em temas judaicos, Miriam Bodian.

A leitura do livro foi uma revelação para mim. A fuga dos portugueses judeus para Amesterdão era algo de natural, visto que a cidade era um porto de comércio colonial e as autoridades toleravam os judeus, não os perseguindo, e mais importante, tinham interesse em ver estabelecidos comerciantes com vastas ligações no império colonial português. Gente capaz de trazer para Amesterdão bens como açúcar, tabaco, especiarias, diamantes, etc. A perda da independência de Portugal em 1580 e a subsequente destruição de grande parte do poder marítimo português em 1588 com a derrota da “Invencível Armada”, abria um mundo de oportunidades. Foram criadas as companhias holandesas das índias Ocidentais e das Índias Orientais. Amesterdão tornou-se no maior centro europeu das especiarias e do comércio. 

Esta comunidade de portugueses, liderada por comerciantes ricos, auto-designava-se “Nação Portuguesa”, falava o português e fazia questão de orgulho na sua nacionalidade. Principalmente após a perda da independência do seu país. Queriam continuar uma espécie de Portugal extra-territorial, com cultura portuguesa mas de religião judaica. Uma das primeiras imagens que usaram, como sua representativa, foi a da ave mítica Fénix, a imagem da ave que renasce das suas próprias cinzas - podendo também simbolizar as cinzas, as fogueiras da Inquisição ou “autos de fé” e o “renascimento”, a redujaização de uma comunidade maioritariamente perseguida e batizada à força. Nacionalidade e religião determinavam o caráter fundamental da “Nação Portuguesa”.

Existiam numerosos judeus de origem portuguesa espalhados por todos os principais portos comerciais atlânticos e mediterrânicos, de Hamburgo a Istambul, passando por Londres, Alexandria, Tunis ou Veneza, bem como nas possessões coloniais portuguesas, Brasil, Cabo Verde, Luanda, Goa, Malaca, etc. Miriam Bodian cita o Padre António Vieira quando este afirma que na linguagem popular, em muitas nações europeias, "português" confunde-se com "judeu"

A sinagoga portuguesa hoje, em Amesterdão.
Mas nenhuma comunidade de portugueses judeus foi tão importante como a “Nação Portuguesa” de Amesterdão: construíram uma imponente sinagoga portuguesa (a Esnoga, que foi a maior sinagoga do mundo), ainda existente; eram exclusivistas e elitistas, não aceitando outras nacionalidades, além da castelhana – aliás, aceitavam judeus pobres de outras proveniências, como dos países escandinavos ou da Alemanha, mas apenas para criados ou para tarefas menores, não podendo estes ser membros da “Nação Portuguesa” ou frequentar a sinagoga (pagavam-lhes muitas vezes uma quantia para tomarem um transporte, estabelecerem-se noutro lugar e não ficarem em Amesterdão); criaram a “Dotar”, Santa Companhia de Dotar Órfãs e Donzelas Pobres, uma espécie de “segurança social” da comunidade, a que muitos judeus gostariam de pertencer, mas só poucos tinham direito – apenas para exilados de origem portuguesa e castelhana, vivessem em Amesterdão ou não [ver nota final].

Não consigo sintetizar a totalidade do livro de Miriam Bodian. Durante o livro, a autora tenta compreender o porquê deste apego e orgulho “étnico” à origem portuguesa, sem conseguir, quanto a mim, encontrar a explicação final. Essa “explicação” deveria estar em território português, na vivência anterior destes judeus que não queriam deixar de se sentir portugueses, apesar das perseguições e da maléfica Inquisição. 

Novamente, fui à procura de uma resposta que não encontrava.  

Nota final:
No preambulo dos estatutos da Dotar, diz-se que a sociedade seria “uma sociedade de portugueses, e  castelhanos, estabelecida com a graça divina, para casar órfãs e donzelas pobres desta Nação Portuguesa, entre os residentes de St. Jean de Luz a Danzig, incluindo a França, a Holanda, a Inglaterra e a Alemanha”.


Ver também I - Os portugueses judeus: o juiz Benjamin Cardozo.
e ver também III- Os portugueses judeus: em solo pátrio.