domingo, 31 de julho de 2011

Fernando Sylvan, grande escritor timorense da língua portuguesa.

Fernando Sylvan,
no lugar que nunca deixou, Timor.
(fotomontagem)

Fernando Sylvan ou Abílio Leopoldo Motta-Ferreira, foi uma figura destacada das letras de língua portuguesa. Nasceu em Timor-Leste em 1917 e vem para Portugal com apenas seis anos. Recebeu no Brasil, onde trabalhou, a medalha Pereira Passos pela sua atuação a favor da fraternidade universal em 1965. Foi professor convidado de universidades brasileiras, francesas e portuguesas. Em Portugal, foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa. Tem uma vasta e diversificada obra em géneros tão distintos como poesia, dramaturgia, ensaio e prosa. Foi-lhe concedida a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Resistente timorense, não chegou a ver a sua terra independente. Faleceu em 1993.

Ler Fernando Sylvan é um prazer tranquilo. Sylvan sabe como ninguém misturar o afeto com a sabedoria, a elegância com a tradição. Não apenas enriquecedor. Obrigatório.


A Cobra de Oiro do Rei de Lequeçan

Debaixo de cada pedra há um mistério; à sombra de cada árvore esfuma-se uma lenda. Mas nada é morto, pois tudo isso é alma, é vida, é segredo. Todo o timorense é espiritualista. E essa espiritualidade exprime-se principalmente pela maneira forte e amável como cada um cultua sua mãe. E ninguém será capaz de duvidar da palavra dela.
É que não está esquecido o que aconteceu aos dois irmãos do rei de Vèmassim e aos descendentes deles, condenados a tornarem-se na plebe mais plebe dos povos de Timor. Eles tinham-se esquecido de que só a mãe garante aos filhos o nome do pai. E o nome que ela disser é lei.
Pois os dois irmãos do rei de Vèmassim duvidaram da palavra da mãe quando ela lhes disse que o pai deles era a cobra de oiro do rei de Lequeçan. E como a palavra da mãe é lei, foram amaldiçoados até ao fim de todas as gerações. Mas o outro, o que acreditou na palavra e na honra da mãe, esse, foi abençoado e feito rei.

Cobra píton dourada
O rei de Lequeçan, e que depois o foi de Ué Massim, tinha um amuleto ou lulic de maravilhoso poder e que, metido numa preciosa caixa, trazia sempre na sua companhia: era uma cobra de oiro.
Numa noite em que o luar era tão claro, tão claro que o verde das florestas convidava os cavalos e os búfalos a não adormecerem, a cobra de oiro, libertando-se do seu refúgio de sono, transformou-se em homem. E que homem! Um homem todo de pele de café, com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos!
 E havia a jovem irmã do rei de Ué Massim, cansada de ser viúva do rei de Behali. E a cobra de oiro feita homem de pele de café, com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos fez reviver a carne da irmã do rei de Ué Massim, cansada de ser viúva do rei de Behali.
Nasceram três gémeos. E em todo o reino se perguntava pelo nome do pai deles. E as crianças, à medida que cresciam, ouvindo no ar o coro de tantas interrogações, perguntavam também pelo nome do pai.
Passara-se os anos. Os filhos da irmã do rei de Ué Massim, viúva do rei de Behali, fizeram-se homens. E, então, a mãe deles, que em jovem se cansara de ser viúva e que depois se cansava do silêncio que a desonrava, levou os filhos diante da caixa preciosa que encerrava a cobra de oiro do rei de Lequeçan e de Ué Massim  e revelou-lhes o mistério: a cobra de oiro era o pai deles!
Dois dos filhos vaiaram a mãe e apedrejaram o cofre da cobra de oiro. O outro acreditou no mistério do seu nascimento, porque só a mãe garante aos filhos o nome do pai. E o que ela diz é lei.
Então a cobra de oiro do rei de Lequeçan transformou-se de novo em homem de pele de café, ainda com o mar cavado nos olhos e o vento a bailar-lhe nos cabelos, como naquela noite em que o luar era tão claro, tão claro que o verde das florestas convidava os cavalos e os búfalos a não adormecerem. E a divindade humanizada ditou, bela e tragicamente, o destino dos filhos: o filho que não duvidara da palavra da mãe, e que era verdadeiro timorense, fundaria um reino, o reino de Vèmassim, e viveria enaltecido pelos seus súbditos. Mas os outros filhos seriam escorraçados e fariam parte da plebe mais plebe de Timor.

Esta lenda renasce de cada vez que nasce uma criança timorense. E cresce com ela. E por isso ninguém duvida da palavra de sua mãe. Porque, se duvidar, a cobra de oiro do rei de Lequeçan, ou outra cobra qualquer, ou a consciência, surgirá humanizada a castigá-lo. 


A Saída do Paraíso

No princípio do mundo, nada crescia. Mas existiam pessoas, montanhas, árvores, animais, rios, mares, tudo. Frutos e sementes de todas as espécies. Nada nascia nem desaparecia. Não caía uma folha, não se abria um fruto, não nascia uma criança.
Nem as pessoas, vendo-se umas às outras, procuravam saber para o que existiam. Não pensavam e se elas não pensavam também não falavam.
Diz-se que o luchan apareceu pronto com todas as coisas que o mundo ainda hoje tem. O princípio das pessoas, dos animais, das plantas e das coisas apareceram prontas. No luchan também foi assim, apareceu cheiinho daquilo que precisa de existir: sunguês, sanguês, ôbô, lagaia, galinha, cão, porco, rio, fruteira, coco, ar e luz.
Pois, no princípio de tudo, o que é que acontecia no luchan? Nada, absolutamente nada. Tudo existia, mesmo as pessoas. As pessoas eram já crescidas e nunca tinham sido crianças. Nem iam envelhecer, não havia sana nem sun. Não se sabia o que era nascer. Pessoas, animais, plantas nada propriamente tinha nascido. Existiam.
As pessoas não sabiam que relação tinham umas com as outras nem quem eram, nem para o que servia tudo o que as rodeava. Nem se era bom ou não o estar assim num tempo parado. Não estavam a dormir, mas também não estavam acordadas. Porque o não sabiam.
Mas a Lua passava e continuava a passar lá longe, por cima do luchan. Passou, passou, até que as pessoas sentiram e perceberam que a lua dizia coisas e fazia sinais que nunca eram os mesmos.
Praia paradisíaca em Dili

- O que é aquilo?
Foi a primeira frase que disseram, a primeira pergunta que puderam fazer. Todas as pessoas a fizeram. Começaram, então, a ser capazes de perguntar e de responder.
Perceberam que a Lua, de cada vez que passava, era diferente. Umas vezes, mostrava caras; outra, rios, montanhas, flores, mãos, frutos, gestos. E começaram a copiar e a imaginar e a aproveitar tudo o que as rodeava e comeram os frutos e serviam-nos umas às outras. Com isso, nasceu o tempo e a vida e entenderam o movimento.
Saíam do paraíso.
As pessoas já envelheciam e, por outro lado, nasciam crianças. As sanguês e os sunguês notaram as suas diferenças e souberam que isso era bom.
Nascia o amor. 
E riam!!!!!


Bandeira de Timor Leste






Corrigenda

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que soube viver
E pelo amor que tiver para dar.

sábado, 23 de julho de 2011

Três poemas de Gregório de Matos (1636-1695)


Gregório de Matos 
 (com o Pelourinho de SS da Bahia)
Nascido e falecido em terras brasileiras no século XVII, a vida do luso-brasileiro Gregório de Mattos e Guerra, é a de homem crítico e rebelde. Ver biografia no excelente sítio da Academia Brasileira de Letras. Como Camões, era mulherengo – repare-se como ele elogia os dançares das mulatas – e arranjou poderosos inimigos. 
O primeiro poema que selecionei, lembra-nos “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” de Camões, o segundo, não carece comentários extras e o terceiro continua atual, pois contrariamente ao que possamos pensar, os nossos vícios são os mesmos daquele tempo, que hoje parece distante.
Por não ter papas na língua, chamaram-lhe “Boca do Inferno” [ver foto abaixo].

Ler aqui 100 poemas de Gregório de Matos.

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Soneto sobre a instabilidade das coisas no mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

                  ***

Elogio ao bailar das mulatas

Ao som de uma guitarrilha,
que tocava um colomim [ver nota final]
vi bailar na Água Brusca
as Mulatas do Brasil:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi [ver nota final].

Não usam de castanhetas,
porque cos dedos gentis
fazem tal estropeada,
que de ouvi-las me estrugi:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

Atadas pelas virilhas
cuma cinta carmesim,
de ver tão grandes barrigas
lhe tremiam os quadris.
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

Assim as saias levantam
para os pés lhes descobrir,
porque sirvam de ponteiros
à discípula aprendiz,
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.

                ***

Sátira às falsidades dos homens

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo,
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos,
Sem tempestade, nem vento:
Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã ‘té à tarde:
Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:
Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:
Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido,
Com maior merecimento:
Anjo Bento!

Destes avaros mofinos
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:
Deus me guarde!

                   ***

A "Boca do Inferno" - fica em Cascais, Portugal, é uma reentrância na rocha
da costa atlântica, de águas revoltas - foi a alcunha do poeta Gregório de Matos.




















Nota final: colomim ou colomi é um indígena do Brasil; o paturi, foi uma dança popular no Brasil, na segunda metade do século XVII, antes do famoso lundu(m).

domingo, 17 de julho de 2011

A vida sem bacalhau seria mais triste

Vejo que ides a Alcobaça e Batalha. Bandidos! Miseráveis! Aproveitais a ocasião em que estou aqui, nas neves, para vos irdes refastelar de arqueologia, cavaqueira, aventuras de estalagens, bacalhoadas festivas e outras delícias!
Carta de Eça de Queiroz, de Paris, para o amigo Ramalho Ortigão


O bacalhau cá em casa

Adoramos bacalhau, em especial um bom bacalhau cozido com batatas cozidas e grão, bem regado com um azeite de qualidade. É uma refeição cara que não pode ser feita todos os dias. Ao Sábado ou ao Domingo, ao almoço, é geralmente a altura que a família escolhe para comer bacalhau. Penso que o mesmo se passará em muitos lares portugueses. Pelo menos, daqueles como nós, que ainda têm possibilidades de comer de vez em quando uma boa refeição de bacalhau. Ainda vejo muita gente no supermercado a comprar bacalhau. Por exemplo o Pingo Doce tem bacalhau de muito boa qualidade a um preço razoável. Com uma boa cura - sem humidade, e crescido, porque é assim que ele fica bom no prato, como diz a publicidade.

Não tenho o hábito de comprar o bacalhau congelado já demolhado. É mais prático, porque está pronto a cozer e tem a inegável qualidade de um bacalhau selecionado. Já experimentei o Pascoal e o Riberalves, têm excelentes postas de bacalhau, e para quem não deseja a maçada da demolha e colocar a embalagem diretamente no congelador ou pretender fazer uma refeição rápida, são a solução ideal.

Conservador como sou, admito, prefiro o ritual da demolha, com a pele para cima, claro, visto que a pele é estanque e não deixa passar o sal que tende a depositar-se no fundo da vasilha. Se a pele for virada para baixo, as postas ficam demasiado salgadas. Mas não gosto do bacalhau sem nenhum sal, por isso, além da passagem inicial das postas por água ou “lavagem”, para mim dois dias na água chegam, com apenas uma mudança de água no fim das primeiras 24 horas. Depois, coloco as postas em sacos plásticos no congelador. Cada saco fica com o suficiente para fazer uma refeição e dura muito tempo no congelador, não sei quanto, mas certamente mais de dois meses. Nunca o nosso bacalhau se estragou no congelador.

O bacalhau como eu gosto, tem de ser cozido em panela à parte da panela das batatas e dos ovos. O bacalhau em água a ferver, não demora mais do que 5 a 10 minutos a cozer, mas as batatas, demoram mais de 20 minutos. Só as retiro da cozedura, quando picando-as com o garfo, verifico que já não estão duras. O grão é cozido numa terceira panela. Penso que toda a gente faz estas coisas da mesma maneira.

O bacalhau é um peixe notável, e se este peixe não existisse no Atlântico Norte, talvez a história pudesse ter dado algumas voltas diferentes.


O bacalhau e os Descobrimentos

Aquilo a que chamamos “bacalhaus” podem ser peixes diferentes. O bacalhau do Pacífico, por exemplo, não é o mesmo peixe que o bacalhau do Atlântico Norte, que nos habituámos a comer. Concentremo-nos pois no Atlântico. O bacalhau teve uma grande importância na alimentação dos povos do Norte da Europa, e os índios indígenas americanos já o pescavam quando os europeus lá chegaram. Há mesmo quem discuta se os primeiros descobridores das costas da América do Norte e do Canadá, não terão sido os pescadores de bacalhau, vikings, bascos e portugueses.

Estudo do mapa de Pizzigano por Manuel Luciano da Silva
No caso português, pelo menos desde o século X, sabemos que os povos nórdicos frequentavam as costas portuguesas para comprar sal, em troca de bacalhau. O primeiro tratado conhecido para a pesca dos portugueses no Atlântico Norte é de 1353 entre D. Duarte II de Inglaterra e D. Pedro I de Portugal. Corte-Real, navegador e capitão donatário das ilhas da Terceira e de S. Jorge nos Açores, realizou duas viagens ao Atlântico Norte no século XV, partindo dos Açores. Uma terá sido à Terra Nova antes de 1472, em companhia de João Fernandes, Álvaro de Ornelas e Pedro de Barcelos. Chamaram ao local “Terra dos Bacalhaus”. Colombo só chegaria à América, em 1492, vinte anos depois [Ver o excelente livro da Academia do Bacalhau de Lisboa, “O Bacalhau na Vida e na Cultura dos Portugueses” de Marília Abel e de Carlos Consiglieri].

Manuel Luciano da Silva, investigador e médico português entusiasta e incansável, já com muitos anos de vivência nos EUA, afirma, com base num mapa de Zuane Pizzigano de 1424 [ver nota no final], que pelo menos desde essa data os portugueses já teriam descoberto o continente americano. O mapa, inclui os contornos da Terra Nova e Nova Escócia, ilhas das Caraíbas e locais da América Central facilmente identificáveis. Além disso argumenta que ao estudarem-se os nomes de antigas tribos índias americanas, algumas atribuem o seu nome e o de vários locais aos portugueses: Bacalhau, Fogo, Minas, etc. Ver aqui.


O bacalhau – duas curiosidades da História

Os portugueses tendem a pensar que só eles conhecem e consomem bacalhau. É verdade que nós somos hoje os grandes especialistas, os gurus do bacalhau. Ninguém em parte nenhuma do mundo, tem nada de remotamente parecido com o nosso pantagruel de receitas de bacalhau. Julgamos por isso, que ninguém nos pode ensinar coisa alguma sobre o bacalhau. Nada de mais falso. Usando uma conhecida frase, permitam-me o trocadilho, “há mais vida no bacalhau, para além de Portugal”. Vou dar dois exemplos.

O Sagrado Bacalhau do Massachusetts
O bacalhau foi muito importante na história da colonização americana. O grupo mais conhecido de ingleses a criar uma colónia estável na América chegou em Novembro de 1620. Foram os famosos pilgrims/peregrinos, cristãos dissidentes da Igreja de Inglaterra, no barco Mayflower/Flor de Maio. A primeira terra americana avistada foi Cape Cod/Cabo Bacalhau no atual Estado do Massachusetts. Na baía que esse cabo forma, fundaram a colónia de Plymouth cerca de 300 kms a Nordeste de Nova Iorque. Os primeiros tempos foram muito difíceis. Chegaram em pleno Inverno, os desgraçados, e a maioria não conseguiu sobreviver ao frio e à fome. Dos 102 passageiros da Flor de Maio, já só restavam 47 sobreviventes no início da Primavera de 1621. Nos primeiros meses, para se protegerem, do clima e dos indígenas, decidiram ficar dentro do barco. Mas apesar da abundância de peixe, não tinham conhecimentos de pesca, e sofreram de escorbuto, pneumonia e tuberculose. 

Em Março, começaram a construção das primeiras cabanas em terra. Com pena da miséria deles, os índios ensinaram-nos a apanhar marisco e peixe, principalmente bacalhau, e a usá-lo para o adubo das terras. A pequena colónia conseguiu aguentar-se. Os peregrinos talvez não tivessem celebrado o seu primeiro Dia de Ação de Graças/Thanksgiving Day sem o bacalhau. Um dos primeiros emblemas da Casa dos Representantes, que com o Senado forma o Congresso Americano, foi a figura de um bacalhau e, na Casa dos Representantes estaduais do Massachusetts, é impressionante ver o lugar que ocupa o "Sagrado Bacalhau".

Aparelho e método de corte de redes
Já em pleno século XX existiram “guerras do bacalhau” (cod wars) entre a Islândia e o Reino Unido. Este conflito gerou-se quando os islandeses estabeleceram planos para reduzir a pesca em excesso de bacalhau. Impuseram um sistema de quotas que os pescadores do Reino Unido não acataram, e a Guarda Costeira Islandesa começou a cortar as redes dos barcos de pesca em alto mar. As disputas já vinham dos anos 50, mas em 1972 a Islândia declarou unilateralmente uma zona económica exclusiva, para além das suas águas territoriais. A Marinha Real interveio na proteção dos seus pescadores e chegou-se a vias de facto com incidentes graves entre navios das duas Marinhas. 

O assunto só foi resolvido quando os Islandeses em 1976, ameaçaram fechar a importante base da Nato no seu território. A sua zona económica exclusiva de 200 milhas náuticas (370 km) foi reconhecida, e o assunto foi resolvido, ficando proibido aos pescadores do Reino Unido pescarem bacalhau naquelas águas. As várias disputas em todo o mundo, sobre águas territoriais e zonas económicas exclusivas, levou as Nações Unidas, em parte precipitada pelas “guerras do bacalhau”, a estabelecer um acordo internacional sobre o tema: a Convenção de 1982.

Pois é. Isto do bacalhau, tem muito que se lhe diga.

Nota: Para o livro “1421: The Year China Discovered the World”, o autor Gavin Menzies utiliza o mesmo mapa para “demonstrar” que os chineses terão descoberto a América, apesar dos lugares estarem escritos em língua portuguesa. Há cada um.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ricardo Jorge (1858-1939): uma lição de literatura portuguesa – II


Anotações e comentários a cor azul [ou entre parêntesis reto], da responsabilidade deste blogue.

[De como Ricardo Jorge entende a importância de Os Lusíadas]
.  
Com o Épico, Portugal inscreve o nome e a língua nas tábuas doiradas de toda a literatura europeia dos Quinhentos. Não houve idioma que o não vertesse – testemunho universal de apreço inexcedido, mas, distinga-se, não de correspondente influência imitativa. Os Lusíadas fermentaram ativamente e até excessivamente, levedando epopeias à flux [1]; todavia este poder fecundante nem sempre benéfico, esgota-se in situ, em Portugal e Espanha. São coisas diversas, o valor intrínseco, estético, duma obra e a sua ação extrínseca, de imitação e reprodução.Desde a sua esplendorosa aparição, a Epopeia Magna tem sido até hoje sopesada, dissecada e microcopizada [2], pela crítica, e às pesquisas dos nacionais ajuntaram-se as estranhas. Esta exegese camonológica, por penetrante e positiva que seja, descai por vezes em subtilezas e até em fantasias; às lendas e invenções primeiras, outras se somaram de tal arte que, apesar de tanto feito, há muito que fazer e ainda que desfazer. Deve-se estimular este afã no culto e cultivo do grande génio poético da Lusitânia, mas – proclame-se bem alto – sem atirar ao limbo tantos dos demais portugueses que prosaram e poetaram obras insignes.

Comentário: embora se reconheça a genialidade de Os Lusíadas, a sua ampla tradução e divulgação, a sua capacidade mimética, fora do espaço das línguas portuguesa e castelhana, é limitada, na opinião de Ricardo Jorge; diz mesmo que a dimensão da obra, corre o risco de ofuscar outras grandes criações literárias de autores portugueses.

[Obras portuguesas com influência na literatura estrangeira]

Por duas vezes em cheio nos Quinhentos atuamos sobre a produção literária universal: a primeira, com as novelas de cavalaria, desde o Amadis de Gaula do Lobeira ao Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Morais; a segunda, com as novelas pastorais, a Diana de Jorge de Montemor e seus epígonos [3]. Duas estirpes de raça portuguesa que bracejaram por toda a parte e filharam fecundamente.

[As novelas de cavalaria]

Amadis de Gaula salva donzela (1860)
de Eugene Delacroix
O Amadis de Gaula exerceu fascinação de feitiço sobre os seus leitores que foram quantos soletrassem letra redonda, de todas as idades, de todas as nações e de todas as falas. Bastará dizer que até em hebraico o traduziram em Constantinopla. Sobre galvanizar dextras [4] de guerreiros, escandeceu seios de donzelas, rastilhou o fogo das paixões, soltou caudais de lágrimas como punhos – pungiu, enterneceu e deliciou. Que maior prestígio pode alcançar um livro que o de cativar a Cosmópolis [5] durante mais de um século? Êxito mundial e mundano.


Rivaliza-o no milagre o Palmeirim de Inglaterra; mais cuidado de feitio, mais vistoso de efeitos, melhor entrechado, com mais variedade e delicadeza, não admira que o Barbeiro e o Cura do Cervantes o livrassem da fogueira na casa de D. Quixote. Li-o em tempo sem enfado e conservei a memória da tenção da Miraguarda e do façanhudo Gigante do Castelo de Almourol que ainda se mira na veia do Tejo. Roberto Southey [6], visitante ilustre da nossa terra, traduziu-o ainda em inglês no princípio do século passado [século XVIII] e vi algures que uma cabeça como a de Burke [7] se entretinha com a sua leitura. Quem diria que, se me não engano e oxalá que sim, nunca mais veio a lume na sua terra desde 1852!
Tramóias de cavalarias! Era popular no meu tempo o Carlos Magno, extasiei-me em criança com as valentias de Oliveiros e Roldão e com o arreganho da Giganta Amiota, que mereceu lembrança a Garret.

[As novelas pastorais]

Quem cria o género e o eleva de chofre ao fastígio da fama e do aplauso, é Jorge de Montemor, natural de Montemor-o-Velho, familiar da Casa da Infanta D. Joana. A sua Diana, romance em prosa e verso, não se imagina hoje o entusiasmo que a acolheu e a auréola que circundou o afortunado Autor, guindado logo a engenho primaz da Península, por voto unânime de cultos e incultos. “Nenhum outro livro, diz bem Bouterwek [8], assim deu eco depois do Amadis e teve de súbito tantos imitadores como o Amadis”.
Saída à luz em 1558, dão-na à estampa quase todos os centros gráficos da Península, inclusive Lisboa. Em França, recebe três traduções, publicadas em edições repetidas; sucede o mesmo em italiano, em inglês e em alemão. A sua descendência foi múltipla e lata. O renascentista britano Philip Sidney [9], inspira-se da Diana na sua Arcádia e verte alguns dos poemetos de Montemor. Até em Shakespeare se divisam traços imitativos, por exemplo em The Two Gentlemen of Verona.

Comentário final:
Como somos ignorantes. Eu assim me senti ao ler esta lição. E como Ricardo Jorge continua a ter razão hoje, passados tantos anos; como é possível termos chegado ao século XXI, e nunca termos estudado - ou sido obrigados a ler e estudar, no ensino secundário – Amadis de Gaula, Palmeirim de Inglaterra ou Diana?

O original de Ricardo Jorge é um texto maior e mais rico – a sua totalidade encontra-se no livro, Sermões dum Leigo de 1925.

Notas:
[1] à flux – em abundância
[2] microcopizada – não encontrei o significado – poderá ter que ver com copiar?
[3] epígonos – descendentes.
[4] dextra – A mão direita.
[5] Cosmópolis – ou cosmópole, grande cidade onde pessoas de várias culturas e proveniências vivem.
[6] Robert Southey (1774–1843), poeta romântico inglês.
[7] Edmund Burke (1729–1797) politico e filósofo britânico.
[8] Friedrich Bouterwek (1766–1828), alemão, escreveu a História da Literatura Espanhola e Portuguesa, publicada entre 1805 e 1817. 
[9] Sir Philip Sidney (1554–1586) poeta inglês.

domingo, 3 de julho de 2011

Ricardo Jorge (1858-1939): uma lição de literatura portuguesa – I

Ricardo Jorge
Quanto mais vou conhecendo a nossa história, mais entusiasmado vou ficando alguns aspetos particulares, como é o caso da história da medicina em Portugal: sempre o nosso pequeno/grande país teve dos médicos mais notáveis a nível mundial. Um desses grandes homens terá sido Ricardo Jorge [1], que hoje dá nome ao Instituto Nacional de Saúde e cuja biografia resumida pode ser lida aqui. Além da medicina e do seu perfil humanista, Ricardo Jorge era um conhecedor de cultura portuguesa, em especial da literatura, tornando-se numa das vozes mais interessantes de ler e de ouvir sobre o tema. Tanto assim, que em 1934, é convidado para ministrar uma lição no Curso de Férias da Faculdade de Letras de Lisboa, que intitulou “O Nosso Amorismo Novelesco nos Quinhentos – Sua Influência na Literatura Universal”. A comunicação foi realizada a 7 de Agosto do mesmo ano, no Museu do Conde de Castro Guimarães, em Cascais. Não me proponho transcrevê-la na íntegra, por demasiado longa para o blogue, mas apenas aqueles trechos que mais curiosidade me suscitaram, anotados e comentados a cor azul - parêntesis retos e notas são da minha responsabilidade. 

[De como Ricardo Jorge humildemente se apresenta]

SR. PRESIDENTE, MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES.

Pois que fiaram de mim um tema de escolha a versar sobre literatura nacional e comparada, não havia senão que entrar com ele de plano e a direito, desviando o aparato usual de saudações e cerimónias. Não posso porém calar a estranheza que a mim próprio causa, quanto mais aos outros, a minha presença neste posto, e feito ainda cerra-fila de conferentes, esses sim magistrais, dignos desta grande iniciativa cultural e deste auditório seleto. Duas antinomias patentes mo deveriam vedar: uma, a destes cabelos brancos a denunciarem quão longe está a data do batismo e quanto já ultrapassei o marco da idade, além da qual a Lei retira a validade mental, infligindo a interdição do minus habentes [2]; outra, a carência de colação de título ou ofício, abonadora da capacidade idónea. Usurpações estas de personalidade e graduação, confessadas ambas pelo penitente, mas que o Diretor da Faculdade de Letras, convidador e ordenador deste empreendimento didático enjeitou in limine [3], sob sua alta responsabilidade, na qual declinei passivamente a minha. 

[De como Ricardo Jorge relaciona as literaturas nacionais]

MEUS SENHORES.

Não há, nem houve, literaturas autárquicas, no sentido que hoje se dá ao termo em matéria económica, isto é, letras que vivam de si próprias, nutridas como os filhos do pelicano, do sangue estreme bicado do seio do povo ou do país em que medram. Não existem então literaturas nacionais, como geralmente se crê, as chamáveis demo-tópicas, tão apregoadas como timbre específico da terra, do clima e da gente, à moda tainiana [4]? Dissemo-lo já, vêm a tornar-se nacionais, mas não nascem nacionais. Acertado o juízo crítico de Hennequin [5]: ”Uma literatura exprime uma nação, não porque esta a produziu, mas porque a adotou”. Por singular que pareça, à formação das literaturas cultas preside a exogenia, qualquer que seja a confluência dos fatores autóctonos.
Pode-se comparar o tráfego literário ao mercantil. Circula a obra escrita, como circula a mercancia, num intercâmbio felizmente libérrimo. Contra as maiores valias da ideação artística, inútil erguer barreiras aduaneiras e pautas proibitivas; nada mais veloz que o pensamento, diz o povo – nenhum obstáculo o detém, sobre todos salta. Importam-se e exportam-se as produções da pena e deste comércio é que se geram as correntes do gosto, a evolução contínua de géneros, modos, estilos, escolas e épocas.   

Comentário: imagino como esta opinião não tenha sido pacífica naqueles idos anos trinta do século passado, ao francesismo modista do século XIX e da Primeira República, adveio o nacionalismo extremado pela afirmação salazarista e hoje, o extremo é novamente dos estrangeirismos; em várias épocas, sempre a mesma falta de equilíbrio de influentes medíocres e embasbacados; o mérito de Ricardo Jorge, é trazer bom senso à equação.

[De como Ricardo Jorge explica a divulgação da literatura portuguesa pelo mundo]

Este Extremo Ocidental tinha e tem contra si, para a difusão da sua atividade espiritual, a situação e a língua. À ilharga dum país, como Castela, de largo território – o nosso povo diz “Portugal é um ovo, a Espanha uma peneira, a França uma eira” – Castela, que de posse ao tempo do mais forte e do mais amplo imperialismo europeu, vulgarizou nos centros estrangeiros o seu idioma e quanto nela forjaram os seus escritores famigerados – Portugal, esse falava uma língua que não deve nada a nenhuma em excelências locutivas, mas que não era facilmente acessível. Entrámos mais intimamente no convívio internacional pela fama dos nossos descobrimentos e pela porta do comércio quando pela rota da Índia nos tornámos o empório importador e distribuidor dos géneros asiáticos. A nossa judiaria [6] pela sua força social e pela preclaridade [7] intelectual serviu também grandemente, antes e depois da diáspora da expulsão, a propaganda da linguagem do país que os israelitas amaram e honraram como segunda terra de promissão. Não deixaram tantas das nossas obras de vogar no mundo, trasladadas, ora em latim, ora nas línguas vivas – desde a dos místicos como Tomé de Jesus e Heitor Pinto, as dos aventureiros como Fernão Mendes Pinto e António Galvão, as dos cronistas como João de Barros, Góis e Castanheda, até o Poema formidável de Camões que dum jato conquista a admiração cultural da Ibéria e do Mundo – hinário do esforço civilizador de Portugal ao abrir mares e continentes para a expansão das gentes, até aí constringidas no aro da velha terra.

Comentário: os descobrimentos como veículo de divulgação da língua e literatura portuguesa é um lugar-comum por todos aceite; a importância dada aos portugueses judeus, à sua capacidade intelectual, antes e depois da sua diáspora após a miserável expulsão manuelina, é para mim, a maior originalidade desta explicação; Ricardo Jorge tinha estudado a história destes portugueses, muitos deles notáveis médicos, como Amato Lusitano e Garcia de Orta.


Notas:
[1] Das outras grandes figuras da nossa medicina, do tempo de vida de Ricardo Jorge, etimologicamente “conterrâneos”, verifiquei que poderia citar os nomes de uma miríade de médicos, tantos e tão importantes são, que receio pecar por escasso. Muitos deles dão hoje nome a fundações, instituições e hospitais. Referirei apenas como exemplo, Sousa Martins, Santo do povo de Lisboa, e o Nobel Egas Moniz.
[2] minus habentes – incapazes.
[3] in limine – de início.
[4] tainiana – do historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), que estudava a arte no contexto da “raça, meio e momento”.
[5] Hennequin – Émile Hennequin (1859-1888), que tentou teorizar a criação artística.
[6] portugueses judeus – consultar texto 1, texto 2 e texto 3, neste blogue.
[7] preclaridade – capacidade, brilhantismo.