sábado, 24 de setembro de 2011

O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.



Muitos de nós sabemos de cor esta frase do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa.  O que não imaginamos é a dificuldade de a traduzir para outra língua. Se tomarmos como exemplo o inglês, como a traduziríamos? Eu tentei e saiu assim:

The poet is a pretender
He pretends so fully
That he even pretends pain
When pain he truly feels

Não consigo que rime em inglês, e o “when” está fora do sentido do texto. Um falhanço. As dificuldades são comuns a todos os que se atrevem ao exercício.  Vejamos o exemplo seguinte:



The poet is a faker. He
Fakes it so completely
He even fakes he's suffering
The pain he's really feeling

Também não resulta totalmente. A palavra “suffering” não  devia aqui estar, e a palavra “pain” deveria ser repetida.


The poet is a man who feigns
And feigns so thoroughly, at last
He manages to feign as pain
The pain he really feels

O “thoroughly” não é o melhor adjectivo e o “at last” seria dispensável.

Em http://disquiet.com/tlist.html encontramos um grande número de traduções:

The poet is a fake
His faking seems so real
That he will fake the ache
Which he can really feel
The poet fancying each belief
So wholly through and through
Ends by imagining the grief
He really feels is true
The poet is a feigner
He feigns so completely
That he even feigns that he is suffering
The pains that he is really experiencing
Poets are people who feign
They feign so thoroughly
They'll even mime as pain
The pain they suffer really
Poets feign and conceal
So completely feign and pretend
That the pain which they really feel
They'll feign for you in the end
The poet is a pretender
He pretends so completely
That he even pretends
The pain he really feels
The poet is a feigner
So completely does he feign
that the pain he truly feels
he even feigns as pain
The poet is a forger who
Forges so completely that
He forges even the feeling
He feels truly as pain
The poet is a forger
He forges so thoroughly
That he even forges the pain
He really feels as pain
The poet is a pretender
Pretend as completely
That comes to pretend that pain is
The pain that they really feel
Poets are liars
They lie so completely
That they make up pain
Even when they're hurting
The poet is an inventor
He invents so completely
That he succeeds in inventing
That the pain he really feels is pain
The poet's good at pretending
Such a master of the art
He even manages to pretend
The pain he really feels is pain
The poet is a feigner
his feiging so complete
that he comes to feign a grief
in the grief he really feels
Poets pretend
They pretend so well
They even pretend
They suffer what they suffer

A tradução que mais gostei, embora um tanto livre, encontreia-a aqui:

The poet is a faker
Who’s so good at his act
He even fakes the pain
Of pain he feels in fact

Concluí que dificilmente duas pessoas encontrarão a mesma solução. E já agora, eis o poema completo de Fernando Pessoa:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Apetece dizer, que em português, está perfeito.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Trasgo Loiceiro: espírito mau da tradição popular portuguesa.

Selos dos CTT: Leite deVasconcelos
e Emília de Sousa Costa

Leite de Vasconcelos (1858-1941) é uma referência, dos estudos de linguística e de etnografia em Portugal e por isso fui consultar o seu livro de 1882, “Tradições Populares de Portugal” para procurar saber quem era a figura do Trasgo Loiceiro. No livro, são adiantadas várias possibilidades, consoante as fontes. Poderia ser um diabrete ou o próprio Diabo, uma pessoa ou um espírito mau caseiro, que aparece durante a noite, principalmente para sobressaltar mulheres. Leite de Vasconcelos cita uma história em que o Trasgo Loiceiro incorpora um banquinho. A história completa, fui encontrá-la num livro para crianças, “Castelos no Ar”  de Emília de Sousa Costa (1877-1959), que inclui contos e lendas populares portuguesas, publicado em 1918:

O Trasgo Loiceiro

Era uma vez certa mulher chamada Maria Rita, natural de Santa Marta, pequena aldeia nos arredores de Penafiel, uma cidadezinha muito alegre e asseada da província do Douro.
A Maria Rita tinha dois péssimos costumes: ser indiscreta, isto é, contar tudo quanto diante dela se dissesse e rogar pragas o que, em linguagem popular, quer dizer, desejar mal a alguém.
Quase sempre de humor desagradável e de génio assomadiço, proferia palavras indecentes ou grosseiras, ao mais fútil pretexto para zangar-se e, à mais ligeira contrariedade, mandava tudo e todos para o diabo.
Apenas se arreliava, fosse com quem fosse, depois de vomitar um longo rosário de indecências, rematava com: Strenoque-te para o diabo dos infernos!” – o que na sua pouco própria linguagem de fúria significava “Vai para o diabo!”
Toda a gente lhe chamava mulher insuportável e mal educada e evitava, por isso, conversar ou conviver com ela.

Ora, numa noite tempestuosa, dormia a Maria Rita muito descansada, depois de todo o santo dia ter ralhado e descomposto meio mundo, quando sentiu na cara uma tremenda bofetada.
Ilustração de Alfredo de Moraes
Strenoque-te para o diabo dos infernos!” exclamou ela furiosa, depois de uma das suas habituais ladainhas de tolices, enquanto procurava fósforos que deixara sobre a arca, para acender a candeia, espetada pelo gancho de ferro à cabeceira da cama.
Palavras não eram ditas, outra bofetada estalou na face oposta. Candeia, fósforos e Maria Rita, tudo rolou no chão, tal o atordoamento produzido pela violência da bofetada.
Começou então a gritar, com quanta força tinha, que lhe valessem. Aos seus gritos acudiram alguns vizinhos, que supondo tratar-se de ladrões, vieram armados de ancinhos, trancas, pás, espadelas, enfim, dos primeiros objetos que puderam haver à mão.
Ao saberem do que se tratava, todos desataram a rir, dizendo-lhe que tinha sido pesadelo e que se deitasse e dormisse.

Maria Rita protestava e mostrava a cara ainda avermelhada das bofetadas e queixava-se de forte dor de cabeça, quando entrou a tia Pulquéria de Jesus, velhota muito entendida em rezas e bruxarias e considerada um oráculo naquelas redondezas.
“Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!” murmurou ela ao entrar.
“Para sempre seja o Senhor Louvado!” responderam em coro os assistentes.
“Hadei (*) o que aconteceu?” inquiriu a tia Pulquéria, aconchegando do pescoço uma farta saia de franzidos com que à moda da terra, agasalhava os ombros e sentando-se placidamente na arca.
Maria Rita referiu o sucedido, entremeando os pormenores com grandes suspiros.
A tia Pulquéria, depois de pensar uns segundos, afirmou com ar convicto que não deixou dúvidas nem ao mais incrédulo dos presentes:
“Olha cachopa, andavas sempre a dar tudo ao diabo, ele com sua mão de ferro trouxe-te a paga. Eu vou benzer-te o ar ruim. Depois muda de casa, põe a língua mais curta e verás que não te acontecerá outra”.
E tirando do bolso três palhas-alhas [1], fez-lhe com elas três cruzes: da testa ao ventre, do ombro esquerdo ao direito e do direito ao esquerdo, dizendo:

“Jesus Cristo nasceu.
Jesus Cristo morreu.
Jesus Cristo ressuscitou.
E assim como é verdade,
O Senhor te tire esta dor,
Este mau olhado
De vivo, ou de morto,
Ou de excomungado.
Pelo poder de Deus
E do Senhor Santiago!”

 Depois de mais uma vez lhe recomendar que se emendasse, retirou-se seguida da assistência que presenciara a cerimónia com o maior recolhimento.
A Maria Rita lá se consolou como pôde e resolveu mudar de casa no dia seguinte, ajudada por uma vizinha. Assim fez.
Já tinha mudado tudo; só faltava um banquinho e ia buscá-lo quando, de repente, esse banquinho que ela guardava debaixo da cama e lhe servia para se sentar à lareira a fazer serão, começou a andar, a andar, sem ninguém lhe tocar.
A Maria Rita a correr atrás dele a perguntar: “Aonde vais banquinho?”
E o banquinho sempre a andar apressadamente e a responder: “Tu não te mudas? Pois também eu. Para onde fores, irei eu, porque

Eu cá sou o Trasgo Loiceiro
Da Mão de Ferro companheiro
Castigo quem é chocalheiro
Ou na linguagem é porqueiro.”

“Não que eu não te quero comigo!” replicou a Maria Rita assustada.
“Queres, queres. Que remédio tens senão querer. Tu bem vês que não me levas e eu vou”, retorquiu o banquinho muito arteiro [2].
Maria Rita não teve outro remédio senão abrir a porta da nova morada ao banquinho, mas para o não ver, fechou-o na arca.
Contudo, nunca, daí em diante, começou a repetir coisas que não devia, ou a proferir palavras grosseiras ou mal soantes, que não ouvisse uma voz esganiçada gritar-lhe:

“Eu cá sou o Trasgo Loiceiro
Da Mão de Ferro companheiro
Castigo quem é chocalheiro
Ou na linguagem é porqueiro.”

E o caso é que a Maria Rita, lembrando-se das bofetadas e do susto que sofrera, aprendeu a calar-se, e a moderar-se, tornando-se numa mulher discreta e prudente.

Bendito e louvado! Meu conto acabado!

Nota do texto original:
(*) Nas cercanias de Penafiel e entre o povo da mesma cidade, emprega-se frequentemente este termo, desconhecido dos lexicógrafos; supomos que seja corruptela de – e daí.

Notas deste blogue:
[1] Palhas-alhas – folhas secas do alho.
[2] Arteiro – manhoso ou astuto.

Comentário final:

A designação “trasgo loiceiro” ainda não está clara para mim. A palavra “trasgo” significa, de acordo com o meu melhor dicionário, “uma aparição sobrenatural, duende, travesso”. Existe o verbo “trasguear”, que significa fazer travessuras de trasgo ou traquinar. “Loiceiro” é um fabricante ou negociante de loiças, um guarda-loiças, um utensílio, formado de um tronco vertical, com galhos, para neles se pendurar a loiça da cozinha ou um tabuleiro para se colocar a loiça. Não vejo a relação entre “loiceiro” e “trasgo”: será que existiria algum negociante em loiças de mau caráter? Será que a criatura teria chifres, simbolizados pelos galhos para se pendurar a loiça? Chama-se por vezes “loiça”, a qualquer artigo de olaria ou cerâmica e também a chocalhos de animais. Enfim. Permanecerei na dúvida até que algo ou alguém, me esclareçam. Entretanto, aqui fica transcrita esta pitoresca história.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A Google entra na Carris

Todos gostamos do elétrico tradicional da Carris e ontem ele foi aniversariante e imagem da Google. O primeiro foi há 110 anos.












Já não saberíamos viver em Lisboa sem a Carris. São muitos anos ao serviço dos alfacinhas. A Carris faz parte da história desta cidade e a visita ao seu museu é obrigatória para todos, em especial para as escolas. Ver em http://museu.carris.pt/










Hoje os transportes públicos atravessam, tal como o estado e o país, tempos de dificuldade. Oxalá que, para a Carris e para os outros transportes coletivos - que não precisam de ser públicos - estas dificuldades sejam ultrapassadas e se transformem numa nova oportunidade de crescimento, tornando as cidades menos poluídas e com menos carros particulares. A Carris tem ainda um grande futuro pela frente.


[Elemento da capa das desaparecidas "Seleções BD" de Fev 2001]