domingo, 30 de outubro de 2011

Maià Póçon III – Domingo na roça

Foto antiga da formatura, na roça de Água-Izé. Ver nota [7]
São Tomé e Príncipe é a vegetação luxuriante, as praias equatoriais e o turismo, as roças, o cacau, e principalmente, a sua gente. Mas, quando falamos na cultura do país – para quem não é santomense – a ignorância, é quase total. Vem-nos apenas à memória nomes como os de Viana da Mota e de Almada Negreiros, mais ligados à cultura europeia que à africana. Não conhecemos os seus escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, etc. Apesar disso, encontrar o livro Maià Póçon do santomense Viana de Almeida, de 1937, não é apenas um mero exercício de curiosidade literária, é o conhecimento que ele nos dá de todo um povo, nos idos anos 30 do século XX. Nestas poucas linhas do conto que aqui transcrevo, Viana de Almeida, condensa aspetos da vida de um trabalho forçado, a música e a dança, a tristeza e a alegria.

Na minha modesta opinião de leitor, Maià Póçon é uma rara pequena-grande jóia da literatura de língua portuguesa do século passado. Um livro não se mede aos palmos. Pela realidade que cuidadosamente descreve, pelas temáticas que discute, pelo estilo elegante e principalmente, inteligente. Se nos dias que correm, os contos de Maià Póçon parecem estar esquecidos ou menorizados, nos tempos que estão para vir, creio, as novas gerações descobrirão o seu real interesse. Único.

TRABALHO E DANÇA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Domingo na roça” de Viana de Almeida, 1937.

(...) A multidão dos trabalhadores, homens, mulheres e crianças, irrompe das portas das senzalas [1] e, ainda ultimando os preparativos, alinha-se numa formatura impecável de batalhão treinado em manobras militares. Os capatazes que hão de dirigir os diversos grupos, já estão a postos. O Administrador da roça observa da varanda da sua casa e o Feitor Geral passa revista minuciosa, dando a este e àquele uma ordem seca e breve. Ao cabo, perfila-se e comanda: larga!
Ordenadamente a formatura desfaz-se e compõe-se vários grupos que se dispersam pelos centros de trabalho. Mas a tarefa, ao domingo, não é fatigante. Para uma minoria consiste em dar o último toque a qualquer ocupação que, no dia anterior, tivesse ficado em suspenso. Os demais vão cortar capim que ficará amontoado num celeiro para pasto do gado durante o dia.
Ora, sabem que cortar capim é obra que a ninguém assusta: pelo contrário, faz-se agradavelmente. Em primeiro lugar, a tarefa chega ao final em pouco tempo. Ao meio dia, soa a hora de largar o trabalho. Este assim, realiza-se todo de manhã, pela frescura das primeiras horas do dia. O sol não castiga a pele, fazendo correr pelas costas regos de suor. Na atmosfera lavada corre uma aragem que sussurra no alto ervaçal. E depois não se sentem os olhos dos capatazes cravados nos que mourejam, em vigilância constante.
Há possibilidade de trocar dois dedos de paleio para amenizar, chalacear com certa rapariga ao pé e de cantar uma melopeia monótona, mas que ajuda a suportar o cansaço. Desta forma, chega o momento de regressar à Sede. De grandes molhos de capim sobre a cabeça, aí voltam eles em alegre tropeada [2] sob a direção, por um dia, negligente dos capatazes.

Há uma nova formatura no terreiro. Quando o Feitor Geral terminada a revista, dá ordem de largar, de todos os peitos sai um grito estrepitoso de júbilo. Deixam a formatura em balbúrdia de palavras e exclamações e, como um rebanho tumultuante, dirigem-se para as senzalas.
Hora alegre! Hora pela qual começa uma tarde de descanso bem ganho, de festa, de lambança [3]! Hora única na semana, para a gozar, deitam-se para trás das costas todos os cuidados!
Primeiro que tudo, trata-se da paparoca. Toca a pôr as panelas ao lume e a preparar a farinha da mandioca fina, a malagueta cáustica e estimulante e o peixe seco que há de dar molho de fazer cantar a língua nos dentes. Tudo isto há de servir para a confeção do “funje” [4] que, ao domingo é o prato de todos aqueles que verdadeiramente se prezam.
Daí a pouco, espalha-se no ar o cheiro do azeite de palma frito e, quando se põe o almoço na mesa feita de esteira, então, senhores, é que é ouvir as risadas de alargar o peito, os gritos estrídulos [5] das mulheres, as palmadas que ressoam nas coxas.
Quando a fome já se encontra satisfeita, cada um pode fazer o que lhe der na cachimónia. Se há quem tenha amigos ou namorada nas outras Dependências da roça e quer cumprir os seus deveres de etiqueta, é livre de se pôr a caminho e de lhes levar o gosto da sua presença e da sua conversa. Outros ao invés, fazem as honras da casa e recebem visitantes que vêm de longe. Há novidades a ouvir e impressões a trocar sobre a forma como as coisas correm.
É bom que se deixe abrandar o ardor da canícula, antes de sair para o terreiro, para começar o batuque. Á hora em que o sol começa a descer para o mar, é que um homem pode conhecer bem o que é a embriaguês das músicas, dos tambores, dos chocalhos, da dança. Mas já se começam a ouvir os primeiros repiques, ensaiados por dedos nervosos sobre a pele de cabra. Até o sangue parece que lateja mais forte nas veias. O que será então quando a “puíta” começar com os seus borbotões surdos!
Quando chega o momento, esperado com tanta impaciência, já o coração pula, os músculos estão contraídos esperando a ocasião de se distenderem, os artelhos não sabem como se hão de conter por mais tempo, todo o corpo estremece em vibrações reprimidas.

Puíta. Ver nota [6]
Dispõe-se numa roda ampla, em que se alternam homens e mulheres. Aqueles têm o tronco modelado pelas camisolas. Sob os panos de riscado e blusas das mulheres, pressentem-se linhas com o garbo característico dos corpos de ginastas. No contorno interior da roda, dispõem-se, de espaço a espaço, os rufadores de tambor. O que vai tocar “puíta”[6] coloca-se entre eles também. É uma espécie de tambor de pele furada ao centro em cujo orifício se mete um pau com um êmbolo na extremidade. Do outro lado coloca-se a mão esquerda, acende-se uma fogueirazinha que se deve manter viva. Coloca-se sobre ela, a uma certa altura, a “puíta”, o calor dilata a pele e, quando o tocador agita o êmbolo num movimento de vaivém, extrai do instrumento um som entrecortado e rouco.
É de tarde, e tudo no terreiro está em imobilidade que dir-se-ia expectante. Em torno, são linhas convulsas de montanhas cobertas até o perder de vista pela sombria massa de frondes majestosas. Do lado do poente, o planalto em que o terreiro está situado, vai descendo, mansamente, em socalcos de brando relevo, alarga-se depois em planície fecunda que se arrasta até se confundir com o mar.
Mas, na calma sonora, os tambores ressoam e a “puíta” começa a fazer ouvir as suas variações rítmicas. Um improvisador coloca-se ao centro e canta, numa melopeia cadenciada pelos tambores, palavras que a inspiração do momento lhe trouxe. Toda a roda acompanha o ritmo batendo as palmas e, em coro, repete a cantilena e os versos do poeta.
Os tambores rufam mais ansiosos e a “puíta” parece que a cada instante vai ganhando mais febre. Um dançarino frenético pula para dentro do círculo, baila que baila e aproxima-se numa reverência de uma mulher da sua escolha. Recua para se aproximar de novo. A assistência canta, batendo sempre as palmas. Depois, o bailarino, num implulso, chega-se ao pé da negra com os braços levantados e, ao grito de homem, os dois corpos chocam-se em contacto ligeiro de ventre com ventre. É o convite para a dança. Ela sai e o par renova, dentro da cadência imutável da “puíta”, dos chocalhos e dos tambores, as reverências e multiplicam, segundo a sua ciência, os passos consagrados do batuque.
Separando-se, a mulher toca com o ventre um homem; o seu par faz o mesmo a outra negra. O novo par envolve-se na dança e, de tempos a tempos, há nova improvisação feita por outro poeta.

Uma tarde, enquanto se dançava, passou, como raras vezes acontece, um vapor muito próximo da terra. O entusiasmo cedeu lugar, por um instante, à curiosidade e o batuque teve um curto intervalo.
Ia para o Sul, o vapor. Ia para Angola, a terra de onde quase todos os que ali estavam haviam sido transportados e que nunca mais tinham voltado a ver. Uma saudade confusa passou no ar. Mas nisto os repiques chamaram novamente. Então, da roda saiu um velho. Tinha a pele engelhada, curtida por sóis e misérias e os músculos como cordas que perderam a elasticidade. A carapinha era toda branca, uma barbicha rala orlava-lhe o queixo. Era o Cambanza, um dos grandes animadores das festas, improvisador sempre com chalaças e alusões galhofeiras.
Pôs-se no centro, voltou-se para o lado do mar e cantou na sua voz quebrada:
- “Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas. Diz à nossa gente que ainda não morremos. Trabalhamos sob o sol e sob a chuva. Queremos partir, mas não podemos. Vapor, vapor, tu segues e nós ficamos... A nossa dor não tem fim.”
Quando acabou, os soluços tinham-lhe embargado a voz. Em roda, a paisagem era de uma quieta serenidade e o ritmo da “puíta” tinha-se feito caricioso e dulcíssimo, como a voz de uma alma que não pode clamar e chora baixinho... A mesma onda de emoção dominou os festeiros e a multidão, chorando, cantou:
“Vapor, vapor, que vais a caminho da nossa terra, terra bendita, leva-lhe saudades nossas...
Depois os pares dançaram um momento em silêncio. Mas num grito prolongado, Cambanza anunciou que era chegado o intervalo para o repouso.
Quando a roda se recompôs, a vaga de emoção tinha passado e os tambores, a “puíta”, os apitos e os chocalhos, incansavelmente repicaram até que a noite, serena, caiu sobre a terra.

Após esta leitura, fui procurar a música de São Tomé e Príncipe na net. Fui ter ao sítio dos videos da National Geographic e, ao fazer a pesquisa “são tome”, encontrei um documentário curto sobre os elementos do conjunto Grupo Tempo. Depois no YouTube, deparei com esta maravilha,  em http://www.youtube.com/watch?v=3GgZ08IvqpA:

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Notas da responsabilidade do blogue:

[1] senzalas –  originalmente, as senzalas eram habitações muito pobres, destinadas aos escravos; o nome manteve-se para os trabalhadores das roças.
[2] tropeada – de tropel, barulho com os pés.
[3] lambança – muita conversa.
[4] funje – creio tratar-se de uma papa de farinha de mandioca.
[5] estrídulos – estridentes.
[6] puíta – no texto original “puita” sem acento agudo. A foto pode ser encontrada em http://eportuguese.blogspot.com/2011/09/instrumentos-musicais.html
[7] Formatura na roça de Água-Izé, ver foto em postais antigos de São Tomé no sítio http://stomepatrimonio.blogspot.com/2007/12/roa-gua-iz.html


Nota importante:

Porque estamos a falar de São Tomé e Príncipe, o meu muito obrigado a João Carlos Silva, aos seus programas, à sua exemplar comunicabilidade e sobretudo, às suas receitas, principalmente as doces, sempre com muito amor. Talvez por esses tachos na roça, quem sabe, a minha primeira curiosidade pelo Maià Póçon.

sábado, 15 de outubro de 2011

Maià Póçon II – O ódio de raças

Sem título de Manuel Ceita
em www.artafrica.info 
No livro de contos “Maià Poçon” de 1937, Viana de Ameida continua a história, que desconfiamos ser em boa medida autobiográfica, de um estudante santomense que acabado o seu curso em Lisboa, volta a casa (ver Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé), num período – segundo quartel do sec. XX – em que aquele país, era ainda colónia portuguesa.
Num dos contos do livro, “Ódio de Raças”, utiliza-se a personagem de um vivido médico santomense, Augusto de Almeida, que durante uma conversa de café com um amigo, conta a sua atribulada experiência após retorno à terra natal. Embora seja um “conto de ficção”, são citados nomes conhecidos de São Tomé, como Demóstenes de Almeida ou Jorge Neto, referências reais, como que a indicar-nos que a história é mais próxima da realidade que da ficção.

Escrever sobre o racismo em São Tomé num ambiente editorial de censura oficial, não deve ter sido tarefa fácil para Viana de Almeida. A ditadura salazarista estava pujante nos anos 30. É o único texto que conhecemos desta época a tratar diretamente o tema do racismo e da prepotência dos colonos sobre os africanos, nas colónias portuguesas. Mas com arte e habilidade, o escritor deixa-nos este relato.

RACISMO E CONFLITOS ENTRE COLONOS E NATIVOS
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Ódio de raças” de Viana de Almeida, 1937.

[Diz o médico santomense Augusto de Ameida sobre a sua experiência em São Tomé, após concluir os estudos em Lisboa]

A minha geração estudava e pandegava, mas, tanto nas horas de trabalho como de boémia, os meus camaradas nunca fizeram distinções de cores.
Terminados os estudos, pensei logo em tratar da vida, instalando-me como clínico na nossa terra. Nesse tempo, muitas roças importantes tinham mudado de dono, passando das mãos de patrícios nossos para as de potentados europeus, que ainda hoje são seus possuidores. Ao mesmo tempo, um grupo de rapazes santomenses, briosos e ardendo em desejos de se educarem e defenderem os interesses dos nativos, formavam agremiações com caráter recreativo e cultural. Encomendaram-se livros, organizaram-se pequenas bibliotecas, os mais cultos encarregavam-se de orientar os que desejavam trabalhar, ensaiavam-se os que mostravam alguma vocação para o teatro, enfim, esboçava-se na terra um movimento para a elevação mental e social do negro que despertava entusiasmo.
Parece-me que este entusiasmo só poderia ser simpático, mas o certo é que ele não foi bem visto por certos elementos dos colonos europeus. Tiveram a argúcia de descobrir nele não sei que intuitos revolucionários e libertadores, tomaram-no como um desafio insolente à supremacia que, na opinião deles, o branco deve exercer sobre o preto, qualquer que seja o meio em que se encontrem. Deste estado de espírito resultaram provocações, e já algumas questões se tinham travado quando desembarquei em São Tomé. Você sabe de que maneira lá na terra recebem os patrícios que voltam da Metrópole, com evidente cultura e requintada ilustração. Eu cheguei acompanhado de outros rapazes, como Demóstenes de Almeida, José Sequeira, Jorge Neto, André Batista, Adalberto Aguiar, e outros que se tinham formado em direito, engenharia, etc. Trataram-nos como heróis e, muito naturalmente, sem que déssemos por isso, achávamo-nos dirigindo o movimento cultural de que eu lhe falei.

Sem título de Armindo Machado
em www.artafrica.info
Você compreende que, muito naturalmente também, a maior força dos ódios recaiu sobre as nossas cabeças. Os nossos contendores não nos pouparam insultos, barafustaram e chegaram a reclamar que fosse proibida a admissão de negros ás Universidades. Entre eles destacava-se um homem muito conhecido em São Tomé pelo nome de Bruno Vinagre. Você com certeza que o conheceu. Era um homem de estatura regular, atarracado, sanguíneo, de punhos grossos. Tinha ido para lá numa condição muito humilde, mas trabalhara, fizera-se negociante de importância. Era o tipo do homem inculto, impulsivo, que se deixa arrastar e dominar irresistivelmente por certas ideias que lhe são transmitidas por qualquer forma. Entre estas, estava a do desprezo pelo negro. Pelos seus atos, dir-se-ia que o ódio de raça era um sentimento que lançava raízes até ao fundo da sua alma. No entanto, chegou a época de se fazerem as eleições para deputado. Tomava-se unanimemente entre os santomenses, a resolução de fazer deputado um filho da terra, e a escolha recaíra sobre mim. Não sei dizer-lhe a quantos estratagemas recorreram aqueles que nos combatiam, com o fim de impedir os eleitores de votarem nas diferentes localidades e a marcha regular das operações. Subornaram, ameaçaram, chegaram a destruir estradas que conduziam às vilas onde se votava. Houve, como não podia deixar de ser, tumultos e a luta chegou a um tal grau  de acuidade, que as nossas instalações foram assaltadas e destruídas. E como os homens não sossegavam, o governador tomou a resolução de me afastar por algum tempo da Colónia. Estive em Angola por alguns meses e regressei de novo à minha vida. Os ânimos tinham serenado e eu empreguei todos os esforços por trabalhar nobremente sem suscitar ao de leve novos conflitos.
Uma noite, seriam umas três horas da madrugada, dormia a sono solto, foram acordar-me, dizendo-me que um dos meus colegas brancos me chamava com urgência. Abotoei à pressa o pijama e fui dar com o Dr. Eduardo Salgueiro com o qual eu mantivera sempre relações cordiais. O que há, o que não há, ele expôs-me o que se tratava.
Antes de continuar, devo dizer-lhe, meu caro amigo, que dentro da minha profissão há um ramo ao qual me tenho dedicado com uma certa felicidade: é o da obstetrícia. Posso mesmo dizer-lhe, desculpe-me a ufania que, entre as dezenas de casos difíceis encontrados na minha carreira, só me recordo de um que fosse fatal.
Mas, voltando agora ao Salgueiro. Vejo-o com cara de enfiado e ele diz-me:
- Meu caro Augusto, antes de qualquer outra coisa, deixe-me declarar-lhe que venho recorrer não só à sua reconhecida competência de clínico, como também à sua generosidade de homem. Eu sei perfeitamente que você tem graves motivos de queixa de Bruno Vinagre. Pois bem: a mulher dele está neste momento para dar à luz uma criança, mas está em perigo de vida. Somos vários médicos reunidos em torno dela, mas nenhum de nós possui a sua especialização e estamos todos de acordo em que se há algum recurso que possa salvar a infeliz senhora, esse está em suas mãos.
E, continuando, ele disse-me que tinham tido um trabalhão para convencer o Bruno a chamar-me e que o homem, desesperado, chorava, dizendo que, apelar para o meu auxílio, seria uma vergonha para ele, dado o estado das nossas relações.
E o Salgueiro, fitando-me muito nos olhos, disse-me:
- Mas eu tenho confiança em si, meu caro Augusto. Você não se recusa, não é verdade?
Eu respondi simplesmente:
- Sem dúvida. Aliás, não faço mais que o meu dever.
Vesti-me e partimos. Em casa do Bruno abriram-nos a porta, atravessámos uma sala de visitas, onde, na pressa com que íamos, distingui, entre vários vultos, o nosso homem profundamente abatido e que não ousou avançar para me cumprimentar. Introduziram-nos no quarto da enferma. Vejo a desordem do aposento alumiado por um candeeiro de petróleo, o rosto pálido como cera, os olhos desvairados da mulher. Deixei falar um momento os meus colegas, depois pedi-lhes que me deixassem apenas acompanhado do enfermeiro. Assim, sentia-me mais à vontade, e eles obedeceram ao meu desejo. Era, efetivamente um caso desesperado. Quando no quarto se extinguiu o tumulto de tanta gente que o ocupava, procurei tranquilizar a doente e inspirar-lhe coragem. Depois, com estas grandes mãos que você aqui vê, trabalhei o ventre que tanto sofria e, daí a pouco, um grito lancinante ecoava pela casa. Um silêncio... depois cortado pelo vagir de um recém-nascido.
Ia-me voltar e dirigir-me para a porta, mas ela abriu-se com ímpeto e, antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, senti as pernas presas pelo Bruno Vinagre que, de bruços, bradava alucinado:
- Perdão! Perdão!
Levantei-o e abraçámo-nos.
Desde então, somos os melhores amigos deste mundo. Rompeu-se o véu da ilusão criada por doutrinas inumanas, e o homem que exigia uma separação absoluta entre as duas raças, é hoje um defensor convicto dos negros.

O racismo é a forma de pensar mais estúpida e irracional que uma pessoa que se julgue civilizada, pode ter. Esteve presente em matanças e genocídios e nas piores guerras civis e internacionais, como foi o caso da Segunda Guerra Mundial. O racismo não está assim tão longe de nós como gostaríamos de pensar. É um inimigo poderoso. Ainda em 2007, um anúncio da Amnistia Internacional na televisão portuguesa, contra o racismo dirigido aos imigrantes, fazia lembrar este conto de Viana de Almeida e usava também a figura de um médico negro:

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sábado, 8 de outubro de 2011

Maià Póçon I – O canudo de Lisboa e o regresso a S. Tomé

Maià Póçon é um livro de contos de 1937, Edições Momento. Segundo o seu autor, Viana de Almeida, “Maià Póçon, no idioma santomense, quer dizer, Maria da Cidade”. É também o nome do primeiro conto do livro.

Tive alguma dificuldade em obter o livro - só o consegui de aluguer – e informações sobre o autor, João Maria da Fonseca Viana de Almeida, santomense, que consegui apurar ser descendente dos Barões de Água-Izé. A Roça de Água-Izé é uma das mais importantes de São Tomé (para saber informações sobre a Roça de Água-Izé clique aqui, e veja o trabalho efetuado pelos alunos da professora Marta Gomes no Liceu Nacional de S. Tomé e Príncipe).
Livro biográfico sobre o 1º Barão de Água-Izé e o seu
retrato. Foto da Roça Simalô na Ilha do Príncipe.
Ver Nota Final.

O 1º Barão de Água-Izé tinha introduzido na sua Roça Simalô – e, em consequência disso, naquela zona de África, no início do sec. XIX – a cultura do cacau, trazido do Brasil. . Viana de Almeida era bisneto do 1º Barão, e colaborou com o jornal alfacinha O Século.

Maià Póçon não é um livro de contos vulgar, porque nele não se respira a ficção, mas a autenticidade. Viana de Almeida tem a capacidade de nos transportar sempre para a vida real, sejam momentos tristes e dramáticos, sejam momentos de alegria e felicidade. Dir-se-ia que presenciou aquelas situações, e que o livro de contos é uma reportagem de acontecimentos vividos. Parece que o autor apenas utiliza a fórmula do livro de contos, para nos trazer ao conhecimento uma realidade que conhece muito bem, senão mesmo, de forma "autobiográfica".
Um excelente exemplo da escrita de Viana de Almeida, é logo no início do livro, a descrição que faz sobre a vida de um recém-licenciado santomense, em Lisboa. Nesses tempos, eram muito poucos os cidadãos, mesmo os vivendo em Portugal, que teriam possibilidades de concluir o ensino superior. Certamente menos de 0,5% da população. A percentagem de 1% só seria atingida durante os anos 70 do século passado – e encontra-se hoje ainda, abaixo de 8%, segundo a PORDATA. Por isso, naquela primeira metade do sec. XX, em Portugal, a sensação de acabar uma licenciatura, deveria ser algo de muito raro e especial.

RECÉM-LICENCIADO SANTOMENSE EM LISBOA
Título da minha responsabilidade. Excerto do conto “Maià Póçon” de Viana de Almeida, 1937.

Saí – eu, Valentim de Sousa Dantas [1], natural da ilha de S. Tomé – não há muitos meses da Escola Médica de Lisboa [2], formado, segundo me dizem, na arte de tratar as mil e uma enfermidades que afligem o corpo e a imaginação dos meus semelhantes. Eis-me, pois, médico, com a minha carta metida num canudo de folhas conforme velhos usos que encontrei consagrados pela tradição de dezenas de gerações e que eu, embora tocado de algum fermento revolucionário, respeito e sigo reverentemente.
A verdade é que este canudo, de aspeto tão banal, que já me acostumei a ver como um objeto familiar pousado sobre a mesa de pinho envernizado do meu quarto de pensão, me inspira um sentimento complexo de respeito, de alegria e, ao mesmo tempo, de receio.
Efetivamente, dentro encerra, como um ente adormecido, que pode ser benfazejo ou maléfico, segundo os casos, o diploma que recebi da secretaria da Universidade de Lisboa e cujo primeiro contacto nas minhas mãos me deu a sensação de apalpar, corporizado, o objetivo das minhas ambições, acarinhado durante anos de trabalho e de fadiga.
Como não experimentar alegria com a posse de um documento, que é a prova tangível de que, finalmente, me libertei dos receios e angústias que pontualmente me esperavam no fim de cada ano letivo, como dragões mitológicos defendendo o acesso aos diferentes andares de uma torre, cuja escalada se faz com mortais dificuldades? Porque, podem crer, nunca fui um estudante mau de todo e as minhas classificações atestam que muita vez cheguei a fazer figura distinta nos exames. Mas, confesso-lhes também – e isso com íntima  humilhação – jamais pude abordar um júri sem uma impressão singular de ventre que subitamente se esvaziou e de nó que me aperta a garganta, produzindo uma espécie de soluço angustioso. Dramático e cómico não acham?
Pensem, além disso, que esta caixa de folha contém, como tesouro precioso, a justificação do tratamento com que, atualmente, me distinguem. Ah! Ainda não perdeu a sua força dominadora esta voluptuosidade que se apodera de mim, quando oiço ou vejo o  meu nome precedido do título de “doutor” em cumprimentos que recebo na rua ou nos envelopes das cartas que me mandam. Volúpia igual devia experimentar, em tempos que já lá vão, o traficante enriquecido, que se via guindado, de um momento para outro, de plebeu a fidalgo.
Mas também não consigo escapar a um sobressalto secreto nos momentos de contemplação beatífica de tal caixa. Já, quando ainda estudante, eu era encarregado do tratamento de algum doente – e é preciso notar que este tratamento era feito sob os olhares vigilantes do professor ou de um assistente – me preocupou, a ponto de me tirar algumas horas de sono, a ideia de depender de mim a sentença de vida ou de morte pesando sobre a cabeça de um doente. Que vida será a minha, quando, em vez de um infeliz, eu tiver a responsabilidade da existência de uma clientela numerosa? Mas uma conversação com um colega já batido na vida dissipou-me parte das minhas dúvidas.
Garantiu-me este médico, que goza da estima e gratidão dos seus clientes, que eu, como novato, atravessava uma fase natural, mas passageira. Aconselhou-me a não ser orgulhoso e a considerar, como elemento preponderante no êxito ou no fracasso dos meus tratamentos, a fatalidade.
Sobre cada enfermo pesa um destino certo e cego: não será a competência do facultativo [3] a sua salvação, nem um erro de diagnóstico – natural em todo aquele que estuda as doenças caprichosas – motivo do seu despacho para um mundo melhor. Agora, o essencial é manter a distância necessária entre nós e os acontecimentos. Sem ela, a maior sumidade não passará de um asno chapado.
Depois de formado tive de resolver o problema do rumo que havia de dar à vida. Não basta triunfar do último exame da escola: alcançado o diploma é necessário saber servirmo-nos dele e procurar o sítio em que o seu emprego nos poderá proporcionar maior rendimento. No decurso dos meus estudos, sorriu-me sempre o projeto de me estabelecer e fazer clínica em Lisboa. Aplicar-me-ia e, bafejado por fortuna e boa sorte, conquistaria fama, atrás da qual viriam rendosos honorários, ganhos à custa de ciência e de trabalho. Residiria nas Avenidas Novas com qualquer lisboetazinha de corpo nervoso e alma ingénua que quisesse associar o seu destino ao meu, dando por compensada a minha cor escura com a categoria de doutor de fama. Esta arvéola [4] poder-se-ia encontrar: depois que me formei, algumas moradoras do meu bairro passaritam à minha roda, ansiosas por adivinhar os meus desejos.
Seria uma vida deliciosa, mas tive de abandonar o projeto. Tenho de acreditar que, ou o clima de Lisboa afugenta as doenças ou que existem nesta cidade tantos médicos, que não sobra mais espaço para os recém-chegados, famintos de casos de estrondo e de riqueza.
Até agora, só pude tratar um companheiro de pensão, a quem por decoro nada pedi, e uma vaga senhora idosa das minhas relações, atacada de histerismo.
Uma carta da minha madrasta, junta à minha impaciência, fez-me enveredar para novos caminhos. Meu pai morreu há três anos, deixando-me algumas propriedades em S. Tomé, e à sua mulher legal a sra. D. Eugénia Dantas. Enquanto eu tirava o meu curso, a sra. D. Eugénia encarregou-se da administração das terreolas, mas a pobre senhora, idosa e cheia de achaques, encontra-se muito cansada e sente um receio salutar de administradores gananciosos. Escreveu-me então, aconselhando-me a ir assumir a gerência dos nossos modestos haveres. Com trabalho e persistência poderia aumentar as minhas posses, e nada me impediria de consagrar-me ao exercício da minha profissão, que havia roças que estavam precisando de médicos.
O alvitre pareceu-me sensato e resolvi pô-lo em prática. Disse adeus à vida de Lisboa, à graça das suas mulheres, resolvi adiar por alguns anos a conquista de um suave coração, já fiz as minhas malas e aqui estou pronto a partir no primeiro paquete da Companhia Nacional de Navegação. Não foi sem custo que me resignei a este projeto, mas tomada a resolução, senti-me invadir por uma onda de recordações de infância que me impelem para a terra natal e, a esta hora, sinto-me impaciente de pisar o solo santomense.
   
Notas da responsabilidade deste blogue:
[1] Acredito ser o próprio autor com um nome diferente.
[2] Creio que a velha Escola Médica era ainda no Campo Santana, estando ligada ao Hospital de Santa Marta. Nos anos 50 foi transferida para Santa Maria, onde é hoje a Faculdade de Medicina de Lisboa.
[3] Facultativo – Médico, indivíduo que exerce legalmente a medicina.
[4] Arvéola – Nome de pássaro.

Nota Final:
A paternidade da figura tem diferentes origens, consoante as imagens.
- O livro de Amândio César, encontra-se no sítio da Livraria Candelabro.
- A imagem do 1º Barão de Água-Izé estava em “Saber tropical”, sítio excelente do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), num artigo onde se procura determinar a origem da introdução da cultura do cacau em África.
- A imagem da Roça Simalô (ou Simaló, como escreve Amândio César) encontra-se no interessante blogue Stparquitecturarte, em blogspot, da autoria de Neco Bragança.
A todos, o meu reconhecimento.


 Ver ainda Maià Póçon II e Maià Póçon III

domingo, 2 de outubro de 2011

A Cidade dos Livros de Gentil Marques

Estou a organizar a minha querida biblioteca. Não é uma biblioteca grande nem valiosa - a não ser afetivamente, para mim - mas tem um conjunto suficiente de livros, para que, por vezes, me seja difícil encontrar o assunto ou título pretendido. Julgo que a principal razão desta dificuldade, é a sua deficiente arrumação. Terei de organizar a Ficção por Autores, separando-a entre a Língua Portuguesa e as Estrangeiras e criando grupos por género: Romance, Contos, Crónicas e Memórias, etc. A Poesia estará à parte. Depois separar o Ensaio por Assuntos: História, Economia, etc. Como nas livrarias.
Precisarei de uma estante livreira que me vai ocupar todas as paredes da sala de estar. Esta, ficará com menos espaço. Mas a sala de estar cá em casa, já é uma sala de leitura, sem televisão. A melhor disposição dos livros, sonho eu, ir-me-á permitir ter uma verdadeira Wikipédia em livro, com todos os autores e assuntos que mais aprecio e gosto de ler e reler.
Estava seguro desta intenção até encontrar uma opinião totalmente oposta, a de Gentil Marques [Gentil Esteveira Marques, 1918-1991]:

CURIOSIDADES E SEGREDOS DA CIDADE DOS LIVROS
Em “Saber Não Faz Mal, 4º Volume” (1947) de Gentil Marques

Todos nós, na grande maioria, temos uma biblioteca. Pequena ou grande. Rica ou pobre. Geral ou especializada. Essa biblioteca é a nossa cidade dos livros  - a capital do nosso mundo íntimo. E muitos de nós – a grande maioria, talvez – procura catalogar os seus livros, dar-lhes uma ordenação regular, seguir o exemplo das grandes bibliotecas de que nos fala a história – desde a tão remota de Assurbanípal, em Ninive, até, por exemplo à de Paris, que é hoje considerada a maior biblioteca do mundo [1], com os seus quatro milhões de volumes e os seus cento e vinte e três mil manuscritos e os seus milhares de estampas e medalhas...
É certo que há exceções. Existem pessoas que veem de um modo diferente a organização de uma cidade dos livros. Pessoas que não têm interesse de maior pelos catálogos, pela classificação dos volumes, pela sua arrumação em lotes de assuntos e de espécies.
Eu sou uma dessas pessoas, por exemplo. A minha pequena biblioteca – e pequena, especialmente, pelo mundo infinito que eu gostaria de conter dentro dela – parece, à primeira vista, um simples amontoado de livros de todos os tamanhos e de todos os géneros de literatura e de todas as épocas, enfileirados, lado a lado.
Lin Yutang - Foto em www.amoymagic.com 
Devo confessar desde já que não “inventei” este processo. Segui o exemplo de um espirituoso autor chinês, que me fascinou. Chama-se o autor Lin Yutang [2] e foi ele que me revelou pela primeira vez na vida a mais completa das máximas que conheço – “mostrar o pequeno no grande, mostrar o grande no pequeno, encontrar o real no irreal”. Eis uma das grandes máximas do autor de “Fou-Cheng-Lin-Chi”, mestre de Lin Yutang. Eis uma das grandes máximas da vida de sempre, pois que é hoje oportuna como nunca e foi escrita há alguns milénios de anos.
Dizem os peritos que uma boa biblioteca deve ter os seus livros classificados. Discordo pessoalmente dessa opinião. E digo pessoalmente, porque me refiro apenas à minha biblioteca – a cidade dos livros que tenho aqui mesmo à minha frente, enquanto estou a escrever. Não pretendo, de modo algum, influenciar o espírito dos leitores. Quero apenas mostrar-lhes alguns segredos e algumas curiosidades de uma “cidade dos livros”, que não segue os princípios rígidos dos peritos...
Sim, segundo penso, os livros não devem ser classificados. Faço minhas as palavras de Lin Yutang “classificá-los é uma ciência, mas não os classificar é uma arte”.
E na verdade, pensem neste simples pormenor, leitores amigos: uma das prateleiras da vossa estante está cheia de volumes de histórias, referentes por exemplo, ao III Império Francês, essa estante deixa de “existir” na vossa biblioteca. E o que acontece a tal secção, repete-se para muitas outras. E o que se passa durante uma hora – pode durar semanas e meses.
Agora, vejam o lado contrário. Vou levar-vos a um breve passeio diante de uma das estantes da minha cidade dos livros.
Ao lado de um poema de Tagore, encontra-se o volume científico “Novos Rumos da Medicina Legal”, de Afrânio Peixoto. A seguir vem “As Vinhas da Ira”, romance de John Steinbeck, “Pequena História do Mundo”, de H.G. Wells, “A Tragédia Biológica da Mulher”,  de A. W. Nemilow, “O Japão na Literatura e na Lenda”, de César dos Santos, “A Casa Perdida”, romance policial de Agatha Christie, a série “Science of Life”, de H.G. Wells, Julian Huxley e G.P. Wells, a peça “Eureka e os Fantasmas” de Eugene O’Neill, “As Melhores Poesias Brasileiras”, “Psicologia da Vida Exótica”, de Freud, “A Técnica do Cinema”, por vários autores, “A Tempestade”, romance de Ferreira de Castro, a biografia de “Einstein, o Criador de Universos”, escrita por H. Gordon Garbedian, alguns folhetos do “Reader’s Digest”,  “A Canção de Bernardette”, romance de Franz Werfel, “Habitantes de Outros Mundos”, de Flamarion, “A Bíblia”, “Sonetos”, de Antero de Quental, um dicionário português-alemão, “O Estudo da Grafologia”, por Harold Myers, “Treze Cachimbos”, contos de Elya Ethrembourg, “Os Diálogos de Platão, e assim por diante...
Ou seja, por este pequeno exemplo posso, de facto, garantir-vos que todos os recantos da minha biblioteca estão cheios sempre, para mim, de interesse e de atualidade. Nunca há perigo de me esquecer de certos livros – pois de quando em quando, ao procurar outros, eles surgem-me perante a vista.
Dirão talvez que a procura é muito morosa. Não creiam. E o pouco tempo quer se perde é sempre compensado pelas lembranças despertadas no pensamento através das lombadas que vão desfilando.
Sim, eu sou contra as estantes muito arrumadas – às vezes tão arrumadas que são mesmo a certeza de uma utilidade meramente decorativa [3].
Sim, eu prefiro a desordenação aparente das estantes da minha cidade dos livros. Aí há aventura. Cada pesquisa que eu faço – em busca de qualquer livro – é um passeio deliciosamente agradável. Tal qual como correr as ruas de uma grande cidade, à procura de uma rua qualquer.
Lá disse Lin Yutang que a biblioteca deve sempre possuir a “dissimulação das mulheres e o mistério dos grandes países”.
Mais do que isso, porém, a minha cidade dos livros espalha-se por toda a casa. Ás vezes, encontro junto da cama, no chão, um livro de versos, esquecido [4]; outras vezes, tenho diante dos olhos, na casa de jantar, um volume de história; outras vezes, ainda, perto da banheira [5] estão tombados romances policiais [6].
E como é bom – ler assim um livro, inesperadamente, um livro que nos aparece como que por milagre.
Na verdade, caros leitores, a cidade dos livros tem os seus segredos e as suas curiosidades. Mas é necessário saber desvendar esses segredos e essas curiosidades...
               
Notas da responsabilidade deste blogue:

[1] Isto seria em 1947. Hoje em dia, a maior biblioteca do mundo é a Biblioteca do Congresso em Washington, EUA.
[2] Lin Yutang (1895-1976), escritor chinês.
[3] Conheço pessoalmente muita gente com estantes assim. Mal sabem eles como os classifico em termos mentais, o que obviamente não ouso revelar-lhes. Não tenho vocação eremita.
[4] No original lê-se “esquido” e não “esquecido”. Creio tratar-se de uma gralha tipográfica.
[5] Vou ser muito claro: não tenho destes hábitos desleixados! Reprovo deixarem-se livros ao pé da banheira. O banho de imersão e a própria casa de banho com livros, é perigoso para a saúde dos livros. Gosto demasiado deles. Um jornal ou uma revista recentes, desde que não seja a “National Geographic”, então sim.  
[6] Gentil Marques era casado com Mariália, também escritora, que teria certamente a mesma paixão do marido pela leitura e pelos livros. Julgo ser esta a explicação da tão grande invasão dos livros pela casa.

Os livros tendem de facto a ocupar toda a casa, e, reproduzem-se no chão, de baixo para cima, como sabem todos os bibliófilos.