domingo, 27 de novembro de 2011

A Flor do Maracujá de Fagundes Varela

José Osório de Oliveira (1900-1964), foi um ilustre setubalense, poeta e crítico literário, grande divulgador da literatura cabo-verdiana e apologista de maior proximidade entre a literatura portuguesa e brasileira. É da sua autoria, o texto seguinte sobre o poeta brasileiro Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875):

Luís Nicolau Fagundes Varela
Nasceu em 1841, em Santa Rita de Rio Claro, na então província do Rio de Janeiro, estudou Direito em São Paulo e no Recife, mas não concluiu o curso por ter necessidade de trabalhar para manter a família, que cedo constituíra. Tendo perdido a mulher e o filho, entregou-se a uma vida errante pelos campos e matas, procurando refúgio na natureza (a natureza tropical tão pouco hospitaleira!). Ao voltar para a cidade, casado segunda vez e novamente pai, entrega-se, cada vez mais, ao vício do álcool, de que acabou por ser vítima. Morreu em 1875. Não souberam os seus contemporâneos reconhecer a verdadeira grandeza desse poeta, a qual residia no sentimento lírico da natureza e, mais ainda, talvez, no espírito religioso que lhe ditou Anchieta ou O Evangelho nas Selvas. Além desse poema editou: Noturnas, O Estandarte Auriverde, Vozes da América, Cantos e Fantasias, Cantos Meridionais e Cantos do Ermo e da Cidade, tendo sido publicados postumamente dois livros mais: Cantos Religiosos e O Diário de Lázaro, pois nem o álcool esgotara a veia desse que foi poeta e só poeta, dos maiores do Romantismo brasileiro.

A lindíssima passiflora
Li alguns poemas de Fagundes Varela, mas o que mais gostei foi A Flor do Maracujá. Antes da sua leitura, convém que se saiba que esta perfumada flor, originária da maracujeira ou maracujá, planta trepadeira do Brasil, transporta um significado religioso. Para os cristãos ela simboliza a Paixão de Cristo, daí o nome de Flor da Paixão ou Passiflora.

A lenda diz que o sangue de Cristo, molhou uma pequena planta que se encontrava junto da Cruz. Essa planta transformou-se no maracujá, para lembrar o sacrifício do Calvário: a sua flor lembra a coroa de espinhos, os 3 cravos e as 5 chagas.
No poema, Fagundes Varela sintetiza o simbolismo da flor do maracujá, a natureza e o amor. Depois, é um poema que só consigo imaginar dizer, com o sotaque do português do Brasil, como quando João Gilberto canta “Chega de Saudade”.


A Flor do Maracujá
em Cantos Meridionais, 1869.

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá [1],
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá [2],
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá [3],
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá [3],
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água [4]
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá [5],
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá [6],
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá [7],
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá,
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová,
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em  a,
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá,
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!


Notas da responsabilidade deste blogue:

[1] Sinhá = senhora; forma como os escravos brasileiros chamavam a patroa ou senhora.
[2] Sabiá = tordo; o nome deriva da língua tupi.
[3] Manacá e gravatá = plantas da floresta brasileira.  
[4] Mãe-d'água = nascente.
[5] Plumas do ubá = julgo tratar-se da cana-ubá, cujas folhas brancas fazem lembrar penas de ave ou plumas.
[6] Borboletas azuis que descem do Panamá = na América do  Sul existem as mais belas borboletas do mundo, algumas azuis são de uma beleza espectacular, uma delas é a Mariposa Azul, sobre a qual foi feito um filme com William Hurt; não sei se era esta a borboleta a que Fagundes Varela se queria referir [ver figura abaixo].
[7] Minas do Sincorá = minas de diamantes, na serra do Sincorá da Bahia. 


Mariposa azul







sábado, 19 de novembro de 2011

Quadras Populares: poesia do povo.

As quadras dos Santos Populares, de Amor, dos poetas Fernando Pessoa e António Aleixo, são as minhas preferidas. Depois, claro, temos muitos cantares com quadras, incluindo o Fado. Deixo por isso, um pequeno extrato de um fado muito conhecido.

SANTOS POPULARES
  
Santo António, Santo António
Ó meu Santo milagreiro
Arranja uma moça bonita
Para um rapaz solteiro.

Se São Pedro me ajudar,
Solteirinha é que eu não fico!
Pois por certo hei de arranjar
Quem regue o meu manjerico!

Meu querido São João
És um Santo popular
Traz teu arco e teu balão
Vem com o povo dançar!


"Santos Populares" de
Célia Freitas e Miguel Gomes














AMOR

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.

Costumei  tanto os meus olhos
A namorarem os teus
Que, de tanto confundi-los,
Nem já sei quais são os meus.

Ó meu amor, se te fores,
Leva-me, podendo ser,
Que eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.
















ALEIXO

Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão 
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são,
Maiores querem parecer. 

Para não fazeres ofensas 
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
















PESSOA

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Saudades, só os Portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranquilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!
















CANTIGAS

Se eu pudesse contar
Num poema o meu passado,
Com a Guitarra a trinar,
Minha vida dava um Fado.

O padre da minha aldeia,
No sermão do mês passado,
Jurou p’la saúde dos filhos
Que nunca tinha pecado!

Aqui vai um cheirinho de uma canção interpretada por Frei Hermano da Câmara, da qual apenas pretendi exemplificar a parte do cantar da quadra. Quem quiser ter a música completa, deverá comprar o disco. Será uma belíssima prenda de Natal.

Toma lá colchetes d'oiro,
Aperta o teu coletinho,
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.

 

domingo, 6 de novembro de 2011

Curiosidades na Internet à volta da palavra “Moura”

Passeei por esta internet e consultei uma plêiade de sítios, com histórias, sobre pessoas, localidades, sobre os mais diversos temas, tudo a propósito da palavra “moura”. Aquilo que encontrei é o assunto deste artigo.

a)      MOURA – ORIGEM DA PALAVRA

Não descobri a origem da palavra “moura”, feminino de “mouro”. Aponta-se a palavra grega “mavros” (μαύρος), que significa “negro” ou, do latim, a palavra “maurus”, habitante do noroeste de África, província romana da Mauritânia. Esta última talvez seja a mais provável.

Mapa do Império Romano em 125 dC na Wikipedia. Ver as províncias
romanas designadas "Mauretania", nos actuais países Marrocos e Argélia..





















b)      MOURA – ENCANTADA

Uma das reminiscências da estadia dos mouros em Portugal são as histórias que se contam das lendas das mouras (ou moiras) encantadas, de que já se falou neste blogue em Crenças Populares II.
Muitas destas narrativas são histórias de amor ou estão ligados a certos lugares específicos, de norte a sul do nosso país. Por exemplo, em Trás-os-Montes, Alexandre José Parafita Correia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD, fez um extenso estudo e levantamento, que está na Net em ficheiro PDF. Do trabalho por ele apresentado, extraí um desses contos:

A moura do Castelejo

Na aldeia de Pombal de Ansiães, concelho de Carrazeda de Ansiães, num monte sobranceiro ao rio Tua, e junto às águas termais de S. Lourenço, há um conjunto de fragas muito bem alinhadas a que o povo chama Castelejo. O povo diz também que em noites de lua cheia ali se ouve o bater de um tear e, às vezes, o choro triste de uma moura encantada. Há quem tenha conhecido na aldeia um pastor que, ao passar ali numa certa noite, viu a moura a pentear os seus longos e belos cabelos. Cheio de curiosidade, e porque lhe parecia uma mulher muito bonita, aproximou-se para meter conversa com ela. Só que nessa altura pôde vê-la melhor, e descobriu que ela apenas era mulher da cintura para cima. Daí para baixo era uma cobra.
"era tão bela como nenhuma outra mulher"
O pastor arrepiou-se todo e deu então três passos atrás, pronto para fugir. Mas ela chamou-o, dizendo:
– Não tenhas medo da minha triste sina. Estou neste estado, mas sou uma mulher bela. E se tens dúvidas, vem cá na noite de S. João, e ver-me-ás, tal como sou, a banhar-me nestas águas.
Diz-se que o pastor lá foi nessa noite, e que a viu a tomar banho nas águas de S. Lourenço. E que era tão bela como nenhuma outra mulher. Também se diz que, durante muito tempo, era costume as moças da aldeia, nas noites de S. João, irem banhar-se nessas águas, na crença de que ficariam belas e sedutoras.

Fonte – versão A: TEIXEIRA, Flora – "O Castelejo", in O Pombal, Carrazeda de Ansiães, Associação Rec. E Cultural de Pombal de Ansiães, Setembro de 1997. Fonte – B: Inf.: Maria da Conceição Félix Fonseca, 43 anos; rec.: Zedes, Carrazeda de Ansiães, 2000.


c)       MOURA – LOCALIDADE

Brasão de Moura, Alentejo.
A cidade alentejana de Moura deve o seu nome, diz-se, a uma história sobre mouras. Trata-se da conhecida Lenda da Moura Salúquia, que se atirou por desgosto da torre do castelo, quando as tropas cristãs conquistaram a cidade no tempo de Afonso Henriques. Esse acontecimento, está inscrito no brasão da cidade.

Há uma outra pequena cidade chamada Moura, mas que fica nos antípodas do Alentejo. Trata-se de Moura, em Queensland, na Austrália. Curiosamente, foi um britânico, Charles Marshall, que atribuiu o nome ao local, situado numa zona interior do nordeste australiano, em 1854. Marshall tinha servido no exército inglês durante as guerras peninsulares, e talvez estivesse com saudades da Moura alentejana, onde tinha estado, ou de alguma moura encantada...
A Moura de Queensland foi muito citada no final de 2010, início de 2011, quando terríveis cheias inundaram três quartos do enorme estado de Queensland. Em Moura, estabeleceu-se um dos mais importantes centros de evacuação e apoio às populações.

d)      MOURA – APELIDO

Máquina inventada por Bento
de Moura Portugal, publicada
no Philosophical Transactions,
Royal Society, Londres, em 1752. 

Há muita gente ilustríssima com o nome Moura: o escritor Vasco Graça Moura, o cavaleiro tauromáquico João Moura, o candidato presidencial Defensor Moura, a jornalista Manuela Moura Guedes, o professor/cantor José Barata Moura, a fadista Ana Moura, o arquiteto Souto Moura - que recentemente ganhou o prémio Pritzker, etc. Depois, há os apelidos Mouro, Mourão, Mourona, Mourinho e Mourinha. Lembro-me sempre daquele nosso notável professor de economia que foi Francisco Pereira de Moura. Recordo a sua figura e as suas Lições de Economia, que todos nós, estudantes de economia, tínhamos de ler.

Mas gostaria de referir especificamente duas figuras históricas: Bento de Moura Portugal (1702-1776), o grande físico português do século XVIII, protegido de D. João V e que acabou por falecer nas cadeias  Pombalinas e o brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928), inventor da transmissão sem fios, um dos pais da rádio. Sobre Bento de Moura Portugal, sugiro a consulta ao blogue de Carlos Fiolhais e outros, Rerum Natura, e sobre Landell de Moura, o artigo do sítio A Minha Rádio.

 e)      MOURA – CONCLUSÃO

Uma palavra apenas, chega para revelar a nossa gigantesca ignorância e a nossa ainda maior curiosidade. Resta-nos a fraca consolação de que nunca poderemos saber tudo, mas apenas uma pequeníssima parte de todo o conhecimento acumulado. “Maturidade” e “Sabedoria” são, de certa forma, mitos. Obrigatoriamente, morremos todos ignorantes e infantis. O nosso corpo é frágil e transitório demais, para carregar as potencialidades de conhecimento de um cérebro humano a funcionar em pleno a longo prazo. Um dia, acredito, conseguiremos resolver este problema relativo.