quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo de 2013

Votos para 2013: que seja um ano de paz e que o mundo consiga sair deste ciclo de crise que a todos afeta e preocupa, ou que pelo menos nos abra horizontes de esperança para um futuro melhor. Entretanto, nestes difíceis tempos, aprendamos a ser mais solidários uns com os outros.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A verdadeira Carta ao Pai Natal no Portugal de 2012


Recebi de alguém anónimo, esta Carta ao Pai Natal. Acredito que existindo o Pai Natal, esta seria a carta que muitos desejariam escrever.





quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Feliz Natal 2012

























O Natal, é uma data da religião cristã, mas não só. Não sendo religioso, gosto de comemorar o Natal como uma festa da família centrada nas crianças e nos mais velhos. De certa forma é uma celebração da natalidade, no seu sentido lato, da maternidade e do ciclo da vida humana. O Natal é algo de  endógeno que sinto dentro do meu pobre  espírito ateu. Há naturalmente a forte razão cultural da tradição familiar, mas se se quiserem encontrar motivos mais profundos, desde há muito tempo, pelo menos desde o Neolítico, que os povos primitivos assinalavam cerimonialmente o período que corresponde ao Solstício do Inverno no hemisfério Norte. Para os chineses, a chegada do Inverno, o dong zhi, marca o início do ano e para os antigos egipcíos, o dia 25 de Dezembro era o do nascimento de Hórus - sua mãe Isis era, como a mãe de Jesus, tida por virgem. Também é nesta altura do ano que se celebra o Chanucá judaico e o Pancha Ganapati hindu. O tempo do Natal é em suma uma festa histórica e global da humanidade. Está mesmo para além das religiões e é secular, pois é marcado pelo calendário astronómico. 
Feliz Natal!!!

sábado, 8 de dezembro de 2012

Conto de Natal – “O Vilaguicha” de Bento da Cruz – Segunda e última parte


Capa dos Contos de Natal ILF de 1968
A segunda e última parte do conto de Bento da Cruz sobre o “Vilaguicha”. Procurei o possível significado da alcunha “Vilaguicha”. Um “guicho” pode ser um miúdo arisco e vivaço, mas também pode ser uma planta viçosa e direita. É uma alcunha que não deixa de ser distinta para quem parecia ter algum sucesso comercial. Pelo menos para o narrador, seu jovem companheiro, o almocreve teria “génio para o negócio".

Cheguei a Penas-Covas à horinha da ceia e as raras pessoas que vi corresponderam à minha saudação com evidente curiosidade e maior desconfiança. O breve espaço de abrir e fechar a porta entremostrava, nas cozinhas térreas, cabeças lambidas pela chama da lareira à volta da mesa farta com os manjares tradicionais: o polvo, o bacalhau em molho de ovos e azeite, as rabanadas, a letria, os bolos caseiros. Para este povinho debulhado por fome crónica, o Natal é o dia de tirar a barriga de misérias, a festa do ano que o estômago das crianças recorda sempre de água na boca: isto ou coisa parecida era o que eu pensava, chapinhando na calceta irregular. Lembrei-me também do pau-de-natal, um tronco de carvalho brinho [não consegui descobrir o que significa “brinho”] que se põe ao lume durante a consoada e depois, ano fora, quando o trovão ribomba. Quis ainda reconstituir a história dum pecador apanhado no laço do Inimigo e do qual se desprendeu gemendo: «Valham-me as Três Missinhas do Natal!» «Foi o que te salvou!», mas não acabei, por ter chegado ao cardenho do Vilaguicha, no limiar de cuja porta escancarada me detive. Dentro, a luz duma vela tiritava nos braços da cruz de alumínio ereta num monte de torgos camuflados por toalha de estopa e duas velhas recobriam um leito muito baixo com os restos duma colcha branca de ramagens. Percebi logo o cerimonial: preparavam o tugúrio para a visita do padre. — Deus seja aqui.

As mulheres voltaram-se de repenão e uma delas galhofou:
— E o Diabo em casa do abade.
— Entre.
— Não repare...
— Oh, minha senhora, eu também sou do Barroso...
— Ai então sabe o que isto é... não estranha...
Um Vilaguicha apenas reconhecível pelas sombras de malícia esbatidas no rosto deformado, jazia de costas entre duas mantas surradas.
— Eh! Vilaguicha duma figa, como vai isso?
— ?
— Pois já não me conheces, parceirinho de lei?
Entretanto uma das velhas identificara-me e berrou à orelha do moribundo:
— Olha o teu amigo de Gostofrio! Não te lembras dele?
A máscara do velho contraiu-se num sorriso de eterna felicidade.
— Julga que é o filho! ora reparai! Louvemos ao Senhor...
Eu andava de luto e o Vilaguicha fitava-me chorando com alegria.
— Então?
— Vai lá por dez tostõezinhos de aguardente ao teu pai, que te deu o ser...
Consolava a radiante expressão de felicidade e malícia daquele rosto hemiplégico.
— Vai lá buscar dez tostõezinhos de aguardente ao teu pai... que te fez homem!
— Está bem. Eu vou. Aguenta só um bocadinho.

Fugi para a congosta de olhos marejados, aos tropeções nas pedras. Era aquilo! o meu alegre companheiro do trauto dos pimentos e dos figos. Julga que é o filho...
Ao princípio, quando o Vilaguicha se descobria perante as largas fachadas e exclamava, em êxtase: casa de padre! Julguei que o fizesse por devoção aos ministros do Senhor que lá moravam. Mas depressa dei conta de que o meu alegre companheiro e mestre tinha a mesma exclamação babada sempre que via ou se falava do gado, ou das terras, ou da gente de casais onde, naquele tempo, não havia padre nenhum. Mas onde houvera! E descobri então duas coisas patuscas: que a reverência do velho bufarinheiro se dirigia, não à pessoa dos senhores abades, mas à riqueza dos mesmos; e que todas as casas mais abastadas do Barroso eram ou tinham sido propriedade dum membro do clero. E, com a ladinice dos verdes anos, ia puxando conversa:
— Há na minha terra uma casa muito rica!
— A do Cruzeiro? Bôh! Casa de três padres! Conheci-os eu, feros e cevados. Três abades a juntar num monte... Que riquezas não haverá daquelas portas a dentro: ouro, prata, limpeza, mobília... É a casa mais farta de que tenho memória! Só em lameiros? As vacas, nem que pastassem um por dia, lhe dariam volta num ano. E terras de semeadura? Bem zelada, era casa para colher para cima de três mil alqueires. É um reino...
— Quer não que a da Eira não lhe fica atrás.
— Também é boa, também! Casa de padre! O senhor padre Elias, abade colado de Penas-Covas. Senhor de três missas! Juntou muito dinheirinho, esse homem! Contava as libras com uma rasa! Dizem... que eu nunca vi. O que posso garantir, é que deixou os filhos cheios como colmeias.
— E o Barroso?
— Ai o Barroso comeu o pão que o Diabo amassou para ordenar o padre Cosme. Mas hoje não lhe falta nada! É um fidalgo...
«Aposto que vais mandar o filho para o seminário...»

Original dactilografado de Contos de Gostofrio
da biblioteca de Pacheco Pereira
O ambiente da taberna arrefeceu com a minha presença. Mas perante a jarretice dum: avie-me aí um quartilho de aguardente: o diálogo recompôs-se. Falavam do padre Vilaguicha. Uns acusavam, outros defendiam o homem como sacerdote. Mas todos eram unânimes em condená-lo como filho ingrato.
— Não traz garrafa?
— Não. Mas talvez o senhor me possa arranjar uma?
O taberneiro demorou. Entrementes, ouvi coisas espantosas.
— Não me venham com água benta! O triste Vilaguicha passou as passas do Algarve: fomes, trabalhos, doenças, vergonhas... Por último, nem segurava as urinas... E para quê, digam-me lá? Para ordenar um malandro, que já em seminarista se envergonhava do pai.
— Que se metia nojo aos cães, era para trazer o menino asseado...
— E se abusava do golito, tinha boas razões para o fazer...
— E, mal se apanha de coroa e missa, abandona o velho entrevado numa enxerga e safa-se para o Brasil. Há direito?
— Toda a ambição do Vilaguicha era um filho padre!
— Sucedeu-lhe como o que cevou e não matou...

Deixei a tasca perturbado. Eu não conhecia o jovem padre Vilaguicha, filho serôdio e único do meu velho parceiro do trauto dos pimentos e dos figos. Mas ainda me lembrava da primeira vez que o Vilaguicha pai, pelas férias do natal, pouco antes de eu embarcar, entrara festivamente em Penas-Covas com o seu estudante em cima do burro engrinaldado de colcha branca — a mesma com que, nesse dia, as velhas alindavam o catre imundo. Recordava o garoto inocente no fatinho escuro e absolvia-o de todas as faltas de que na praça era acusado. Sursum corda! [da liturgia em latim do Missal Romano significa “corações ao alto!”] Um moço capaz de vencer a muralha de preconceitos erguida à volta da sua juventude por três lustros de seminário e dois milénios de cristianismo, de calcar aos pés o terror aos superiores, a maledicência farisaica, e, principalmente, as ilusões do velho pai, valia bem um presépio alumiado por uma estrela e um cântico de esperança dirigido pelos anjos do céu aos homens de boa vontade. Hossana ao padre Vilaguicha, redentor de si mesmo! — gritei em pensamento, onde, alegres, se puseram a bailar algumas interrogações: e o ar feliz do velhote? Teria, finalmente, o meu antigo parceiro descoberto a vaidade e o pó das grandezas deste mundo? Teria, afinal, compreendido que o filho escolhera o melhor caminho? A luzinha de entendimento, que persiste em tingir-lhe o rosto de malícia, não estará agorinha mesmo a interrogar-se: quantos dos abades, cuja riqueza tanto cobicei, terão chegado à hora derradeira com a minha tranquilidade e com apenas um desejo: dez tostõezinhos de aguardente para a viagem?
Neste ponto, meti a galope, de garrafa estendida.

Eu a entrar em casa do Vilaguicha e as duas mulheres a debruçarem-se para o catre, muito surpreendidas:
— Como um passarinho...
— Que morte santa!
— Parece tão feliz...
— Este ano foi ouvir as Três Missinhas do Natal ao céu...
Debrucei-me também: na verdade, o rosto sombreado de malícia do meu velho amigo tinha reflexos de bem-aventurança.

Do livro «Contos de Gostofrio»

[Fim da segunda e última parte do conto]

domingo, 2 de dezembro de 2012

Conto de Natal – "O Vilaguicha" de Bento da Cruz – Primeira parte


Bento da Cruz
Um dos escritores que melhor retrata a desaparecida vida nos campos, quando 80% da população portuguesa aí vivia, é Bento da Cruz. É um notável escritor transmontano, de uma autenticidade, que só o sei comparar a Torga ou a Aquilino. Por ser médico, a edição de Contos de Natal do laboratório português ILF-Instituto Luso-Fármaco, de 1968 [ver Nota Final], incluía uma pequena pérola do seu livro “Contos de Gostofrio” que aqui reproduzimos em duas partes. Gostaria que este texto pudesse contribuir para despertar maior curiosidade sobre a obra literária de Bento da Cruz, apesar da reedição da sua obra e de vários e importantes prémios lhe terem sido justamente atribuidos.

Após uma ausência de largos anos, eu regressava à minha terra sem nada para oferecer ao espanto dos patrícios: nem carro espampanante, nem malas cravejadas de amarelo, nem aves exóticas, nem sotaque estrangeiro, nem sequer mais gordo. Além disso, o meu feitio misantropo tinha piorado com os invernos e não me permitia grandes relatos sobre as terras por onde andara nem sobre as gentes que vira. Perdera também a faculdade de abrir a boca perante a beleza dos filhos, a gordura das vacas e o aumento da fazenda dos meus companheiros de infância. De modo que estes, desiludidos, concluíram que eu regressava pobre ou doente, e, a pouco e pouco, foram-me voltando as costas. Entretanto eu reconhecia que fora engodado pela saudade do paraíso perdido e que viera ao encontro duma ilusão. A casa de meus avós desfizera-se, os meus parceiros de aventuras tinham envelhecido e até a paisagem era outra: beirais de telha, luz elétrica, rodovia alcatroada, a floresta e a barragem. Portanto só me restava um caminho: arranjar as coisas e partir de novo. Antes, porém, teria de honrar a memória de meus pais, colocando-lhes uma cruz na sepultura. Com esta ideia, dirigi-me a Fontefria para pedir licença à junta da paróquia e conselho ao abade.

Estava a percutir a aldraba da residência, quando uma velha, que ia passando embiocada em burel, informou, sem deter o passo nem olhar para o meu lado:
— Não está ninguém. O abade e a irmã foram consoar com a família à terra deles.
Ouvindo, olhei por mim abaixo e vi como estava só neste mundo: nem dera pelo dia de consoada! A primeira reação foi esconder-me num buraco; depois arranjei coragem para bater ao ferrolho do presidente da junta: tinha ido ao comboio pelo filho soldado.
— E vem hoje?
— Ai sim! Contamos com ele à tardinha. Se quer esperar suba. Toma qualquer coisa.
— Obrigadinho. Volto mais logo.

Refugiei-me no adro: igreja fechada, sinos mudos, acácias tristes: e fiz novena até adormecer em lucubrações especiosas. Acordei com o barulho dum carro e fui ver se era o presidente. Era e estava alegre. Mandou-me entrar, fez-me perguntas engraçadas, que não vou agora repetir, obrigou-me a comer guloseimas de natal, que eu hoje repetiria da melhor vontade, e deferiu o meu requerimento democraticamente: havia a esse respeito um acordo tácito entre os paroquianos: desde que um deles colocasse uma campa ou um jazigo no cemitério, os outros respeitavam-lhe a propriedade. Fizesse o mesmo. Invocando o receio da noite, levantei-me e saí com mais um copo e mais uma filhó para a despedida e mais uma e outro para o caminho.
 Apesar da petisqueira, ou talvez por isso mesmo, vinha triste. E, como sempre que a tristeza toma posse de mim, recorri ao sonho e às recordações infantis. Mas, naquela hora de lusco-fusco emoliente, esse remédio, no geral doce e eficaz, amargou-me: quando um homem começa a ter saudades da infância, é sinal de que está velho! Suspirei. E no mesmo tom, à laia de consolação, respondi: bem velho me parecia o Vilaguicha e ainda está vivo! O Vilaguicha... E se lhe fizesse uma surpresa?

Neste propósito (quem sabe se a minha visita não será para ele a melhor prenda de natal?) deixei o atalho que de Fontefria segue pelas touças e meti pelo carreiro de Penas-Covas. Quantas vezes eu ali passara em garoto! Saía de Gostofrio ainda com o sol em casa do diabo mais velho, e, a cair de sono em cima da albarda, choutava por montes, aldeias e vales, até ao Couto de Ervededo, onde entrava com ele a pino. Comia o farnel sob a telha protetora do Braguês, o qual, de tarde, ia comigo ao Cambedo pelos pimentos. Regressávamos ao Couto com o sol posto. E, no dia seguinte, ainda com a estrela da manhã à janela do céu, ordinário, marche! Para Gostofrio. Isto duas vezes por semana, enquanto durassem os trabalhos do verão e os pimentos do Cambedo dessem para o tabaco do meu avô e o cafézinho da minha avó.

Ora uma bela manhã alcancei, aí por alturas de Pedrário, um sujeito a cavalo dum asno. Se as costas abauladas nada me disseram, mal se voltou à minha saudação, reconheci-o logo pela cara sombreada de malícia: o Vilaguicha de Penas-Covas, tipo célebre nas redondezas pela ralé de traficante e pelas histórias que dele se propalavam a respeito de fêmeas e contos do vigário. Para onde vais, quem és, quem não és, mal pronunciei o nome de meu pai, o rosto do figuro iluminou-se, estendeu-me os braços e ali me jurou pelas Três Missinhas do Natal, a que nunca faltara durante os cinquenta e muitos anos que já lá tinha, ser o senhor meu paizinho o cavalheiro mais honrado deste mundo e o seu, dele Vilaguicha, melhor amigo. Estas palavras calaram-me tão fundo no amor-próprio, que acertei o passo do rocinante pelo do burro. E em boa hora o fiz. Continuando jornada lado a lado, o Vilaguicha falou-me de coração nas mãos, fez-me ver o desperdício de tempo e ferraduras com a volta pelo Couto, havendo caminho direto Meixide-Cambedo, o risco das quixotadas do Braguês através de pinheirais estranhos espatifando as tigelas da resina a golpes de bengala espanhola, e pôs-se ao meu inteiro dispor para tudo o que desse e viesse. Embora gostasse muito do Braguês e da aventura constante que era viajar com ele, não resisti às palavras do Vilaguicha: segui-o. E ainda bem. Pelo menos pude ver naquele dia o génio do negócio, a arte de marralhar até conseguir o melhor artigo por dez reis de mel coado. Mas isso não me livrou das garras da comadre do Braguês, a qual me impingia os pimentos por aquilo a que ela chamava o preço corrente e a que eu hoje chamo roubalheira. Creio que lho chamei logo naquela tarde, quando, já de regresso, perguntei ao Vilaguicha a como tinha comprado e ele me respondeu com a lisura correspondente à nossa recém-nada camaradagem: a vinte e cinco tostões (o cento). Rubro de cólera e vergonha, tive de lhe confessar que os pagara a cinco e quinhentos.
— Para a próxima, já te não enganam. Deixa isso comigo.

E o homem punha nas palavras acentos paternais. Não me recordo bem se esta prática teve lugar antes, durante ou após a merenda. Mas estou a ver o ribeiro, a sombra das árvores e a sofreguidão do Vilaguicha perante a abundância e a variedade do meu farnel — tínhamos feito a malhada no dia anterior e minha mãe aviara-me o alforge com amostras do banquete oferecido aos vizinhos. Por sorte o meu companheiro era bom apreciador de leitão e cabrito, e nada amante de filhós e rabanadas. Por isso ele comeu as carnes e eu os doces. Do meu alforge saiu ainda um cantil de meio litro para compor o estômago e umas uvitas para cortar a azia, estas, oferta da comadre do Braguês, de certo contrapeso de consciência por iludir uma criança.

De novo a caminho, o homem deitou-me paternalmente o braço à volta do pescoço e, entre arrotos e baforadas de tabaco de onça, jurou-me, pelas Três Missinhas do Natal, amizade para a vida e para a morte — e prometeu fazer de mim o melhor negociante de pimentos de todo o Barroso, palavras que, na altura, me comoveram. Entretanto entrávamos Soutelinho dentro e o Vilaguicha, esquecendo-me por completo, adiantou-se aos gritos no meio da rua: eh! Pimentos! São melhores do que vitela, filhas! Sabem a galinha, amores! Pimentos, quem mais quer? Estão a acabar...
As donas de casa acorreram ao pregão e o almocreve, entre chalaças picantes e grandes risos, despachou parte da mercadoria. De Soutelinho a Penas-Covas atravessávamos ainda sete aldeias e duma para a outra a popularidade do Vilaguicha ia crescendo à medida que os pimentos diminuiam. Estes acabaram-se-lhe em Fontefria. E então, homem honrado! começou a vender os meus. Dessa hora em diante, fomos companheiros inseparáveis no trauto [o mesmo que trato] dos pimentos e dos figos.

[Fim da primeira de duas partes deste conto]

Nota Final: 
Em outros anos temos vindo a publicar Contos de Natal do ILF. Fizemo-lo com um conto de Mário de Menezes e outro de Frederico de Moura.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vasco Santana e os subsídios ao Teatro

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Num tempo em que muita gente no país vê perdidos e chora por subsídios e benesses do Estado, e quando os impostos chegam mais alto que nunca ( e mesmo assim, o setor público continua deficitário), faz sentido lembrar esta passagem do livro de Lourenço Rodrigues, “Anedotas e Episódios da Vida de Pessoas Célebres”:

Quando começou a falar-se em subsídios teatrais, subsídios que na verdade, foram concedidos, Vasco [Santana], com a paixão do teatro nas veias, escreveu estes versos, pouco conhecidos:

«O subsídio é deprimente,
Torna as almas pequeninas.
É sustentar um doente
A injecções de vitaminas.

De mais, o público acorre,
Há espírito audaz, moderno
E o Teatro não morre
Porque o Teatro é eterno.

Há-de vencer a anemia
E, com as bênçãos do Céu
Inda espero qualquer dia
Vê-lo tão gordo como eu!»

sábado, 17 de novembro de 2012

Bebedeira, ou nota autobiográfica de uma alucinação matinal.

Refoulement, 1936, de António Pedro.


Levantei-me hoje de manhã anormalmente bem-disposto. De repente, não havia injustiças nem crises nem guerras nem fomes, nada parecia ofuscar aquela inebriantemente benéfica sensação matinal.

Chovia e as árvores estavam mais verdes e a terra mais castanha, como se a natureza respirasse pelas cores, dando a sensação de um ar mais limpo e puro. Depois, estranhamente, ideias e  palavras começaram a surgir e a dançar na minha cabeça. Ideias e palavras, palavras e ideias. E faziam sentido, como se saídas de um livro. Tinha forçosamente de as escrever. Eram como um  grande poema da língua portuguesa, como uma Tabacaria do Pessoa ou uma Pedra Filosofal do Gedeão, não menos que isso. Sem saber donde me vinha a inspiração, já começara até a ler mentalmente o texto. 

Estaria a sentir aquilo que muitos escritores dizem acontecer? Uma voz interior a ditar-me o que escrever? Uma fonte e uma capacidade que eu manifestamente não tenho, nunca tive e não reconheço como minha. Mas a Voz agora elegera-me como veículo. Bastaria sentar-me e começar a escrever. Só as primeiras linhas seriam suficientes. Mas na verdade não, sabia que não seria assim. Quando me sentasse a Voz ditaria tudo de uma vez só, sem repetições. Teria de ficar horas ou mesmo dias dedicado à tarefa. Seria uma espécie de médium da literatura. Podia fazê-lo. Tinha a certeza. Um sábado, sem o dever da profissão e sem grandes compromissos. E porque não? 

A literatura é uma Arte, não está ao alcance de qualquer vulgar mortal. Eça afirmava que a via pela qual um ser humano pode tornar-se imortal e enganar a morte, é a Arte. Mais do que pela política e incomparavelmente mais do que pela riqueza. Ora aqui está. Eu tive logo pela manhã esta oportunidade. Uma espécie de euromilhões parecia ter-me caído dos céus. Estava em êxtase. Nesse instante de completa concentração, a minha mulher chamou-me porque ao sábado de manhã costumamos ir ao café. Fomos, e a bebedeira passou.

domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações à sombra da Acrópole, de Augusto de Castro, 1949.


O Pártenon, na Acrópole de Atenas.
A Grécia tem uma história muito complicada de ocupação, resistência, lutas pela independência, guerras civis. É difícil em Portugal, país uno há mais de 8 séculos, excetuando um triste intervalo de 60 anos, percebermos um pouco desta forma de estar do povo grego. Augusto de Castro no seu livro “A Tarde e a Manhã” de 1949, procurou encontrar explicações para as quase permanentes dificuldades da nação grega.

"Dominada sucessivamente pelos Macedónios, os Romanos, os Godos, os Vândalos, os Eslavos, colonizada pelos Normandos, os Bizantinos, os Venezianos, quase completamente despovoada e povoada pelos Albaneses, curvada durante quase quatro séculos sob o jugo turco, a Grécia, apenas liberta da recente ocupação alemã e italiana, está dando novamente ao Mundo o trágico espetáculo das suas seculares divisões e da sua impotência nacional.

Estranho País, que passa a vida a bater-se heroica e inutilmente contra o estrangeiro, e que não soube encontrar numa vida duas vezes milenária a força de criar uma consistência nacional!
Dir-se-ia que esse País, glorioso e impotente, sofre dum excesso de história (...). O seu génio, turbulento e inquieto, arrasta-o periodicamente para uma espécie de delírio de imaginação, em que as suas energias se queimam. As suas cidades e as suas colinas, coroadas de oiro, por onde outrora passeavam os deuses e que Zeus e Apolo habitaram, parece sofrerem duma espécie de condenação mitológica.

Nas suas divinas praias, em cujas águas claras e tépidas se banhou a nudez de Afrodite, o Mundo antigo conheceu a graça e o esplendor de viver. Mas aquelas virtudes, fortes e luminosas, da medida, da proporção, da claridade, que Homero cantou e constituíram a doce alma helénica, herdeira do Olimpo, depressa se perderam na memória triste dos homens.
Ficaram grandes nomes- o Monte Parnaso, berço das musas, Corinto, o Peloponeso ou a ilha de Pelos, filho de Tântalo, Delfos e o seu oráculo, a colina do Himeto e o seu mel e Citera e os seus amores. Nas suas ruínas sagradas, nas suas grutas melodiosas, nos seus golfos de espuma, nos seus monumentos jónicos e dóricos, nos seus tesouros - da Acrópole a Rodes -, na imortalidade dos seus artistas, dos seus poetas, dos seus idílios e dos seus guerreiros, floresce ainda hoje a lembrança duma das Primaveras heroicas da Terra.
Os passos ardentes dos deuses, a poeira sublime das pedras, a espada de Alexandre, os ecos dos aedos e de Demóstenes, os frisos do Partenon, Fídias e Praxíteles, Ésquilo e Sófocles, não bastam, no entanto, para constituir uma Pátria.

Há povos, como há homens, que têm a vertigem do suicídio. A Grécia é um deles."

Será que existe algum tipo de idiossincracia (para usar uma palavra de origem grega) ou um fado (para usar uma palavra bem portuguesa) das nações, estruturante das suas escolhas e opções, que as empurra a cometerem sempre erros semelhantes ao longo de vários séculos?

Esta questão remete-nos para a atual situação portuguesa e para as comparações entre o regime saído do 25 de Abril, o período da Monarquia Constitucional e a 1ª República, períodos durante os quais o Estado Português também foi incapaz de gerir as suas contas com responsabilidade, endividando-se até não poder mais. Como cantava Dulce Pontes em Lusitana Paixão “não quero o que o fado quer dizer”. Ora, se não quisermos mesmo a sério, isso não será fácil, como temos vindo a verificar.

Por uma vez, que os Deuses protejam a Grécia e Portugal.

sábado, 27 de outubro de 2012

Cultura, língua portuguesa e o multiplicador da felicidade.


Moradia de traçado português, Goa.
Travei um diálogo aqui há alguns anos, com um indiano vivendo em Goa, que me dizia adorar bacalhau com batatas, um manjar “delicioso e caro” em Goa. Onde arranjam o bacalhau curado? Perguntei. Disse-me que o importavam de Lisboa. Depois, vendo vários pastéis salgados na mesa, quis saber o nome que dávamos a um deles. Respondi serem chamuças. Informou-me que esses pastéis de origem indiana, eram designados pelo mesmo nome, na Índia. Embora durante esse almoço falássemos em inglês, compreendemos que os nossos laços históricos de séculos, tinham-nos influenciado mutuamente.
Esta influência recíproca é ainda maior entre povos, que não obstante apresentarem importantes diferenças, falam a mesma língua e partilham valores culturais comuns, como acontece no mundo lusófono e por isso, tornam-se mais fáceis os fluxos de pessoas, bens e serviços, os negócios, os investimentos, as notícias e as ideias.
Revista Monocle,
Outubro de 2012.
A atual pujança do Brasil e de Angola, o desenvolvimento de Cabo Verde, o grande potencial de crescimento de Moçambique, enorme país africano, de Timor e de São Tomé e Príncipe, a posição de Portugal como membro da União Europeia e do Euro, e o “interface” que é Macau, entre a China e o mundo lusófono, fazem despertar atenções e interesse para a língua portuguesa e para a CPLP(*), presente em todos os continentes.

A revista Monocle deste mês de Outubro, uma publicação inglesa de distribuição mundial sobre “assuntos globais, cultura e design”, traz na capa uma açoriana, um angolano e um brasileiro. O grande tema da Monocle, que ocupa o maior número das suas 258 páginas, é “Geração Lusofonia: porque é que o português é a nova língua do poder e do comércio”. Os artigos tentam explicar este fenómeno emergente: “os poderes lusófonos têm uma oportunidade de expandir a sua influência. O resto do mundo beneficiaria por um pouco de lusofilia. (...) É tempo de começarmos a aprender um pouco de Português.”

De Portugal e do Brasil a Moçambique, passando por Angola, a Monocle procura escalpelizar o mundo lusófono. A arquitectura de Siza Vieira e a da cidade de Maputo, o glamour, criatividade e bem-estar brasileiros (há muito tempo que o Brasil deixou de ser “apenas” samba, carnaval e futebol), o crescimento económico angolano e algumas das principais figuras culturais e empresas do espaço lusófono, muito é apresentado na revista. Por exemplo os Açores, são definidos como sendo possivelmente a zona do mundo “mais subavaliada e mais subaproveitada” e são propostas 10 áreas potenciais para o seu desenvolvimento.

Sísifo de António Carneiro. Figura de capa, de 
um livro crítico da vida política da I Republica, 
de Agostinho de Campos, 1924.
Está em todos nós a capacidade de aproveitar as oportunidades. A língua e a cultura dentro de cada um, são criadoras dessas oportunidades. A CPLP poderia criar uma biblioteca básica lusófona, de bolso, de custo baixo, com obras fundamentais da língua portuguesa, de todos os países da CPLP, com romances, contos e poesia, mas também história, geografia e arte. Cem livros chegariam. Por um custo de 2,5€ por livro, 100 livros custariam 250 euros. Por um milhão de euros, teríamos 4 mil destas coleções, para distribuir a zonas mais pobres e distantes, para espalhar por bibliotecas e escolas em toda a parte onde fossem necessárias e úteis e para pôr na internet. Seria um multiplicador de conhecimento, felicidade e oportunidades. Contribuiria para acabar com o imaginário castigo de Sísifo, que serve de ilustração aos pessimistas, como José Pacheco Pereira(**). O futuro pode ser assim um livro aberto, mas em português. Melhor que isto, só a emigração entre os países da CPLP,  porque as pessoas são sempre o melhor veículo para fortalecer o conhecimento mútuo e a interpenetração cultural e social.

(*) Domingos Simões Pereira, guineense, foi até há pouco tempo o Secretário Executivo da CPLP. Regressou ao seu país, deixando muitos amigos na capital portuguesa. Exerceu as suas funções de 2008 até Setembro de 2012, período durante o qual a CPLP se fortaleceu e prestigiou. Uma nota: é com pena que observamos os atuais problemas da Guiné-Bissau, mas temos por certo que os guineenses saberão encontrar o caminho do desenvolvimento. O novo Secretário Executivo da CPLP é o Embaixador moçambicano Murade Isaac Miguigy Murargy, a quem se desejam as maiores felicidades no exercício do cargo. 

(**) José Pacheco Pereira, além de participar no já clássico debate triangular semanal, hoje designado por "Quadratura do Círculo", herdeiro do saudoso "Flashback", é responsável por um dos meus programas preferidos da televisão portuguesa: "Ponto Contraponto" da Sic Notícias, aos domingos, pelas 21:30.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dr. Luiz Goes (1933-2012)

Figura maior do nosso património musical. Expoente máximo da canção coimbrã.
A sua Arte ficará connosco para sempre.

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Ou ver também no YouTube em É Preciso Acreditar
e em  Homem Só, Meu Irmão

domingo, 16 de setembro de 2012

Que se lixe a Troika = Que se lixe o Euro?

Que rota para os portugueses?

Intro
Estado, regiões e autarquias, famílias, empresas (incluindo a banca) endividaram-se para além dos seus próprios limites e criaram uma dívida que hoje só conseguimos aguentar com o dinheiro da Troika. Durante muito tempo existiu a ilusão do dinheiro fácil e barato. Mesmo quem não tinha condições para pagar os empréstimos, tinha crédito. Recordo-me de um anúncio-cartaz de um banco espanhol mais ou menos com o título assim “peça a Lua, que nós emprestamos”. Tinha a imagem da Lua no cartaz. O país viu-se de repente “rico”. Casas, carros, mobílias e computadores novos, férias no estrangeiro, roupas de marcas caras exibidas, etc. Quem criticasse o que se estava a passar era “pessimista” ou “arauto da desgraça”. Quando os governos na Assembleia da República diziam que iam gastar 100, tendo só dinheiro para 50, havia sempre alguém da oposição a pressionar para que se gastasse 200. Então não tínhamos uma “constituição” que tudo prometia? Não existiam as “conquistas” do 25 de Abril? Os “direitos adquiridos”? A “democracia”? Eram argumentos que serviam também para gastar o que se não tinha.
Durante mais de 25 anos desbaratámos o dinheiro que ia entrando no país a título de ajuda da União Europeia, pelo menos 2% do PIB por ano. Em vez de melhorarmos competências pela via educativa, introduzimos o facilitismo nas escolas, em vez de estimularmos as empresas a serem mais competitivas e a exportar bens e serviços, apenas fizemos crescer o mercado interno e desenvolvemos empresas protegidas ligadas ao Estado. Chegámos a um ponto extremo em que as empresas deixaram de ser competitivas mesmo no mercado interno e mais consumo só originava mais importações. O PIB estagnava, o desemprego subia.
O que atrás disse é suficiente, por isso nem perco o meu tempo a falar de alguns aspetos mais caricatos do nosso país: a corrupção e a incompetência, a despudorada dança dos lugares de influência política, o sistema de justiça, o novo-riquismo iletrado de grande parte da classe média.
Agora, depois de todos esses disparates, em que os principais responsáveis são os políticos que nos governaram, temos cerca de 15% de desemprego oficial, municípios sem dinheiro para pagar refeições escolares a crianças com fome, famílias sem dinheiro para sobreviver, empresas a falir, um sentimento social de indignação e de injustiça.
A solução só pode ser encontrada através da “reformulação do modelo económico”. Deixem-me começar um pouco atrás.

Salazar
O ditador português do século XX sempre se manifestou contra o liberalismo e o socialismo, que dizia estarem condenados. As suas prioridades económicas eram a agricultura e as obras públicas. O industrialismo só surge como opção de política económica importante nos anos cinquenta, mas mesmo assim fortemente condicionado ao investimento de alguns grupos económicos ligados aos interesses do Estado. Cresceram então as grandes empresas químicas e siderúrgicas. Nos anos sessenta após entrada na EFTA, foi a vez do crescimento das indústrias ligeiras, em especial os têxteis, beneficiando dos salários muito baixos em Portugal. Foi assim até ao 25 de Abril, provocado não apenas pela morte do ditador, mas também pelos custos políticos e económicos da guerra colonial.

O PREC e o Bloco Central
Em 1975 com maioria comunista no governo, uma grande parte dos grupos económicos foi nacionalizado. Quando principalmente a partir de 1979 a direita chega ao poder, inicia-se um processo gradual de reprivatizações, pela totalidade ou em pequenas parcelas de capital. Este processo, permitiu criar, não empresas autónomas e independentes do Estado, mas empresas protegidas, tal como no tempo de Salazar, que tinham a imensa vantagem de serem geridas por gestores de “confiança política”. Durante 30 anos o “Bloco Central” criou um polvo de interesses gigantescos, ligados ao aparelho de estado que incluía por exemplo:
- o estado central, com os ministérios, os sistemas de saúde, educação, justiça, militares, etc.; o estado local e regional e suas empresas e instituições locais; empresas públicas, total ou parcialmente; empresas de monopólio, beneficiando de ausência de concorrência proporcionada pela lei vigente; empresas industriais, comerciais e de serviços fornecedoras do Estado; empresas contratualizadas pelo Estado, desde gabinetes de advogados a PPPs; instituições, fundações, associações, ONGs, empresas e entidades diversas beneficiando de subsídios do Estado; grupos de interesse e de pressão como por exemplo associações sindicais e patronais, e grande parte do sistema financeiro que apoiava toda esta estrutura. A nomeação de cargos dirigentes ou intermédios, recrutados em partidos políticos, era normal.
O que todo este sistema tinha de comum, quase a 100%, era estar principalmente virado para o “mercado interno”. A cidade de Lisboa floresceu com este polvo. O país definhando, tinha as autoestradas. O PREC e o Bloco Central mantiveram no essencial o corporativismo económico salazarista. Passos Coelho afirmou-se no PSD criticando este modelo esgotado pela dívida.

Passos Coelho e a Troika
O que era imediatamente visível para qualquer observador externo, era que um país fortemente endividado, não iria aguentar a permanência de um défice externo anual valendo 10% do PIB. A forma de imediatamente restabelecer equilíbrios, teria de passar por 4 áreas:
- Forte diminuição do consumo interno. Paul Krugman falou em 30%. Todas as organizações internacionais credíveis foram unânimes nesta necessidade. Isto implicava importantes reduções salariais e aumentos do IVA.
- Eliminação dos bloqueios administrativos às atividades empresariais, em especial de empresas exportadoras e introdução da concorrência nos setores “protegidos”.
- Diminuição das despesas do estado. Racionalização dos gastos. Eliminação de subsídios a empresas e entidades. Diminuição de salários e pensões.
- Re-equilíbrio e redirecionamento dos recursos do setor financeiro.
15 a 20 anos a pagar todos os disparates?
O programa da Troika era terrível mas colocaria em Portugal 78 mil milhões de euros. Os principais partidos assinaram e assumiram essa responsabilidade. Para Passos Coelho era quase uma Bíblia. O dinheiro que veio evitou o pior, e no acordo com Portugal, como muito enfaticamente afirmou o então chefe da delegação, Poul Thomsen, estava incluída a baixa sensível da TSU como uma questão essencial.

TSU
Este blogue sempre defendeu a baixa da TSU como medida fundamental para o incremento da competitividade das empresas (ver 1 e 2). Era uma medida que deveria ter sido adotada logo no início do programa, por contrapartida do aumento do IVA. A posição dos defensores do “Bloco Central” e o CDS, foi sempre contra. Passos Coelho defendeu a medida, mesmo durante a campanha eleitoral. Sabia-se que vários economistas e alguns membros do governo como Álvaro Santos Pereira e Carlos Moedas eram favoráveis. O Banco de Portugal tinha também publicado uma opinião favorável (ver 1). Vitor Gaspar foi contra em 2011 e a sua opinião vingou. Criticou a medida como tendo efeitos discutíveis e ser “experimentalista”. Foi provavelmente o FMI que veio demonstrar-lhe em 2012 que não dispunha de alternativas, e quando decidiu ir em frente com a baixa da TSU, gerou-se um coro de protestos. O que os programas de ajustamento mostram por toda a parte, é que as medidas de austeridade de um programa de ajustamento têm um tempo político, que está a atingir o limite em Portugal.
O orçamento para 2013 pode ser a última oportunidade das medidas de austeridade do governo, e a triste realidade parece ser que não nos conseguiremos manter no Euro sem ainda mais austeridade, com este ou outro governo. Se o Presidente da República ou o Tribunal Constitucional chumbassem o orçamento, o governo ficaria sem condições de governar. Com alguma habilidade, a moeda de troca para a aprovação do orçamento será provavelmente o esvaziamento da baixa da TSU.

Conclusão
Um dia, talvez, todos teremos de dar a mão à palmatória, e finalmente, dar razão a João Ferreira do Amaral. Gostaria que não e que Portugal conseguisse manter-se no Euro. É preciso que se saiba (os economistas sabem-no), que um país de economia aberta com um modelo económico pouco competitivo, só  consegue sobreviver à custa de salários baixos. Com Euro ou sem Euro. É uma terrível fatalidade, enquanto não se fizerem as reformas necessárias.

Nota Final: Poderá ser o petróleo de Alcobaça ou o gás do Algarve, o milagre em que Silva Lopes acreditava?

domingo, 2 de setembro de 2012

Pequenas lições de História

A História é importante

Embora não seja formado em história, tive a oportunidade de ter beneficiado de algumas lições desta "disciplina" ao longo da vida.

- A primeira que recordo tinha 9 ou 10 anos, ainda sem saber que apanharia o difícil exame de 1965 da quarta classe (aquele que o professor Marcelo levou à TVI). O meu pai tinha então em casa, um livro de história dos seus tempos de estudante, do 3º ciclo do liceu, antigos 6º e 7º anos, hoje chamados de 10º e 11º anos. Tínhamos de saber de memória coisas básicas: o nome dos reis das diferentes dinastias e seus cognomes, as datas essenciais como a da independência, da perda da independência, da restauração, da monarquia constitucional, etc.; nomes das batalhas principais contra os leoneses, os castelhanos, os espanhóis, os franceses. Nomes de gente ilustre e importante e onde se distinguiram. A história, como tudo o mais, era um empinanço sistemático para saber de cor. Aquele livro do 3º ciclo veio mostrar-me que além daqueles fatos, existia uma lógica compreensível na sucessão dos acontecimentos. A mais importante parecia ser o progresso técnico: a romanização tinha trazido a organização administrativa; os povos germânicos, os árabes e a reconquista tinham trazido novas técnicas agrícolas e de navegação e as descobertas, o impulso ao comércio e a colonização. Não disse a ninguém que estava a ler o livro e claro que parti para aquele exame de história da quarta classe, sentindo-me um sabichão.

- Outra lição de história, recebi-a dum grande professor, no Liceu de Oeiras: Ardisson Pereira. Foi no meu 3º ano do liceu (hoje, 7º ano). Iria ter aquele grande professor ao longo dos 5 anos seguintes. Admito que, até ao 3º ciclo do liceu nunca levei os estudos a sério. Tinha alguma facilidade e apenas pretendia ter notas suficientes para pelo menos dispensar dos exames orais, que me punham nervoso. Nas provas escritas sempre que estudava um pouco, saía-me bem. Naquela primeira aula de história do 3º ano, Ardisson Pereira pregou-me, sem ele saber, uma grande partida, a mim, que estupidamente aos 12 anos me julgava um entendido na matéria! Disse-nos mais ou menos isto, depois de se apresentar:
Meus senhores, ao longo deste ano darei a matéria tal como está estabelecido no programa oficial e no livro de estudo. Hoje, excecionalmente, farei uma aula diferente. Nós temos um grande defeito na história que aprendemos. Centramos tudo o que de importante aconteceu em épocas passadas mais antigas, na Europa. Mas eu quero-vos dizer que antes da Europa e do Mediterrâneo, existiam já civilizações avançadas na Ásia, em particular na China e na Índia.
Depois, durante a curta hora de aula, deu-nos uma lição de história da Ásia. Fiquei siderado. Fui procurar o que havia sido publicado sobre o tema, nas livrarias, na biblioteca do liceu, onde podia. Estávamos em 1967. Não havia computadores nem internets. A informação era difícil de obter. As únicas referências sobre a Ásia imediatamente disponíveis estavam ligadas à expansão marítima portuguesa. Foi então que descobri Robert Charroux e a sua “Histoire inconnue des hommes depuis cent mille ans” [História desconhecida dos homens desde à cem mil anos]. O livro tinha sido traduzido e publicado em português pela editora Bertrand numa coleção de livros de capa preta, “Enigmas de todos os tempos”. Foi uma revelação saber que poderia existir tanto por explorar e tanto ainda por perceber. Robert Charroux atirou-me para as leituras mais ou menos esotéricas das sociedades secretas, dos templários, dos astronautas hindus, dos óvnis. Alguns dos temas empurravam-nos para o Médio Oriente, para a Ásia, para a África e para as Américas. Existia história e histórias por toda a parte e não apenas na Europa.

- Cheguei à ficção científica muito rapidamente. A vantagem da ficção científica sobre os trabalhos históricos especulativos e esotéricos, era o abrir sem limites das possibilidades da imaginação. Nada era impossível. Qualquer forma de vida, tecnologia, sociedade ou planeta podia ser inventado com total liberdade. Achei piada ao desabafo, aqui há umas semanas atrás, de Mário Crespo no Jornal das 9 da Sic Notícias, sobre a Fundação e Império de Asimov. Os seus convidados, Vicente Jorge Silva e António Capucho, não sabiam que ele se referia ao segundo livro da trilogia A Fundação de Isaac Asimov, a melhor obra de ficção científica alguma vez publicada segundo a maioria dos leitores de ficção científica, sempre que esse inquérito de opinião tem sido realizado. Mas que tem isto que ver com a história? É que num conto de ficção científica de Arthur C. Clarke, precisamente chamado “Lição de História” aprendi algo mais:

Os cientistas venusianos enviam uma nave ao terceiro planeta, que tinha sofrido graves alterações climáticas e dizimado a civilização terrestre e descobrem os restos de um filme. Em Vénus conseguem perceber que passando rapidamente os fotogramas, obtêm imagens animadas dos seres e da vida na Terra. No filme, e agora cito Clarke, as (...) pessoas possuíam dois olhos muito próximos, mas os outros adornos do rosto eram quase indistintos. Havia um grande orifício na parte inferior da cabeça, que abria e fechava constantemente. Possivelmente tinha qualquer coisa a ver com a respiração. Os cientistas olhavam emocionados para tão fantásticas aventuras. Havia um conflito violento entre duas personagens. Parecia que ambos haviam morrido, mas, no fim, ambos ficavam de novo em pé.
A seguir vinha uma louca correria, uma máquina de quatro rodas, que era capaz de extraordinários feitos de locomoção. A viagem terminou numa cidade cheia de outros veículos semelhantes que se moviam em todas as direções. Ninguém parecia surpreendido de ver duas dessas máquinas encontrarem-se com resultados devastadores.
Depois disto, os acontecimentos tornaram-se mais complicados. Era óbvio que aquilo levasse a muitos anos de pesquisas, para se compreender tudo. É claro que a fita era um trabalho de arte, uma reprodução exata da vida, tal como fora no Terceiro Planeta.
Muitos dos cientistas ficaram tristes, quando a sequência chegou ao fim. A cena final mostrava as pessoas envolvidas numa catástrofe incompreensível e terminava com um círculo rodeando a cabeça de uma delas.
A cena desvaneceu-se e deu lugar a algumas letras(...)
Reunidos em conferência, os cientistas resolvem visualizar o filme pela segunda vez. (...) Uma vez mais o filme passou no écrã. A máquina parou e ficou a perpetuar-se aquela imagem da criatura envolvida num círculo, numa atitude de mau temperamento. Para o resto dos tempos simbolizaria a raça humana. Os psicologistas de Vénus analisariam as suas ações até reconstruírem a sua vida. Milhares de livros seriam escritos acerca dela. Filosofias complicadas tentariam explicá-la.
Mas todo este trabalho, esta busca, seria praticamente em vão. Talvez que a figura no écrã se risse sarcasticamente daqueles cientistas.
O seu segredo seria guardado, enquanto durasse o Universo, porque ninguém mais leria a linguagem perdida da Terra. Durante os milhões de anos futuros, estas palavras dançariam no écrã, sem que ninguém conseguisse descobrir o seu significado: ‘Uma produção de Walt Disney’.

A História é de todos os cantos do planeta
Os fatos históricos chegam a nós através da sua interpretação. Primeiro de quem o narra no momento e segundo, pelo historiador. Ao longo do tempo essa interpretação sofre alterações. Mesmo hoje, os compêndios de história são diferentes de país para país, na interpretação dos mesmos fatos, sobretudo dos conflitos.        

- Já na faculdade de economia tive a sorte de “apanhar” dois grandes professores. O catedrático que nos dava as lições em Aula Magna, com várias turmas reunidas ao mesmo tempo, chamava-se Joel Serrão. Ser-nos-ia difícil perceber o que ele não sabia, e nós, pobres estudantes, ao ouvi-lo, tínhamos a sensação de que estava muitos degraus acima dos nossos incipientes conhecimentos. Joel Serrão tinha coordenado a realização do famoso “Dicionário da História de Portugal”, uma obra enciclopédica notável. Aquele professor era uma sumidade. Tive a sorte ainda de o conhecer em sua casa de Campo de Ourique, na Rua Saraiva de Carvalho, por cima do Café Canas. O assistente que nos dava as aulas, era o César de Oliveira. Ativo e nervoso, era um especialista do movimento operário e sindical do século XIX e da Primeira República em Portugal. Anos mais tarde, depois do 25 de Abril, César de Oliveira seria deputado e autarca e Joel Serrão administrador da Gulbenkian. Infelizmente, ambos já não estão entre nós. Ensinaram-me a compreender a história pelo lado social, da vida concreta e material das pessoas.

- Depois, na idade adulta pós-estudantil, muita coisa aprendi. De 1977 quando terminei o curso até 2012, assinalo 4 acontecimentos históricos vividos:

A) Acredito, tal como o futurista Hermann Khan previu em 1977, em The Next 200 Years, que além do setor primário, secundário e terciário da economia, o setor quaternário, da informação, continuará a ser o dominante motor da economia. A maior empresa do mundo em valor, a Microsoft, faz parte deste setor. A generalização da informática e dos computadores constituiu uma revolução económica e social. A economia digital substituiu a analógica. Qualquer dia, ainda este século, as máquinas serão mais inteligentes que nós. Nesse dia, ou nos conseguimos transformar ou estamos lixados.

B) A crise energética provocada pela escassez dos combustíveis fósseis, sobretudo o petróleo. Estamos já a dar os primeiros passos no início de uma viragem para formas de energia alternativas, nomeadamente energias renováveis e menos poluentes. Das “velhas energias” do século XX, apenas a energia nuclear se revela ainda competitiva. Tal como uma personagem de Júlio Verne afirmou, no século XIX, a energia do futuro são os gases contidos na água...

C) O estrondoso falhanço social, económico e político do socialismo e do comunismo na União Soviética e na China, e a adesão destes países à economia de mercado, ao capitalismo. Com esta alteração a economia capitalista globalizou-se, e num espaço de tempo muito curto, menos de 20 anos, centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza e tiveram acesso a bens de consumo anteriormente exclusivos do Ocidente. Espetacular, o avanço material da humanidade.

D) A dificuldade do Ocidente até aqui hegemónico, em especial a Europa e os Estados Unidos, em manter a estrutura económica, política e social do tempo da Guerra Fria, e o seu declínio relativo face às novas potências económicas emergentes. De uma ordem mundial repartida entre 2 grandes blocos, estamos a evoluir para um mundo muito mais subdividido, multipolar, como hoje se diz.

Neste Verão, dois acontecimentos relevantes no âmbito da história:

1) A publicação pelo Expresso da História de Portugal coordenada por Rui Ramos. Cuidadosa e criteriosa.

2) O falecimento do Professor Hermano Saraiva, figura de reconhecido mérito e valor. Único e insubstituível. O melhor “In Memoriam” a Hermano Saraiva, foi o realizado por Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Foi condecorado pelo estado português (antes e depois do 25 de Abril) e pelo estado brasileiro. 

Foi a pensar em Hermano Saraiva, que redigi o texto deste artigo. As lições do passado servem o presente e o futuro. A História é importante.

domingo, 5 de agosto de 2012

Verão e férias em Portugal: tempo de festas e romarias.


Escolhi ao acaso na Net imagens de festas e romarias, selecionei uma canção de um dos meus grupos preferidos de sempre, de música de raiz folclórica portuguesa, os Vai de Roda, do CD Polas Ondas, a canção Senhora da Granja, e fiz um pequeno vídeo.

video

Este blogue entra em férias até Setembro. Boas férias!

sábado, 28 de julho de 2012

Sonoridade da Língua Portuguesa por Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925)


Carolina Michaelis de Vanconcelos

Quando penso na sonoridade da língua portuguesa, tenho tendência sempre a avaliar a língua pelo meu sotaque, o do português europeu, na variante dominante em Lisboa, onde vivo. É uma forma que tende a tornar as vogais mudas, abreviando muito as sílabas, em particular a última de cada palavra. Mas se descer alguns poucos quilómetros para sul e chegar ao Alentejo, já encontro o linguajar meio cantado do alentejano.

Há pronúncias muito diferentes do português. Há o europeu, o brasileiro e o angolano, por exemplo, e cada um diz as palavras à sua maneira. Dentro de um mesmo país existem variações importantes. O português nos Açores, se é muito fechado e rápido, torna a compreensão do discurso difícil, mesmo para mim, habitante do mesmo país e falante da mesma língua.
Claro que se estivermos perante alguém treinado na comunicação oral, um bom professor, um bom orador, um bom ator, um bom cantor, que aprendeu a pronunciar com clareza o português, então tudo se torna compreensível para todos.

Acho a língua portuguesa no Brasil particularmente bonita, sobretudo pela forma como as vogais são abertas e marcadas pelas consoantes r, s e m ou n, e como a fala é entoada, mais expressiva e menos contida que o português europeu. Muitos estrangeiros, não sabendo português e ouvindo o português europeu e o português brasileiro, mostram estranheza como é que a mesmas palavras podem soar ao ouvido de maneira tão diferente.

Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925), uma das grandes estudiosas da língua portuguesa, explicava a sonoridade do português da seguinte forma:

As diversas línguas variam muito quanto ao número de sons de que sabem fazer unidades. Numas predomina o elemento vocálico, noutras o consonântico. E, se olharem para o alfabeto, em que há apenas cinco vogais e quatro vezes cinco consoantes, aparentemente estas devem estar na maioria. E estão. Mesmo na língua italiana, a língua do belcanto, em que todas as palavras terminam em vogal, há nos 14 versos de um soneto qualquer (termo médio) 184 vogais e 221 consoantes. Em português contei 174 vogais e 203 consoantes.
Em alemão há um esqueleto consonântico mais robusto. Temos sílabas com cinco sons consonânticos, por exemplo em pflückst, pflügst, schlägst, drückst, bringst. Em português ele é mais brando e reduzido do que em qualquer outra das línguas neolatinas, em virtude da queda do l, n, d, g intervocálico. O ouvido e a língua nacional amam a simplicidade; tendem à maior comodidade em forma e beleza possível, e ao menor esforço possível; ao emprego da vis minima.

Quase todas as sílabas constam de dois ou três sons. Temos dois em , li, vi, , , . Temos três em vai, lei, rei, meu, teu, seu; a par de duas vogais uma consoante, ou, mais exatamente, a par de uma consoante uma vogal e uma semivogal que, juntas, constituem um ditongo. Em outros casos agrupa-se com a consoante explosiva (p-t-k ou b-d-g) uma líquida ou uma vibrante, por exemplo em crê, pra(do), etc. O máximo são quatro sons: duas consoantes iniciais agrupadas, vogal, e uma consoante final (nasal, líquida, vibrante ou sibilante) por exemplo em três, cruz, prol, traz, grei, frei, greis, freis.

Creio que não há nenhuma com mais de cinco sons. E mesmo entre essas, em que há portanto quatro consoantes, mal haverá uma que seja popular. Só me lembro de trans em transpôr, transparente. Mas tais sílabas, o povo, quando as emprega, alivia-as, dizendo transpor, ou cortando-as em duas, dizendo estrâ, ou estram. A minha lavadeira, que é de Paranhos, diz sempre estramparente. E todos nós, apesar das nossas pretensões a gente culta, dizemos por exemplo estra-viar, em vez de transviar. E todos nós procedemos de modo semelhante com os vocábulos que em latim principiam com o grupo sp, st, sk. Em vez de scutu dizemos escudo; estudo em vez de studium; esposo em vez de sponsum
Os três sons sku, stu, spon eram compactos demais para o ouvido musical dos portugueses.

(Introdução a Lições de Filologia Portuguesa na Universidade de Coimbra, Curso de 1917-1918, em Revista Lusitana, Vol. XXI, Lisboa, 1918)

Nota Final:
Agostinho de Campos na sua Antologia Portuguesa em Paladinos da Linguagem, Vol II, 1922, selecionou este texto de Carolina Michaelis de Vasconcelos. Sobre o mesmo tema, em texto de J. Jorge Peralta, ver também o excelente blogue GlobiLíngua.