domingo, 27 de maio de 2012

Campo Maior II: o contrabandista.


Num seu outro livro, Revivendo o Passado, de 1929, Lourenço Caiola explica a comunhão existente entre a população de Campo Maior e a figura do contrabandista, na fronteira de Portugal com a Espanha. Este relato foi primeiro publicado no Campomaiorense, durante a I República, e só posteriormente incluído no livro. É um quadro de algum romantismo e até de heroísmo, relatando o que se passava no século XIX e se prolongou durante grande parte do século XX, na sua terra natal. Perante as circunstâncias mais adversas, como guerras e devastações, na falta de bens essenciais, o contrabando conseguiu suprir muitas faltas.
As notas a azul entre parêntesis retos [...], não pertencem ao texto original e são da minha responsabilidade.  

Há cinquenta anos ainda no nosso lindo país mal se conheciam as notas e ignoravam-se por completo os depósitos de bacilos e imundícies a que vulgarmente se dá o nome pomposo de cédulas. Os pagamentos realizavam-se em boas moedas de prata, de cunhos perfeitos e em belas libras esterlinas, umas de cavalinho, outras com a efígie da olímpica rainha Vitória, que mais tarde, num arranco de patriotismo, quisemos repelir chamando-lhe piratas e de que hoje mal nos recordamos, como dum sonho fagueiro e encantador. Essa situação protelou-se até 1891 em que de chofre caímos do aeroplano de opulências, onde vogávamos descuidados, no mar encapelado duma nova bancarrota [a nossa História tem destas coisas e ainda não sabemos aprender com ela].

 Nesses tempos a situação financeira da Espanha, dividida por crudelíssimas guerras civis [a Espanha sempre foi um país muito dividido, e por isso a guerra civil voltaria nos anos 30 do século XX] e dilacerada por tentativas revolucionárias, era bem pouco lisonjeira. A sua moeda estava bastante desvalorizada, embora a sua depreciação não se parecesse sequer com a que atualmente fere o anémico escudo português. Comprava-se um duro [moeda de prata espanhola] por 800 réis, 700 réis e até às vezes por 600 réis. Agora só o obtemos por mais de vinte vezes esse valor. Podíamos assim adquirir os géneros espanhóis e sobretudo os seus tecidos por preços diminutíssimos. Tornava-se irresistível a tentação de se realizarem compras nos mercados do país vizinho e de se aproveitar uma fronteira aberta de centenas de quilómetros, impossível de ser eficazmente fiscaIizada, para furtar os artigos e géneros adquiridos aos direitos de importação. O contrabando de lá para cá, como hoje sucede ao de cá para lá, tomou as proporções duma grande industria. Em poucas regiões, esse facto se manifestou com tanta intensidade, como era Campo Maior.

O génio ousado e aventureiro dos meus patrícios, a sua coragem indómita e a fria despreocupação do perigo, encontravam nessa vida um largo e atraente campo de ação. Cada um deles conhecia de cor os caminhos mais ocultos, as veredas mais cobertas, por onde se poderia fazer a passagem para Espanha [não acredito que fosse fácil pois os campos da fronteira de Campo Maior com Espanha, são de planície até Elvas – teriam de percorrer muitos quilómetros durante a noite para encontrar terreno protegido]. Mas, apesar disso, o exercício continuado do contrabando representava um constante desafio à morte e os que nela gastavam as suas forças e energias jogavam a vida a todos os momentos. Mais um motivo para se lançarem naquela carreira contrária à letra da lei, mas que, no próprio risco, tinha a sua defesa e o seu encanto. De quando em quando vinha a notícia de que um ou dois desses temerários haviam encontrado, nas balas das espingardas dos guardas de alfândega, o desfecho das suas ilusões e o termo das suas existências em flor. Havia um luto geral, mas os que ficavam não sentiam por isso entibiar-se-lhes o ânimo, ou desfalecer-lhes a coragem.

Ao contrário, o número dos contrabandistas crescia sucessivamente. Os rapazes mais válidos da vila, os mais fortes, os mais preparados para a luta, iam um a um engrossar essa falange sequiosa de lucros e que pagava generosamente a sua ambição sujeitando-se a um combate sem quartel. A indústria do contrabando foi-se pouco a pouco regularizando e tomando o caráter duma verdadeira instituição. Todos os dias passavam a fronteira muitos dos que tinham ido a Espanha comprar algodões, lãs e sedas e internavam-se polo nosso território com pesadas cargas, vendendo, por preços muito reduzidos, os artigos que haviam adquirido, nas povoações do Alentejo e da Estremadura e chegando quase às portas de Lisboa. Depois voltavam, quase sem descanso, a recomeçar a tarefa. O comércio nas cidades espanholas trabalhava de acordo com eles e tanto que, quando qualquer português das terras raianas fazia compras nos estabelecimentos de Badajoz, ouvia sempre a mesma frase no ato do pagamento: «Se não quiser levar consigo o que acaba de comprar e preferir recebê-lo na sua residência, paga mais dez por cento e todas as responsabilidades ficam por nossa conta». E essa proposta era feita indistintamente a qualquer freguês, sem que o comerciante procurasse saber sequer se aquele a quem a apresentava não a tomaria, pelos seus escrúpulos ou pela sua situação oficial, como um insulto.


Os contrabandistas consagravam-se tão devotadamente à sua arriscada profissão que entendiam que ela era merecedora da proteção divina. O seu patrono na corte celeste era o bondoso São João Batista, tendo ao seu lado o meigo e branco cordeirinho, símbolo de mansidão. Veneravam a santa imagem com entranhada fé e todos os anos lhe promoviam uma festa espetaculosa e rica para lhe renderem graças pelos favores recebidos. Era um dia de júbilo para toda a vila. Havia cerimónias de igreja na risonha ermida, situada na confluência das estradas das portas da Carreira e da Vila, bem próxima da quinta do Firmino, iluminações vistosas e arraial, onde as raparigas mais lindas, sapateavam nervosamente toda a tarde e parte da noite os passos do fandango, ou elanguesciam nos braços dos namorados, ao som dolente da polca. Logo ao romper da manhã estralejavam os foguetes e a filarmónica do Baínim ou do Soares quebrava o silêncio das ruas, com os acordes duma marcha guerreira.

 Mais tarde organizava-se o cortejo em direção à capela. Á frente seguia a música e atrás os contrabandistas de faces enérgicas, rostos tisnados por sóis inclementes, cercando respeitosamente a bandeira da sua corporação e marchando com ar altivo, cônscios da sua força e confiados no seu destino. Havia reboliço em todas as casas. As janelas enchiam-se repentinamente de vultos curiosos, que se debruçavam para presenciar o animado espetáculo. A alegria dessa hora compensava muitas das amarguras e inquietações sofridas. E pelas ruas continuava a colear a fita dessas centenas de rapazes em pleno vigor da mocidade, com as jaquetas de alamares de prata ou de retrós, o chapéu braguês, as camisas ornamentadas de botões de cabecinha de ouro lavrado, as cintas das cores mais garridas, as calças, modelando-lhe à justa as pernas musculosas e delgadas e afuniladas no fim e os sapatos brancos de bezerro.

 Nos passeios os pobres guardas de alfândega, como que envergonhados, procuravam cozer-se com as paredes para disfarçar a sua impotência. Eu era então uma criança. E apesar disso o espetáculo que rememoro impressionava-me profundamente, porque o meu cérebro, embora infantil, não podia compreender esse alarde impudente da ilegalidade e menos ainda que os contrabandistas, que personificavam a infração constante da lei, merecessem tantas simpatias, ao passo que os guardas de alfândega, que representavam o Estado e os seus direitos, só provocassem troças e desdéns. Mas isso não obstava a que eu mesmo, deixando-me contagiar pela alegria que bailava no ar, fosse também atrás dos contrabandistas vitoriando-os com entusiasmo, cercado pelos miúdos do meu tamanho, e desejando-lhes as mais ridentes felicidades.

Ao terminar este conjunto de dois textos sobre Campo Maior, gostaria de referir a importância de Rui Nabeiro e dos cafés Delta. O empresário e a marca são incontornáveis, quando se pretende hoje falar da moderna vila de Campo Maior. Ver neste blogue Cafés Delta

domingo, 20 de maio de 2012

Campo Maior I: terra raiana.


Porque o IVA e os impostos sobre os combustíveis são mais elevados em Portugal do que em Espanha, dizem que a fronteira económica espanhola penetrou já 50 km em Portugal. Se assim é, não se poderiam baixar esses impostos na zona fronteiriça? Afinal, as autoridades só teriam a ganhar e não se percebe a falta de iniciativa durante todos estes anos. Não são apenas as regiões insulares que podem beneficiar de um IVA reduzido.

São 39, os municípios da fronteira portuguesa.
Portugal é cada vez mais um país concentrado em redor das grandes cidades. Sabemos que muito dificilmente poderemos esperar nos anos mais próximos, que as indústrias e os serviços cresçam o suficiente para gerar o emprego que o país necessita. Depois do programa de ajustamento, o crescimento previsto do PIB será muito lento. Também na União Europeia se preveem pequenas taxas de crescimento económico a médio prazo.

Um modelo económico menos concentrado e melhor distribuído é, não apenas uma necessidade de muitas pequenas cidades e vilas de Portugal, mas uma oportunidade para o crescimento económico do país. As produções agrícolas de proximidade poderiam ser estimuladas, e o comércio poderia atrair vizinhos espanhóis, principalmente para os nossos supermercados e bombas de gasolina ao contrário do que hoje sucede.

Portugal inteiro tem uma enorme dívida histórica de gratidão para com as terras raianas, que ao longo dos séculos guardaram as fronteiras contra as tentativas de invasão. Leoneses, maometanos, franceses, castelhanos e espanhóis, todos os que pretendiam invadir o território português, encontravam nessas populações o primeiro sinal de uma luta que lhes seria movida sem tréguas, de um povo que não abdicava da sua independência.

No livro Cenas Delidas pelo Tempo de 1934, o campomaiorense coronel Lourenço Caiola (1863-1935), apresenta-nos no último capítulo, Uma terra sempre portuguesa, alguns dos episódios porque passou Campo Maior ao longo da história.

Uma terra sempre portuguesa

Porque será que o sentimento do patriotismo palpita, em geral, mais forte e veemente nas terras fronteiriças do que nas outras povoações da mesma nacionalidade? É essa uma lei comum a que não conhecemos exceções. Em França, por exemplo, é em Verdun, Lille e sobretudo nas povoações da Alsácia e Lorena, desde muito tempo joguetes das ambições de dois grandes povos rivais, que mais intensamente perdura e se transmite de pais para filhos o amor da Pátria querida, sob cujo domínio conquistaram os louros mais viridentes da sua história.
O fenómeno que registo nestas linhas tem porém uma explicação natural e lógica.
É o receio, a inquietação de perdermos o que nos é mais querido, que melhor enraíza e acrisola os sentimentos da nossa alma. Tudo aquilo que possuímos sem atritos ou dificuldades, tudo aquilo que nos não é contestado nem precisámos defender, passa quase a ser-nos indiferente. São o sofrimento, a luta e a dor que mais nos ligam e afeiçoam ao que estamos ameaçados de perder.

As terras que vivem próximo das fronteiras contam no seu passado muitas horas de perigo e lances de heroísmo, empregados na defesa e honra da bandeira nacional, que se transmitiram de geração em geração, fixando-se com límpida nitidez na memória dos contemporâneos. Elas viveram num alerta contínuo, alanceadas pelo temor do que poderia ser o seu dia de amanhã. Por isso são bem legítimos todos os extremos da sua devoção patriótica, todo o orgulho e altivez com que a afirmam a cada momento, não permitindo que alguém dela possa suspeitar.
Um dia, o meu bom amigo Ventura Abrantes, um trabalhador incansável, queixava-se-me de que lhe exigiam um requerimento de naturalização para o considerarem português e terminava o seu protesto com estas palavras:
 — A mim, que sou português duas vezes!
— Português duas vezes?
— Sim, replicou ele nervosamente. Sou português, porque todos os meus ascendentes o foram e sou português porque nasci em Olivença, que os espanhóis roubaram a Portugal, por um ato de deslealdade e felonia.
Ficaram-me na memória essas nobres e grandes palavras, porque elas definem, melhor do que eu o poderia fazer, o pensamento que desejava exprimir.

Campo Maior, a minha querida terra natal, não se eximiu, através da sua história tão recheada de páginas de epopeia, à regra que enunciei. Nas ruínas, que restam das suas muralhas, estão bem visíveis os efeitos destruidores do tempo e os destroços produzidos pelas balas de artilharia castelhana em vários e arriscados períodos da sua existência.
Quando eu era criança, no pequeno quintal da casa da minha família, quantas vezes brinquei com pelouros, balas de reduzidos calibres e grossas bombardas, já comidas de ferrugem, restos das que o inimigo lançara a esmo sobre toda a povoação, nas horas inquietantes e angustiadas dos cercos! Uma irmã de meu avô, já muito velhinha e muito querida de todos nós, contava-me, em palavras coadas pela saudade, os dias que passara em abrigos abertos nas escarpas das muralhas e onde haviam encontrado guarida as famílias mais gradas da vila, enquanto os soldados e os civis, em condições de combater, repeliam corajosamente as investidas dos espanhóis, sem que ninguém ali, nem mesmo os velhos ou as crianças, fizessem ouvir qualquer palavra de desânimo, ou de temor. E a sua voz, já sumida, e prestes a emudecer no silêncio perpétuo do túmulo, tinha ainda acentos de entusiasmo ao relembrar esses dias tão longínquos de sacrifícios e heroicidades.

As afirmações de amor a Portugal dadas pelos filhos de Campo Maior repetem-se desde a hora em que, no reinado de D. Dinis, a sua terra se jungiu aos destinos da nossa nacionalidade. Praça de guerra de reconhecida importância, até ao princípio do século XIX, pela sua alcaidaria-mor passaram vultos da mais prestigiosa situação e méritos brilhantes, como Gil Vasques de Barbuda, Martinho Afonso de Melo, Rui Gomes da Silva, alguns dos maiores nomes da nobilíssima família dos Teles da Silva e depois da dos Lobos, descendentes diretos do Barão de Alvito.
Por morte de D. António de Alcáçova, passou a alcaidaria-mor para os Sequeiras, entre os quais figurou Afonso de Monrojo.
No período que se seguiu à Restauração, que famosa lista de nomes cheios de glória se sucederam na sua capitania-mor! A citar ao acaso os de André da Silva de Meneses, Gomes Freire de Andrade, André de Almeida da Fonseca, o mestre de campo Aires de Saldanha, um dos quarenta e heroicos conspiradores do 10 de Dezembro, D. Rodrigo de Castro, Martim Ferreira da Câmara, o mestre de campo André de Albuquerque, guerreiro dos mais ilustres de toda a nossa história, D. Sancho Manuel de Vilhena, o imortal vencedor das batalhas do Ameixial e das linhas de Elvas, o visconde de Barbacena, o conde da Torre, D. João de Mascarenhas, António de Sousa de Meneses, Pedro César de Meneses, o comandante da vanguarda das linhas de Elvas, etc., etc.

Entre todos os que citámos, foi Afonso de Monrojo o que mais se distinguiu no governo de Campo Maior por um ato que para todo o sempre tornou a sua memória sagrada. Com o desastre irreparável de Alcácer-Quibir e a morte do Cardeal D. Henrique soçobrou a independência de Portugal. Felipe II, de Espanha, amparado no direito histórico, por ser neto de D. Manuel, senhor dum grande império, dirigindo exércitos poderosíssimos e servido por alguns portugueses que colocaram as ambições pessoais acima do seu fervor patriótico, facilmente pôde realizar a velha aspiração de estender o seu domínio a toda a península ibérica.
A cobardia, a indiferença, o espírito de fatalismo, dominara todos os ânimos e quebrantara as mais fortes energias. Só de longe em longe, surgia um impotente e fugaz assomo de resistência. «O Demónio do Meio-Dia» antegozava já a hora do seu triunfo definitivo.
Em 19 de Junho de 1580 apresentou-se em Campo Maior D. Jerónimo de Mendonça, gentil-homem do Rei de Castela, para tomar posse da vila, em nome do seu amo. O juiz de fora, os vereadores e as autoridades reunidos nos Paços do Concelho, não se atreveram a proferir urna palavra, ou a esboçar um gesto de discórdia. Submeteram-se sem condições, esquecendo--se do que deviam à honra da sua Pátria.
O emissário de Filipe II exultava de contentamento, julgando que ganhara a partida sem o menor atrito. Restava só que o alcaide-mor lhe entregasse as chaves da fortaleza. Dirigiu-se para o conseguir, ao Castelo, escoltado por esses maus portugueses. Afonso de Monrojo recebeu-o na Torre de Homenagem. Quando D. Jerónimo de Mendonça lhe passou a carta selada com o Selo Real, em que o senhor de todas as Espanhas lhe ordenava que o reconhecesse como soberano, leu-a pausadamente, não pôde evitar uma crispação que o obrigou a amarrotá-la e em seguida, sem tempo para largas reflexões e fazendo um esforço sobre-humano para conter a sua indignação, disse numa voz pausada, em que as palavras, trémulas, deixavam transparecer a tempestade que se desencadeara na sua alma: “só devia obediência aos governadores do Reino e só por uma ordem deles cederia os direitos que lhe tinham sido outorgados”.
Era a repetição do famoso feito do alcaide-mor de Coimbra nos velhos tempos de D. Afonso III, O fidalgo português, que vendera a sua alma a Castela, fitou-o assombrado. Tentou ainda meios dissuasórios. Quis convencê-lo de que o seu ato era o dum louco. Mas Afonso de Monrojo manteve-se inabalável na sua resolução e as chaves do Castelo só lhe foram arrancadas, quando D. Jerónimo de Mendonça, apoiado por todos os presentes, o dominou pela força e o prendeu, esquecendo-se de que enxovalhava desse modo um grande soldado da índia, um antigo e heroico capitão e governador da lendária fortaleza de Chaul.

Nas guerras da Restauração, nesses vinte e oito anos de sobressaltos, de constante e ininterrupta vela de armas, porque estava em jogo a independência nacional, sobretudo para as povoações da fronteira alentejana, quantas vezes Campo Maior se viu ameaçada pelas forças da vizinha cidade de Badajoz e que lutas teve de sustentar para defender as riquezas dos seus campos e para repelir as investidas do inimigo?!
Mas foi no cerco de 1712 e nos do início do século XIX que as suas guarnições e habitantes de todas as classes e categorias afirmaram, com o maior esplendor, a sua valentia e espírito de sacrifício pela honra da Pátria. A 28 de Setembro daquele ano, um luzido e grande exército, comandado pelo marquês de Bay, general de grande renome e ainda maior prosápia, tomou posições diante de Campo Maior, desde o monte do Carrascal até aos altos dos Locaios.
Á filáucia castelhana afigurava-se uma empresa fácil o assalto rápido à praça. Mas só no dia 4 de Outubro o inimigo pôde começar a abrir a primeira paralela. Recorreu ele aos mais diversos ardis para facilitar o trabalho que pretendia realizar, mas todos foram inutilizados pela argúcia e saber do governador, o brigadeiro Estevão da Gama Moura e Azevedo. Novos reforços acudiram em socorro dos sitiados, trazendo à sua frente o Conde da Ribeira, que tomou a direção da defesa.
Teria de me alongar demoradamente se pretendesse descrever todas as peripécias do cerco memorável, em que a guarnição ameaçada deu uma das provas mais brilhantes de coragem, de intrepidez, de confiança no seu valor, de quantas se registam nas páginas da nossa história. As tropas espanholas conseguiram estabelecer as três paralelas, abrir largas brechas nas muralhas, lançar sobre a povoação 700 a 800 projéteis, em média, por dia, sem que o menor esmorecimento ou temor assaltasse jamais o ânimo dos combatentes, ou da população civil. Por fim os castelhanos, comandados por D. Pedro de Zuniga, irmão do duque de Bejar, lançaram-se intrepidamente ao assalto, caminhando cegamente para uma verdadeira hecatombe. Dois mil dos seus homens de guerra viram, em frente de Campo Maior, pela última vez, a luz do sol.
Desanimadas e vencidas, as tropas do Marquês de Bay, em 2 de Novembro, levantavam os arraiais e recolheram cheias de humilhação a Badajoz, onde, dias antes, por uma falsa notícia, já lhe tinham glorificado entusiasticamente o triunfo.

Em 1801 Campo Maior sofreu um novo cerco. Não pôde desta vez fazer retirar o inimigo, vexado pela sua impotência. Dispunha duma guarnição muito escassa, achava-se desprovida de elementos indispensáveis de material de guerra e via-se batida por uma artilharia poderosa, que destruiu grande número dos seus melhores edifícios e a inundou de dezenas de milhar de projéteis de todos os calibres. Teve por isso de se render no fim de 18 dias duma heroica e desesperada defesa. Mas fê-lo de modo tão honroso que às forças vencidas, constituídos mais por sombras do que por homens, foram prestadas as maiores homenagens e foi-lhes concedido irem juntar-se em Elvas aos seus irmãos de armas.
Vila de Campo Maior no Google Earth
Seguiram-se depois os sucessos da invasão napoleónica, sendo a minha terra uma das primeiras a insurgir-se contra o domínio do herói de Austerlitz e constituindo uma junta governativa dependente da de Badajoz, onde também vingara o grito de guerra contra o domínio francês. Formavam essa Junta alguns dos melhores filhos de Campo Maior e D. José Carvajal, representante duma família nobilíssima de origem espanhola, mas amando estremecidamente a sua terra adotiva, a tal ponto que, tendo-se um dia o orgulhoso general Galuzo, comandante das tropas do pais vizinho, excedido em apreciações depreciativas para o brio português, o brioso fidalgo replicou-lhe que era membro da deputação dum povo amigo, que não fora ali para receber insultos e que, apesar de espanhol, era vassalo do Príncipe de Portugal, do qual recebera as honras de Cavaleiro e o uso de espada, estando pronto a demonstrar que a não cingia em vão. Estas palavras decisivas e altivas dominaram rapidamente a grosseria do castelhano.

Não desejo fechar este capítulo sobre alguns dos melhores feitos da terra em que nasci, sem dizer rápidas palavras sobre o que teve de grande e quase inverosímil o cerco de 1811.
As tropas francesas queriam então desforrar-se com estrondo dos desastres dos anos anteriores, os primeiros que haviam empanado o brilho das águias do Imperador. Aspiravam a levar tudo diante de si, a ferro e a fogo.
A 10 de Março, o marechal Mortier destacou o general barão de Girard com duas divisões, encarregando-o de ir ocupar a praça de Campo Maior. Sofreram os invasores a primeira deceção ao verem o governador, o temerário major Talaia, repelir com indignação a ordem para se entregar. E o aparato da defesa foi tão hábil e engenhosamente simulado que Girard se convenceu que estava em frente de um poderoso inimigo e precisava fazer um cerco em regra. As nossas baterias calavam-se por largos períodos, tão pequeno era o número de artilheiros que as guarneciam. Os alimentos e munições de guerra começaram a escassear desde o primeiro dia. A população civil multiplicava-se para ajudar a defesa, animando os soldados com a sua dedicação e coragem. Quando o governador reconheceu que toda a resistência era uma temeridade inútil e um inglório sacrifício de vidas, resignou-se a capitular. Foi ele, porém, que impôs condições e não se sujeitou a elas. Os oficiais sairiam com as suas espadas e à frente dos seus soldados seguiriam por entre as alas dos inimigos que os saudariam respeitosamente. Ninguém sofreria coisa alguma, nem na sua liberdade, nem na sua fazenda. Assim se fez, dando-se então um espetáculo sem precedentes.
O general Girard, ao ver desfilar diante de si uns trinta artilheiros esquálidos, esfarrapados e mal se podendo ter em pé e poucas dezenas de milicianos na mesma miséria moral e física, levando por únicas armas uns ridículos terçados quase todos partidos, deixou-se dominar por uma enorme ira, julgando que estava sendo vítima duma mistificação e ameaçou o major Talaia de o fazer passar pelas armas se na Praça encontrasse novas forças regulares.
Não podia acreditar no que via. Sentia-se afrontado à ideia de se haver transformado num novo D. Quixote, empregando um esforço enorme contra inimigo tão insignificante pelo número e elementos de guerra. E a sua expressão de pasmo e de revolta era tão cómica que acabou por provocar as gargalhadas dos seus próprios soldados.
Pouco valeu aos franceses a sua ridícula vitória. Quatro dias depois abandonavam a vila, por se verem ameaçados pelo exército anglo-luso e a povoação heroica recebia o título de «Leal e Valorosa Vila de Campo Maior», gravando-se-lhe por baixo do seu escudo as palavras «Lealdade e Valor».

Aí ficam sumariamente expostos os títulos de patriotismo da terra onde tanto me orgulho de ter nascido e que, através dos tempos, tem demonstrado que quer e sabe ser: «uma terra sempre portuguesa».

sábado, 12 de maio de 2012

O Exército, Alcácer-Quibir e a Restauração, segundo Gonçalo Pereira Pimenta de Castro


 O coronel Gonçalo Pereira Pimenta de Castro (1868-1952) nas suas detalhadas Memórias, com três volumes, conta-nos um pouco do que foi a história do exército português, as razões da sua derrota na batalha de Alcácer-Quibir, a perda da independência, e o posterior papel do Duque de Bragança, mais tarde D. João IV, no movimento da Restauração. É um dos meus relatos preferidos, com alguns episódios curiosos.

Coronel Gonçalo Pereira Pimenta de Castro
O primeiro mapa de Portugal foi traçado pela espada do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.
Em Aljubarrota foi a espada de D. Nuno Álvares Pereira e a peonagem comandada pelo próprio Rei D. João I que convenceram D. João de Castela dos nossos direitos de nação independente, o que não tinha sido conseguido com os patrióticos discursos de D. João das Regras, sábio Doutor da Universidade de Bolonha.
Foram as lições do Príncipe Negro e das batalhas de Crécy e Poitiers, que levaram o nosso D. Nuno Álvares Pereira a mandar apear os nossos cavaleiros e a receber na ponta das lanças os cavaleiros inimigos, nos Atoleiros e em Valverde.
 Quando os mouros repetiam as suas audaciosas arremetidas contra os cristãos da Península — os cavaleiros portugueses, levando à sua frente o Rei, os príncipes, os restos gloriosos da Ala dos Namorados, toda a nobreza e peonagem, atravessaram mar para na Mesquita de Ceuta — logo convertida em Igreja — celebrarem uma alta cerimónia de cunho patriótico. 
Sobre o cadáver do heroico Conde de Marialva, que, crivado de golpes, ali sucumbiu dando a sua vida por Deus, pela Pátria, que engrandecia, e pelo cumprimento das ordens do seu Rei, que honrava, foram armados cavaleiros os heroicos príncipes portugueses.

Arzila, Tanger e Alcácer Ceguer vieram para a coroa de Portugal na ponta das lanças dos cavaleiros portugueses. Nessa época, não havia verdadeira organização militar. Os fidalgos com os seus criados, rendeiros e parentes, juntavam-se à volta do seu Rei. Os municípios, com os seus moradores, também. O alferes mor levava a bandeira e marchava ao lado do Rei.
A primeira organização militar regular, muito boa para a época, foi a de D. Sebastião — as milícias.
Os terços (regimentos de Infantaria) do exército de D. Sebastião bateram-se bem em Alcácer-Quibir. D. Sebastião era muito inteligente. As instruções que levou Paulo Dias de Novais, que foi o primeiro Governador de Angola, e as que levou Francisco Barreto para Moçambique, de que foi o primeiro Governador, foram escritas pelo seu punho e estavam muito bem feitas. D. Sebastião tinha a bravura dum verdadeiro herói lendário. A excessiva educação religiosa matou-o e matou o país, cuja independência enterrou nos areais de Alcácer-Quibir.
Todos os desacertos que cometeu, foram devidos ao fanatismo religioso e à deslealdade do tio, D. Filipe, Rei de Espanha.
Figura da batalha de Alcácer-Quibir
O nosso exército devia ter ido nos navios até à foz do rio que banha Alcácer-Quibir, ou seja Laracha, evitando as fadigas da difícil marcha por terra, num clima para que não estavam habituados os nossos homens de armas. Mas D. Sebastião, devido ao fanatismo religioso, não desejava alcançar uma vitória fácil, pois queria uma vitória com sacrifício, que valia muito mais, perante Deus.
A expedição estava debaixo de forma, a fazer a oração da manhã, e a artilharia inimiga a alvejá-la; mas, enquanto não terminou a:oração, o Rei não deu a ordem para o combate. Depois, o ímpeto do nosso primeiro ataque, foi irresistível. O Rei comandava a ala mais importante, com a artilharia e a peonagem; e o Duque de Aveiro a cavalaria da nobreza, que se bateu brilhantemente.
Nesta altura, em que a vitória nos sorria, ouve-se uma voz gritar: «Ter! Ter!». Era o traidor, capitão espanhol Baldaia, que o Rei de Espanha para lá mandou, em vez do velho general Duque de Alva, que havia prometido mandar. Uma traição!
A esta ordem falsa e traiçoeira do Baldaia : «Ter! Ter!» respondeu o Duque de Aveiro: «O meu cavalo não sabe voltar! Para a frente, cavaleiros!»  
E lá foram todos, numa arrancada heroica, para a glória da História, que se alcança numa carga brilhante em que se morre pela Pátria.
O Rei D. Sebastião, com um grupo de oficiais que não o abandonam, continua a luta com grande bravura; mas os terços da retaguarda tentam retrogradar, seguindo ou obedecendo à falsa ordem de «Ter! Ter!»
Os mouros, vendo-os retirar com todo o material, atacam com energia, aprisionando-os e pondo-os em fuga.

Estabelece-se grande confusão e pânico. Os cavaleiros fazem esforços sobre-humanos, embora não apoiados pelos terços, que desaparecem. D. António, Prior do Crato, já prostrado, com o seu cavalo ao lado, vê o Rei com a sua montada muito ferida e diz-lhe: «Senhor, o vosso cavalo está muito ferido; tomai o meu, que está bom». Depois, vendo uma aberta por onda o Rei podia fugir, remata: «Meu Senhor, fugi por aqui». O Rei responde-lhe: «E a minha honra?»
Aceitando o cavalo continua a cometer heroicidades, em combates pessoais, mas os mouros cresciam de momento a momento. Um fidalgo, o Conde de Vimioso, diz-lhe: «Senhor, só nos resta morrer», ao que D. Sebastião responde: «Morrer, sim; mas devagar!»
Esta frase é um poema de heroísmo. Mais tarde, o grupo que o acompanha vê-se cercado de grande multidão de mouros. Os fidalgos chegam a pedir-lhe de joelhos que entregue a sua espada; mas ele não a entrega e diz: «A liberdade de Rei não se perde senão com a morte!»; e, metendo esporas ao cavalo, desapareceu para as lendas épicas da História, onde se conservou por muito tempo...
Os mouros que D. Sebastião ia a proteger, a certa altura abandonaram-no, e foram juntar-se aos seus inimigos da véspera, fazendo-lhe muita falta o seu auxílio, para exploração.
Qual a causa desta deserção traiçoeira? Foi porque se espalhou, entre eles, que o Rei português, que ia auxiliá-los, se vencesse os obrigaria a todos a abraçar o Cristianismo.
Foi pois o excesso religioso, o fanatismo, que perdeu Portugal em Alcácer-Quibir. Mas morremos com honra épica e não apagada no lamaçal político como tristemente fomos arrastados depois, no período seguinte da nossa história pátria.

Foi o Cardeal D. Henrique que, em 1580, entregou Portugal à Espanha, não deixando em testamento o reino a sua sobrinha, a Duquesa de Bragança, que sempre o tratou na sua doença e era querida do país.
Esta hipótese era aceitável, pondo já de parte o Prior do Crato, filho do Infante D. Luís, que o Cardeal D. Henrique, estúpido e mau, odiava sem explicação, opondo assim o seu ódio ao patriotismo. Foi um traidor e o causador das calamidades que daí vieram ao país.
Depois de ter cometido vários ridículos — tais como, sendo um velho imbecil e impotente, pedir licença ao Papa para casar, a fim de haver um herdeiro ao trono; de se amamentar aos peitos de uma mulher para tentar combater a sua senilidade; de deixar marcada a sua imbecilidade, patenteada aos vindouros com esta célebre frase do seu testamento: «Deixo o reino ao seu legítimo senhor» — cobarde, inepta e traiçoeiramente, deixava Portugal à Espanha. Execranda figura esta da nossa História...

Tapeçaria de Paula Rego, Batalha de Alcácer-Quibir
Uma grande parte dos principais prisioneiros portugueses foi resgatada pelo Rei de Espanha, que os levou para aquele país, onde os casou e acarinhou. O monarca espanhol pensou em absorver Portugal, atraindo por todos os meios, como bom político que era, os portugueses desorientados, ou ávidos de ouro espanhol; e, se mais não conseguiu foi porque os seus ministros, como o Conde Duque de Olivares e outros, com as suas violências e perseguições, anulavam os efeitos da sua hábil política de atração.
No majestoso convento de Tomar reuniram-se cortes, à antiga portuguesa, com os três elementos: clero, nobreza e povo. Aí, D. Filipe fez as propostas mais atraentes possíveis: Portugal continuaria com as suas leis, costumes e garantias, parecendo, desta forma, que apenas se substituía o Rei por um regente espanhol: a duquesa de Mântua, sensata princesa espanhola.
D. Filipe fez importantes obras de arte em Portugal. No próprio convento de Tomar, que mandou ampliar, construiu o claustro que ainda hoje tem o seu nome.

O ouro de Miguel de Vasconcelos e Cristóvão de Moura, degenerados portugueses, tentava comprar toda a gente em Portugal, que estava pobríssimo, devido ao luxo, para a repressão do qual as leis de D. Sebastião tinham sido impotentes.
Os cavaleiros portugueses levavam nos seus cavalos, freios e estribos de prata; e os seus brasões, nos xabraques, eram luxuosamente bordados a pedras preciosas. Muitas casas ficaram empenhadas quando os seus representantes partiram para Alcácer-Quibir, cemitério de Portugal, onde tudo deixámos, menos o brio e a honra, como dizia Francisco I em Pavia.
— «Morrer, sim, mas devagar!» — dizia D. Sebastião, em Alcácer-Quibir. É que há derrotas mais honrosas do que algumas vitórias!
Portugal, despovoado e pobre, prestava-se às manobras dos traidores à Pátria. O legítimo Rei português era o Duque de Bragança, o mais poderoso fidalgo de todas as Espanhas. O seu ducado ia pela Espanha dentro, onde os seus domínios eram vastíssimos. Senhor de baraço e cutelo, pendão e caldeira, quando D. Filipe veio a Portugal, o Duque de Bragança (D. João) foi visitá-lo a Santarém, levando uma escolta de 15.000 cavaleiros, montados e fardados à sua custa. A Duquesa (D. Luisa) era acompanhada por uma corte mais pomposa do que a que acompanhava a rainha de Espanha. D. Filipe nomeou, nessa ocasião, o Duque de Bragança seu alferes mor; mas disse aos seus íntimos: «Este meu primo é poderoso demais para vassalo».
E, desde então, procurou tentar afastá-lo de Portugal, para desfazer esta esperança dos portugueses. D. João recusou todos os lugares que lhe ofereceram, para não abandonar a sua casa. 

Os verdadeiros fidalgos, que ficaram em Portugal, não se vendendo ao ouro espanhol, começaram a pensar num levantamento geral do país, contra o domínio espanhol.
Consultaram o Duque de Bragança, por intermédio do doutor de Bolonha, Dr. João Pinto Ribeiro, seu advogado e procurador. O Duque aceitou o convite que lhe fizeram para Rei de Portugal, e disse que, «quando fosse a ocasião oportuna, poderiam contar com ele, que apareceria».
A «Duquesa, D. Luisa de Gusmão, também encorajou o marido. Afirma-se que ela lho dissera: «antes ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida».
O velho fidalgo Conde de Almada e Abranches, neto do pajem de D. João I, em Aljubarrota, ofereceu o seu palácio, às Portas de Santo Antão, para as reuniões dos conspiradores.
A conspiração esteve para ser denunciada, porque, falando com o seu namorado duma janela para a rua de S. José, uma criada disse a este que à noite, a desoras, se reuniam numa sala do palácio, muitos fidalgos e que os mesmos saíam depois pelas traseiras.
Uma pessoa que ia passando na rua e ouviu esta conversa foi contar o caso ao Duque de Almada, o qual comunicou o facto aos seus colegas da conspiração, que resolveram antecipar o movimento para evitar serem todos presos, incluindo o Duque de Bragança, o que era uma perda insubstituível, e mandaram o Dr. João Pinto Ribeiro a Vila Viçosa comunicar isto ao Duque e preveni-lo para estar pronto a vir para Lisboa, à primeira voz, como se fez.
D. João havia sido nomeado governador dos Países Baixos, para onde o mandaram seguir, com o fim evidente de o tirarem de Portugal.

O Duque de Bragança estava com a conspiração mas, com muita inteligência e extraordinário bom senso, não exteriorizou por forma alguma as suas ideias e intenções. Se não procedesse desta forma, teria prejudicado o movimento e impedido, talvez, a restauração de Portugal.
A nação não tinha Exército. O que não ficou em Alcácer-Quibir, foi para as Colónias ou foi servir fora do reino, nas guerras em que a Espanha andava envolvida, e o excedente mendigava pelas ruas de Lisboa. E então, mais uma vez, as espadas salvaram Portugal. Quarenta fidalgos, que conseguiram arrastar consigo o povo, dominaram a pequena guarnição do castelo de S. Jorge, de S. Julião da Barra e de outras fortalezas.
D. João IV nomeou, inteligentemente, governos das armas das províncias, sendo o mais importante o do Alentejo. Do Minho, em Viana do Castelo, o governador das armas, D. João de Sousa, presta relevantes serviços nas batalhas das linhas de Elvas e Ameixial, porque, de um dia para o outro, começou a mandar para o Conde de Chumberg todos os homens que havia nas províncias do Minho e Trás-os-Montes, fazendo, com esta inteligente e inesperada manobra, parar o exército de 20.000 homens que o general espanhol Marquês de la Romana tinha em Badajoz, para invadir Portugal.
D. João IV cedeu, para a defesa do país, o produto da venda das pratas da Casa de Bragança, que eram importantíssimas, reservando para si apenas metade, que foi o que ficou no palácio ducal de Vila Viçosa.

Nos vinte anos de luta com a Espanha os terços da nossa infantaria, que os governadores das armas recrutavam e mandavam para o Alentejo, e a nossa Cavalaria, sob a hábil direção do Conde de Chumberg, fizeram prodígios de heroísmo e patriotismo, levantando o nome português do abismo de lama em que os traidores portugueses o haviam lançado.
Nesta ocasião regressaram a Portugal muitos portugueses que não queriam viver na pátria assim escravizada á Espanha. Muitos espanhóis que estavam na Catalunha, sempre rebelde ao governo de Madrid, acompanharam os portugueses que lá estavam. Foi muito avultado o número dos que regressaram calculando-se em dois mil os portugueses, espanhóis e ingleses que então vieram para Portugal e aqui prestaram valioso auxílio.
Foram as espadas de quarenta fidalgos e os piques povo que fizeram a restauração, não foram os discursos do Dr. João Pinto Ribeiro.
A Casa de Bragança auxiliou muito, pecuniariamente, a defesa do país, e D. João IV foi um rei muito inteligente e patriota; na ocasião própria apareceu e manteve-se sempre, com certa firmeza, no seu lugar.
O nosso Exército quase tinha desaparecido, mas Chumberg trouxe com ele muitos oficiais de valor, que criaram novos quadros no nosso reduzido mas aguerrido Exército, e este continuou lutando, organizado em milícias, até ao regime liberal.

Winston Churchill disse que "estava sempre disponível para aprender, mas nem sempre gostava de ser ensinado". Os portugueses com a derrota de Alcácer-Quibir, a perda da independência e a Restauração,  foram ensinados da pior maneira possível. Para além das feridas que dificilmente saram na História dos Povos, existirão lições destes episódios, úteis para os nossos dias?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Namoro II – Simbologia amorosa tradicional



O amor e o n(amor)o fazem parte da vida e marcam presença em todas as atividades humanas, na família, com vizinhos, amigos e conhecidos, no trabalho, etc. Preocupei-me neste texto em assinalar apenas os símbolos mais tradicionais e enraizados da nossa cultura. Julgo que estão aqui a maioria dos mais conhecidos. Uma lista completa de casos concretos seria quase infindável: cada pequena terra do nosso país tem os seus costumes e séculos de histórias de amor para contar.

Não quis por isso referir símbolos mais recentes, só usados no presente. Hoje, tudo ou quase tudo pode conter simbologia amorosa. Há um merchandising do Dia dos Namorados, ou Dia de São Valentim, importado do estrangeiro, que inclui todo o tipo imaginável de objetos, desde a decoração ao vestuário, joias e relógios, perfumes, etc. E existem milhares de mensagens de amor pré-formatadas e sítios sociais especializados na internet.

Socorri-me despudoradamente de várias consultas na internet e de alguns livros. Este texto é  sobretudo um produto dessas fontes, das quais saliento: Amor Português (1922)– Luís Chaves; O Amor em Portugal no século XVIII (1916) – Júlio Dantas e O Namoro em Portugal (1924) – Carlos Lobo de Oliveira. Dividi o tema em 4 partes: simbologia popular, simbologia erudita, locais e eventos, e  comunicação corporal.

Símbolos populares

Figura de capa do livro Amor Português de Luís Chaves




















1) CORAÇÃO
O coração é o primeiro símbolo do amor. Encontramo-lo desenhado em tudo ou quase tudo o que possamos imaginar, incluindo objetos tradicionais de olaria, bordados ou filigranas. O coração representa os afetos. Diz-se de quem é insensível que “não tem coração”. Outras expressões: “desejo-o de todo o coração”, “quebrar-se o coração”, “apertar-se o coração”, ter “o coração nas mãos”, etc.

Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.

2) FLORES
Várias flores simbolizam o amor, mas a mais importante é a Rosa, a rainha das flores. Oferecer rosas a alguém tem sempre um significado inequívoco. A rosa branca significa pureza ou inocência, a vermelha paixão ou desejo, a rosa cor-de-rosa significa amizade ou gratidão. A carga simbólica das rosas está muito bem explicada no “milagre das rosas” da rainha Santa Isabel. Aposto que eram rosas brancas.
Outras flores como o cravo, usado nos casamentos, o malmequer, flor de adivinhação, o amor-perfeito ou a açucena, são usadas como oferendas e símbolos de amor. Nos Alpes, a flor do amor é a edelweiss.

O meu amor é uma rosa
Que uma roseira me deu;
Na roseira não há outra,
Só se alguma s'escondeu!

3) FOLHAS
O trevo de quatro folhas dá sorte a quem o encontra. É sinal de bom presságio, em especial quem o encontra no dia de S. João, pois casa nesse ano. O manjerico é oferta de namorados nos Santos Populares.

Tenho na minha janela
Manjerico aos molhinhos;
Vai-te-me d'aqui embora,
Perdição dos meus olhinhos.

4) CHAVE
A chave fecha os corações, o coração chega mesmo a ficar fechado a sete chaves, só o amor é a chave mestra capaz de abrir o coração.

Aqui me tens ao teu lado,
Á tua disposição;
Meu coração está fechado,
E a chave na tua mão.

5) ANIMAIS
Na nossa cultura o Pombo tem sido o animal mais utilizado como símbolo do amor. Exprime ternura na sua mansidão e na persistência do pombal. Como pombo-correio é portador de mensagens.

Os pombinhos, quando nascem,
Logo vêm dando beijinhos;
Assim são os namorados,
Quando se deixam sozinhos.

6) ANEL
Oferecer ou usar um anel constitui prova de amor e é um selo de lealdade, um sinal de compromisso. Os noivos trocam de anéis de ouro na cerimónia de casamento. Ao anel do casamento chama-se “aliança”. O costume do anel matrimonial é muito antigo. Existia em Roma antes do século II a. C.

O anel, que tu me deste,
Trago no dedo mindinho;
Cada vez que tu me lembras,
Ao anel dou um beijinho.

7) LENÇO
Tradicionalmente, quando os pais dificultavam o acesso dos rapazes às raparigas, o acenar do lenço ou colocá-lo junto ao coração, fazia parte da sinalética entre namorados. As raparigas ofereciam lenços bordados com mensagens e corações aos seus namorados. Uma rapariga deixar cair o lenço, era uma forma dela chamar a atenção de um seu preferido.

Fui-me ao jardim passear,
E achei um lenço dobrado,
Cheio de lágrimas tristes,
Que por ti tenho chorado.

O município minhoto de Vila Verde organiza anualmente
o mês do Romance, em Fevereiro. Aqui os típicos lenços. 

















8) SANTOS CASAMENTEIROS
Dos mais conhecidos como Santo António, São João, São Pedro ou São Gonçalo de Amarante, aos menos conhecidos como Santo Eliseu, São Roque ou Santo Antão, dependendo dos locais, são muitos os santos referenciados como casamenteiros e por isso alvo de devoção popular.

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as novas?
Que mal vos fizeram elas?

9) LENDAS E MITOS
A lenda dos amores de Pedro e Inês é a mais conhecida em Portugal. Como uma grande parte das histórias de amor sem limites, é dramática e cruel. O amor, a paixão, tem por vezes de se curvar perante as circunstâncias, mesmo que os amantes sejam ricos e poderosos. Essa é a grande lição de um amor absoluto, mas impossível, que não se submete perante nada. A grandeza maior desse amor que fica nas lendas do povo, é a sua tragédia.

Soneto de Inês de José Carlos Ary dos Santos

Dos olhos corre a água do Mondego
Os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
Dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
Amor que torna os homens imortais
Inês! Inês! Distância a que não chego
Morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
São gaivotas pousadas no regaço
Dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
E tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

Lendas locais de mouras encantadas e de sítios mágicos, existem por todo o país. Ver por exemplo, este caso

Símbolos eruditos




















1) MOTIVOS DA MITOLOGIA CLÁSSICA
A mitologia romana e grega está cheia de histórias de amor, envolvendo desde o Deus principal, Júpiter (Zeus), passando por Vénus (Afrodite), Cupido (Eros), Marte (Ares), Febo (Apolo), etc. Júpiter (Zeus) teve muitas mulheres e muitos filhos. Além de ter casado várias vezes, os seus desejos eram insaciáveis. Por vezes disfarçava-se para conquistar os favores sexuais das suas desejadas, umas deusas e outras, belíssimas mortais.
De todos os possíveis símbolos de amor da mitologia clássica, o mais frequente é o Cupido, com seu arco e flechas.

De teus cabelos ondeados pende
Meu coração, fiel para seu dano;
Com a luz dos olhos teus Cupido ufano
Sustenta o puro fogo, em que me acende.
(Bocage)

2) ARTES
- Poesia

É claro que cantar o amor, é principalmente uma especialidade poética. Camões, nosso poeta maior, descreve assim o amor:

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


- Pintura e escultura

Motivos de coche, século XVIII. Museu dos Coches, Lisboa.















- Teatro e Música

O teatro e a música envolvem muitos aspetos sociais: convívio nos salões da corte e dos palácios, vestuário, dança, jogos. Da minha preferência, selecionei um pequeno tema muito conhecido de Carlos Seixas (1704-1742).




3) CARTAS DE AMOR
Até à invenção e uso do telefone, que em Portugal começou a generalizar-se gradualmente a partir dos anos 30, a carta e o bilhete postal eram o único meio dos namorados comunicarem diretamente, estando longe. Os que sabiam ler e escrever eram uma muito reduzida minoria.
Uma das minhas favoritas, é esta carta de Fernando Pessoa à sua namorada Ofélia:

Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!

Venho só quevê pá dizê ó Bébézinho que gostei muito da catinha d'ela. Oh! E tambem tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pã le dá jinhos. 

Oh! O Nininho é pequinininho! 

Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia s'havia carros, combinei tá aqui ás seis o'as. Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai d'áqui pelas cinco e meia




(*)
(isto é a meia das cinco e meia).




Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?

Jinhos, jinhos e mais jinhos

31/05/1920

Fernando
(*) Não é este o desenho original.

Sentada na minha cama,
Uma carta tua li;
Beijando letra por letra,
Chorando adormeci.


Locais e eventos

Com as raparigas recolhidas e guardadas, era muito difícil para elas e para eles o namoro. Em primeiro lugar porque os pais tinham ideias próprias sobre com quem elas (e eles) deviam casar. Era uma luta, se o namorado não correspondia aos desejos da família. Assim, tudo servia para os namorados: a missa, ir à fonte, às escondidas, festas e romarias, casamentos e batizados, o Entrudo, as vindimas, as esfolhadas e outros trabalhos comunitários nas aldeias.

Domingos e Dias Santos,
É que eu ofendo a Deus:
Vou á missa, não a ouço...
Pensamentos vários, os meus.


Comunicação corporal

Os conhecedores do assunto dizem que grande parte da nossa comunicação, a mais importante, não é aquela que resulta das palavras que dizemos. O movimento do nosso corpo, as expressões da face, o tom da voz, a forma como nos vestimos e arranjamos, todo esse conjunto é muito mais significativo do que a fala. E bem sabemos que um gesto, um abraço, um suspiro, um beijo, um sorriso ou uma lágrima podem fazer toda a diferença. Os namorados vivem sempre desses pequenos-grandes sinais de descoberta, que os aproximam ou afastam. Era comum aos namorados, enviarem nas cartas, pedaços de cabelo.
Estamos, como no início dissemos a falar do namoro tradicional, heterossexual, que precede o casamento. O grande símbolo dos namorados são as mãos dadas, desde tempos muito antigos. Aos namorados era socialmente consentido darem as mãos, agarrar as mãos um do outro. Mesmo quando eles só se podiam encontrar sob estrita vigilância familiar. Na cerimónia religiosa do casamento, o matrimónio religioso, o sacerdote junta as mãos dos noivos.

Dei um nó na fita verde,
Outro no preto rigor ;
‘Inda espero dar outro
Na mão d'reita ao meu amor.