sábado, 28 de julho de 2012

Sonoridade da Língua Portuguesa por Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925)


Carolina Michaelis de Vanconcelos

Quando penso na sonoridade da língua portuguesa, tenho tendência sempre a avaliar a língua pelo meu sotaque, o do português europeu, na variante dominante em Lisboa, onde vivo. É uma forma que tende a tornar as vogais mudas, abreviando muito as sílabas, em particular a última de cada palavra. Mas se descer alguns poucos quilómetros para sul e chegar ao Alentejo, já encontro o linguajar meio cantado do alentejano.

Há pronúncias muito diferentes do português. Há o europeu, o brasileiro e o angolano, por exemplo, e cada um diz as palavras à sua maneira. Dentro de um mesmo país existem variações importantes. O português nos Açores, se é muito fechado e rápido, torna a compreensão do discurso difícil, mesmo para mim, habitante do mesmo país e falante da mesma língua.
Claro que se estivermos perante alguém treinado na comunicação oral, um bom professor, um bom orador, um bom ator, um bom cantor, que aprendeu a pronunciar com clareza o português, então tudo se torna compreensível para todos.

Acho a língua portuguesa no Brasil particularmente bonita, sobretudo pela forma como as vogais são abertas e marcadas pelas consoantes r, s e m ou n, e como a fala é entoada, mais expressiva e menos contida que o português europeu. Muitos estrangeiros, não sabendo português e ouvindo o português europeu e o português brasileiro, mostram estranheza como é que a mesmas palavras podem soar ao ouvido de maneira tão diferente.

Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925), uma das grandes estudiosas da língua portuguesa, explicava a sonoridade do português da seguinte forma:

As diversas línguas variam muito quanto ao número de sons de que sabem fazer unidades. Numas predomina o elemento vocálico, noutras o consonântico. E, se olharem para o alfabeto, em que há apenas cinco vogais e quatro vezes cinco consoantes, aparentemente estas devem estar na maioria. E estão. Mesmo na língua italiana, a língua do belcanto, em que todas as palavras terminam em vogal, há nos 14 versos de um soneto qualquer (termo médio) 184 vogais e 221 consoantes. Em português contei 174 vogais e 203 consoantes.
Em alemão há um esqueleto consonântico mais robusto. Temos sílabas com cinco sons consonânticos, por exemplo em pflückst, pflügst, schlägst, drückst, bringst. Em português ele é mais brando e reduzido do que em qualquer outra das línguas neolatinas, em virtude da queda do l, n, d, g intervocálico. O ouvido e a língua nacional amam a simplicidade; tendem à maior comodidade em forma e beleza possível, e ao menor esforço possível; ao emprego da vis minima.

Quase todas as sílabas constam de dois ou três sons. Temos dois em , li, vi, , , . Temos três em vai, lei, rei, meu, teu, seu; a par de duas vogais uma consoante, ou, mais exatamente, a par de uma consoante uma vogal e uma semivogal que, juntas, constituem um ditongo. Em outros casos agrupa-se com a consoante explosiva (p-t-k ou b-d-g) uma líquida ou uma vibrante, por exemplo em crê, pra(do), etc. O máximo são quatro sons: duas consoantes iniciais agrupadas, vogal, e uma consoante final (nasal, líquida, vibrante ou sibilante) por exemplo em três, cruz, prol, traz, grei, frei, greis, freis.

Creio que não há nenhuma com mais de cinco sons. E mesmo entre essas, em que há portanto quatro consoantes, mal haverá uma que seja popular. Só me lembro de trans em transpôr, transparente. Mas tais sílabas, o povo, quando as emprega, alivia-as, dizendo transpor, ou cortando-as em duas, dizendo estrâ, ou estram. A minha lavadeira, que é de Paranhos, diz sempre estramparente. E todos nós, apesar das nossas pretensões a gente culta, dizemos por exemplo estra-viar, em vez de transviar. E todos nós procedemos de modo semelhante com os vocábulos que em latim principiam com o grupo sp, st, sk. Em vez de scutu dizemos escudo; estudo em vez de studium; esposo em vez de sponsum
Os três sons sku, stu, spon eram compactos demais para o ouvido musical dos portugueses.

(Introdução a Lições de Filologia Portuguesa na Universidade de Coimbra, Curso de 1917-1918, em Revista Lusitana, Vol. XXI, Lisboa, 1918)

Nota Final:
Agostinho de Campos na sua Antologia Portuguesa em Paladinos da Linguagem, Vol II, 1922, selecionou este texto de Carolina Michaelis de Vasconcelos. Sobre o mesmo tema, em texto de J. Jorge Peralta, ver também o excelente blogue GlobiLíngua.

sábado, 21 de julho de 2012

O Nautilus de Júlio Verne e as terras da lusofonia


Viagem do Nautilus
O submarino Nautilus das Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne, percorre os oceanos e as costas dos continentes, numa longa viagem que muitos de nós já tivemos oportunidade de acompanhar, pela leitura do famoso livro.
Para mim, com doze anos, foi a descoberta daquilo a que se chama de ficção científica. O pensamento ficcional de antecipação de Júlio Verne, lançar-me-ia depois em viagens ainda mais fantásticas, com Heinlein, Asimov e companhia. Toda a minha vida tenho sido um apaixonado pela ficção científica, e por esse fato muito responsabilizo Júlio Verne.

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É pois com agrado, que revisito a sua leitura fácil e as aventuras dos seus personagens. No caso das Vinte Mil Léguas Submarinas, os personagens principais são quatro: O enigmático capitão Nemo, que comanda o formidável Nautilus; o professor Aronnax, francês e professor no Museu de História Natural de Paris; o jovem Conseil, criado do professor e Ned Land, canadiano e exímio arpoador de baleias.
Aronnax, Conseil e Ned Land encontravam-se no navio Abraham Lincoln, um veleiro a motor, incumbido de perseguir a terrível ameaça dos mares, que todos julgavam ser uma criatura gigante e feroz. Por infelicidade, num despique entre o Nautilus e o Abraham Lincoln, estes três passageiros caem ao mar, ficando perdidos no oceno Pacífico, próximo do Japão, sendo recolhidos a bordo do submarino.
No mapa acima, construído pelo próprio Verne, sublinhei o percurso do Nautilus e enumerei os pontos que queria salientar da viagem.

CAÍDO AO MAR

A fragata aproximou-se sem ruído, parou a duzentas e quarenta braças do animal e pôs-se à capa. A bordo ninguém respirava. Silêncio profundo reinava no convés. Estávamos a menos de cem passos do foco ardente, cujo brilho ia crescendo e nos deslumbrava os olhos.
Nessa ocasião, encostado ao paiol do castelo da proa, via por baixo de mim Ned Land, agarrado com uma das mãos à gamarra e brandindo com a outra o seu terrível arpão. Vinte pés apenas o separavam do animal imóvel.
De repente, estendeu com força o braço e arremessou o arpão. Ouvi perfeitamente a pancada sonora do ferro que parecia ter batido em corpo duro. A luz elétrica apagou-se de súbito e duas enormes trombas de água caíram sobre a fragata, correndo como uma torrente da proa à ré, derrubando a gente e partindo as amarrações dos mastros.
Houve um abalo medonho e, atirado por cima da amurada, sem tempo para me segurar, caí ao mar.

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No Nautilus, o capitão Nemo obriga os passageiros por ele salvos a prometerem não fugir, mas dá-lhes total liberdade a bordo. Mercê de uma sala do submarino com ampla biblioteca e larga janela vidrada para o fundo do mar, o professor Aronnax fica deslumbrado pela possibilidade de muito aprender viajando dentro do submarino, observando a fauna e a flora marítima. A primeira passagem em terras de fala portuguesa, surge quando a norte da Oceânia, passam pela ilha de Timor.

TIMOR

(...) o capitão Nemo, tendo chegado ao Mar de Timor, avistara a ilha deste nome aos 122° de longitude. Esta ilha, cuja superfície tem mil seiscentas e vinte e cinco léguas quadradas, é governada por alguns rajás, príncipes que se dizem filhos dos crocodilos, isto é, descendentes da origem mais elevada a que a criatura humana pode aspirar. É por isso que os tais antepassados escamosos enxameiam em todos os rios da ilha e são objeto de particular veneração. Protegem-nos, animam-nos, adulam-nos, sustentam-nos, oferecem--lhes raparigas para pasto, e ai do estrangeiro que ergue mão contra aqueles sacrossantos lagartos!
O Nautilus, porém, nada teve que ver com tão horríveis animais. Timor foi visível apenas um momento, ao meio-dia, enquanto o imediato fazia o ponto, e do mesmo modo vi de relance também essa pequena ilha de Rote, que faz parte do grupo, e cujas mulheres gozam de uma reputação de beleza muito apreciada nos mercados malaios.

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Como se pode ver pelo percurso marcado no mapa, o Nautilus contorna a Índia e dirige-se ao Golfo Pérsico. Os involutários passageiros Ned Land, professor Aronnax e Conseil, não sabiam para onde o Nautilus os levava. Durante a conversa mencionam Moçambique.

MOÇAMBIQUE

No dia seguinte, 30 de Janeiro, quando o Nautilus voltou à superfície do oceano, não se avistava terra. Navegava para nor-noroeste e dirigia-se para o mar de Oman, que corre entre a Arábia e a península indiana, onde desemboca o golfo Pérsico.
Evidentemente, não havia saída possível. Para onde nos levava, pois, o capitão Nemo? Não sabia, e o caso também não agradou muito ao canadiano, que naquele dia me perguntou para onde íamos.
— Vamos, mestre Ned, para onde nos levar a fantasia do capitão.
Submarino Nautilus [versão Disney]  
— Não pode levar-nos para longe — replicou o canadiano. O golfo Pérsico não tem saída, e se lá entrarmos não tardaremos em retroceder.
— Nesse caso retrocederemos, e se, depois do golfo Pérsico, o Nautilus quiser visitar o mar Vermelho, lá está o estreito de Babel-Mândebe para passarmos.
— Não lhe dou novidade nenhuma, senhor — respondeu Ned Land, dizendo que o mar Vermelho é igualmente fechado como o golfo, visto que ainda não se rompeu o istmo de Suez, e ainda que essa obra estivesse concluída, um barco misterioso como o nosso não se arriscaria aos azares daqueles canais, onde abundam as represas. Por conseguinte, ainda não é pelo mar Vermelho que havemos de voltar à Europa.
— Eu não disse que voltaríamos à Europa.
— Que supõe então o senhor?
— Suponho que, depois de ter percorrido as curiosas paragens da Arábia e do Egito, o Nautilus percorrerá outra vez o oceano Indico, talvez pelo canal de Moçambique, ao largo das Mascarenhas, de modo que ganhemos o cabo da Boa Esperança.
 — E uma vez no cabo da Boa Esperança? Perguntou o canadiano, com insistência muito pronunciada.
 — Penetraremos nesse Atlântico que ainda não conhecemos. O amigo Ned parece aborrecer-se desta viagem submarina e ligar pouca ou nenhuma importância ao espetáculo incessantemente variado das maravilhas que por aqui se observam, quando eu sentiria muito que se terminasse esta viagem que bem poucos homens têm feito.

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 As costas portuguesas são visitadas pelo Nautilus. Ned Land queria aproveitar para fugir.

PORTUGAL

Uma vez fora do estreito de Gibraltar, o Nautilus fizera-se ao largo. Voltou à superfície das ondas, e assim nos foram restituídos os passeios quotidianos na plataforma.
Subi imediatamente, acompanhado de Conseil. À distancia de doze milhas avistava-se vagamente o cabo de S. Vicente, que forma a parte sudoeste da península ibérica. Soprava sul forte. O mar estava grosso e de vagas, imprimindo balanços violentos ao Nautilus. Era quase impossível estar na plataforma, batida de contínuo por vagalhões enormes. Descemos, pois, aspirando antes algumas baforadas.
Dirigi-me ao meu quarto e Conseil recolheu-se ao seu camarim; mas o canadiano, muito preocupado, seguiu-me. A nossa rápida viagem pelo Mediterrâneo não lhe permitira pôr em execução o seu plano. e ele não era homem que dissimulasse o descontentamento.
Fechada a porta do meu quarto, sentou-se e olhou-me em silêncio.
— Amigo Ned — disse-lhe eu —, compreendo, mas o senhor não tem coisa alguma a propôr-me. Nas condições em que o Nautilus navegava, pensar em fugir seria loucura!
Ned Land não respondeu. Os lábios cerrados, as sobrancelhas encrespadas, indicavam nele a violenta obsessão de uma ideia fixa.
— Vamos — continuei eu — não há ainda motivo para desesperar. Seguimos pela costa de Portugal; não longe ficam a França, a Inglaterra, onde facilmente encontraríamos refúgio. Se o Nautilus ao sair do estreito de Gibraltar, fizesse caminho para o sul, se nos arrastasse  para essas regiões onde não há países, também eu me inquietaria. Como, se vê porém, o capitão Nemo não evita os mares civilizados, e creio que dentro em poucos dias poderá o senhor proceder com alguma segurança.
Ned Land olhou-me ainda mais fixamente e, descerrando os lábios, disse:
— É para esta noite.
Ergui-me subitamente. Confesso que estava pouco preparado para aquela comunicação; queria responder, mas faltavam-me as palavras.
Neste momento um silvo bastante forte deu-me a conhecer que os reservatórios se enchiam, e o Nautilus mergulhou nas ondas do Atlântico.
Fiquei no meu quarto. Não me queria encontrar com o capitão para lhe ocultar a emoção que me dominava. Triste dia o que eu passei entre o desejo de recuperar o meu livre arbítrio e o pesar de abandonar aquele maravilhoso Nautilus deixando incompletos os meus estudos submarinos! Apartar-me assim daquele oceano, o «meu Atlântico», como eu lhe chamava, sem lhe ter observado as últimas camadas, sem ter perscrutado os segredos que os mares das Índias e o Pacífico me tinham revelado! Caía-me o romance das mãos desde o primeiro volume, interrompia-se-me o conto na parte mais interessante! Que tristes horas decorreram assim, ora vendo-me em segurança em terra com os meus companheiros, ora suspirando, a despeito da minha razão, por que qualquer circunstância imprevista obstasse à realização dos projetos de Ned Land.
Duas vezes cheguei até à sala. Queria consultar a agulha, queria ver se a direção do Nautilus nos aproximava efetivamente ou nos afastava da costa. Mas não, o Nautilus continuava nas águas portuguesas. Tinha a proa ao norte, seguindo ao longo das praias do oceano.
Tornava-se, pois, preciso tomar uma resolução e tratar de fugir. A minha bagagem não era pesada; consistia nos meus apontamentos e nada mais.

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Conjuntamente com as Canárias, Cabo Verde, Madeira e Açores são mencionados a propósito da Atlântida.

CABO VERDE, MADEIRA E AÇORES

O historiador que consignou nos seus escritos os altos feitos daqueles tempos heroicos foi o próprio Platão. O seu diálogo de Timeu e de Crítias foi, por assim dizer, traçado sob a inspiração de Sólon, poeta e legislador.
Um dia, Sólon conversava com alguns sábios velhos de Sais, cidade que já contava oitocentos anos, como o atestavam os anais gravados no muro sagrado dos templos. Um daqueles anciãos contou a história de uma outra cidade mil anos mais antiga. Esta primeira cidade ateniense, com mais de novecentos séculos, tinha sido invadida e em parte destruída pelos Atlantes. Estes povos, dizia ele, ocupavam um continente imenso, maior que a África e a Ásia juntas, que cobria uma superfície compreendida do duodécimo grau de latitude até ao quadragésimo grau norte. O seu domínio estendia-se até ao Egito. Quiseram impor-se à Grécia, mas tiveram de retirar-se ante a indomável resistência dos Helenos. Passaram-se séculos. Houve um cataclismo, inundações, terramotos. Uma noite e um dia bastaram para o aniquilamento daquela Atlântida, cujos vértices mais altos, a Madeira, os Açores, as Canárias e as ilhas de Cabo Verde, estão ainda a descoberto.

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A passagem pelo grande país que é o Brasil, não poderia deixar de ser referenciada no livro, bem como o gigante rio Amazonas.

BRASIL

Esta rapidez durou alguns dias, e a 9 de Abril, à noite, avistávamos a ponta mais oriental da América do Sul, que forma o cabo de S. Roque. O Nautilus afastou-se então de novo e foi procurar a maiores profundidades um vale submarino, que se abre entre este cabo e a Serra Leoa, na costa africana. O vale bifurca-se à altura das Antilhas e termina ao norte por uma enorme depressão de nove mil metros. Neste sítio o cone geológico do oceano figura até às Pequenas Antilhas uma penedia de seis quilómetros, talhada a pique, e nas alturas das ilhas de Cabo Verde uma outra muralha não menos considerável, que assim fecham todo o continente imerso da Atlântida. O fundo deste vale imenso é acidentado por algumas montanhas, que produzem panoramas muito pitorescos. Falo delas em virtude dos mapas manuscritos que havia na biblioteca do Nautilus, mapas devidos por certo ao punho do capitão Nemo e levantados à custa de observações pessoais.
Durante dois dias, aquelas águas desertas e profundas foram visitadas por meio dos planos inclinados. O Nautilus dava compridas guinadas diagonais, que o levavam a todas as alturas. Mas a 11 de Abril subiu subitamente e apareceu-nos terra à frente do rio Amazonas, vasto estuário, cuja corrente é tão considerável que tira o sal à água no espaço de algumas léguas.
Estava passado o equador. A vinte milhas a oeste ficavam as Guianas, terra francesa onde teríamos encontrado refúgio fácil; mas o vento soprava com bastante força e as ondas furiosas não consentiriam que uma simples canoa as afrontasse. Ned Land compreendeu-o sem dúvida, porque não me falou de coisa alguma. Pela minha parte, também não aludi aos seus projetos de fuga, por não querer levá-lo a qualquer tentativa que abortaria infalivelmente.
Assim se passaram dez dias. Só no 1º de Maio é que o Nautilus retomou com decisão a sua rota para norte, depois de ter avistado as Lucaias na confluência do canal de Bahama.
Seguíamos então a corrente do maior rio do mundo, que tem margens, temperatura e peixes especiais. Dei-lhe o nome de Gulf Stream.
É de facto um rio, que corre no meio do Atlântico, e cujas águas se não confundem com as águas oceânicas. É um rio salgado, mais salgado que o mar ambiente. A sua profundidade média é de três mil pés, e a largura média de sessenta milhas. Em certos sinos, a sua corrente caminha com uma velocidade de quatro quilómetros por hora. O volume invariável das suas águas é mais considerável que o de todos os rios do mundo.
A verdadeira origem da Gulf Stream, reconhecida pelo comandante Maury, o seu ponto de partida, se assim querem, fica no golfo da Gasconha. Ali se começam a formar as suas águas, ainda fracas em temperatura e em cor. Desce para o sul, costeia a África equatorial, aquece as ondas sob os raios da zona tórrida, atravessa o Atlântico; toca no cabo de S. Roque, na costa do Brasil, e bifurca--se em dois ramos, um dos quais vai saturar-se ainda com as cálidas moléculas do mar das Antilhas. Então, o Gulf Stream, encarregado de restabelecer o equilíbrio entre as temperaturas e de misturar as águas dos trópicos com as águas boreais, começa o seu papel de ponderador. Aquecido até ao branco no golfo do México, sobe para norte pelas costas americanas, avança até à Terra Nova, deriva sob o impulso da corrente fria do estreito de Davis, retoma o caminho do oceano, seguindo por uns dos círculos máximos do globo da linha loxodrómica [ver Pedro Nunes], divide-se em dois braços pelo quadragésimo terceiro grau, um dos quais, ajudado pela monção do nordeste, volta ao golfo da Gasconha e aos Açores, enquanto o outro, depois de ter tornado tépidas as praias da Irlanda e da Noruega, vai até além de Spitzberg, onde a sua temperatura desce a quatro graus, formando o mar livre do pólo.
Era neste rio do oceano que o Nautilus navegava então. A sua saída do canal de Bahama, sobre catorze léguas de largo e trezentos e cinquenta metros de profundidade, o Gulf Stream corre na razão de oito quilómetros por hora. Aquela rapidez decresce regularmente à medida que se adianta para o norte, e bom é que esta regularidade persista, porque, como se há notado, a velocidade e a direção vierem a modificar-se, os climas europeus ficarão sujeitos a perturbações cujas consequências não se poderiam calcular.
Pelo meio-dia, estava eu na plataforma com Conseil. Ensinava--lhe as particularidades relativas ao Gulf Stream; quando concluí a minha explicação, convidei-o a meter a mão na corrente.
 Conseil obedeceu e ficou muito admirado de não experimentar sensação alguma, nem de calor nem de frio.
— Isto procede — disse-lhe eu — de que a temperatura das águas do Gulf Stream, ao saírem do golfo do México, pouco difere da do sangue. O Gulf Stream é um vasto calorífero, que permite às costas da Europa adornarem-se com verdura constante; e a acreditar em Maury, o calor desta corrente, totalmente utilizado, forneceria calor bastante para conservar em fusão um rio de ferro fundido tão grande como o Amazonas ou o Missuri.
Nesta ocasião a velocidade de Gulf Stream era de duzentos metros e vinte e cinco por segundo. A sua corrente é de tal maneira distinta do mar circunjacente, que as águas comprimidas irrompem sobre o oceano e opera-se um desnivelamento entre elas e as águas frias. Escuras, além disso, e muito abundantes em matérias salinas, sobressaem, pelo seu índigo puro, das águas verdes que as rodeiam. Tal é a nitidez da sua demarcação, que o Nautilus na altura das Carolinas, rasgava com o esporão as ondas do Gulf Stream, enquanto a hélice batia ainda as do oceano.
Esta corrente arrastava consigo um mundo inteiro de seres vivos. Os argonautas, tão comuns no Mediterrâneo, viajavam em cardumes numerosos. Entre os cartilaginosos, os mais notáveis eram as raias, cuja cauda muito delicada formava cerca de um terço do corpo, e que figuram vastos losangos de vinte e cinco pés de comprimento.

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É dramática a saída dos passageiros do Nautilus, apanhados por um grande redemoinho, o Maelstrom. Felizmente, um pouco depois, no fim do livro, tudo acaba bem. Verne apreciava, como todos nós, finais felizes.

MAELSTROM

— Maelstrom! Maelstrom! Gritavam.
O Maelstrom! Na nossa situação podia soar-nos aos ouvidos palavra mais terrível? Achávamo-nos nessas paragens perigosas da costa norueguesa?
Era o Nautilus arrastado para aquele sorvedouro na ocasião em que a lancha se desprendia? Sabe-se que ao tempo do fluxo, as águas apertadas entre as ilhas Feroe e Loffoden são precipitadas com violência irresistível, Formam um redemoinho de que nunca pôde sair navio algum. De todos os pontos do horizonte acorrem vagalhões monstruosos. Produzem esse sorvedouro chamado com razão o Umbigo do oceano, cujo poder de atração se estende até a uma distância de quinze quilómetros. Ali são aspirados não só os navios, como também as baleias e os ursos-brancos das regiões boreais.
O Nautilus tinha sido para ali levado pelo seu capitão, involuntária ou voluntariamente talvez. Descrevia uma espiral, cujo raio ia diminuindo pouco a pouco. Como ele, a lancha, ainda presa, era arrastada com uma velocidade vertiginosa. Sentia-o. Experimentava esse estonteamento nada cómodo que sucede a um movimento giratório muito prolongado. Estávamos no espanto, no horror levado ao seu auge, com a circulação suspensa, a influência nervosa aniquilada, repassados de suores frios como os da agonia. E que estrondo em torno da nossa frágil canoa. Que rugidos que o eco repetia a distância de algumas milhas! Que ruído aquele das águas despedaçadas nas rochas agudas do fundo, onde os corpos mais duros se laceram, onde os troncos das árvores se gastam!
Que situação! Éramos sacudidos horrivelmente. O Nautilus defendia-se como um ser humano; estalavam-lhe os membros de aço; algumas vezes endireitava-se repentinamente, e nós com ele.
— É preciso cuidado — disse Ned Land, e tornar a aparafusar as porcas. Continuando presos ao Nautilus, ainda poderemos salvar-nos.
Não tinha acabado de falar quando se ouviu um estalido violento.
As porcas quebravam e a lancha, arrancada do seu alvéolo, era atirada, como a pedra de uma funda, ao meio do turbilhão.
Bati com a cabeça num ferro e com o choque perdi os sentidos.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Futebol, atletismo, ciclismo e... Durão Barroso: motivos de orgulho.


Popularidade de Cristiano Ronaldo, o maior.
Nestes últimos tempos, tem sido notável a projeção mediática de alguns portugueses. Em primeiro lugar, no desporto. No Futebol, durante o Euro 2012, a seleção portuguesa foi admirada e elogiada em toda a comunicação internacional. A UEFA, organismo máximo europeu do futebol, controlou a popularidade de todos os jogadores participantes durante o período do Euro 2012, através do número de tweets de todo o mundo, de 29 de Maio a 1 de Julho. Os jogadores com maior popularidade têm os retângulos maiores (ver figura). O maior é Cristiano Ronaldo.

Fantástico Rui Costa
O ciclista Rui Costa fez uma extraordinária e espetacular Volta à Suiça, acabando por vencê-la. A Volta à Suiça, é a quarta prova do género mais importante na Europa, a seguir às voltas à França, Itália e Espanha. Creio não exagerar ao dizer que desde o tempo do mítico Joaquim Agostinho, não existia outro ciclista português, numa prova deste tipo, com um sucesso de nível comparável ao de Rui Costa.

Sara Moreira, medalha de bronze nos cinco mil metros, Patrícia Mamona, medalha de prata no triplo salto e Dulce Félix medalha de ouro nos dez mil metros, três medalhas brilhantemente conquistadas em Helsínquia, no Campeonato da Europa de Atletismo. Ficarei para sempre com as imagens de Dulce Félix, enrolada na bandeira portuguesa.  

Mas se somos competitivos no desporto, temos também gente que sabe congregar vontades, quando tal união é indispensável. É o caso da governabilidade da União Europeia e do Euro, onde primeiros-ministros e chefes de estado, multiplicam-se em declarações irresponsáveis, dando uma imagem de anarquia e de guerras internas, numa Europa em crise. Por isso, valerá a pena ler estas palavras de Durão Barroso na passada terça-feira, no Parlamento Europeu em Estrasburgo. Durão Barroso foi fortemente aplaudido. É muito interessante ler também as declarações de Martin Schulz, um social-democrata alemão, membro da Internacional Socialista e Presidente do Parlamento Europeu, em resposta a uma deputada, Rebecca Harms, do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia.

Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia: (…) A minha última questão é esta: não gostei nada do ambiente criado após o último Conselho Europeu quando vi alguns a clamar vitória sobre os outros.
Grande Dulce Félix na nossa bandeira.
Isto não é forma de fazer as coisas na Europa: ou ganhamos todos ou seremos todos perdedores. O que precisamos é de uma forte unidade europeia. É verdade que existem diferentes culturas financeiras na Europa, diferentes perceções e diferentes sensibilidades. Mas vamos ser honestos, por vezes não é um assunto de diferenças entre Norte e Sul – por vezes encontramos essas diferenças dentro do mesmo país.
Mas eu fico preocupado quando vejo algumas pessoas a falar do Norte e do Sul, fazendo certo tipo de generalizações fáceis, porque os de entre nós que conhecem a história europeia sabem quanto negativo foi o papel desempenhado pelos preconceitos e sentimentos de superioridade de uma parte da Europa sobre a outra.

 (Aplausos)

Durão Barroso: "Isto não é forma de fazermos
as coisas na Europa". 
Todos os países da Europa – e alguns de nós temos sido nações durante muitos, muitos séculos – tivemos grandiosos momentos de glória e outros momentos muito negros da nossa história. Devemos ser humildes quando falamos da História. E não nos devemos esquecer que o projeto Europeu foi criado precisamente para evitar as divisões do passado e os demónios que existiram na história europeia.
É por isso que eu não gosto quando vejo líderes governamentais saírem dum Conselho Europeu e dizerem que ganharam contra os outros. Esta é exatamente a mensagem errada. Este é o caminho para a derrota. A mensagem que nós todos – as instituições europeias, a Comissão e o Parlamento Europeu – têm de transmitir,  é que estamos unidos, e que juntos seremos capazes de ultrapassar esta crise.

 (Fortes e prolongados aplausos)

Deputada Rebecca Harms (Verdes/ALE): Infelizmente, o debate já terminou, mas dado o grande apoio às suas palavras, senhor Barroso, eu queria solicitar-lhe que também falasse no Conselho com igual clareza e não fizesse esta distinção de aqui ser claro, e em Bruxelas, perante os Chefes de Estado e de Governo, ser ambíguo. 

(Fortes aplausos)

Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu: Foi assim ...

(Interrupções)

Senhoras e senhores! Sr. Cohn-Bendit, um momento! Sra. Harms, esse não era um ponto do regimental, mas uma observação pessoal. Em segundo lugar, eu vou ter de vos dizer uma coisa: estive no último Conselho Europeu e o senhor Barroso disse no Conselho Europeu exatamente a mesma coisa que disse aqui.

 (Aplausos)

Acredito poder dizer da minha parte, que nem sempre fui o mais amigável interlocutor do senhor Barroso no passado. Mas quero-vos dizer, como presidente desta casa, que não tenho aliado mais forte nas instituições europeias, que o senhor Barroso. Gostaria por vezes que quem por aqui passasse, apoiasse as nossas preocupações com a mesma intensidade que o Presidente da Comissão.

(Aplausos)

Dou por encerrado o debate (..)

domingo, 1 de julho de 2012

Plano B: de volta ao Escudo?


Moeda de 1 Escudo.

As dificuldades do atual governo e do país em aplicar com sucesso as medidas da troika, poderá implicar um regresso do país à moeda própria? Esse não é um cenário minimamente desejável para ninguém, da direita à extrema-esquerda, mas se as coisas corressem muito mal (aumento dramático do desemprego, falha do crédito às empresas, diminuição significativa da receita dos impostos, não cumprimento das metas orçamentais, roturas nos serviços públicos, nos pagamentos de salários e pensões sociais, default eminente), seria provável que não restasse outra solução. A entrada de Portugal no Euro, já foi considerada uma operação de wishful thinking que nos saiu muito cara. Não conseguir condições dentro da Zona Euro para equilibrar as nossas contas públicas e externas, e pagar a gigantesca dívida acumulada, implicaria um regresso à moeda própria, que desejaríamos que fosse realizada da forma mais planeada e organizada possível.

Este plano B não significaria uma saída da União Europeia (uma “alternativa” miserabilista do orgulhosamente sós, mais ou menos neo-salazarista) nem a perda dos depósitos em Euros, necessariamente. E também não teria de implicar menos austeridade para o Estado, nem o corte dos apoios da União Europeia. Bastaria que fosse planeada e aplicada criteriosamente. A sua principal desvantagem seria uma terrível redução do poder de compra face aos bens importados, tais como bens alimentares, combustíveis, energia, automóveis, maquinaria e medicamentos. Tudo ou quase tudo subiria de preço devido à desvalorização da moeda que se seguiria. A curto prazo o desemprego aumentaria mais ainda. Por isso, claro que nos amedronta esta hipótese não desejável, o que não significa que ela não deva ser equacionada como plano de contingência. Algumas empresas melhor dirigidas têm-no feito. Não é negando a realidade que ficamos melhor preparados para a enfrentar.

Dentro da Zona Euro, com o plano de ajustamento do governo PS e da troika, e agora também do governo do PSD e do CDS, as atuais dificuldades em atingir as metas do desemprego e do orçamento do estado, significam que o emprego, a economia e os impostos estão mais dependentes do consumo interno, público e privado, do que aquilo que inicialmente foi assumido, como hipótese de partida para o orçamento de estado de 2012. Significa ainda que as reduções do consumo público e privado não constituem a opção de política económica mais indicada neste contexto. As políticas de austeridade devem neste momento concentrar esforços nas medidas de caráter estrutural, designadamente nas privatizações, PPPs, empresas de transporte público, justiça, saúde, simplificação e agilização administrativa, ciência e investigação, cultura, forças armadas, etc. Por esta via, poderão gerar recursos suficientes para compensar a quebra dos impostos, desde que a troika o autorize. Não acredito que seja fácil, mas ainda assim não chega. Há que impulsionar os fatores de crescimento, criando ambiente mais favorável ao empreendedorismo, exportações e inovação tecnológica. O desemprego só pode ser diminuído por esta via e o tempo político é curto para hesitações. Um programa europeu de forte apoio ao crédito bancário para o investimento produtivo, seria muito importante. Perante as dificuldades, faço votos que o governo tenha a abertura para negociar as condições que o país necessita. 

Vale mesmo a pena não desistir do Euro.