quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vasco Santana e os subsídios ao Teatro


Num tempo em que muita gente no país vê perdidos e chora por subsídios e benesses do Estado, e quando os impostos chegam mais alto que nunca ( e mesmo assim, o setor público continua deficitário), faz sentido lembrar esta passagem do livro de Lourenço Rodrigues, “Anedotas e Episódios da Vida de Pessoas Célebres”:

Quando começou a falar-se em subsídios teatrais, subsídios que na verdade, foram concedidos, Vasco [Santana], com a paixão do teatro nas veias, escreveu estes versos, pouco conhecidos:

«O subsídio é deprimente,
Torna as almas pequeninas.
É sustentar um doente
A injecções de vitaminas.

De mais, o público acorre,
Há espírito audaz, moderno
E o Teatro não morre
Porque o Teatro é eterno.

Há-de vencer a anemia
E, com as bênçãos do Céu
Inda espero qualquer dia
Vê-lo tão gordo como eu!»

sábado, 17 de novembro de 2012

Bebedeira, ou nota autobiográfica de uma alucinação matinal.

Refoulement, 1936, de António Pedro.


Levantei-me hoje de manhã anormalmente bem-disposto. De repente, não havia injustiças nem crises nem guerras nem fomes, nada parecia ofuscar aquela inebriantemente benéfica sensação matinal.

Chovia e as árvores estavam mais verdes e a terra mais castanha, como se a natureza respirasse pelas cores, dando a sensação de um ar mais limpo e puro. Depois, estranhamente, ideias e  palavras começaram a surgir e a dançar na minha cabeça. Ideias e palavras, palavras e ideias. E faziam sentido, como se saídas de um livro. Tinha forçosamente de as escrever. Eram como um  grande poema da língua portuguesa, como uma Tabacaria do Pessoa ou uma Pedra Filosofal do Gedeão, não menos que isso. Sem saber donde me vinha a inspiração, já começara até a ler mentalmente o texto. 

Estaria a sentir aquilo que muitos escritores dizem acontecer? Uma voz interior a ditar-me o que escrever? Uma fonte e uma capacidade que eu manifestamente não tenho, nunca tive e não reconheço como minha. Mas a Voz agora elegera-me como veículo. Bastaria sentar-me e começar a escrever. Só as primeiras linhas seriam suficientes. Mas na verdade não, sabia que não seria assim. Quando me sentasse a Voz ditaria tudo de uma vez só, sem repetições. Teria de ficar horas ou mesmo dias dedicado à tarefa. Seria uma espécie de médium da literatura. Podia fazê-lo. Tinha a certeza. Um sábado, sem o dever da profissão e sem grandes compromissos. E porque não? 

A literatura é uma Arte, não está ao alcance de qualquer vulgar mortal. Eça afirmava que a via pela qual um ser humano pode tornar-se imortal e enganar a morte, é a Arte. Mais do que pela política e incomparavelmente mais do que pela riqueza. Ora aqui está. Eu tive logo pela manhã esta oportunidade. Uma espécie de euromilhões parecia ter-me caído dos céus. Estava em êxtase. Nesse instante de completa concentração, a minha mulher chamou-me porque ao sábado de manhã costumamos ir ao café. Fomos, e a bebedeira passou.

domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações à sombra da Acrópole, de Augusto de Castro, 1949.


O Pártenon, na Acrópole de Atenas.
A Grécia tem uma história muito complicada de ocupação, resistência, lutas pela independência, guerras civis. É difícil em Portugal, país uno há mais de 8 séculos, excetuando um triste intervalo de 60 anos, percebermos um pouco desta forma de estar do povo grego. Augusto de Castro no seu livro “A Tarde e a Manhã” de 1949, procurou encontrar explicações para as quase permanentes dificuldades da nação grega.

"Dominada sucessivamente pelos Macedónios, os Romanos, os Godos, os Vândalos, os Eslavos, colonizada pelos Normandos, os Bizantinos, os Venezianos, quase completamente despovoada e povoada pelos Albaneses, curvada durante quase quatro séculos sob o jugo turco, a Grécia, apenas liberta da recente ocupação alemã e italiana, está dando novamente ao Mundo o trágico espetáculo das suas seculares divisões e da sua impotência nacional.

Estranho País, que passa a vida a bater-se heroica e inutilmente contra o estrangeiro, e que não soube encontrar numa vida duas vezes milenária a força de criar uma consistência nacional!
Dir-se-ia que esse País, glorioso e impotente, sofre dum excesso de história (...). O seu génio, turbulento e inquieto, arrasta-o periodicamente para uma espécie de delírio de imaginação, em que as suas energias se queimam. As suas cidades e as suas colinas, coroadas de oiro, por onde outrora passeavam os deuses e que Zeus e Apolo habitaram, parece sofrerem duma espécie de condenação mitológica.

Nas suas divinas praias, em cujas águas claras e tépidas se banhou a nudez de Afrodite, o Mundo antigo conheceu a graça e o esplendor de viver. Mas aquelas virtudes, fortes e luminosas, da medida, da proporção, da claridade, que Homero cantou e constituíram a doce alma helénica, herdeira do Olimpo, depressa se perderam na memória triste dos homens.
Ficaram grandes nomes- o Monte Parnaso, berço das musas, Corinto, o Peloponeso ou a ilha de Pelos, filho de Tântalo, Delfos e o seu oráculo, a colina do Himeto e o seu mel e Citera e os seus amores. Nas suas ruínas sagradas, nas suas grutas melodiosas, nos seus golfos de espuma, nos seus monumentos jónicos e dóricos, nos seus tesouros - da Acrópole a Rodes -, na imortalidade dos seus artistas, dos seus poetas, dos seus idílios e dos seus guerreiros, floresce ainda hoje a lembrança duma das Primaveras heroicas da Terra.
Os passos ardentes dos deuses, a poeira sublime das pedras, a espada de Alexandre, os ecos dos aedos e de Demóstenes, os frisos do Partenon, Fídias e Praxíteles, Ésquilo e Sófocles, não bastam, no entanto, para constituir uma Pátria.

Há povos, como há homens, que têm a vertigem do suicídio. A Grécia é um deles."

Será que existe algum tipo de idiossincracia (para usar uma palavra de origem grega) ou um fado (para usar uma palavra bem portuguesa) das nações, estruturante das suas escolhas e opções, que as empurra a cometerem sempre erros semelhantes ao longo de vários séculos?

Esta questão remete-nos para a atual situação portuguesa e para as comparações entre o regime saído do 25 de Abril, o período da Monarquia Constitucional e a 1ª República, períodos durante os quais o Estado Português também foi incapaz de gerir as suas contas com responsabilidade, endividando-se até não poder mais. Como cantava Dulce Pontes em Lusitana Paixão “não quero o que o fado quer dizer”. Ora, se não quisermos mesmo a sério, isso não será fácil, como temos vindo a verificar.

Por uma vez, que os Deuses protejam a Grécia e Portugal.