sábado, 9 de novembro de 2013

Cozinha de Férias– II: Curiosidades dos Tempos Antigos


As minhas fontes para este artigo,
incluindo os rebuçados de funcho.
Há algum tempo estou para publicar este texto resultante das leituras “culinárias” do mês de Agosto. O que me desperta sempre mais atenção é aquilo que não estou habituado a encontrar nos livros de cozinha normais. Por exemplo, ler o que faziam os nossos bisavós, trisavós ou tetravós é literalmente como explorar um mundo desconhecido de ideias estranhas. Em primeiríssimo lugar, porque quase nada estava feito à partida. A maioria das coisas que uma “cozinheira” precisava, tinha de ser ela própria a fazer. Depois, era um mundo sem carros, sem fogões a gás, sem frigoríficos, sem eletricidade, e muitas vezes também, sem se saber ler e escrever, sem sapatos, sem agasalhos, e à mesa, sem comida. Isto, na grande maioria das casas portuguesas da primeira metade do XX. Só nos anos 60, a corrente elétrica consegue chegar a metade das habitações existentes no país. Esquecemo-nos de como era essa estranha forma de vida, e não passou assim tanto tempo.

O livro chama-se “Culinária Higiénica”, por “Dr. Félix” (pseudónimo) de 1913. A receita é a nº 17, de um total de 303 receitas:

Leite maternisado

Leite de vaca – 6 decilitros
Água – 3 decilitros
Lactose – 35 gramas

Junta-se tudo, mistura-se bem, divide-se em seis frascos-mamadeiras e ferve-se em banho-maria durante 20 minutos, tendo o cuidado de colocar os obturadores no seu lugar, antes de começar a ferver. Guarda-se em sítio fresco. Para servir, retira-se o obturador e aplica-se a tetina, que previamente se passa por água fervida. O leite que sobeja de cada mamada, deita-se fora; a mamadeira e a tetina devem ser imediatamente lavadas com a seguinte solução:
Água quente – 1 litro
Soda – 3 colheres de chá
Esfrega-se com uma escova de lavar frascos e passa-se com água fervida duas, ou três vezes.

Comentário: desde muito cedo, meados do século XIX começaram a aparecer os primeiros leites para bebé de empresas como a Nestlé, mas pouca gente teria capacidade económica para os adquirir em Portugal. Quando a mãe não tinha leite recorria-se a amas (amas-de-leite) e, coitados dos bebés, a receitas caseiras de leite “maternisado”.  

Outro livro, já dos anos 50. Tornou-se num livro de culinária muito popular. É o “Cozinheiro Prático” da “Mariazinha” (pseudónimo). Tem esta receita fantástica, uma formidável bomba calórica:

Bifes à alentejana

Passa-se pela máquina meio quilo de carne do pojadouro, 100 gramas de paio e 100 gramas de toucinho fresco. Forma-se com esta massa uns bifes bem redondos, sem esquecer a pimenta, se o paio não for picante. Fritam-se umas fatias de pão de forma, um pouco maiores do que os bifes (podem ser fritas em banha). Fritam-se os bifes e, quando estiverem prontos, colocam-se sobre as fatias de pão. Na frigideira em que se fizeram, deita-se um pouco de água e com a colher raspa-se o fundo da frigideira, o que formará um molho grosso que se deita por cima dos bifes. Enfeita-se com puré de batata ou com batatas fritas, cortadas em estrelas de diversos tamanhos.

Comentário: custa-me a acreditar que os alentejanos tenham qualquer culpa desta receita ser o que é. Não estou a vê-los a picar carne e a fazer puré ou batata frita em estrelas à sombra do chaparro. Talvez para se penitenciar, a Mariazinha oferece nas três últimas páginas do Cozinheiro Prático, um “Regime dos 18 dias para emagrecer”. Por exemplo, a ementa da dieta do almoço do 1º dia é: uma laranja ou uma maçã, um ovo cozido, seis rodelas de pepino ou um pouco de salada com limão e torradas.

Da revista “Crónica Feminina”, 1963, “Suplemento de Culinária” com o título “Bolos e Doces de Frutas”:

Gelado Caseiro

Ferve-se o conteúdo de uma pequena lata de leite condensado, não açucarado (cerca de 1,5 dl de leite), deixa-se arrefecer e põe-se uma hora no frigorífico.
Quando este leite estiver bem gelado, bate-se até ficar espesso e cremoso. Acrescentam-se quatro colheres de sopa rasas de açúcar em pó peneirado, uma pitada de sal e bate-se até que o açúcar derreta. Acrescenta-se então a essência de fruta que se preferir, depois duas claras batidas em castelo, por pequenas partes de cada vez.
Deita-se nas “cuvettes” do congelador, previamente passadas por água fria e põe-se a gelar.

Comentário: é uma receita que tencionava fazer este Verão, que não fiz, e por isso fica aqui a aguardar o tempo quente. Se calhar foi por isso que inclui este texto no blogue só em Novembro. Aproveitei para me deliciar com os excelentes rebuçados de funcho, os meus rebuçados preferidos, que caridosamente me trouxeram da Madeira.

Acreditem-me. Sermos gulosos, é o que nos faz ler receitas de culinária.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Cozinha de Férias– I: Doçaria Portuguesa


O melhor guia da nossa terra alguma vez publicado, é muito provavelmente o Guia de Portugal. A primeira edição que tenho a sorte de ter, foi impressa em 1924, da responsabilidade da Biblioteca Nacional. Inclui contribuições de importantes nomes da intelectualidade portuguesa, como Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Júlio Dantas, Raul Brandão, Raul Lino -que desenha a capa, Raul Proença, Teixeira de Pascoais, etc. 
É Raul Proença quem dirige a edição e assina o Prefácio, afirmando entre outras coisas a intenção de elaborar um “roteiro minucioso” de “sóbria literatura descritiva”. Para quem não conheça este antigo Guia de Portugal, podem crer que é mesmo isso. O primeiro volume tem 670 páginas de letra miudinha e inclui além dos índices e das páginas introdutórias, apenas a zona de Lisboa e Arredores. Minucioso, sóbrio e descritivo. Porém, na longuíssima “Introdução”, que por si só daria um livro, na secção de “Etnografia”, quando se aborda em “Cozinha” a parte da “doçaria”, os autores, perdem o tom meramente factual e circunspecto:

“Em doçaria era o país fértil e abundante como poucos. Ganharam fama imorredoira alguns desses “achados” da nossa paciência e sabedoria culinárias, que tiveram as suas universidades nos claustros dos conventos. Foram estes que fizeram essa esmerada educação do nosso povo na técnica da gulodice, sublimando-se o apuro da confeitaria a ponto tal que alguns preparados gastronómicos parecem invenções do céu ou do inferno, segundo a lógica do Tentador. Abandonados os tipos de casa e do vestuário regional, esquecidos os costumes particularistas, essa tradição foi a única que não morreu de todo, e ainda hoje em muitas terras, por onde passaram freiras, se conservam as suas receitas de copa e até os nomes saborosos dos seus preparados. Sobrevivem ainda hoje guloseimas tais como os pastéis de Tentúgal, os de feijão de Torres Vedras, os de Santa Clara de Vila do Conde; as queijadas de Sintra, de Évora, do Bairro (Alcobaça); as morcelas doces de Arouca; as cavacas das Caldas, de Freixinho (Sernancelhe); as arrufadas e o manjar branco de Coimbra; os fálgaros da Tabosa do Carregal; o pão-de-ló de Margaride, de Fafe, de Ovar, de Alfeizerão; o bolo podre de Évora, a que Fialho elevou ditirambos [1]; as tigelinhas de Santo Tirso, pequenos pudins de amêndoa, deliciosos; os ovos moles de Aveiro; as trouxas e lampreias de ovos das Caldas; os palitos de Oeiras e de Belas; os cacetes de Paço de Arcos – enfim, um não acabar de geniais invenções gustativas, que encheriam volumes inteiros da mais esotérica culinária [2], isto sem falar nos “pratos” correntes, no arroz doce nacional, no leite-creme, na sopa dourada [3], nas tortas, em tudo o mais que coroa com deleite os nossos jantares familiares. O mapa confeiteiro de Portugal raro passaria uma terra em que não tivesse de erguer uma bandeirola da especialidade nesta sedutora química do paladar.”

Notas:
[1] Ditirambo - Canto de amor do teatro grego. Uma erudição escusada dos autores.
[2] Esses volumes culinários foram feitos muitos anos mais tarde. Cá em casa não somos particularmente originais e usamos a “Cozinha Tradicional Portuguesa” de Maria de Lurdes Modesto, que diz-se ser o livro de culinária mais lido em Portugal.
[3] Deixou de ser “prato” corrente. Basicamente são bocados de pão fervidos e desfeitos em calda de açúcar, misturados com gemas de ovos. Antes de servir, polvilha-se com canela. No final temos uma sopa doce, de cor dourada. Há algumas variantes. Por exemplo, há quem faça com pão-de-ló e há quem use cubos de pão torrado, que é a versão que prefiro.

Nota final importante:
Sem nada a propósito com o tema do artigo, mas é só para lembrar que estamos nos últimos dias da grande exposição de Joana Vasconcelos no fabuloso Palácio da Ajuda. É absolutamente imperdoável não visitar a exposição - depois no fim da vida, não se queixem que foram parar ao Inferno. 
Aqui vai uma pobre foto com a minha “peça” favorita: a Valquíria Real, um monumento espetacular, pela sua diversidade, cor, materiais e dimensões, aos nossos têxteis tradicionais. A fotografia não consegue transmitir a riqueza do trabalho, mas visto no local fica-se embasbacado e, fazendo jus ao nome, como a gigante consegue ficar pendurada no ar da enorme sala, presa apenas por uns fiozinhos, é para mim um mistério.  

Valquíria Real de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda















sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dívida pública, crescimento e desemprego em Portugal até 2029



Não obstante o inesperado erro do Excel de Einhart e de Rogoff, é claro que existe um constrangimento importante da dívida pública sobre o crescimento. Basta sabermos que a dívida tem um impacto quantitativo sobre os juros a pagar. Quando a dívida sobe, o efeito é aumentar não apenas o montante do juro, visto a base alargar, mas também a taxa que os credores exigem. Como sabemos por experiência própria, a verba a pagar, encargos da dívida, quando excessivos obrigam a cortes nos investimentos públicos e constrangimentos no setor financeiro, o que diminui o volume e as condições de crédito às empresas e aos particulares. Outra consequência, quando a dívida pública se torna muito elevada, é os governos optarem pelo aumento de impostos, os quais são uma pressão adicional negativa sobre o crescimento.

As consequências da quebra do PIB sobre o emprego podem ser terríveis, como estão a ser em Portugal, na Grécia e em Espanha. A questão fundamental desta situação é que não existe nenhuma fórmula que possa permitir uma resposta rápida para o problema. Isto tem que ver com a vida de quem é prejudicado pelos cortes públicos e despedimentos das empresas privadas e não com nenhum conceito abstrato, por isso as sociedades dividem-se e os regimes políticos sentem-se ameaçados. 

A não ser que o nosso Governo acredite naquele mote da FRETILIN de Timor, “resistir é vencer”, e vá aplicando austeridade sobre austeridade, na esperança que a situação internacional mude com vários países (como a França) a juntarem-se aos aflitos e a necessitarem de políticas comunitárias mais facilitadoras, no quadro das políticas atuais não vejo como possa ser possível pensar na retoma do crescimento no ano de 2014. Também não existe nas circunstâncias políticas vigentes uma via rápida para a diminuição do défice do estado: a recente “descoberta” dos créditos “swap” ruinosos, de várias empresas do estado, revelam que ao virar de cada esquina se encontram dívidas por saldar.

Com as dificuldades em diminuir o défice, é muito natural que a dívida pública continue a aumentar este ano e no próximo, até porque as agências de “rating” não irão a curto prazo reclassificar a nossa dívida fora da zona especulativa (“lixo”), o que torna os encargos da dívida sempre pesados para as contas do estado. Por isso não vejo maneira de escapar a um segundo resgate, quanto a mim inevitável enquanto a dívida do estado tiver esta classificação. Será evidentemente um falhanço do governo do PSD/CDS, da União Europeia e do FMI.
Atrevi-me a elaborar algumas contas simples, em folha de cálculo Excel, sobre aquilo que julgo mais provável acontecer em termos de tendências e pior que isto, será uma desgraça ainda maior. Melhor, será uma boa surpresa. Não considerei a possibilidade de a União Europeia optar pelos “eurobonds” ou o BCE poder intervir no mercado primário, adquirindo dívida diretamente a cada estado. São cenários que não estão hoje identificados por ninguém com responsabilidades políticas ou executivas na UE, como “prováveis”. Mantive o valor médio de 4,5% de juros sobre a divída portuguesa ao longo de todo o período em análise. É discutível, mas pareceu-me o mais prudente. Durante muito tempo os mercados terão boas razões para desconfiar dos países da Europa do Sul.

Este será então o meu quadro de referência de avaliação dos anos mais próximos:





















Conclusões:
1- O crescimento anual não ocorrerá antes de 2015.
2- A dívida pública em percentagem do PIB ainda continuará a crescer até 2016, sendo necessário um segundo plano de resgate.
3- Só a partir do momento em que a dívida pública comece a cair de forma sustentada será possível atrair capitais e investimentos e acreditar numa gradual e lenta aceleração do crescimento económico.
4- Mesmo que se verifique algum crescimento já a partir de 2015, o desemprego continuará a subir lentamente até cerca de 2020, ultrapassando claramente os 20%.
5- Só na segunda metade da década de 20, daqui a 14 ou 15 anos, poderemos ambicionar atingir menos de 60% do PIB em dívida pública, a que estamos obrigados pelos tratados europeus.
6- Também só na segunda metade da década de 20 poderemos ambicionar recuperar algumas das principais regalias sociais perdidas durante a fase de assistência financeira internacional (primeiro e segundo programa de assistência).

Claro que consideramos que não ocorra nenhuma hecatombe económica mundial, e que o enquadramento económico internacional, incluindo o dólar e o euro, mantenham uma certa regularidade.

Uma alternativa aparentemente mais favorável a este cenário, pressupõe uma diminuição da dívida pública já em 2014, com uma redução dramática das despesas do estado. Não a considerei porque essa redução poderia causar não apenas uma nova diminuição do PIB, como ainda um agravamento mais rápido do desemprego. Apesar de tudo, um segundo resgate, orientado para a manutenção do défice a um nível estável (cerca de 2%) e orientado principalmente para o financiamento da dívida e o crescimento económico, seria uma aposta mais adequada aos nossos problemas.

Muito importante será que o governo continue e aprofunde as imprescindíveis reformas estruturais, por exemplo na Justiça, na eliminação da burocracia inútil bloqueadora do investimento privado, no redimensionamento das Forças Armadas, na adequação da Educação Pública às necessidades de qualificação do país, na firme negociação das PPPs e dos custos energéticos e no programa de privatizações, se possível alargando-o.

Será sempre um caminho difícil e longo.

domingo, 7 de abril de 2013

A doença de Davos

Antero de Figueiredo


Observar a doença de raiz económica do dólar e do euro, agravada pelas barbaridades financeiras, fez-me lembrar um texto sobre Davos, Suíça, de Antero de Figueiredo (1866-1953) do livro “Recordações e Viagens” de 1905.
Davos foi uma conhecida estância suíça de sanatórios para tratamento de tuberculosos durante os finais do século dezanove e a primeira metade do século vinte. Tendo Davos por ambiente, Thomas Mann escreveria a sua obra-prima “A Montanha Mágica”, talvez o melhor romance do século passado.
Antero de Figueiredo conheceu bem a Suíça, onde viveu com a sua segunda mulher. Antes disso, Davos já não lhe seria desconhecida, pois pelo menos o seu amigo António Nobre tinha estado lá em tratamentos, poucos meses antes de falecer. Nos nossos dias, Davos é a sede do World Economic Forum, a mais importante reunião anual a nível mundial onde se discutem os problemas económicos. Faz com que pareça que a velha doença de Davos se propagou à economia.

Davos-Platz
por Antero de Figueiredo
[Notas entre parêntesis retos da responsabilidade deste blogue]

Como na «Lucrécia Bórgia» [ópera de Donizetti], alguém poderá clamar do alto desse vale:
«Estais todos envenenados!»
Todos! Uma população inteira de três ou quatro mil almas — de três ou quatro mil doentes! Há os doentes ricos, cercados de conforto, a quem nada falta; mas há também os doentes pobres, que trabalham para servir e distrair esses doentes ricos. O alfaiate que prova o fato vai ajeitando o pano ao corpo do freguês, e tossindo; a modista de vestidos sabe, por experiência própria, que tem de enchumaçar nas covas das clavículas a blusa que talha; o farmacêutico avia receitas e aconselha, com conhecimento de causa, os remédios preferidos; e médicos há que consolam os doentes, a quem de um dia para o outro subiu bruscamente a temperatura, mostrando-lhes o assustador boletim na sua própria febre!
«... todos envenenados!»
O dono do hotel, o merceeiro, o homem do estanco [tabacaria], o barbeiro, o livreiro, a florista foram estabelecer-se aí, quando já não podiam lutar com o ar podre das cidades, onde os seus pulmões começaram a adoecer; para as repartições públicas vieram, a pedido, empregados de cara assobiada e peito cavado; e nos postigos dos Bancos, ao trocardes vossos cheques, servir-vos hão dedos hipocráticos folheando notas, tamborilando no dinheiro! Servidos e servidores — todos doentes! Nesta comédia da Morte, os que representam no palco são espetadores dos que na plateia os vêm representar. Todos andam combinados para essa ilusão: os hoteleiros, inventando divertimentos que disfarcem tristezas; a luz intensa, bebendo as sombras das faces encovadas; e o ar da montanha, vivo e extremamente seco, cobrindo a todos com a máscara rosada da saúde, para que ninguém se reconheça e se desestime nesse fúnebre carnaval!

Imagem de carta de António Nobre para
Antero de Figueiredo
Todos os anos sobem aí milhares de pessoas, que vão fazer a estação de cura, ou acompanhar seus doentes. Esses são os que se divertem como amadores fotográficos, parceiros do «tennis», do «croquet», das excursões ao Frauenkirch, à garganta de Fluela, ao planalto de Clavadel, a Kloster-sche-Stütz, ascensões que se repetem depois da queda das neves, aproveitando o declive para o escorregamento vertiginoso do «toboggan», do «bobsleigh» e do «skeleton», que, com a patinação no lago gelado de Davos-Doerfli e no Curverein, são os desportos prediletos dos estrangeiros. Logo que chegam — ingleses, russos, espanhóis, suecos, de toda a parte — procuram as relações feitas no ano anterior, para repetir, ao ar livre esse programa de divertimentos, que um ou outro amoroso altera, preferindo a tais correrias enlanguescer, enamorado, entre uma chávena de chá preto e uma frase de música clássica, à tarde, nos cantos amáveis dos jardins de inverno dos grandes hotéis. Também os doentes, ao chegar, perguntam pelas pessoas amigas com quem, no último inverno, fizeram relações, se fotografaram em grupo e confidenciaram tristezas... Alguém, então, informa: Miss *** falecera, um mês depois de haver deixado Davos, numa aldeia perto de Bristol; aquele francês, que usava um grande casaco de peles e se sentava à cabeceira da mesa do meio, morrera de uma prolongada hemoptise em seguida a uma ascensão nas montanhas de Méran; Mr ***, engenheiro belga, morto; também havia falecido aquela senhora polaca, que patinava lindamente, sempre enlaçada num rapazola ruivo, seu patrício e talvez seu noivo; o holandês dos olhos verdes, muito sufocado pela tosse, e que à noite era parceiro certo ao «ramse», morrera, em Abril, em viagem para o seu país; Madame ***, cabelos brancos, cujo fino sorriso prendia, e fora no inverno passado a organizadora da comissão de benefício da igreja católica de Davos, viu morrer sua filha, a quem ternamente acompanhava, e falecera também em Paris, havia pouco; e de outros sabe-se, vagamente que foram morrer para as suas terras!...; e nesses grupos fotográficos, tirados em passeio, vão rareando os vivos! O doente ouve, cala, e, com o coração oprimido, levanta-se de onde está, para ir esconder dos outros os seus olhos rasos de mágoas; mas como a tosse lhe arranha a garganta e gorgoleja no peito, põe-se também a ocultar a tosse, como ocultou as lágrimas!
Fora, a neve cai no ar mudo; e as árvores imóveis sofrem, resignadas, esse castigo lento que lhes sufoca a vida e a frescura de seus ramos verdes. E o doente não tem para que apelar: o céu é de cinza, a terra, estrangeira, e tudo, à volta de si, impregnado de tristes apreensões!

No entanto, quem às seis horas da tarde entrar nas salas de jantar desses grandes hotéis «Kurhaus» e «Belvedere», onde se assentam duzentos hóspedes, representantes de quase todas as nações do mundo, não se põe a considerar que eles estão ocupando lugares que nos últimos cinco ou seis anos foram ocupados por pessoas que, na maior parte, já não existem; pois as risadas e o burburinho de conversas alegres logo afastam de tais considerações e tristezas. Mas como essa alegria deve magoar certos doentes, nostálgicos da pátria, nostálgicos da saúde que outrora os enchia de riso! E esse quarteto, gargalhando Offenbach, entre dores, é como uma charanga que tocasse numa enfermaria! Por isso, bem fazem os doentes, fugindo para os terraços e para as galerias — largos eirados abertos ao ar livre, que há em todos os sanatórios e hotéis, para se apanhar sol e respirar o ar puro da montanha. Desde que o sol desce ao vale, pelas dez horas no mês de Fevereiro, até que se esconde por detrás do Schatzalp, os terraços e as galerias estão sempre cheias de doentes deitados em cadeiras de verga e cercados de almofadas, de mantas e de esquentadeiras que os aconchegam e defendem do frio intenso. Uns leem, alguns conversam, outros dormitam. Que de sonhos andam no ar! Ai de quem está só!... Noivos rasgam o céu com súplicas, porque Iá na sua terra uma noiva espera. Mundanas, vindas da folia que lhes laivou de morte a face linda, gritam, impacientes, pela saúde, porque Paris excitantemente as chama. Rapazes, que começam agora a viver, e quase não acreditam que a vida lhes falte, instintivamente elevam os braços à saúde. Velhos, contando os anos pelos dedos, só pedem os precisos para terem tempo de arranjar a sua vida e dispor o que lhes falta. Príncipes, herdeiros de um trono, desceram do norte e pousaram aí a sua tenda, como também essa desbotada princesa, que desde menina ouviu que um dia seria rainha! Oh, se a saúde se comprasse a peso de oiro ou a troco de vossas joias... preciosa noiva a quem o sol dessas montanhas não quer colorir a face, que, decerto, não será um dia beijada pela boca de nenhum rei, porque dizem ser de mau agoiro vir a neve desfazer-se nos cabelos quentes de alguém que dorme, e houve quem visse que os ventos, das bandas do Tirol, traziam pelo ar até vós farrapos de neve caída dos braços nus das árvores deste vale! Agoiro! É a hora dos presságios que empolgam as almas despercebidas na tibieza das irresoluções. Não há ateus nos terraços dos doentes; os que o foram sentem agora delinear-se no cérebro a imagem do Deus que o temor inventa!

Em volta, a neve branca estende-se desde o fundo do vale, pelas encostas, por sobre a rama dos pinheiros alpestres, alastrando--se até o céu, que no recorte dos montes desmaia em leite, como nos céus de Corot [pintor francês famoso pelos seus quadros de paisagens]. A neve abafa todos os sons e pára todas as alegrias: não ri pelo ar um canto de ave, as árvores do vale são sempre outonais, e tudo é gosto desfeito nesta paisagem, que tem o sorriso doloroso do médico amigo, a animar com esperanças o doente de quem já antemarcara a hora derradeira!
Vai esmaecendo a luz do dia, como cai a conversa de dois velhos, após longas recordações que os emudecem... Algumas nuvens, poucas, formam o poente, lívido e frio, de onde começa a soprar uma viração aterradora. As tendas levantam-se, os terraços e as galerias ficam varridos, e pelas sendas de neve, que descem nos montes de ao redor, veem fugindo os doentes, como se a essa hora uma pavorosa ave negra, de fúnebres asas, nascida da tinta crepuscular, passasse por aquele canto da terra, em busca de olhos humanos, para lhes beber a vida incerta. Então, no entardecer silencioso dessa luz que se apaga, ouve-se, agoirento como um uivo, o silvo da locomotiva que parte, descendo o vale. Um vagão vai selado com uma cruz branca: é uma câmara ardente! Dentro, talvez, o cadáver de um filho, que um criado de hotel amortalhou à pressa, e despachou em grande velocidade à casa paterna. Para onde? Para a Rússia? Para a Alemanha? Para a Inglaterra? Para a Escócia? Para as areias de Portugal?
Sabe Deus para onde!...

sábado, 23 de março de 2013

Política da Papoila

Quadrilha (por Carlos Drummond de Andrade)

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Bastou uma semana depois de termos falado dos problemas do dólar para surgir a trapalhada no Chipre. É claro que ninguém quer pagar os dislates do paraíso fiscal cipriota ou dos países que desbarataram as suas economias por culpa própria. Ninguém. Nem Merkel, nem Hollande, nem SPD alemão, nem ninguém na Europa. Como de costume, os pobres (de espírito) que se amanhem.

Os bancos europeus sujeitos às novas regras da União Bancária poderão talvez sobreviver, mas terão limitações para comprar o lixo especulativo das obrigações do tesouro dos países sob programas de ajustamento. Por isso, os estados já debilitados não terão sequer apoio dos seus bancos nacionais, e irão procurar quem os quiser comprar fora da zona Euro. Ou então, o que me parece mais ajuizado, encontra-se uma forma de, à bruta, com penas criminais e de uma vez por todas, acabar com esta loucura das políticas e políticos da papoila. São os especialistas em ilusões, eleitos por desesperados e enganados, que gastam o dinheiro que o Estado não tem. São muitas vezes reeleitos, ao contrário da gente séria, tipo Monti, como se viu em Itália. Os palhaços têm mais sucesso, que me desculpem os palhaços. 

Para se manter a política da papoila, há uma sugestão igualmente ilusória: sair do Euro. E o país seria feliz até ao fim dos tempos, dizem. E eu a pensar que para criar valor, leia-se PIB, tínhamos de trabalhar mais e melhor. Pergunto apenas: se substituir uma moeda por outra faz os países ricos, porque é que por exemplo os países africanos, tão pobres, já não o fizeram?

domingo, 17 de março de 2013

O dólar americano como moeda de reserva mundial, está cada vez mais em causa

Obama: a esperança comprometida.

No ambiente que se vive hoje em Portugal, com uma gravíssima e prolongada recessão e elevadíssimas taxas de desemprego, quase nem acompanhamos o que se passa lá fora. Seguimos com atenção, porque nos interessa, a crise do Euro, mas por exemplo, pouca gente tem referido a perda da posição do dólar americano como reserva de valor a nível mundial.

Não imaginamos como uma perda de confiança no dólar nos poderá afetar, mas muito provavelmente se a maior economia do mundo, cronicamente deficitária, passar a ter de equilibrar as suas contas com o exterior, as consequências para o comércio mundial serão devastadoras e ofuscarão os efeitos da crise de Novembro de 2008.

 O atual Presidente Obama, na campanha da sua primeira eleição era muito crítico do despesismo do Presidente Bush por causa do montante da dívida do Estado Federal se aproximar de 10 triliões de dólares. Arrisca-se a duplicar essa verba no final do seu segundo mandato, e atingir os 20 triliões.

Alguns países, como os BRICS, têm negociado que as suas trocas internacionais sejam realizadas sem recorrer ao dólar e o próprio FMI tem vindo a propor alternativas. É com muita pena que assisto à presidência de Obama estar a contribuir com o aumento de dívida para o enfraquecimento do dólar. 

Quando foi eleito, Obama representava um sinal de esperança para o desenvolvimento da economia americana. Essas imensas expectativas foram defraudadas e embora o presidente tenha sido re-eleito, nem de perto nem de longe existiu na última campanha eleitoral o entusiasmo pelo presidente que existiu na sua primeira eleição. Muitos americanos já se aperceberam do risco que corre a manutenção dos padrões de vida que têm mantido. Grandes jornais económicos como o Financial Times e o Wall Street Journal têm alertado para este risco. Por causa deste cenário, compreende-se a desvalorização do dólar face ao Euro.

Em Julho de 2011 Obama disse “contrary to what some folks say, we're not Greece, we're not Portugal”. Depois da S&P ter cortado o triplo A dos Estados Unidos, e a Fitch e a Moody’s estarem a seguir essa classificação porque definiram já um “outlook” negativo, falta pouco para a austeridade chegar aos EUA. 

Como todos temos estado a aprender da pior maneira na Grécia e em Portugal, estados que apostam no crescimento das suas dívidas para além do sustentável, caminham para o desastre. Ora, a dimensão da economia de um país, mesmo da maior economia do mundo, não isenta o estado desta regra.
Em todos os países com dívida excessiva, o que ainda precisamos de aprender é como podemos tornar sustentável as despesas do estado e do país, equilibrando despesas e receitas, importações e exportações, e simultaneamente manter o emprego a níveis socialmente aceitáveis, ainda que isso nos possa custar perdas salariais.

terça-feira, 12 de março de 2013

O Solar do Bitoque: provavelmente o melhor bitoque de Portugal.


Claro que não tenho a pretensão de conhecer todos os bitoques portugueses. Ninguém conhece porque é tarefa impossível. É um prato típico, portuguesinho da Silva e são muitos os milhares de locais onde é servido. Talvez uma vida a comer um bitoque todos os dias em sítios diferentes não chegasse. Mas não conheço nenhum bitoque tão bom quanto este d’ O Solar do Bitoque. É um grupo de restaurantes/cervejarias populares em Sintra, Cacém, Torres Vedras, Mafra e Cascais. O termo popular não quer significar de menor qualidade, aliás o bitoque é qualquer coisa de excecional. Só conheço o Solar do Bitoque de Cascais. É mesmo junto à entrada da praça onde se encontra o edifício da Câmara Municipal de Cascais. Aqui vão umas fotos e a morada (ver no final a minha Declaração Formal de Interesses).


O bitoque desta casa é um bife fino, de carne magra sem gordura, que nos tapa o prato por completo. Por cima, é colocado um ovo estrelado e um simples e delicioso molho de alho. Como já não cabe mais nada no prato, as batatas fritas de palito são servidas em travessa à parte. Para nos mostrar como esta gulodice é feita, o Solar do Bitoque resolveu fazer um pequeno vídeo que aqui trago. Poderão pensar o que quiserem, mas nada substitui a experiência que é comer um bitoque destes. Atrevo-me a dizer que é melhor que chocolate e o preço é uma agradável surpresa. Em Cascais, então, o Solar do Bitoque é dos locais onde se pode comer bem, sair de barriguinha cheia e com a camisa ainda vestida. Quando faz bom tempo, a esplanada é muito agradável. Pessoalmente, desde que sejam locais limpos e civilizados, prefiro os ambientes popularuchos e informais das nossas cervejarias tugas, a muito restaurante “seleto”. É algo que nos põe logo à vontade. Além do seu bitoque fora de série, servem outras coisas boas. Vão ver à página da internet do Solar dos Bitoques.

video


Declaração Formal de Interesses:
Assumo pretender que a empresa O Solar do Bitoque e seus colaboradores, tenham grande sucesso, e continuem assim durante muitos e bons anos a servir-me o seu excelente bitoque.

domingo, 3 de março de 2013

O Papa Figos, mais um grande tinto da Casa Ferreirinha

(pequeno vídeo com o Papa Figos)
video

Já todos conhecemos os tintos da Casa Ferreirinha que são do melhor que se faz em Portugal. Temos uma oferta que vai do Esteva, um belíssimo vinho de consumo corrente, barato e popular, até à gama intermédia que se inicia com o excelente Vinha Grande. Daí para a frente é sempre a subir até culminar no Rolls Royce dos vinhos portugueses, o Barca Velha. 

Havia porém um vinho que faltava no catálogo da Casa Ferreinha. O Esteva custa à volta de 3 euros e o Vinha Grande 10 euros. Fazia falta um vinho de preço entre 5 e 6 euros, personalizado, de qualidade entre o bom e o excelente. O Papa Figos é esse vinho. Como consumidor já escolhi o Papa Figos 2011, como o meu vinho de eleição para este ano e aconselho todos a prová-lo.

Ter optado pelo nome de um pássaro, uma ave migratória que frequenta a Quinta da Leda onde nasce este nectar, é uma agradável surpresa. Valoriza o local de origem do vinho e permite um rótulo de bonito efeito, mantendo embora o design e “lettering”comuns aos vinhos Ferreirinha. É muito com base nestes detalhes que avaliamos o profissionalismo e o cuidado dos produtores de bens de consumo final. Nisso, a Casa Ferreirinha e a Sogrape sabem ser exemplares desde há muitos anos.

À Saúde de todos!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles III – Prosa

Cecília Meireles e "a cadeira vazia"
(Ver poema "Encomenda").

Cecília Meireles foi também professora, escreveu artigos para jornais, era viajada e atenta ao mundo. Do livro “Escolha o Seu Sonho”, um título só por si bastante revelador, escolhi dois textos:

Arte de Ser Feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos (1) que sempre me parecem personagens de Lope de Vega (2). Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Mundo Engraçado

O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira (3), nem à minha Ilha do Nanja (4); não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções...)

Abre-se um jornal – e tudo é engraçado, mesmo o que parece triste. Cada fato, cada raciocínio, cada opinião nos faria sorrir por muitas horas, se ainda tivéssemos horas disponíveis.
Há os mentirosos, por exemplo. E pode haver coisa mais engraçada que o mentiroso? Ele diz isto e aquilo, com a maior seriedade; fala-nos de seus planos; de seus amigos (poderosos, influentes, ricos); queixa-se de algumas perseguições (que aliás, profundamente despreza); às vezes conta-nos que foi roubado em algum quadro célebre ou numa pedra preciosa, oferecida à sua bisavó pelo Primeiro-Ministro da Cochinchina. O mentiroso conhece as maiores personalidades do Mundo – trata-as até por tu! Seus amores são a coisa mais poética do século. Suas futuras viagens prometem ser as mais sensacionais, depois dessas banalidades de UIisses e Simbad... Certamente escreverá o seu diário, mas não o publicará jamais, porque é preciso um papel que não existe, um editor que ainda não nasceu e um leitor que terá de sofrer várias encarnações para ser digno de o entender.

Em geral os mentirosos são muito agradáveis, desde que não se tome como verdade nada do que dizem. E esse é o inconveniente: às vezes, leva-se algum tempo para se fazer a identificação. Uma vez feita, porém, que maravilha! – é só deixá-los falar. É como um sonho, uma história de aventuras, um filme colorido.

Há também os posudos (5). Os posudos ainda são mais engraçados que os mentirosos e geralmente acumulam as funções. O que os torna mais engraçados é serem tão solenes. Os posudos funcionários são deslumbrantes! Como se sentam à sua mesa! Como consertam os óculos! Que coisas dizem! As coisas que dizem são poemas épicos com a fita posta ao contrário. Não se entende nada – mas que diapasão! Que delicadas barafundas! Que sons! Que ritmos! Seus discursos e as palmas que os acompanham conseguem realizar o prodígio de serem a coisa mais cómica da terra pronunciada no tom mais sério, mais grave, mais trágico – de modo que o ouvinte, que rebenta de rir por dentro, sofre uma atrapalhação emocional e consegue manter-se estático, paralisado, equivocado.

Os posudos, porém, são menos agradáveis que os simples mentirosos. Os mentirosos têm um jeito frívolo, como se andassem acompanhados de um criado que anunciasse: "Não creiam em nada do que o meu amo diz!" Mas os posudos levam um séquito de criados, todos posudos também, que recolhem nas sacolas, grandes e pequenas gorjetas, porque uma das qualidades do posudo é andar sempre com muito dinheiro – que não é seu!

Notas:
     (1)    Marimbondos – Vespas
     (2)    Personagens de Lope de Vega – Julgo que Cecília quer realçar o caráter brigão
     (3)    Pasárgada do Bandeira – Pais das delícias inventado por Manuel Bandeira
     (4)    Ilha do Nanja – Ilha de utopia imaginada por Cecília Meireles
     (5)    Posudo – Presunçoso

QUE FAZES TU COM A TUA VIDA? - ACOLHO-A.
Óleo de Margarida Cepêda.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles II – Paradoxal


"Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade."
Cecília Meireles

Cecília Meireles
Parece existir bastante coerência quando se diz, e ela própria o afirma, que em muito da sua vida e dos seus escritos, subsiste frequentemente a noção da transitoriedade da vida. A morte prematura dos pais, colocaram-na desde muito cedo perante essa dura realidade. O seu misticismo religioso que comentámos na passada semana, complementa este dualismo de uma vida curta e de uma alma eterna. Mas o paradoxo emerge, quando nos apercebemos que Cecília não aceita completamente o facto de a vida ser curta como é. Não lhe parece ser justa esta tão grande limitação. Vejamos por exemplo em “Viagem”, que interpreto como a viagem do ente espiritual pela vida terrena, marcada por 13 epigramas, que funcionam como um tic tac de relógio que marcam o tempo da vida do princípio ao fim.

O "Epigrama nº12", o penúltimo antes do final, lamenta a inexorável passagem do tempo que põe termo à vida:

A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.

Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?

Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada  mas partida?

No poema “Feitiçaria” da mesma “Viagem”, só mesmo um feitiço poderia fazer parar o tempo, evitando Caronte e as Parcas (ou seus imitadores).

Não tinha havido pássaro nem flores
o ano inteiro.
Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens
e nem barca e nem marinheiro.

Nem indústria ou comércio, nem jornal nem rádio,
o ano inteiro!
Nem cartas nem modas. Tudo quanto havia
era o feitiço de um feiticeiro
que toldava o mundo e melancolia.

Chegaram agora pássaros e flores,
e de novo guerras, aulas, missas, viagens,
e marinheiros com remos e barcas
vêm saindo lá do horizonte.

Brotam de novo antigas imagens
das coleções de fotografia...
- moços com roupas de Caronte
e meninas iguais às Parcas.

Por isso é que se tem saudade
do tempo da feitiçaria.

E é devido a este paradoxo que Cecília Meireles encarna aquilo que acho mais sentido na sua poesia: o seu profundo humanismo.

O CICLO DO SANGUE. Óleo de Margarida Cepêda.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles I – Mística


Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e faleceu com cancro, ainda relativamente nova, em 1964. Estamos a falar de uma das maiores figuras das letras brasileiras e da língua portuguesa de sempre, que em consequência, é justamente uma das grandes poetisas do século XX.

Darcy Damasceno na introdução de Obra Poética de 1958, explica a evolução e os cambiantes da multifacetada poesia de Cecília Meireles. Mas o que primeiro me chamou a atenção, diz respeito à carga espiritual e mística, da sua poesia. Por exemplo no famoso poema “Noções”, onde Cecília procurando a sua essência, pressente a própria alma:

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efémero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

Ela atribui uma função específica a esse outro ser espiritual. Descubro essa função espiritual, por exemplo neste pequeno poema de “Viagem”.

 Epigrama Nº11

A VENTANIA misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.


O amor como sentimento apenas humano, não espiritual, é aqui relativizado e minimizado, num triste desabafo:

INSCRIÇÃO NA AREIA

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Mas nesta outra poesia sem título, de SOLOMBRA (ver Nota no final), o amor, se no campo espiritual e liberto das amarras materiais, renasce:

Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços,

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.

Nota:
Perdoem-me todos aqueles que opinarão de forma contrária, mas para mim, humilde leitor não-especializado, “solombra”, em Cecília Meireles, não é, como já li, a dicotomia entre por um lado o sol ou a luz e por outro a sombra, mas apenas “sombra”, uma sombra individual, pessoal, ensimesmada. Então porquê “solombra” e não apenas “sombra”?  Porque “solombra” é uma sombra solitária, exclusiva de si própria, é o espírito/alma. (Para uma interpretação da etimologia das palavras “sombra” e “solombra ou selombra”, ver por exemplo o que diz o professor Fernando Rodrigues de Almeida no seu blogue “O Outro Lado da História”, aqui)

SOU ENTRE MIM E MIM O INTERVALO*. Pintura de Margarida Cepêda.
(*) Citação de Fernando Pessoa


















sábado, 26 de janeiro de 2013

Lendo Poesia sem terra à vista


O que procuramos ao ler poesia? Procuramos a estética, uma qualquer beleza no texto e nas rimas; procuramos a música silenciosa do ritmo das palavras; procuramos a imagética criativa das metáforas e da fantasia; procuramos a inteligência dos raciocínios ou o brilhantismo de uma conclusão inesperada; procuramos por vezes sensibilizar-nos apenas com a expressão de um estado de alma. Não damos o nosso tempo por perdido porque há qualquer coisa de dádiva na poesia, como em todas as artes, e por um qualquer mecanismo ou magia, elas são capazes de nos enriquecer.

Creio que ninguém consegue conceber a história e a vida humana sem Arte. Especificamente a poesia, tem uma carga de intimidade que não acredito que a prosa consiga atingir, e talvez por isso, Eugénio de Andrade (poeta, 1923-2005) escreveu que “o ato poético é o empenho total do ser para a sua revelação”(1) .  Mas deixemo-nos de tentativas de explicação e vamos aos poemas.


Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)















PRECE 
(Adolfo Casais Monteiro)

A máscara ri ou chora,
O ser olha, e impassível,
Deixa cair sobre tudo
Um olhar que diz:
Não importa.

Olhos de aflição
Querem fingir um sorriso,
Calar ao menos a mágoa
Não aflijam alguém...
O ser olha, e só murmura:
Não importa.

Senhor!
Dai ao meu ser interesse,
Por grandes, pequenas misérias,
Da minha vida real!
Dai-lhe ódio, amor, piedade,
Crueza, ternura – vida!
Não deixeis que eu assim viva,
Tendo em mim um indiferente
De tudo sempre distante!

O poeta pede a Deus que lhe dê sentimentos, que o façam mudar da sua posição de frieza, de quem não se está para ralar e ser incomodado com os problemas dos outros, para que esteja mais integrado na vida (dos que estão) à sua volta. O poema seguinte, corresponde, de alguma forma ao problema oposto, de quem se sente preocupado com tudo em demasia.


Olavo d'Eça Leal (1908-1976)














VAMOS ANTES A PARIS 
(Olavo d’Eça Leal)

Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás leitor: “a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho...”
- Não bebas... vamos antes a Paris!

Este desabafo sentido, dá mesmo vontade de ir a Paris. Mas esse merceeiro será assim tão parvo e não terá nenhum valor? No fundo, se calhar, acabamos por ter de dar razão a Miguel Torga no poema seguinte, e ter de olhar para tudo com mais simplicidade. É com coisas pequenas que se constroem as grandes obras.


Miguel Torga (1907-1995)














BUCÓLICA 
(Miguel Torga)

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

E assim vou navegando na noite fria dum sábado chuvoso, de poema em poema, sem terra à vista. 

(1)    Os Afluentes do Silêncio, Eugénio de Andrade.