domingo, 17 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles III – Prosa

Cecília Meireles e "a cadeira vazia"
(Ver poema "Encomenda").

Cecília Meireles foi também professora, escreveu artigos para jornais, era viajada e atenta ao mundo. Do livro “Escolha o Seu Sonho”, um título só por si bastante revelador, escolhi dois textos:

Arte de Ser Feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos (1) que sempre me parecem personagens de Lope de Vega (2). Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Mundo Engraçado

O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira (3), nem à minha Ilha do Nanja (4); não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções...)

Abre-se um jornal – e tudo é engraçado, mesmo o que parece triste. Cada fato, cada raciocínio, cada opinião nos faria sorrir por muitas horas, se ainda tivéssemos horas disponíveis.
Há os mentirosos, por exemplo. E pode haver coisa mais engraçada que o mentiroso? Ele diz isto e aquilo, com a maior seriedade; fala-nos de seus planos; de seus amigos (poderosos, influentes, ricos); queixa-se de algumas perseguições (que aliás, profundamente despreza); às vezes conta-nos que foi roubado em algum quadro célebre ou numa pedra preciosa, oferecida à sua bisavó pelo Primeiro-Ministro da Cochinchina. O mentiroso conhece as maiores personalidades do Mundo – trata-as até por tu! Seus amores são a coisa mais poética do século. Suas futuras viagens prometem ser as mais sensacionais, depois dessas banalidades de UIisses e Simbad... Certamente escreverá o seu diário, mas não o publicará jamais, porque é preciso um papel que não existe, um editor que ainda não nasceu e um leitor que terá de sofrer várias encarnações para ser digno de o entender.

Em geral os mentirosos são muito agradáveis, desde que não se tome como verdade nada do que dizem. E esse é o inconveniente: às vezes, leva-se algum tempo para se fazer a identificação. Uma vez feita, porém, que maravilha! – é só deixá-los falar. É como um sonho, uma história de aventuras, um filme colorido.

Há também os posudos (5). Os posudos ainda são mais engraçados que os mentirosos e geralmente acumulam as funções. O que os torna mais engraçados é serem tão solenes. Os posudos funcionários são deslumbrantes! Como se sentam à sua mesa! Como consertam os óculos! Que coisas dizem! As coisas que dizem são poemas épicos com a fita posta ao contrário. Não se entende nada – mas que diapasão! Que delicadas barafundas! Que sons! Que ritmos! Seus discursos e as palmas que os acompanham conseguem realizar o prodígio de serem a coisa mais cómica da terra pronunciada no tom mais sério, mais grave, mais trágico – de modo que o ouvinte, que rebenta de rir por dentro, sofre uma atrapalhação emocional e consegue manter-se estático, paralisado, equivocado.

Os posudos, porém, são menos agradáveis que os simples mentirosos. Os mentirosos têm um jeito frívolo, como se andassem acompanhados de um criado que anunciasse: "Não creiam em nada do que o meu amo diz!" Mas os posudos levam um séquito de criados, todos posudos também, que recolhem nas sacolas, grandes e pequenas gorjetas, porque uma das qualidades do posudo é andar sempre com muito dinheiro – que não é seu!

Notas:
     (1)    Marimbondos – Vespas
     (2)    Personagens de Lope de Vega – Julgo que Cecília quer realçar o caráter brigão
     (3)    Pasárgada do Bandeira – Pais das delícias inventado por Manuel Bandeira
     (4)    Ilha do Nanja – Ilha de utopia imaginada por Cecília Meireles
     (5)    Posudo – Presunçoso

QUE FAZES TU COM A TUA VIDA? - ACOLHO-A.
Óleo de Margarida Cepêda.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles II – Paradoxal


"Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade."
Cecília Meireles

Cecília Meireles
Parece existir bastante coerência quando se diz, e ela própria o afirma, que em muito da sua vida e dos seus escritos, subsiste frequentemente a noção da transitoriedade da vida. A morte prematura dos pais, colocaram-na desde muito cedo perante essa dura realidade. O seu misticismo religioso que comentámos na passada semana, complementa este dualismo de uma vida curta e de uma alma eterna. Mas o paradoxo emerge, quando nos apercebemos que Cecília não aceita completamente o facto de a vida ser curta como é. Não lhe parece ser justa esta tão grande limitação. Vejamos por exemplo em “Viagem”, que interpreto como a viagem do ente espiritual pela vida terrena, marcada por 13 epigramas, que funcionam como um tic tac de relógio que marcam o tempo da vida do princípio ao fim.

O "Epigrama nº12", o penúltimo antes do final, lamenta a inexorável passagem do tempo que põe termo à vida:

A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.

Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?

Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada  mas partida?

No poema “Feitiçaria” da mesma “Viagem”, só mesmo um feitiço poderia fazer parar o tempo, evitando Caronte e as Parcas (ou seus imitadores).

Não tinha havido pássaro nem flores
o ano inteiro.
Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens
e nem barca e nem marinheiro.

Nem indústria ou comércio, nem jornal nem rádio,
o ano inteiro!
Nem cartas nem modas. Tudo quanto havia
era o feitiço de um feiticeiro
que toldava o mundo e melancolia.

Chegaram agora pássaros e flores,
e de novo guerras, aulas, missas, viagens,
e marinheiros com remos e barcas
vêm saindo lá do horizonte.

Brotam de novo antigas imagens
das coleções de fotografia...
- moços com roupas de Caronte
e meninas iguais às Parcas.

Por isso é que se tem saudade
do tempo da feitiçaria.

E é devido a este paradoxo que Cecília Meireles encarna aquilo que acho mais sentido na sua poesia: o seu profundo humanismo.

O CICLO DO SANGUE. Óleo de Margarida Cepêda.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles I – Mística


Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e faleceu com cancro, ainda relativamente nova, em 1964. Estamos a falar de uma das maiores figuras das letras brasileiras e da língua portuguesa de sempre, que em consequência, é justamente uma das grandes poetisas do século XX.

Darcy Damasceno na introdução de Obra Poética de 1958, explica a evolução e os cambiantes da multifacetada poesia de Cecília Meireles. Mas o que primeiro me chamou a atenção, diz respeito à carga espiritual e mística, da sua poesia. Por exemplo no famoso poema “Noções”, onde Cecília procurando a sua essência, pressente a própria alma:

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efémero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

Ela atribui uma função específica a esse outro ser espiritual. Descubro essa função espiritual, por exemplo neste pequeno poema de “Viagem”.

 Epigrama Nº11

A VENTANIA misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.


O amor como sentimento apenas humano, não espiritual, é aqui relativizado e minimizado, num triste desabafo:

INSCRIÇÃO NA AREIA

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Mas nesta outra poesia sem título, de SOLOMBRA (ver Nota no final), o amor, se no campo espiritual e liberto das amarras materiais, renasce:

Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços,

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.

Nota:
Perdoem-me todos aqueles que opinarão de forma contrária, mas para mim, humilde leitor não-especializado, “solombra”, em Cecília Meireles, não é, como já li, a dicotomia entre por um lado o sol ou a luz e por outro a sombra, mas apenas “sombra”, uma sombra individual, pessoal, ensimesmada. Então porquê “solombra” e não apenas “sombra”?  Porque “solombra” é uma sombra solitária, exclusiva de si própria, é o espírito/alma. (Para uma interpretação da etimologia das palavras “sombra” e “solombra ou selombra”, ver por exemplo o que diz o professor Fernando Rodrigues de Almeida no seu blogue “O Outro Lado da História”, aqui)

SOU ENTRE MIM E MIM O INTERVALO*. Pintura de Margarida Cepêda.
(*) Citação de Fernando Pessoa