sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dívida pública, crescimento e desemprego em Portugal até 2029



Não obstante o inesperado erro do Excel de Einhart e de Rogoff, é claro que existe um constrangimento importante da dívida pública sobre o crescimento. Basta sabermos que a dívida tem um impacto quantitativo sobre os juros a pagar. Quando a dívida sobe, o efeito é aumentar não apenas o montante do juro, visto a base alargar, mas também a taxa que os credores exigem. Como sabemos por experiência própria, a verba a pagar, encargos da dívida, quando excessivos obrigam a cortes nos investimentos públicos e constrangimentos no setor financeiro, o que diminui o volume e as condições de crédito às empresas e aos particulares. Outra consequência, quando a dívida pública se torna muito elevada, é os governos optarem pelo aumento de impostos, os quais são uma pressão adicional negativa sobre o crescimento.

As consequências da quebra do PIB sobre o emprego podem ser terríveis, como estão a ser em Portugal, na Grécia e em Espanha. A questão fundamental desta situação é que não existe nenhuma fórmula que possa permitir uma resposta rápida para o problema. Isto tem que ver com a vida de quem é prejudicado pelos cortes públicos e despedimentos das empresas privadas e não com nenhum conceito abstrato, por isso as sociedades dividem-se e os regimes políticos sentem-se ameaçados. 

A não ser que o nosso Governo acredite naquele mote da FRETILIN de Timor, “resistir é vencer”, e vá aplicando austeridade sobre austeridade, na esperança que a situação internacional mude com vários países (como a França) a juntarem-se aos aflitos e a necessitarem de políticas comunitárias mais facilitadoras, no quadro das políticas atuais não vejo como possa ser possível pensar na retoma do crescimento no ano de 2014. Também não existe nas circunstâncias políticas vigentes uma via rápida para a diminuição do défice do estado: a recente “descoberta” dos créditos “swap” ruinosos, de várias empresas do estado, revelam que ao virar de cada esquina se encontram dívidas por saldar.

Com as dificuldades em diminuir o défice, é muito natural que a dívida pública continue a aumentar este ano e no próximo, até porque as agências de “rating” não irão a curto prazo reclassificar a nossa dívida fora da zona especulativa (“lixo”), o que torna os encargos da dívida sempre pesados para as contas do estado. Por isso não vejo maneira de escapar a um segundo resgate, quanto a mim inevitável enquanto a dívida do estado tiver esta classificação. Será evidentemente um falhanço do governo do PSD/CDS, da União Europeia e do FMI.
Atrevi-me a elaborar algumas contas simples, em folha de cálculo Excel, sobre aquilo que julgo mais provável acontecer em termos de tendências e pior que isto, será uma desgraça ainda maior. Melhor, será uma boa surpresa. Não considerei a possibilidade de a União Europeia optar pelos “eurobonds” ou o BCE poder intervir no mercado primário, adquirindo dívida diretamente a cada estado. São cenários que não estão hoje identificados por ninguém com responsabilidades políticas ou executivas na UE, como “prováveis”. Mantive o valor médio de 4,5% de juros sobre a divída portuguesa ao longo de todo o período em análise. É discutível, mas pareceu-me o mais prudente. Durante muito tempo os mercados terão boas razões para desconfiar dos países da Europa do Sul.

Este será então o meu quadro de referência de avaliação dos anos mais próximos:





















Conclusões:
1- O crescimento anual não ocorrerá antes de 2015.
2- A dívida pública em percentagem do PIB ainda continuará a crescer até 2016, sendo necessário um segundo plano de resgate.
3- Só a partir do momento em que a dívida pública comece a cair de forma sustentada será possível atrair capitais e investimentos e acreditar numa gradual e lenta aceleração do crescimento económico.
4- Mesmo que se verifique algum crescimento já a partir de 2015, o desemprego continuará a subir lentamente até cerca de 2020, ultrapassando claramente os 20%.
5- Só na segunda metade da década de 20, daqui a 14 ou 15 anos, poderemos ambicionar atingir menos de 60% do PIB em dívida pública, a que estamos obrigados pelos tratados europeus.
6- Também só na segunda metade da década de 20 poderemos ambicionar recuperar algumas das principais regalias sociais perdidas durante a fase de assistência financeira internacional (primeiro e segundo programa de assistência).

Claro que consideramos que não ocorra nenhuma hecatombe económica mundial, e que o enquadramento económico internacional, incluindo o dólar e o euro, mantenham uma certa regularidade.

Uma alternativa aparentemente mais favorável a este cenário, pressupõe uma diminuição da dívida pública já em 2014, com uma redução dramática das despesas do estado. Não a considerei porque essa redução poderia causar não apenas uma nova diminuição do PIB, como ainda um agravamento mais rápido do desemprego. Apesar de tudo, um segundo resgate, orientado para a manutenção do défice a um nível estável (cerca de 2%) e orientado principalmente para o financiamento da dívida e o crescimento económico, seria uma aposta mais adequada aos nossos problemas.

Muito importante será que o governo continue e aprofunde as imprescindíveis reformas estruturais, por exemplo na Justiça, na eliminação da burocracia inútil bloqueadora do investimento privado, no redimensionamento das Forças Armadas, na adequação da Educação Pública às necessidades de qualificação do país, na firme negociação das PPPs e dos custos energéticos e no programa de privatizações, se possível alargando-o.

Será sempre um caminho difícil e longo.

domingo, 7 de abril de 2013

A doença de Davos

Antero de Figueiredo


Observar a doença de raiz económica do dólar e do euro, agravada pelas barbaridades financeiras, fez-me lembrar um texto sobre Davos, Suíça, de Antero de Figueiredo (1866-1953) do livro “Recordações e Viagens” de 1905.
Davos foi uma conhecida estância suíça de sanatórios para tratamento de tuberculosos durante os finais do século dezanove e a primeira metade do século vinte. Tendo Davos por ambiente, Thomas Mann escreveria a sua obra-prima “A Montanha Mágica”, talvez o melhor romance do século passado.
Antero de Figueiredo conheceu bem a Suíça, onde viveu com a sua segunda mulher. Antes disso, Davos já não lhe seria desconhecida, pois pelo menos o seu amigo António Nobre tinha estado lá em tratamentos, poucos meses antes de falecer. Nos nossos dias, Davos é a sede do World Economic Forum, a mais importante reunião anual a nível mundial onde se discutem os problemas económicos. Faz com que pareça que a velha doença de Davos se propagou à economia.

Davos-Platz
por Antero de Figueiredo
[Notas entre parêntesis retos da responsabilidade deste blogue]

Como na «Lucrécia Bórgia» [ópera de Donizetti], alguém poderá clamar do alto desse vale:
«Estais todos envenenados!»
Todos! Uma população inteira de três ou quatro mil almas — de três ou quatro mil doentes! Há os doentes ricos, cercados de conforto, a quem nada falta; mas há também os doentes pobres, que trabalham para servir e distrair esses doentes ricos. O alfaiate que prova o fato vai ajeitando o pano ao corpo do freguês, e tossindo; a modista de vestidos sabe, por experiência própria, que tem de enchumaçar nas covas das clavículas a blusa que talha; o farmacêutico avia receitas e aconselha, com conhecimento de causa, os remédios preferidos; e médicos há que consolam os doentes, a quem de um dia para o outro subiu bruscamente a temperatura, mostrando-lhes o assustador boletim na sua própria febre!
«... todos envenenados!»
O dono do hotel, o merceeiro, o homem do estanco [tabacaria], o barbeiro, o livreiro, a florista foram estabelecer-se aí, quando já não podiam lutar com o ar podre das cidades, onde os seus pulmões começaram a adoecer; para as repartições públicas vieram, a pedido, empregados de cara assobiada e peito cavado; e nos postigos dos Bancos, ao trocardes vossos cheques, servir-vos hão dedos hipocráticos folheando notas, tamborilando no dinheiro! Servidos e servidores — todos doentes! Nesta comédia da Morte, os que representam no palco são espetadores dos que na plateia os vêm representar. Todos andam combinados para essa ilusão: os hoteleiros, inventando divertimentos que disfarcem tristezas; a luz intensa, bebendo as sombras das faces encovadas; e o ar da montanha, vivo e extremamente seco, cobrindo a todos com a máscara rosada da saúde, para que ninguém se reconheça e se desestime nesse fúnebre carnaval!

Imagem de carta de António Nobre para
Antero de Figueiredo
Todos os anos sobem aí milhares de pessoas, que vão fazer a estação de cura, ou acompanhar seus doentes. Esses são os que se divertem como amadores fotográficos, parceiros do «tennis», do «croquet», das excursões ao Frauenkirch, à garganta de Fluela, ao planalto de Clavadel, a Kloster-sche-Stütz, ascensões que se repetem depois da queda das neves, aproveitando o declive para o escorregamento vertiginoso do «toboggan», do «bobsleigh» e do «skeleton», que, com a patinação no lago gelado de Davos-Doerfli e no Curverein, são os desportos prediletos dos estrangeiros. Logo que chegam — ingleses, russos, espanhóis, suecos, de toda a parte — procuram as relações feitas no ano anterior, para repetir, ao ar livre esse programa de divertimentos, que um ou outro amoroso altera, preferindo a tais correrias enlanguescer, enamorado, entre uma chávena de chá preto e uma frase de música clássica, à tarde, nos cantos amáveis dos jardins de inverno dos grandes hotéis. Também os doentes, ao chegar, perguntam pelas pessoas amigas com quem, no último inverno, fizeram relações, se fotografaram em grupo e confidenciaram tristezas... Alguém, então, informa: Miss *** falecera, um mês depois de haver deixado Davos, numa aldeia perto de Bristol; aquele francês, que usava um grande casaco de peles e se sentava à cabeceira da mesa do meio, morrera de uma prolongada hemoptise em seguida a uma ascensão nas montanhas de Méran; Mr ***, engenheiro belga, morto; também havia falecido aquela senhora polaca, que patinava lindamente, sempre enlaçada num rapazola ruivo, seu patrício e talvez seu noivo; o holandês dos olhos verdes, muito sufocado pela tosse, e que à noite era parceiro certo ao «ramse», morrera, em Abril, em viagem para o seu país; Madame ***, cabelos brancos, cujo fino sorriso prendia, e fora no inverno passado a organizadora da comissão de benefício da igreja católica de Davos, viu morrer sua filha, a quem ternamente acompanhava, e falecera também em Paris, havia pouco; e de outros sabe-se, vagamente que foram morrer para as suas terras!...; e nesses grupos fotográficos, tirados em passeio, vão rareando os vivos! O doente ouve, cala, e, com o coração oprimido, levanta-se de onde está, para ir esconder dos outros os seus olhos rasos de mágoas; mas como a tosse lhe arranha a garganta e gorgoleja no peito, põe-se também a ocultar a tosse, como ocultou as lágrimas!
Fora, a neve cai no ar mudo; e as árvores imóveis sofrem, resignadas, esse castigo lento que lhes sufoca a vida e a frescura de seus ramos verdes. E o doente não tem para que apelar: o céu é de cinza, a terra, estrangeira, e tudo, à volta de si, impregnado de tristes apreensões!

No entanto, quem às seis horas da tarde entrar nas salas de jantar desses grandes hotéis «Kurhaus» e «Belvedere», onde se assentam duzentos hóspedes, representantes de quase todas as nações do mundo, não se põe a considerar que eles estão ocupando lugares que nos últimos cinco ou seis anos foram ocupados por pessoas que, na maior parte, já não existem; pois as risadas e o burburinho de conversas alegres logo afastam de tais considerações e tristezas. Mas como essa alegria deve magoar certos doentes, nostálgicos da pátria, nostálgicos da saúde que outrora os enchia de riso! E esse quarteto, gargalhando Offenbach, entre dores, é como uma charanga que tocasse numa enfermaria! Por isso, bem fazem os doentes, fugindo para os terraços e para as galerias — largos eirados abertos ao ar livre, que há em todos os sanatórios e hotéis, para se apanhar sol e respirar o ar puro da montanha. Desde que o sol desce ao vale, pelas dez horas no mês de Fevereiro, até que se esconde por detrás do Schatzalp, os terraços e as galerias estão sempre cheias de doentes deitados em cadeiras de verga e cercados de almofadas, de mantas e de esquentadeiras que os aconchegam e defendem do frio intenso. Uns leem, alguns conversam, outros dormitam. Que de sonhos andam no ar! Ai de quem está só!... Noivos rasgam o céu com súplicas, porque Iá na sua terra uma noiva espera. Mundanas, vindas da folia que lhes laivou de morte a face linda, gritam, impacientes, pela saúde, porque Paris excitantemente as chama. Rapazes, que começam agora a viver, e quase não acreditam que a vida lhes falte, instintivamente elevam os braços à saúde. Velhos, contando os anos pelos dedos, só pedem os precisos para terem tempo de arranjar a sua vida e dispor o que lhes falta. Príncipes, herdeiros de um trono, desceram do norte e pousaram aí a sua tenda, como também essa desbotada princesa, que desde menina ouviu que um dia seria rainha! Oh, se a saúde se comprasse a peso de oiro ou a troco de vossas joias... preciosa noiva a quem o sol dessas montanhas não quer colorir a face, que, decerto, não será um dia beijada pela boca de nenhum rei, porque dizem ser de mau agoiro vir a neve desfazer-se nos cabelos quentes de alguém que dorme, e houve quem visse que os ventos, das bandas do Tirol, traziam pelo ar até vós farrapos de neve caída dos braços nus das árvores deste vale! Agoiro! É a hora dos presságios que empolgam as almas despercebidas na tibieza das irresoluções. Não há ateus nos terraços dos doentes; os que o foram sentem agora delinear-se no cérebro a imagem do Deus que o temor inventa!

Em volta, a neve branca estende-se desde o fundo do vale, pelas encostas, por sobre a rama dos pinheiros alpestres, alastrando--se até o céu, que no recorte dos montes desmaia em leite, como nos céus de Corot [pintor francês famoso pelos seus quadros de paisagens]. A neve abafa todos os sons e pára todas as alegrias: não ri pelo ar um canto de ave, as árvores do vale são sempre outonais, e tudo é gosto desfeito nesta paisagem, que tem o sorriso doloroso do médico amigo, a animar com esperanças o doente de quem já antemarcara a hora derradeira!
Vai esmaecendo a luz do dia, como cai a conversa de dois velhos, após longas recordações que os emudecem... Algumas nuvens, poucas, formam o poente, lívido e frio, de onde começa a soprar uma viração aterradora. As tendas levantam-se, os terraços e as galerias ficam varridos, e pelas sendas de neve, que descem nos montes de ao redor, veem fugindo os doentes, como se a essa hora uma pavorosa ave negra, de fúnebres asas, nascida da tinta crepuscular, passasse por aquele canto da terra, em busca de olhos humanos, para lhes beber a vida incerta. Então, no entardecer silencioso dessa luz que se apaga, ouve-se, agoirento como um uivo, o silvo da locomotiva que parte, descendo o vale. Um vagão vai selado com uma cruz branca: é uma câmara ardente! Dentro, talvez, o cadáver de um filho, que um criado de hotel amortalhou à pressa, e despachou em grande velocidade à casa paterna. Para onde? Para a Rússia? Para a Alemanha? Para a Inglaterra? Para a Escócia? Para as areias de Portugal?
Sabe Deus para onde!...