domingo, 27 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) III – Meus poemas preferidos



Olavo Bilac
Não serão provavelmente os melhores poemas de Bilac, apenas os que mais gostei de ler, pela beleza da forma e pelo significado. Como em qualquer seleção de poesia a subjetividade é determinante, mesmo assim procurei explicar o porquê da escolha de cada um dos poemas. 
Não incluí alguns dos poemas mais famosos de Olavo Bilac, como o Língua Portuguesa, mas considerem esta série de três pequenos artigos, que aqui termina, apenas como um aperitivo para ler com maior detalhe a obra do poeta.

O primeiro poema que escolhi é Sagres, do qual gosto principalmente do final, ao qual poderíamos chamar O Sonho do Infante. A conquista dos caminhos oceânicos e de novas terras, as riquezas por encontrar, constituem uma visão idílica, que Bilac acredita ter sido o sonho do infante Dom Henrique, origem da epopeia das descobertas. Sagres, o promontório sagrado, foi na realidade o “berço de um mundo novo”.

Sagres (parcial)

Sonha, - afastado da guerra,
Infante!... Em tua fraqueza,
Tu, dessa ponta de terra,
Dominas a natureza!..."

Longa e cálida, assim, fala a voz da Sereia...
Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.
Doce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,
Passa o vento. Sorri palidamente o dia...
E súbito, como um tabernáculo, o céu
Entre faixas de prata e púrpura irradia...

Ténue, a princípio, sobre as pérolas da espuma,
Dança torvelinhando a chuva de ouro.
Além, invadida do fogo, arde e palpita a bruma,
Numa cintilação de nácar e ametistas...
E o olhar do Infante vê, na água que vai e vem,
Desenrolar-se vivo o drama das Conquistas.

Todo o oceano referve, incendido em diamantes,
Desmanchado em rubis. Galeões descomunais,
Crespas selvas sem fim de mastros deslumbrantes,
Continentes de fogo, ilhas resplandecendo,
Costas de âmbar, parcéis [1] de aljofres [2] e corais,
- Surgem, redemoinhando e desaparecendo...

É o dia! - A bruma foge. Iluminam-se as grutas.
Dissipam-se as visões... O Infante, a meditar,
Como um fantasma, segue entre as rochas abruptas.
E impassível, opondo ao mar o vulto enorme,
Fim de um mundo sondando o deserto do mar,
- Berço de um mundo novo - o promontório dorme.

[1] Parcel - Banco de areia encoberto a pequena altura pela água do rio ou do mar.
[2] Aljofre - Pérola

Em As Viagens



O humanismo de Bilac é expresso com brilhantismo no poema que se segue. O Homem no centro do universo porque pensa e porque sente, apesar de perante o incomensurável cosmos, ser minúsculo, fisicamente quase nada. Carl Sagan se o lesse, haveria de gostar.

Microcosmo

Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, géneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Em Tarde



Os sonetos XII e XIII de Via-Láctea são extraordinários. Olavo Bilac diz que “só quem ama” pode dialogar com as estrelas. É só meia verdade, porque Bilac diz que “tudo” lhe falou, e assim ouve também os pássaros e o luar. Ora nós sabemos que isso só é possível acontecer nas histórias infantis e na poesia.

XII

Sonhei que me esperavas.
E, sonhando, saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
 "Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Em Via-Láctea 


Marabá, 1882, de Rodolfo Amoedo (1857-1941).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) II - Picante


Olavo Bilac
Como Camões ou Bocage, Olavo Bilac é um eterno apaixonado. Namorou, quis casar mais que uma vez, o que nunca aconteceu, morrendo solteiro. Procurou compensar viajando e levando vida de boémio e talvez por isso e pela solidão, os seus textos poéticos e em prosa estão carregados de erotismo.

Diz de Bocage:

Tu, que no pego impuro das orgias
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as mãos de pérolas trazias;
(...)

Neste poema chama a Elmano Sadino de “mestre querido” [1], e como se  fosse necessário ir para além disso e encontrar uma justificação para o erotismo, radica-o - num outro poema - nos mitológicos pais Adão e Eva:

A alvorada do amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

Num dos seus pequenos contos, nem os anjos escapam à sanha sexual dos homens:

Os Anjos

Oferenda ao deus Pã,1894, de Pedro Weingärtner (1853-1929).
No atelier do pintor Álvaro, a palestra vai animada. Lá está o poeta Carlos, muito aprumado, muito elegante, encostado a um buffet renaissance, sacudindo o pé em que a polaina branca irradia, mordendo o seu magnífico Henry-Clay de três mil réis. Mais adiante, o escultor Júlio, amorosamente inclinado para a viscondessinha de Mirantes e namoradamente mirando o seu belo colo desnudado, faz-lhe uma preleção sobre o amor e a beleza: e ela, agitando com indolência o leque japonês, sorri, e crava nele os olhos maliciosos, deixando-o admirar sem escrúpulo o seu colo, — como para o desafiar a dizer se a própria Vénus de Milo o possui tão branco e tão puro... No sofá, o romancista Henrique discute música de Wagner com Alberto, — o maestro famoso, cujo último poema sinfónico acaba de fazer um ruidoso sucesso. São 5 horas da tarde. Serve-se o chá, em lindas taças de porcelana chinesa; e, nos cálices de cristal, brilha o tom aceso do rhum da Jamaica.
Agora, parece que Júlio, o escultor, arriscou um galanteio mais forte. Porque a viscondessinha, corada, morde os lábios e, para disfarçar a sua comoção, contempla um quadro grande, que está na parede do atelier, cópia de Rafael.
Júlio, falando baixo, inclina-se mais, ainda mais:
— Então, viscondessa, então?
Ela, para desviar a conversa, pergunta uma banalidade:
— Diga-me, senhor Álvaro, o senhor, que é pintor, deve saber isso... Porque é que, em todos os quadros, os anjos são representados só com cabeça e asas?
De canto a canto da sala, suspende-se a conversa. Álvaro, sorrindo, responde:
— Nada mais fácil, viscondessa... queremos assim indicar que os anjos só têm espírito; damos-lhes unicamente a cabeça em que reside o pensamento, e a asa que é o símbolo da imaterialidade...
Mas o poeta Carlos, puxando uma longa fumaça de seu cheiroso Henri-Clay, adianta-se até o meio da sala:
— Não é só isso, Álvaro, não é só isso... Vou dar á viscondessa a verdadeira explicação do caso...
Tomou um gole de rhum, e continuou:
— Antigamente, nos primitivos tempos da Bíblia, os anjos não tinham apenas cabeças e asas: tinham braços, pernas e tudo. Depois do incêndio de Gomorra, foi que Deus os privou de todo o resto do corpo, deixando-lhes apenas a cabeça que é a sede do pensamento e a asa que é o símbolo da imaterialidade....
— Depois do incêndio de Gomorra? — perguntaram todos — porquê?
— Já vão ver!
E Carlos, dirigindo-se a uma estante, tirou uma Bíblia, abriu-a e leu:
— IX. Então, como as abominações daquela cidade maldita indignassem ao Senhor,
mandou ele que dois Anjos fossem converter os perversos e aconselhar-lhes que se deixassem de abusar das torpezas da carne. X. E foram os Anjos, e bateram às portas da cidade. IX. E os habitantes foram tão infames, que os deixaram entrar, e assim que os tiveram dentro, também os violentaram, abusando deles...” [2]
Houve um silêncio constrangido no atelier...
— Aí está. E o Senhor, incendiou a cidade, e, para evitar que os anjos continuassem a estar expostos a essas infâmias determinou que [3], dali em diante, eles só tivessem cabeças e asas...
A viscondessinha, dando um muxoxo [4], murmurou:
 — Shoking! [5]

É no “jeito malandro” de Olavo Bilac que encontro a sua poesia mais conseguida. Por exemplo:

Tercetos

I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
 E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.

II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:

“Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.



NOTAS:

[1] Bocage nasce precisamente um século antes de Bilac. A poesia erótica de Bocage é escrita durante a terrível Viradeira de D. Maria e de Pina Manique, em condições muito mais adversas que as do tempo de Bilac, apesar do regime de Floriano Peixoto. Mas importa reter que a admiração de Bilac por Bocage não se limita à poesia erótica. Ver aqui.
[2] Interpreto esta passagem da Bíblia como invenção de Carlos, alter ego de Olavo Bilac, que também gostava de bons charutos, para manter aceso na sala o tom de flirt, com a viscondessinha...
[3] É absurdo, pelo que julgo ser falso.
[4] Estalido que se faz com a língua ou com os lábios para demonstrar desprezo ou desagrado, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
[5] Não alterei a palavra inglesa para a sua formulação correta, “Shocking”, deixando-a como a encontrei no livro Contos para Velhos de 1897, que creio ser a forma que Bilac pretendia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) I – Crónicas


Olavo Bilac
Falar de Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 1865-1918) não é fácil porque ele próprio era um inconstante. Mudou de curso no 5º ano de Medicina, escolhendo Direito, que também não terminou. Tinha vida de boémio e era um apoiante ativo de causas políticas, por isso esteve escondido e foi preso em 1891 durante o governo autoritário de Floriano Peixoto. Nem mesmo na hora da morte abafou o seu desassossego e pediu um café, porque pretendia escrever. Faleceu cedo, aos 53 anos de idade.
Há também o seu lado sério e realizador: foi inspetor escolar, secretário da Liga de Defesa Nacional, jornalista, tomou parte na fundação da Academia de Letras, foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e foi um enormíssimo poeta. O maior poeta brasileiro do seu tempo. Por isso é recordado.

Nos seus escritos encontramos de tudo um pouco e o seu contrário: idealismo e piada,  erotismo e seriedade, crítica e veneração, ou como ele próprio intitula o seu livro de crónicas, ironia e piedade. Com enorme talento, a sua adesão ao erudito e difícil estilo parnasiano nunca impediu que apresentasse a vida de uma forma direta e acessível na poesia, e como poucos na prosa, que retratasse tão bem a época que viveu.
Começo pelas suas crónicas de jornal. Selecionei “Contra a Eletricidade”, de 1905.

Durante milhares de anos a noite tinha sido completamente escura, de breu, que só era interrompida pela escassa claridade que escapava das gretas das casas iluminadas com candeias e velas. Noites claras, só à luz das estrelas e da lua, quando as nuvens não cobriam a abóboda celeste, ou nas festas, em que se acendiam fogueiras e tochas.
A iluminação pública que se generalizou durante o século dezanove alterou por completo a vida da cidade. Primeiro com os candeeiros de azeite e depois com os candeeiros a gás.
Foi possível abandonar o hábito do recolher noturno e deitar cedo, começando a fazer à noite coisas que antes só se faziam de dia. Criou-se a indústria noturna com tertúlias nos cafés e restaurantes, espetáculos teatrais e musicais, e claro, surgiu toda uma classe de burgueses noctívagos que integrava Olavo Bilac.
Mas mesmo os candeeiros a gás tinham uma luminosidade relativamente fraca. Foi com a introdução da lâmpada elétrica na iluminação pública no início do século vinte, com luz muito mais forte e brilhante, que a noite deixou verdadeiramente de existir.


CONTRA A ELETRICIDADE

Certo amigo meu odeia e amaldiçoa a eletricidade: abomina-a, como assassina da poesia, como distribuidora de uma luz excessiva e escandalosa, que já não deixa gozar a melancolia das penumbras, em que medra tão bem a delicada flor do sonho.
Foi anteontem, sexta-feira, que ele se desmanchou, depois de um calmo jantar, em invetivas contra a luz elétrica.
Sexta-feira agoniada, em que muita gente, forçada a sair à noite, teve de ressuscitar o uso daquelas lanternas de que se serviam os cariocas de 1820, quando, caso raro, tinham de atravessar a cidade depois do toque de recolher.
Jantáramos juntos, quatro amigos, num amplo terraço deslumbradoramente iluminado por festões de lâmpadas elétricas. Tendo começado a jantar ao cair da noite, não sabíamos que a cidade lá fora estava ás escuras, amortalhada na treva espessa. Descemos, saímos : e doeu-nos nos olhos a escuridão, pondo-nos na alma um vago susto.
Seria uma revolução?

Raros lampiões estavam ainda acesos: um pequenino ponto luminoso, trémulo e vago, piscando, de espaço a espaço, nas ruas lúgubres, cheias do espantado vozeio da multidão invisível. O céu, coberto de nuvens negras, pesava sobre a cidade. Trevas em cima, trevas em baixo; e cada rua era um túnel, onde os passos dos transeuntes soavam funereamente.
Somente a Avenida Central, região encantada, onde impera a Fada Eletricidade, conservava o seu habitual esplendor: e a faiscação das suas altas lâmpadas, e a ornamentação fulgurante dos cinematógrafos, que a bordam de um lado e de outro, contrastavam impressionadoramente com o negror do resto da cidade.

Toda a multidão afluía para a grande via esplêndida. A multidão tem medo da treva... Os cafés transbordavam gente; e, à porta de cada cinematógrafo, uma longa cauda de povo se formava, assaltando a bilheteria. Toda aquela turba queria ficar fora de casa : a casa, sem gás, é um túmulo.
Nós quatro, conversando, comentávamos o caso.
Não era a mashorca [1], felizmente. Havia, apenas, uma parede dos operários da companhia do gás. Parede pacífica e platónica, que bem depressa acabaria, como as outras, continuando os pobres trabalhadores a contentar-se com promessas, e prestando o Estado o auxilio da sua força ao Capital, com essa solidariedade que une todos os tiranos numa inquebrantável aliança ofensiva e defensiva...

Dos quatro, que passeávamos, um era um velho carioca, já cinquentão, e tão amigo da sua cidade que nunca daqui saiu, — nem para ir a Mendes ou à Barra do Piraí.
E enquanto os outros, com entusiasmo, entoávamos um coro de louvores à fada eletricidade, ele caminhava, resmungando cousas incompreensíveis.
Louvávamos a grande fada, que suspendia sobre as nossas cabeças aqueles globos fulgurantes, e estendia ao longo dos prédios aqueles pendões de luminárias brancas, amarelas, verdes, vermelhas, formando letras e dísticos, aglomerando-se em estrelas e crescentes, dando á Avenida um aspeto de zona de milagre, dotada de uma vegetação fantástica de flores e frutos de fogo.

Mas, levados pelo acaso do passeio, enveredámos por uma das ruas transversais, e de novo a noite nos cobriu, nos rodeou, nos embrulhou no seu manto sinistro. E foi então que o nosso companheiro cinquentão falou, combatendo o nosso entusiasmo:
— A eletricidade! Se vocês soubessem que alívio é para mim um passeio como este, por uma rua trevosa! Já estou cansado de tanta luz... Ainda sou do tempo dos lampiões de azeite. A cidade era pobre, paupérrima. E, como pobre, e honesta, não tinha luxos. Todos jantavam, em casa, ás quatro da tarde. Depois, um pequeno passeio, uma partida de gamão e uma discussão política nas boticas, uma ou outra novena, uma ou outra visita, e, de longe em longe, um fogo de artifício. Jesus! Atualmente, o fogo de artifício é quotidiano e perpétuo! Esta orgia de luz embebeda-me, alucina-me, cega-me! Abençoada seja esta parede, que nos vem dar um pouco de repouso aos olhos e ás almas! Continuemos a passear por aqui, por estas calmas ruas que ainda os postes da Light não invadiram... Tenho a impressão de estar revivendo o tempo antigo. Antigamente, todo o Rio era assim....

Em vastas áreas já não é possível observar os céus
de forma natural, sem poluição luminosa noturna.
Brasil e Europa. Ver aqui.
Um de nós bocejou:
— Não sei que poesia se pode achar na treva. . . O cinquentão inflamou-se:
— Quer você saber qual é o grande crime da eletricidade no Rio? Matou a poesia do luar! Os nossos luares, neste céu incomparável, sempre foram famosos. No inverno carioca, uma noite de lua cheia, no céu escampo, em que desfalecem e morrem todas as estrelas ofuscadas, é uma maravilha sem par, cuja contemplação dá poesia e imaginação a todas as criaturas, — até aos muares das carroças do lixo e aos cachorros vagabundos. O luar do Rio! foi por causa dele que esta cidade teve tantos poetas, no tempo em que ainda havia poetas. Agora, h a . . . cronistas e burocratas, como este que aqui vai connosco, e que é adorador da eletricidade. Quem faz caso do luar, hoje? Nem o podemos ver ; nem levantamos os olhos para o céu; as avenidas e as lâmpadas elétricas cativam toda a nossa atenção; vivemos a olhar o asfalto ignóbil que calcamos aos pés. E ninguém mais vê o luar, quando ele cascateia em rios de prata pelo pendor das montanhas, e mergulha gládios rutilantes na face arrufada do mar, e chora chuveiros de pérolas entre os ramos das árvores. A Eletricidade matou o luar!

Tínhamos chegado ao velho largo do Paço [2]. O jardim, Osório [3], o chafariz histórico, tudo dormia, sob a capa das trevas. Mas, de repente, rasgou-se uma larga brecha na muralha das nuvens que forravam o céu; e um luar admirável, límpido, de uma brancura e de uma maciez de arminho, suavemente se espalhou sobre a dormente amplidão dos canteiros, dos relvados, das calçadas de cimento. Os oitis [4] animaram-se, bracejaram, vestidos de prata viva. Osório agitou-se sobre o cavalo de bronze, nessa existência fictícia que a fantasmagoria do luar dá sempre ás cousas inanimadas. O mar, ao longe, resplandeceu, retalhado por uma larga faixa fúlgida e tremente. Ficámos os quatro extáticos, suspensos, gozando o espetáculo magnífico. E o cinquentão exclamou, abrindo os braços, com um ar de beatitude na face:

— Abençoada seja a parede dos gasistas, que nos permite ver em toda a sua majestade divina, sem o contraste odioso e concorrência indigna da luz artificial, a tua luz incomparável, ó Diana formosa, caçadora de estrelas, mãe de todas os sonhos, consoladora dos tristes!
Todos nós dissemos:
— Amém!
Cerrou-se de novo o véu das nuvens. Dura tão pouco o que é belo!...
Retrocedemos, e enfiámos os passos pela rua da Assembleia, escuríssima; longe, irradiava o clarão da Avenida. E o nosso amigo, cerrando o punho, bradou, naquela mesma voz tonitruosa com que o padre Júlio Maria [5] amaldiçoa o pecado e os pecadores:
— Maldita sejas, fada perversa, inimiga do luar, Satânia abominável, filha de Belzebu!

Crónica publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 1905, incluída em Ironia e Piedade, ed. Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1916.

NOTAS da responsabilidade deste blogue:

[1] Desordem.
[2] Praça Quinze de Novembro.
[3] Estátua equestre do General Osório.
[4] Árvore também denominada goiti ou oitizeiro.
[5] Creio que se trata do Padre Júlio Maria, republicano, pregador inconformista, pseudónimo  de  Júlio César Morais Carneiro, nascido em Angra dos Reis, 1850-1916.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Fantástico Religioso II – na História de Portugal: o Milagre de Ourique.


A aparição de Jesus a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique em 1139, é considerada pelos historiadores, pelo menos desde Alexandre Herculano (História de Portugal, 1846), uma fantasia tardia, inventada para justificar a legitimidade divina da monarquia portuguesa [1]. Creio que o Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão em “Ourique, Milagre de” faz um bom resumo do porquê da não aceitação da veracidade do episódio.

No entanto, por absurdo, consideremos o episódio como verdadeiro. Durante muito tempo ele é contado como verdade absoluta. Por exemplo, naquela que é considerada a “primeira História de Portugal”, de Fernando Oliveira (sec. XVI), pode ler-se que durante a maior parte da noite anterior à batalha de Ourique esteve “Dom Afonso Henriques (..) em oração”, como era então costume, e depois acrescenta: “Por todos geralmente se diz que, então,  lhe apareceu Cristo crucificado e lhe deu firme esperança da vitória que logo houve. E dizem que ele para animar os seus, lhes contou publicamente como Cristo lhe aparecera e lhe prometera vitória.” Mas o texto de Fernando Oliveira é elaborado com o propósito de exaltar Portugal e denegrir seus inimigos. Oliveira conta que ao Conde de Castela Fernão Gonçalves - um personagem mítico e glorificado nas canções de gesta em Espanha por ter sido o primeiro a conseguir autonomizar Castela do Reino de Leão no século X e originar a linhagem dos futuros reis de Castela – lhe apareceu Nosso Senhor, na batalha de Hazinas, mas que por soberba “desafiou a Deus quando D. Garcia Abarca rei de Navarra, o prendeu em Cervenha” [2]. Bons princípios para Portugal, maus princípios para Castela.

A melhor descrição do milagre e das suas circunstâncias parece-me ser a de Frei António Brandão (1584-1637),  que foi cronista-mor do reino, monge de Cister, e autor das 3ª e 4ª partes da “Monarquia Lusitana” (terminadas em 1632) que incluíam a crónica de Dom Afonso Henriques. É preciso acrescentar que Brandão era minucioso, verificando quão credíveis eram as suas fontes e manifestando dúvidas sempre que não se sentia com suficiente segurança. Por isso, ele é elogiado pelos historiadores modernos. Por exemplo Herculano, sempre muito desconfiado, e ao contrário de outros cronistas, anteriores e posteriores a Brandão, chamou-lhe “o sincero e crítico cisterciense” [3]. Vejamos então o que o cronista escreveu:

Do aparecimento de Cristo, nosso Salvador, ao Infante D. Afonso, a noite antes da batalha; como foi levantado por Rei.[4]

Não eram de qualidade as coisas que trazia entre mãos o esforçado príncipe D. Afonso Henriques que lhe consentissem tomar muito repouso, nem os pensamentos ocupados na grandeza do negócio presente davam lugar a se poder quietar e tomar alívio. E assim, para divertir de algum modo aquela moléstia, lançou mão de uma Bíblia sagrada, a qual tinha em sua tenda e, começando a ler por ela, a primeira coisa que encontrou foi a vitória de Gedeão, insigne capitão do povo judaico, o qual, com trezentos soldados, rompeu os quatro reis Madianitas [5] e seus exércitos, passando à espada cento e vinte mil homens, sem outros muitos que morreram no alcance. Alegre o infante com tão bom encontro, e tomando desta vitória prognóstico feliz da que esperava, se confirmou mais na resolução de dar batalha e, com o coração inflamado e olhos postos no Céu, rompeu nestas palavras:

Bem sabeis vós, meu Senhor Jesus Cristo, que por vosso serviço, e pela exaltação do vosso santo nome, empreendi eu esta guerra contra vossos inimigos; vós, que sois todo poderoso, me ajudai nela, animai e dai esforço a meus soldados, para que os vençamos, pois são blasfemadores do vosso santíssimo nome.

Ditas estas palavras lhe sobreveio um grande sono, e começou a sonhar que via um velho de venerável presença, o qual lhe dizia que tivesse bom ânimo, porque sem dúvida venceria aquela batalha, e com evidente sinal de ser amado e favorecido de Deus veria com seus olhos antes de entrar nela o Salvador do mundo, o qual o queria honrar com sua soberana vista. Estando o infante neste alegre sonho, nem bem dormindo, nem de todo acordado, entrou na tenda João Fernandes de Sousa, de sua câmara, e lhe fez saber como a ele chegara um homem velho, o qual pedia audiência e, segundo dava a entender, era sobre negócio de muita importância. Mandou o infante que entrasse sendo cristão, e, tanto que o viu reconheceu ser o mesmo que acabava de  palavras que em sonho tinha ouvido, e certificando-o da vitória e aparecimento de Cristo, acrescentou que tivesse muita confiança no Senhor por ser dele amado, e que nele, e em seus descendentes, tinha postos os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, em que se atenuaria a descendência, mas nela ainda nesse estado poria o Senhor os olhos, e haveria. Que da parte do mesmo Senhor o avisava que, quando na seguinte noite ouvisse tocar o sino da sua ermida, na qual morava havia sessenta anos, guardado com especial favor do Altíssimo, saísse fora ao campo, porque lhe queria Deus mostrar a grandeza de sua misericórdia.

Ouvindo o católico príncipe tão soberana embaixada, tratou o embaixador dela com veneração e deu a Deus com profundíssima humildade infinitas graças. Saiu fora da tenda o bom velho tornou a sua ermida, e o infante, esperando pelo sinal prometido, gastou em oração afervorada todo o espaço da noite até à segunda vigia, na qual ouviu o som da campainha; armado então com seu escudo e espada saiu fora dos arraias, e, pondo os olhos no Céu, viu da parte oriental um resplendor formosíssimo, o qual a pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutífero sinal da santa Cruz, e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multidão de anjos, os quais em figura de mancebos formosíssimos apareciam ornados de vestiduras brancas e resplandecentes, e pode notar o infante ser a Cruz de grandeza extraordinária, e estar levantada da terra quase dez côvados [6].

Com o espanto de visão tão maravilhosa, com o temor e reverência devidos à presença do Salvador, pôs o infante as armas que levava, tirou a vestidura real, e descalço se prostrou em terra e, com abundância de lágrimas, começou a rogar ao Senhor por seus vassalos, e disse:

Que merecimentos achastes, meu Deus, num tão grande pecador como eu para me enriquecer com mercê tão soberana? Se o fazeis para me acrescentar a fé, parece não ser necessário, pois vos conheço desde a fonte do Batismo por Deus verdadeiro, filho da  Virgem sagrada, segundo à humanidade, e do Padre Eterno por geração divina. Melhor seria participarem os infiéis da grandeza desta maravilha, para que, abominando seus erros, vos conhecessem...

O Senhor então com suave tom de voz que o príncipe pôde bem alcançar, lhe disse estas palavras:

Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração nesta empresa, e fundar os princípios de teu Reino em pedra firmíssima. Tem confiança, porque, não só vencerás esta batalha, mas todas as mais que deres aos inimigos da Fé católica. Tua gente acharás pronta para a guerra, e com grande ânimo pedir-te-á que com título de rei comeces esta batalha; não duvides de o aceitar, mas concede livremente a petição porque eu sou o fundador e destruidor dos Impérios do mundo, e em ti e tua geração quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu nome notificado a gentes estranhas. E porque teus descendentes conheçam de cuja mão recebem o reino, comprarás as tuas armas do preço com que comprei o género humano, o daquele porque fui comprado dos judeus [7], e ficará este reino santificado, amado de mim pela pureza da Fé e excelência da piedade.

O infante D. Afonso, quando ouviu tão singular promessa, se prostrou de novo por terra e, adorando ao Senhor, lhe disse:

Em que merecimentos fundais, meu Deus, uma piedade tão extraordinária como usais comigo? Mas já que assim é, ponde os olhos de vossa misericórdia nos sucessores que me prometeis, conservai livre de perigos a gente portuguesa, e, se contra ela tendes algum castigo ordenado, peço-vos o deis antes a mim e a meus descendentes, e fique salvo este povo, a quem amo como único filho.

A tudo deu o Senhor resposta favorável, dizendo como nunca dele, nem dos seus, apartaria os olhos de sua misericórdia, porque os tinha escolhidos por seus obreiros e segadores [8], para lhe ajuntarem grande seara em regiões apartadas. Com isto desapareceu a visão, e o infante D. Afonso, cheio de fortaleza e júbilos de alma, quais se deixam entender, fez volta para os arraiais e se recolheu em sua tenda.

Aclamação de D. Afonso Henriques, Arquivo Histórico Militar
O texto de Frei António Brandão prossegue com o relato dos últimos preparativos da batalha e a aclamação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal. No capítulo seguinte encontramos uma descrição da batalha de Ourique e de como os portugueses a venceram.

A aparição de Cristo a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique faz lembrar outras visões místicas, como a de Constantino antes da batalha da Ponte Mílvia em Roma, em 312, uma batalha decisiva para que Constantino [9] tomasse para si o poder imperial, e para que mais tarde, por sua iniciativa, o cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano. Também neste caso são dadas instruções a Constantino para o uso de um símbolo específico nas armas do seu exército (“in hoc signo vinces”=“com este sinal vencerás”).

Os relatos de visões místicas antes de importantes batalhas não são de forma alguma exclusivas do cristianismo. Por exemplo antes da grande batalha de Little Bighorn, em 1876, que opôs o exército americano comandado pelo general George Armstrong Custer a uma grande aliança de tribos sioux e cheienes, o chefe índio sioux Touro Sentado durante uma cerimónia religiosa, a Dança do Sol, dedicada ao Grande Espírito, terá tido uma visão da vitória indígena, vendo muitos soldados americanos mortos [10]. E porque é que o Grande Espírito não terá estendido a sua proteção aos índios para além desta batalha específica? Não consegui confirmar, mas diz-se que Touro Sentado ficou alegre pela vitória mas triste ao mesmo tempo, pelo saque que os vencedores fizeram aos corpos dos soldados americanos mortos. O Grande Espírito teria exigido a Touro Sentado para que não se tocasse nos mortos após a batalha e essa ordem não teria sido respeitada. Assim, a resistência dos sioux seria completamente destruída na “batalha” de Wounded Knee, em 1890, um verdadeiro massacre, precisamente contra o mesmo regimento que Custer tinha comandado em Little Bighorn, o Sétimo de Cavalaria.
Uma interpretação possível é que desafiar a vontade divina é fatal. Conta-se que os operários do estaleiro naval onde o Titanic foi construído, terão inscrito no navio a frase “We defy God to sink her”.

Uma interpretação mais comezinha das vitórias e derrotas é a do estudioso medieval Charles Oman [11]“Arrogance and stupidity combined to give a certain definite color to the proceedings of the average feudal host. The century and the land differ, but the incidents of battle are the same: El Mansura (A.D. 1249) is like Aljubarrota (A.D. 1385); Nicopolis (A.D. 1396) is like Courtrai (A.D. 1302)”, em The Art of War in the Middle Ages [12]. Arrogância e estupidez são uma combinação quase sempre fatal para os poderosos, por isso nem sempre vencem as forças mais numerosas ou aparentemente superiores, e não apenas na Idade Média. O falhanço das três invasões francesas em Portugal, no início do século XIX, ou as desastrosas intervenções, já em pleno século XX, dos militares Americanos e Soviéticos no Vietname e no Afeganistão, enfrentando as guerrilhas desses países, são outros exemplos.

Mas voltando a Afonso Henriques, pode ser que os exércitos mouros em Ourique fossem mais numerosos mas estivessem excessivamente confiantes, divididos e não muito bem organizados. Por exemplo os contingentes das ordens militares religiosas que integravam o exército ao serviço de Afonso Henriques eram forças disciplinadas, provavelmente melhor preparadas e equipadas, motivadas e experientes.

Em termos da interpretação histórica atual, Bernardo Vasconcelos e Sousa [13] escreve que Afonso Henriques em 1139 “organizou uma forte expedição que se internou por terras islâmicas e culminou na que ficaria conhecida como Batalha de Ourique, (...) que se saldou por uma vitória” e que “as consequências desta vitória foram decisivas, tanto a curto como a médio e longo prazos. No seguimento da batalha e do triunfo nela alcançado, Afonso Henriques passou a intitular-se rei dos portugueses (portugalensium rex)”. E sobre o milagre escreve que “o caráter maravilhoso da vitória de Ourique e o carisma de Afonso Henriques seriam definitivamente fixados com a lenda cujo primeiro registo conhecido data de 1416, segundo a qual Cristo teria aparecido ao primeiro rei português antes da batalha, inspirando o seu triunfo e a missão que lhe era confiada. O episódio de Ourique e o milagre que lhe foi associado constituíram um dos elementos centrais na construção da memória mítica sobre a origem da monarquia portuguesa e sobre a missão transcendente do seu primeiro rei”.

Adolfo Simões Müller, na Historiazinha de Portugal, de 1944, o seu livro de maior sucesso, comentava com graça: “Dizem que Nosso Senhor apareceu em Ourique aos portugueses. É possível que não. O que é certo é que Portugal apareceu, então, a Cristo. E foi esse, talvez, o verdadeiro milagre de Ourique”.

NOTAS:

[1] Grandes polémicas envolveram Alexandre Herculano sobre o tema. Além da sua História de Portugal, ver também Opúsculos III: Controvérsias e Estudos Históricos, Tomo I, aqui

[2] O Mito de Portugal de José Eduardo Franco, Fundação Maria Manuela e Vasco de Albuquerque D’Orey, Lisboa-2000, página 442.

[3] História de Portugal de Alexandre Herculano. Ver em NOTAS DE FIM DE VOLUME, XVI-BATALHA DE OURIQUE.

[4] Crónica de D. Afonso Henriques de Frei António Brandão.  Editora Livraria Civilização, 1945.

[5] Madianitas eram um povo de Canaã, descendentes de Madiã, filho de Abraão. Eram inimigos dos israelitas. Ver passagem na Bíblia da vitória de Gedeão no Antigo Testamento em Juízes 7, aqui.

[6] Neste link da Universidade do Porto, ver no estudo de Mário Jorge Barroca sobre medidas medievais portuguesas: o côvado teria 66cm, assim 10 côvados seriam 6,60m.

[7] 30 moedas de prata, que foi o preço pago a Judas Iscariotes pela denúncia de Jesus, deveriam ser inscritos nas armas de D. Afonso Henriques e dos seus exércitos. Camões nos Lusíadas, Canto terceiro, estrofes 53 e 54 explica essa simbologia:

- Canto 3, estrofe 53  
Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fiei.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos,

- Canto 3, estrofe 54
E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memória em vária tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
Porque assim fica o número cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

E porque gosto muito da forma como Camões explica as quinas portuguesas nos Lusíadas, introduzi o seu texto como fundo do título deste blogue, já lá vão uns anos.

[8] Que ou quem sega ou trabalha na ceifa = ceifador, ceifeiro. In Dicionário Priberam 

[9] O bispo cristão do século IV Eusébio de Cesareia descreve o milagre – afirmando ter ouvido a história contada pelo próprio Constantino (ver o capítulo XXVIII de A Vida de Constantino de Eusébio de Cesareia, aqui

[10] Sobre Touro Sentado ver aqui.

[11] Ver Charles Oman (1860-1946) na Wikipedia aqui

[12] Charles Oman citado aqui

[13] Bernardo Vasconcelos e Sousa, História de Portugal coordenada por Rui Ramos (ed. 2009), em Parte I, Capítulo I, Afonso Henriques – de príncipe a rei.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O Fantástico Religioso I – na Bíblia: a Transfiguração de Jesus.

Transfiguração, quadro de Rafael, 1520.
Imagem da Wikipedia. Ver NOTA FINAL.
Embora com educação católica sou meio agnóstico meio ateu, mas o fantástico sempre me interessou, tanto o do presente como o do passado. Frequentemente somos confrontados com testemunhos de acontecimentos que a serem verdade, não sabemos - ou não sabemos ainda – explicar.

A Bíblia inclui inúmeros desses episódios e as nossas igrejas têm por todo lado, altares, paredes e tetos cheios de cenas fantásticas, que povoam não só a mente dos crentes mas também toda a nossa cultura de raiz predominante judaico-cristã. Uma delas é a chamada Transfiguração de Jesus. A maioria dos meus conhecidos católicos, e alguns são praticantes, têm quando muito uma ideia superficial do que foi a Transfiguração de Jesus [1].


A Transfiguração de Jesus

Em miúdo fiz a catequese e a primeira comunhão, mas só muito recentemente soube o que é o episódio do Novo Testamento que se designa por Transfiguração de Jesus. A minha admiração resulta da ideia que antes tinha da relação entre o Novo e o Antigo Testamento. O Novo Testamento seria essencialmente constituído pelos evangelhos relatando a vida de Jesus. Não digo que as outras partes que se seguem não sejam importantes, mas são já consequência da “vinda do Messias”, vinda essa anunciada no Antigo Testamento por vários profetas, ver por exemplo Isaías [2]

A relação entre as “profecias” e a “vinda” do Messias era para mim o principal eixo de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento, o que permitia juntar os dois grupos de textos num conjunto coerente, a Bíblia. Ora, a chamada Transfiguração de Jesus permite uma ligação direta entre personagens do Antigo e do Novo Testamento e é apresentada em três evangelhos:

MATEUS 17, 1-13

1 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte.
2 Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
3 Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele.
4 Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.»
5 Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.»
6 Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados.
7 Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.»
8 Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém.
9 Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.»
10 Os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: «Então, porque é que os doutores da Lei dizem que Elias há-de vir primeiro?»
11 Ele respondeu: «Sim, Elias há-de vir e restabelecerá todas as coisas.
12 Eu, porém, digo-vos: Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim hão-de fazer sofrer o Filho do Homem.»
13 Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista.


MARCOS 9, 2-13

2 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles.
3 As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim.
4 Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele.
5 Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.»
6 Não sabia que dizer, pois estavam assombrados.
7 Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.»
8 De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles.
9 Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos.
10 Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.
11 E fizeram-lhe esta pergunta: «Porque afirmam os doutores da Lei que primeiro há de vir Elias?»
12 Jesus respondeu-lhes: «Sim; Elias, vindo primeiro, restabelecerá todas as coisas; porém, não dizem as Escrituras que o Filho do Homem tem de padecer muito e ser desprezado?
13 Pois bem, digo-vos que Elias já veio e fizeram dele tudo o que quiseram, conforme está escrito.»


LUCAS 9, 28-36

28 Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar.
29 Enquanto orava, o aspeto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante.
30 E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias,
31 os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém.
32 Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele.
33 Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer.
34 Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados.
35 E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o.»
36 Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.

A Transfiguração de Jesus é assim chamada porque a aparência de Jesus alterou-se: face (LUCAS 9, 29 “Enquanto orava, o aspeto do seu rosto modificou-se”) e vestes (MARCO 9, 3 “tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim”).  No entanto ainda mais fantástico foi o aparecimento de Moisés, de Elias e do próprio Deus (Pai). Moisés e Elias parecem ter tido uma longa conversa com Jesus, tão longa, que Pedro se ofereceu para fazer tendas na montanha (MARCOS 9, 5). Por sua vez os discípulos ouviram a voz do próprio Deus (Pai) vinda de uma “nuvem luminosa” (MATEUS 17, 5).

O aparecimento de Moisés e de Elias a Jesus e aos apóstolos é um caso único do Novo Testamento e o acontecimento que julgo fazer melhor a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento. É além disso surpreendente para os apóstolos Pedro, Tiago e João, a revelação de que João Batista seria de fato Elias (MATEUS 17, 12-13). Um elo mais de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento.

As palavras diretamente atribuídas a Deus (Pai) nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são igualmente fundamentais porque legitimam perante os apóstolos, a natureza divina da missão de Jesus. Reforçando esta ideia, mais à frente no Novo Testamento, vale a pena ler o que diz Pedro na sua segunda carta:

2ª CARTA DE PEDRO 16-18

16 De facto, demo vos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por havermos ido atrás de fábulas engenhosas, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade.
17 Com efeito, Ele foi honrado e glorificado por Deus Pai, quando a excelsa Glória lhe dirigiu esta voz: Este é o meu Filho, o meu muito Amado, em quem Eu pus o meu encanto [3].
18 E esta voz, vinda do Céu, nós mesmos a ouvimos quando estávamos com Ele na montanha santa.

Pedro atribui a este episódio a importância de uma prova decisiva, com testemunhos presenciais, entre os quais o seu.  


UM ELOGIO:
Já anteriormente neste blogue tinha referido o excelente “site” dos Franciscanos Capuchinhos, em http://capuchinhos.org/, que uma vez mais me foi de grande auxílio, neste caso para consulta do texto bíblico que recomendo a todos, crentes e curiosos.


NOTAS:

[1] Transfiguração de Jesus, sua importância – do que li sobre o tema pareceu-me que a Igreja Ortodoxa lhe dá grande importância e visibilidade, ainda mais do que a Igreja Católica. Ver por exemplo aqui.

[2] Isaías – Ver por exemplo ISAÍAS 7, 14. Isaías é um dos grandes profetas do Antigo Testamento, também venerado pelo Corão. Dedicou-se especialmente a lutar contra a adoração do Deus fenício Baal. Ver o espetacular e sangrento episódio do Monte Carmelo (1º LIVRO DOS REIS 18, 16-41).

[3] Pai e filho –  Estas palavras de Deus (Pai) parecem dar crédito às posições dos que criticam o trinitarianismo - a interpretação cristã dominante, que Pai, Filho e Espírito Santo, a Trindade, são o mesmo Deus - pois a voz de Deus (Pai) refere-se a Jesus como “filho predileto” em LUCAS 9, 35 ou como “meu filho muito amado” em MARCOS 9, 7 em MATEUS 17, 5 e na 2ª CARTA DE PEDRO 17, ou seja Deus (Pai) refere-se de forma clara a outra pessoa, Jesus. As críticas anti-trinitárias são comuns não apenas a muçulmanos e judeus, mas a várias correntes cristãs, umas históricas, como arianos e cátaros, outras mais recentes como os unitarianistas e as testemunhas de Jeová.

Esta posição crítica anti-trinitária é fortemente refutada pela esmagadora maioria dos cristãos, que ao dizerem “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” entendem a Trindade, como 3 “emanações” distintas, individualizadas é certo, mas tendo por essência uma mesma entidade, o Deus único. 

NOTA FINAL:
Quadro de Rafael, Transfiguração. Está no Museu do Vaticano. É apresentado no L’Osservatore Romano como “o mais belo quadro do mundo”. Ver mais informações na Wikipedia.