domingo, 27 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) III – Meus poemas preferidos



Olavo Bilac
Não serão provavelmente os melhores poemas de Bilac, apenas os que mais gostei de ler, pela beleza da forma e pelo significado. Como em qualquer seleção de poesia a subjetividade é determinante, mesmo assim procurei explicar o porquê da escolha de cada um dos poemas. 
Não incluí alguns dos poemas mais famosos de Olavo Bilac, como o Língua Portuguesa, mas considerem esta série de três pequenos artigos, que aqui termina, apenas como um aperitivo para ler com maior detalhe a obra do poeta.

O primeiro poema que escolhi é Sagres, do qual gosto principalmente do final, ao qual poderíamos chamar O Sonho do Infante. A conquista dos caminhos oceânicos e de novas terras, as riquezas por encontrar, constituem uma visão idílica, que Bilac acredita ter sido o sonho do infante Dom Henrique, origem da epopeia das descobertas. Sagres, o promontório sagrado, foi na realidade o “berço de um mundo novo”.

Sagres (parcial)

Sonha, - afastado da guerra,
Infante!... Em tua fraqueza,
Tu, dessa ponta de terra,
Dominas a natureza!..."

Longa e cálida, assim, fala a voz da Sereia...
Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.
Doce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,
Passa o vento. Sorri palidamente o dia...
E súbito, como um tabernáculo, o céu
Entre faixas de prata e púrpura irradia...

Ténue, a princípio, sobre as pérolas da espuma,
Dança torvelinhando a chuva de ouro.
Além, invadida do fogo, arde e palpita a bruma,
Numa cintilação de nácar e ametistas...
E o olhar do Infante vê, na água que vai e vem,
Desenrolar-se vivo o drama das Conquistas.

Todo o oceano referve, incendido em diamantes,
Desmanchado em rubis. Galeões descomunais,
Crespas selvas sem fim de mastros deslumbrantes,
Continentes de fogo, ilhas resplandecendo,
Costas de âmbar, parcéis [1] de aljofres [2] e corais,
- Surgem, redemoinhando e desaparecendo...

É o dia! - A bruma foge. Iluminam-se as grutas.
Dissipam-se as visões... O Infante, a meditar,
Como um fantasma, segue entre as rochas abruptas.
E impassível, opondo ao mar o vulto enorme,
Fim de um mundo sondando o deserto do mar,
- Berço de um mundo novo - o promontório dorme.

[1] Parcel - Banco de areia encoberto a pequena altura pela água do rio ou do mar.
[2] Aljofre - Pérola

Em As Viagens



O humanismo de Bilac é expresso com brilhantismo no poema que se segue. O Homem no centro do universo porque pensa e porque sente, apesar de perante o incomensurável cosmos, ser minúsculo, fisicamente quase nada. Carl Sagan se o lesse, haveria de gostar.

Microcosmo

Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, géneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Em Tarde



Os sonetos XII e XIII de Via-Láctea são extraordinários. Olavo Bilac diz que “só quem ama” pode dialogar com as estrelas. É só meia verdade, porque Bilac diz que “tudo” lhe falou, e assim ouve também os pássaros e o luar. Ora nós sabemos que isso só é possível acontecer nas histórias infantis e na poesia.

XII

Sonhei que me esperavas.
E, sonhando, saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
 "Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Em Via-Láctea 


Marabá, 1882, de Rodolfo Amoedo (1857-1941).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) II - Picante


Olavo Bilac
Como Camões ou Bocage, Olavo Bilac é um eterno apaixonado. Namorou, quis casar mais que uma vez, o que nunca aconteceu, morrendo solteiro. Procurou compensar viajando e levando vida de boémio e talvez por isso e pela solidão, os seus textos poéticos e em prosa estão carregados de erotismo.

Diz de Bocage:

Tu, que no pego impuro das orgias
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as mãos de pérolas trazias;
(...)

Neste poema chama a Elmano Sadino de “mestre querido” [1], e como se  fosse necessário ir para além disso e encontrar uma justificação para o erotismo, radica-o - num outro poema - nos mitológicos pais Adão e Eva:

A alvorada do amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entre no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calafrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,
Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

Num dos seus pequenos contos, nem os anjos escapam à sanha sexual dos homens:

Os Anjos

Oferenda ao deus Pã,1894, de Pedro Weingärtner (1853-1929).
No atelier do pintor Álvaro, a palestra vai animada. Lá está o poeta Carlos, muito aprumado, muito elegante, encostado a um buffet renaissance, sacudindo o pé em que a polaina branca irradia, mordendo o seu magnífico Henry-Clay de três mil réis. Mais adiante, o escultor Júlio, amorosamente inclinado para a viscondessinha de Mirantes e namoradamente mirando o seu belo colo desnudado, faz-lhe uma preleção sobre o amor e a beleza: e ela, agitando com indolência o leque japonês, sorri, e crava nele os olhos maliciosos, deixando-o admirar sem escrúpulo o seu colo, — como para o desafiar a dizer se a própria Vénus de Milo o possui tão branco e tão puro... No sofá, o romancista Henrique discute música de Wagner com Alberto, — o maestro famoso, cujo último poema sinfónico acaba de fazer um ruidoso sucesso. São 5 horas da tarde. Serve-se o chá, em lindas taças de porcelana chinesa; e, nos cálices de cristal, brilha o tom aceso do rhum da Jamaica.
Agora, parece que Júlio, o escultor, arriscou um galanteio mais forte. Porque a viscondessinha, corada, morde os lábios e, para disfarçar a sua comoção, contempla um quadro grande, que está na parede do atelier, cópia de Rafael.
Júlio, falando baixo, inclina-se mais, ainda mais:
— Então, viscondessa, então?
Ela, para desviar a conversa, pergunta uma banalidade:
— Diga-me, senhor Álvaro, o senhor, que é pintor, deve saber isso... Porque é que, em todos os quadros, os anjos são representados só com cabeça e asas?
De canto a canto da sala, suspende-se a conversa. Álvaro, sorrindo, responde:
— Nada mais fácil, viscondessa... queremos assim indicar que os anjos só têm espírito; damos-lhes unicamente a cabeça em que reside o pensamento, e a asa que é o símbolo da imaterialidade...
Mas o poeta Carlos, puxando uma longa fumaça de seu cheiroso Henri-Clay, adianta-se até o meio da sala:
— Não é só isso, Álvaro, não é só isso... Vou dar á viscondessa a verdadeira explicação do caso...
Tomou um gole de rhum, e continuou:
— Antigamente, nos primitivos tempos da Bíblia, os anjos não tinham apenas cabeças e asas: tinham braços, pernas e tudo. Depois do incêndio de Gomorra, foi que Deus os privou de todo o resto do corpo, deixando-lhes apenas a cabeça que é a sede do pensamento e a asa que é o símbolo da imaterialidade....
— Depois do incêndio de Gomorra? — perguntaram todos — porquê?
— Já vão ver!
E Carlos, dirigindo-se a uma estante, tirou uma Bíblia, abriu-a e leu:
— IX. Então, como as abominações daquela cidade maldita indignassem ao Senhor,
mandou ele que dois Anjos fossem converter os perversos e aconselhar-lhes que se deixassem de abusar das torpezas da carne. X. E foram os Anjos, e bateram às portas da cidade. IX. E os habitantes foram tão infames, que os deixaram entrar, e assim que os tiveram dentro, também os violentaram, abusando deles...” [2]
Houve um silêncio constrangido no atelier...
— Aí está. E o Senhor, incendiou a cidade, e, para evitar que os anjos continuassem a estar expostos a essas infâmias determinou que [3], dali em diante, eles só tivessem cabeças e asas...
A viscondessinha, dando um muxoxo [4], murmurou:
 — Shoking! [5]

É no “jeito malandro” de Olavo Bilac que encontro a sua poesia mais conseguida. Por exemplo:

Tercetos

I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
 E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.

II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas , dizia:

“Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.



NOTAS:

[1] Bocage nasce precisamente um século antes de Bilac. A poesia erótica de Bocage é escrita durante a terrível Viradeira de D. Maria e de Pina Manique, em condições muito mais adversas que as do tempo de Bilac, apesar do regime de Floriano Peixoto. Mas importa reter que a admiração de Bilac por Bocage não se limita à poesia erótica. Ver aqui.
[2] Interpreto esta passagem da Bíblia como invenção de Carlos, alter ego de Olavo Bilac, que também gostava de bons charutos, para manter aceso na sala o tom de flirt, com a viscondessinha...
[3] É absurdo, pelo que julgo ser falso.
[4] Estalido que se faz com a língua ou com os lábios para demonstrar desprezo ou desagrado, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
[5] Não alterei a palavra inglesa para a sua formulação correta, “Shocking”, deixando-a como a encontrei no livro Contos para Velhos de 1897, que creio ser a forma que Bilac pretendia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) I – Crónicas


Olavo Bilac
Falar de Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 1865-1918) não é fácil porque ele próprio era um inconstante. Mudou de curso no 5º ano de Medicina, escolhendo Direito, que também não terminou. Tinha vida de boémio e era um apoiante ativo de causas políticas, por isso esteve escondido e foi preso em 1891 durante o governo autoritário de Floriano Peixoto. Nem mesmo na hora da morte abafou o seu desassossego e pediu um café, porque pretendia escrever. Faleceu cedo, aos 53 anos de idade.
Há também o seu lado sério e realizador: foi inspetor escolar, secretário da Liga de Defesa Nacional, jornalista, tomou parte na fundação da Academia de Letras, foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e foi um enormíssimo poeta. O maior poeta brasileiro do seu tempo. Por isso é recordado.

Nos seus escritos encontramos de tudo um pouco e o seu contrário: idealismo e piada,  erotismo e seriedade, crítica e veneração, ou como ele próprio intitula o seu livro de crónicas, ironia e piedade. Com enorme talento, a sua adesão ao erudito e difícil estilo parnasiano nunca impediu que apresentasse a vida de uma forma direta e acessível na poesia, e como poucos na prosa, que retratasse tão bem a época que viveu.
Começo pelas suas crónicas de jornal. Selecionei “Contra a Eletricidade”, de 1905.

Durante milhares de anos a noite tinha sido completamente escura, de breu, que só era interrompida pela escassa claridade que escapava das gretas das casas iluminadas com candeias e velas. Noites claras, só à luz das estrelas e da lua, quando as nuvens não cobriam a abóboda celeste, ou nas festas, em que se acendiam fogueiras e tochas.
A iluminação pública que se generalizou durante o século dezanove alterou por completo a vida da cidade. Primeiro com os candeeiros de azeite e depois com os candeeiros a gás.
Foi possível abandonar o hábito do recolher noturno e deitar cedo, começando a fazer à noite coisas que antes só se faziam de dia. Criou-se a indústria noturna com tertúlias nos cafés e restaurantes, espetáculos teatrais e musicais, e claro, surgiu toda uma classe de burgueses noctívagos que integrava Olavo Bilac.
Mas mesmo os candeeiros a gás tinham uma luminosidade relativamente fraca. Foi com a introdução da lâmpada elétrica na iluminação pública no início do século vinte, com luz muito mais forte e brilhante, que a noite deixou verdadeiramente de existir.


CONTRA A ELETRICIDADE

Certo amigo meu odeia e amaldiçoa a eletricidade: abomina-a, como assassina da poesia, como distribuidora de uma luz excessiva e escandalosa, que já não deixa gozar a melancolia das penumbras, em que medra tão bem a delicada flor do sonho.
Foi anteontem, sexta-feira, que ele se desmanchou, depois de um calmo jantar, em invetivas contra a luz elétrica.
Sexta-feira agoniada, em que muita gente, forçada a sair à noite, teve de ressuscitar o uso daquelas lanternas de que se serviam os cariocas de 1820, quando, caso raro, tinham de atravessar a cidade depois do toque de recolher.
Jantáramos juntos, quatro amigos, num amplo terraço deslumbradoramente iluminado por festões de lâmpadas elétricas. Tendo começado a jantar ao cair da noite, não sabíamos que a cidade lá fora estava ás escuras, amortalhada na treva espessa. Descemos, saímos : e doeu-nos nos olhos a escuridão, pondo-nos na alma um vago susto.
Seria uma revolução?

Raros lampiões estavam ainda acesos: um pequenino ponto luminoso, trémulo e vago, piscando, de espaço a espaço, nas ruas lúgubres, cheias do espantado vozeio da multidão invisível. O céu, coberto de nuvens negras, pesava sobre a cidade. Trevas em cima, trevas em baixo; e cada rua era um túnel, onde os passos dos transeuntes soavam funereamente.
Somente a Avenida Central, região encantada, onde impera a Fada Eletricidade, conservava o seu habitual esplendor: e a faiscação das suas altas lâmpadas, e a ornamentação fulgurante dos cinematógrafos, que a bordam de um lado e de outro, contrastavam impressionadoramente com o negror do resto da cidade.

Toda a multidão afluía para a grande via esplêndida. A multidão tem medo da treva... Os cafés transbordavam gente; e, à porta de cada cinematógrafo, uma longa cauda de povo se formava, assaltando a bilheteria. Toda aquela turba queria ficar fora de casa : a casa, sem gás, é um túmulo.
Nós quatro, conversando, comentávamos o caso.
Não era a mashorca [1], felizmente. Havia, apenas, uma parede dos operários da companhia do gás. Parede pacífica e platónica, que bem depressa acabaria, como as outras, continuando os pobres trabalhadores a contentar-se com promessas, e prestando o Estado o auxilio da sua força ao Capital, com essa solidariedade que une todos os tiranos numa inquebrantável aliança ofensiva e defensiva...

Dos quatro, que passeávamos, um era um velho carioca, já cinquentão, e tão amigo da sua cidade que nunca daqui saiu, — nem para ir a Mendes ou à Barra do Piraí.
E enquanto os outros, com entusiasmo, entoávamos um coro de louvores à fada eletricidade, ele caminhava, resmungando cousas incompreensíveis.
Louvávamos a grande fada, que suspendia sobre as nossas cabeças aqueles globos fulgurantes, e estendia ao longo dos prédios aqueles pendões de luminárias brancas, amarelas, verdes, vermelhas, formando letras e dísticos, aglomerando-se em estrelas e crescentes, dando á Avenida um aspeto de zona de milagre, dotada de uma vegetação fantástica de flores e frutos de fogo.

Mas, levados pelo acaso do passeio, enveredámos por uma das ruas transversais, e de novo a noite nos cobriu, nos rodeou, nos embrulhou no seu manto sinistro. E foi então que o nosso companheiro cinquentão falou, combatendo o nosso entusiasmo:
— A eletricidade! Se vocês soubessem que alívio é para mim um passeio como este, por uma rua trevosa! Já estou cansado de tanta luz... Ainda sou do tempo dos lampiões de azeite. A cidade era pobre, paupérrima. E, como pobre, e honesta, não tinha luxos. Todos jantavam, em casa, ás quatro da tarde. Depois, um pequeno passeio, uma partida de gamão e uma discussão política nas boticas, uma ou outra novena, uma ou outra visita, e, de longe em longe, um fogo de artifício. Jesus! Atualmente, o fogo de artifício é quotidiano e perpétuo! Esta orgia de luz embebeda-me, alucina-me, cega-me! Abençoada seja esta parede, que nos vem dar um pouco de repouso aos olhos e ás almas! Continuemos a passear por aqui, por estas calmas ruas que ainda os postes da Light não invadiram... Tenho a impressão de estar revivendo o tempo antigo. Antigamente, todo o Rio era assim....

Em vastas áreas já não é possível observar os céus
de forma natural, sem poluição luminosa noturna.
Brasil e Europa. Ver aqui.
Um de nós bocejou:
— Não sei que poesia se pode achar na treva. . . O cinquentão inflamou-se:
— Quer você saber qual é o grande crime da eletricidade no Rio? Matou a poesia do luar! Os nossos luares, neste céu incomparável, sempre foram famosos. No inverno carioca, uma noite de lua cheia, no céu escampo, em que desfalecem e morrem todas as estrelas ofuscadas, é uma maravilha sem par, cuja contemplação dá poesia e imaginação a todas as criaturas, — até aos muares das carroças do lixo e aos cachorros vagabundos. O luar do Rio! foi por causa dele que esta cidade teve tantos poetas, no tempo em que ainda havia poetas. Agora, h a . . . cronistas e burocratas, como este que aqui vai connosco, e que é adorador da eletricidade. Quem faz caso do luar, hoje? Nem o podemos ver ; nem levantamos os olhos para o céu; as avenidas e as lâmpadas elétricas cativam toda a nossa atenção; vivemos a olhar o asfalto ignóbil que calcamos aos pés. E ninguém mais vê o luar, quando ele cascateia em rios de prata pelo pendor das montanhas, e mergulha gládios rutilantes na face arrufada do mar, e chora chuveiros de pérolas entre os ramos das árvores. A Eletricidade matou o luar!

Tínhamos chegado ao velho largo do Paço [2]. O jardim, Osório [3], o chafariz histórico, tudo dormia, sob a capa das trevas. Mas, de repente, rasgou-se uma larga brecha na muralha das nuvens que forravam o céu; e um luar admirável, límpido, de uma brancura e de uma maciez de arminho, suavemente se espalhou sobre a dormente amplidão dos canteiros, dos relvados, das calçadas de cimento. Os oitis [4] animaram-se, bracejaram, vestidos de prata viva. Osório agitou-se sobre o cavalo de bronze, nessa existência fictícia que a fantasmagoria do luar dá sempre ás cousas inanimadas. O mar, ao longe, resplandeceu, retalhado por uma larga faixa fúlgida e tremente. Ficámos os quatro extáticos, suspensos, gozando o espetáculo magnífico. E o cinquentão exclamou, abrindo os braços, com um ar de beatitude na face:

— Abençoada seja a parede dos gasistas, que nos permite ver em toda a sua majestade divina, sem o contraste odioso e concorrência indigna da luz artificial, a tua luz incomparável, ó Diana formosa, caçadora de estrelas, mãe de todas os sonhos, consoladora dos tristes!
Todos nós dissemos:
— Amém!
Cerrou-se de novo o véu das nuvens. Dura tão pouco o que é belo!...
Retrocedemos, e enfiámos os passos pela rua da Assembleia, escuríssima; longe, irradiava o clarão da Avenida. E o nosso amigo, cerrando o punho, bradou, naquela mesma voz tonitruosa com que o padre Júlio Maria [5] amaldiçoa o pecado e os pecadores:
— Maldita sejas, fada perversa, inimiga do luar, Satânia abominável, filha de Belzebu!

Crónica publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 1905, incluída em Ironia e Piedade, ed. Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1916.

NOTAS da responsabilidade deste blogue:

[1] Desordem.
[2] Praça Quinze de Novembro.
[3] Estátua equestre do General Osório.
[4] Árvore também denominada goiti ou oitizeiro.
[5] Creio que se trata do Padre Júlio Maria, republicano, pregador inconformista, pseudónimo  de  Júlio César Morais Carneiro, nascido em Angra dos Reis, 1850-1916.